Dramione - Side Effect

75 Visão de Draco Malfoy: Por que ele não fugiu?


Notas iniciais
Quanto tempo, pessoas... Sem muita enrolação, FINALMENTE, mais um capítulo para vocês. E... uma notícia melhor ainda. De agora até o fim da história haverá um capítulo por semana. Isso mesmo! Acabou o sofrimento. Está tudo pronto até o THE END. Agora é só ler e aproveitar. Bjos, bjos Titia ama vocês

Fechei os olhos e preparei-me para a dor mas, no lugar dela, senti apenas um imenso calor — que fez minhas narinas arderem e meu peito reclamar do esforço excessivo para respirar. Foi como se um pó muito fino escorregasse pela minha pele suada, grudando em mim, enchendo minha boca, cobrindo meus ouvidos, entrando em minhas roupas, obstruindo meus sentidos. Cada partícula do meu corpo ficou em alerta, tentando entender o que estava acontecendo.

— Draco, Ron!?

Em meio a sobrecarga de sentimentos e sensações, meu cérebro registrou a voz de Harry, o que me trouxe de volta a realidade. Tossi com força para desobstruir minha garganta, depois puxei uma grande quantidade de ar pela boca. E aquilo ajudou a clarear meus pensamentos. Tive que piscar várias vezes até conseguir ajustar minha visão. E me deparei com um Ronald Weasley que parecia ainda mais desorientado que eu; ensanguentado e coberto de areia, exibindo um grande corte na testa. Felizmente, Harry já estava ao seu lado.

— O que… — ele ofegou. — Eu…

— É só areia. — Harry explicou. — Está tudo bem, é só areia. Transformei os cacos em areia.

— Acho que te dev-

Um grito desesperado rasgou o ar, interrompendo minha frase e enviando um calafrio nefasto pela minha espinha. Quando percebi, estávamos em movimento de novo, atravessando as construções, passando a centímetros de telhados e paredes de pedra. Eu terminava a volta na Torre da Grifinória quando o avistei. E senti meu sangue congelar nas veias. Derick realizava um rasante sobre a procissão de feridos que caminhava do estádio destruído até — o que acreditavam ser — a proteção do castelo; atirando maldições pelo caminho. Ele fez a volta e mergulhou para outra rodada de assassinatos. No meio do caos e da correria, uma mulher, um pouco mais velha que Hermione e Gina, se abaixou, curvada sobre si mesma.

E outro calafrio, ainda mais intenso, percorreu meu corpo. Meu estômago se contraiu como se quisesse saltar pela boca. Ela não estava se protegendo, estava defendendo, usando o próprio corpo como escudo. Acelerei, desesperado. Gritei, de forma inútil. O caminho que eu precisava percorrer pareceu triplicar de distância, assim como minha agonia foi elevada a níveis indescritíveis. Senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e pescoço. Então, ela surgiu do nada e se colocou na frente da mulher encolhida. Não sei precisar se fiquei mais aliviado, orgulhoso ou preocupado. Mas a determinação de Gina não deixava brechas, nem mesmo para alguém como Derick. Ela rechaçou o ataque e devolveu com um feitiço a altura, o que nos deu tempo tempo suficiente para, finalmente, chegar até lá.

Com um mergulho — que Hermione descreveria como totalmente imprudente — Potter se juntou a noiva no chão, enquanto Ronald e eu pairávamos poucos centímetros acima deles. No mesmo instante, Derick desistiu da investida contra os feridos. E as manobras erráticas que ele executou para tentar despistar Weasley e eu, mostraram que estava ficando sem opções. Eu estava preparado para persegui-lo muito além dos limites de Hogwarts. Mas desistir e fugir não era uma das opções de Williams. Em uma última e arriscada tentativa, ele mudou bruscamente de direção e adentrou o castelo pela Torre de Astronomia. Fizemos o mesmo e, ao chegar a escada em espiral, descobrimos que seria mais rápido se abandonássemos as vassouras.

Eu desci os degraus de dois em dois, seguido de perto por Ronald Weasley. Quando chegamos à ante-sala, o silêncio machucou meus ouvidos. Não havia nenhuma pista sequer de para onde ele poderia ter ido.

— Pro inferno! — o ruivo resmungou. — Por que ele não fugiu? Por que não deu o fora quando teve a chance?

— Ele não se importa em morrer.

— Eu sei que não! — ele me olhou ofendido. — Mas por que isso agora? Quer dizer... Ele já fugiu antes. E teve várias chances de escapar hoje. Podia ter ido, ficado vivo pra aproveitar as glórias e a fama pelo que aprontou aqui… E tentar de novo.

