Notas iniciais
Espero que goste!

A Torre Silenciosa erguia-se de forma monumental acima das nuvens. A fulgura branca e tranquila, por ser imponente em tamanho, muitas vezes era esquecida ser uma prisão e assimilada como ponto turístico. Se eles soubessem o que se passava ali dentro, provavelmente mudariam esta ideia rapidamente.

A estrutura fazia jus ao nome. Não se ouvia barulho ou ruído. Nem o caminhar das pessoas, nem o som das prosas. Diziam até que a respiração e o bater do coração dos funcionários da torre não faziam barulho. A meditação ali não era prática, era lei. Cada guarda, carcereiro, armeiro, cozinheiro e faxineiro era proibido de ser desequilibrado espiritualmente. Impedidos de ter quaisquer sentimentos negativos, quaisquer remorso ou culpa. Deviam ser almas plenas e livres de peso. Almas puras.

No topo da torre, onde não havia janelas ou frestas, Adam Black era aprisionado. Vestia uma camisa de força com diversos mantras escritos em todo o tecido. Seus pés eram acorrentados ao chão e varias correntes tracionavam seu corpo contra a parede. Estava ele detido em uma eterna posição sentada, admirando a escuridão de seus aposentos pedregosos.

Adam já fora mais belo, agora era apenas um espectro do passado. Seus cabelos negros estavam opacos pela sujeira e seus olhos há muito não viam luz, então ele não sabia se ainda funcionavam, mas torcia para ainda serem negros como óleo. Ele nunca fora muito alto nem muito atlético, mas agora as protuberâncias ósseas marcavam a pele. Aquele que já fora chamado de "Demônio Glutão" não passava agora de um esfomeado sem comida. Uma criança desnutrida.

Ele murmurava seus mantras e orações, tentando esquecer o estômago que o esmurrava por dentro. Não funcionava. Volta e meia ele tentava gritar para exteriorizar suas frustrações, mas som algum saia de sua garganta. E assim ele era mantido.

— Ah! Fechem essa maldita porta!— vociferou em tom jocoso quando a porta perfeitamente vedada foi aberta, deixando uma fraca tonalidade de luz entrar no aposento escuro. A luz era pouca, mas Adam já se desacostumara a ela, completamente. Pela entrada, dois indivíduos encapuzados e de rosto encoberto por panos, vestindo trajes ritualísticos vieram. Um trazia pão e o outro uma pequena jarra de água. — Já é hora da comida?— perguntou retoricamente — Sempre sinto falta do Desmond nessas horas— balbuciou em tom de saudade. Como sempre os homens ignoraram suas palavras.

Ambos se abaixaram para ficar à altura do prisioneiro. Ficaram de cocoras. Aquele que trazia o alimento separou um pedaço e esticou na direção de Adam. O jovem contido cheirou o pão como um animal e também como um, virou o rosto, mostrando desgosto pela comida oferecida. Sem pensar muito, o que trazia a bebida pousou o recipiente no chão e segurou a cabeça de Adam com força e brutalidade, abrindo sua boca forçadamente enquanto a outra pessoa enfiava garganta abaixo pão e água.

Meu deus!— disse Adam, entre tosses e engasgos - Não é assim que se trata um hóspede!— Ambos os encapuzados deram as costas e saíram sem cerimonia, garantindo que a porta fosse fechada — Como sempre, muito limpos e puros— disse desapontado — nem um pouco de impaciência ou raiva. Nada— Só pão e água não sustentavam Adam. Ele precisava de vinho, de carne, de tabaco. Ele precisava de um pouco de maldade — Se continuar assim, eu vou acabar morrendo de tristeza— murmurou com um tom humorístico sombrio. Sabia que ele sozinho não sairia dali, então, deixou-se ser abraçado pela escuridão da sala mais uma vez. Talvez a fome passasse uma hora ou outra.

Notas finais
Obrigado por ler! Comentem o que acharam, por favor.