Dreamnot - Predadores e Presas
5 Patas de Porco
A taberna ficava em uma ruela pouco movimentada na Trash Street. Antes de ser este belo antro de bebedeira, já fora um pequeno posto médico na época da Peste Sombria, mas hoje não passava de um lugar onde homens podiam beber bebidas ruins por um preço justo.
Seu proprietário era um homem que não recusava dinheiro, mas sabia aonde estava sua lealdade. Isso o tornou um importante aliado daqueles que vivem à margem da sociedade. Lorath, como o chamavam, não falava muito, mas permitia a entrada de qualquer um, desde que tivesse dinheiro. Quando iam suborna-lo para que ele não falasse sobre os golpes tramados ali, ele simplesmente pegava os dobrões sem dizer uma palavra. Lorath era um velho que sabia o seu lugar.
Obviamente a milícia local tentava tirar um extra com ele, mas os bandidos acobertados pelo taberneiro retribuíam o favor fazendo com que nenhum homem da lei entrasse naquele lugar. Era uma via de mão dupla no final das contas.
Guilliam esperava na mesma mesa da noite anterior. Chegou ali assim que o sol se pós e quando a garçonete veio lhe atender ele recusou educadamente, dizendo que estava apenas esperando alguém. Estranhado o hábito de um cliente tão constante, a moça voltou ao balcão com a sensação desconfortável da fuga da rotina.
O homem gorducho não sorveria uma gota da bebida maliciosa esta noite. Ele focava sua atenção no que estava prestes a acontecer. Na verdade, ele não sabia o que ia acontecer, mas se alguém sabia quem ele era, algo estava errado. Seu nervosismo era tanto que ele nem fez sua petição de esmolas matinais, apenas se concentrando no momento que viria e deixando o álcool sair daquele corpo. Ele tinha que estar afiado, tão afiado quanto aquele corpo permitisse.
O tempo passou lentamente até a chegada do homem-corvo. Ao ver a figura preta, Guilliam levou o polegar na boca e começou a mordiscar o dedo. Não como sinal de nervosismo, como um mal habito mesmo. A figura misteriosa caminhou até mesa onde Guilliam esperava. Este, por sua vez, acompanhou cada movimento do visitante.
"Tem algo estranho" pensou enquanto observava a figura
Ele se sentou na mesa e fez sinal para que a garçonete vinhe-se. Com a voz distorcida pediu duas taças do vinho menos sujo que ela tivesse enquanto Guilliam retirava o dedo da boca e abaixava as mãos, como um criança que espera ser corrigida por um adulto. Só quando a menina saiu, o corvo deu atenção à Guilliam.
— Vou ser direto — disse a voz distorcida - nós sabemos quem você é. Sabemos quem você era. Sabemos como vocês trabalhavam. Sabemos de toda a história, a verdadeira história, não a espalhada pelo Estado. — Guilliam apenas ouvia atentamente. Aproveitava para analisar a fulgura e agora notava muitas coisas que não havia notado antes: cheiros, timbres e movimentos. Teria sido o álcool da noite anterior que enebriara seus sentidos? — Nós temos uma proposta irrecusável para você, E85 — ele se sobressaltou, desconfortável por ser chamado por aquela sigla — Ah, desculpe — disse o corvo, notando o desconforto do homem — É Guilliam agora, não é? — a moça voltara com o vinho e dois copos mais ou menos limpos. Guilliam se adiantou e pegou os copos, colocando ambos na mesa e virando o seu. A garçonete se sentiu-se menos estranha, já que aquele era o comportamento que ela conhecia e tomou seu rumo para outras mesas.
— Sim — disse ele depois de virar o copo de vinho — Guilliam é o nome mais confortável para mim
— Achei que seria Executor de Deuses — ele pode sentir o sarcasmo por trás da distorção vocal. Guilliam se mostrou abalado com aquele acoamento.
— Mas que proposta é essa, afinal? — perguntou
— Nós queremos vocês de volta a ativa — O gorducho deu uma risada curta e nervosa
— Impossível — Disse friamente Guiliam
— Não para nós — e o corvo começou a brincar com o copo — Torre Silenciosa, Aquário do monstro e Portão negro. Nós sabemos sobre cada uma, nós sabemos onde estão cada um deles, nós sabemos como tira-los — Guilliam expressava um pouco de medo e nervosismo, talvez beirasse o impressionado — E quando tirarmos eles de lá, vocês vão trabalhar para gente — o homem-corvo afastou sua mascara um pouco para poder beber e tal qual Guilliam, virou o vinho e depois pousou o copo na mesa — Depois vocês podem fazer o que quiserem, até irem em busca de vingança. — O Silencio se instaurou por alguns segundos, com ambos olhando fixamente um para o outro — pelos menos Guilliam achava. Tão pouco aquele momento seguia, o corvo começava a vacilar, oscilando o corpo de uma lado para o outro, levemente — O que?
— Você não sabe de tudo — disse Guilliam, mudando sua compostura completamente de alguém assutado para alguém confiante, como se mandasse na situação. — Se soubesse de tudo, não teria deixado eu fazer o que eu fiz e teria notado minha interpretação. — O corvo tentava focar em Guilliam, mas sua visão estava turva. — Você tem cinco minutos antes de morrer. Comece a falar e se eu gostar a sua resposta, você vive. — o corvo fechou os punhos e na costas de uma de suas mãos um simbolo tetou brilhar, mas tal qual algo defeituoso, apenas piscou e apagou — você não vai conseguir fazer nada. — Guilliam desafiou — a escolha é sua. Como deve estar difícil para você falar, retire a máscara e eu aceito isso como um sim — Parecendo hesitar por alguns segundos, finalmente o corvo cedeu e levou a mão até a máscara. Com dificuldade e tremedeiras ele a retirou e a baixou na mesa, revelando suas verdeiras feições, feições femininas. — Eu sabia
— Sabia o que? — agora, sem a distorção, a mulher com tom aborrecido, segurando para não apagar, respondia com o orgulho ferido e voz falhada
— Você não é a mesma pessoa da noite passada. Você tem um jeito de andar especifico e seu cheiro entrega ser mulher— ela arregalou os olhos indicando a surpresa — Agora, eu só não sei como sabem tudo o que sabem. Se é que sabem. — Quando a mulher bateu com a cabeça na mesa por não conseguir sustentar o próprio corpo, Guilliam ponderou se a deixara morrer ou não. Decidiu que descobriria o que pudesse primeiro.
No dedo que mordicava antes, havia feito uma pequena ferida com os dentes. Desta ferida um filete de sangue escorria. Guilliam aproximou a mão da mulher e, como não fazia a muito tempo, condensou a gotícula na ponta do dedão, manipulando o próprio sangue, moldando-o e enrijecendo-o até se tornar uma pequena agulha. Ele espetou o pescoço da mulher e aguardou. Passaram-se poucos minutos até que ela recobrasse todos os sentidos, e para garantir que não haveriam mais gracinhas, ele abaixou novamente as mãos, longe da vista dos outros visitantes da taberna. Manipulando seu sangue novamente, ele fez com que aquela pequena agulha se esticasse e alongasse até começar a estocar a barriga da mulher.
— Agora que você esta mais consciente, vai me escutar direito. Você vai me responder tudo que eu perguntar. Se mentir, você morre. Se reagir, você morre. Se fizer movimentos bruscos, você morre. Se me irritar, você morre. Se aprontar qualquer coisa...
— Já sei: Eu morro — ele erguia o corpo novamente. Perdera sua compostura completamente. Sentia aquele aguilhão avermelhado cutucar-lhe o abdômen, atravessando as grossas vestes negras e em contato com a pele. Já sentia a queimação provocada por aquela coisa. "Veneno", ela desconfiou. Aquele homenzinho realmente era diabólico, não atoa pertencia a Confraria Negra. Não atoa, era considerado um monstro.
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