— Está dizendo que ele deveria tentar ser o próximo Voldemort?

— Estou dizendo que é a maneira como eu esperava que ele agisse.

— Como você agiria se fosse ele, é o que quer dizer…

— Tenho que te lembrar que sou treinado para pensar como pessoas desse tipo? Faz parte do meu trabalho como Auror entender os porquês dessas atitudes. É uma das melhores estratégias para capturá-los.

— Tem dado muito certo mesmo… — desdenhei. A razão era clara como uma manhã de inverno. — Não está na cara?

— Ora, por favor-

— Hermione…

— O que?

— Hermione é a razão de ele ainda não ter fugido. Derick armou tudo isso, fez toda essa bagunça, pra chegar até ela. Sair daqui sem Hermione significa que ele falhou. E ele não se permite falhar.

As orelhas de Ronald ficaram vermelhas instantaneamente.

— Sabe que a culpa é toda sua, não é?

— Perfeitamente. — resmunguei. Se havia algo de que ele não precisava me lembrar, era da minha parcela em tudo que estava acontecendo.

— E, por acaso, faz ideia de onde ela está, sabe-tudo?

— O mais provável é que esteja na enfermaria. Luna estava justamente indo chamar Madame Pomfrey quando o estádio explodiu.

Ronaldo acelerou o passo.

— Ele não pode pegar a escadaria principal. Nunca passaria despercebido pelo hall lotado de aurores.

Pensei em retrucar, mas percebi que ele não estava pedindo minha opinião e sim conjeturando consigo mesmo.

— E existe alguma outra maneira de chegar até lá? — perguntei quando ele ficou tempo demais sem dizer nada.

— Não consigo me lembrar de nenhuma… Se pelo menos tivéssemos o Mapa do Maroto.

— Mapa de quem?

— Não importa. — ele gruniu.

— Não importa mesmo! — quase gritei. — Não precisamos de mapa nenhum. Derick não pode passar pelo hall, mas nós sim. — agarrei o suéter do ruivo e comecei a correr, puxando-o comigo. — Anda logo.

Ao atingirmos o última lance de escadas, Ronald segurou meu braço.

— Temos que ir mais devagar ou vamos chamar muita atenção. As pessoas lá embaixo não precisam saber que Derick ainda está aqui.

Concordei e respirei fundo quando senti que meus músculos começavam a ficar tensos diante das possibilidades do que iríamos encontrar. Descer os degraus foi como caminhar para um momento anterior no tempo, como ter um dèjavú. Havia pessoas deitadas em macas improvisadas no chão por todos os lados. Os gemidos e lamentos ecoavam pelas paredes de pedra e enchiam o ambiente. Os jogadores — em melhor estado, talvez porque estivessem no ar quando aconteceu — ajudavam a carregar as macas de uma lado para o outro, distribuíam água e cobertores.

Procurei rapidamente, mas não encontrei sinal de Luna, o que me inundou de dúvidas. Se ela ainda estivesse com Hermione, significava que a castanha estava em segurança. Mas se Derick as encontrasse antes de nós, Luna é quem ficaria com problemas. E Neville? Esquadrinhei o hall de novo. e não encontrei nenhum sinal dele. Em compensação, havia pessoas em um estado tão ruim ou até pior que o dele. Quem havíamos perdido? Quem eu havia ajudado a matar dessa vez?

— Draco! — a voz de Mase se destacou em meio ao burburinho.

Meu coração perdeu uma batida quando constatei que ele estava bem e inteiro. Mas o nó na minha garganta só se desfez completamente quando o garotinho terminou de cobrir o espaço entre nós e pulou nos meus braços. Apertei-o contra mim e fiz um agradecimento silencioso. Examinei-o rapidamente, só para ter certeza.

— Eu ‘tô bem! — ele me interrompeu. — ‘Tava aqui dentro do castelo quando aconteceu.

— Estava? — ofeguei e ele confirmou com a cabeça. — Estava com Hermione?

Os olhos de Mase se encheram de lágrimas e ele encarou os próprios pés.

— Mase… — respirei fundo, minhas mãos pousadas sobre os ombros dele tremiam. — Onde ela está?

— Na enfermaria. — ele apontou para a direção de onde viera. — Me obrigaram a sair. Eu não queria deixar ela sozinha, mas me arrastaram pra fora. — as lágrimas finalmente caíram. — Desculpa!

— Não é culpa sua. — olhei bem dentro dos olhos dele. — Não é culpa sua. Eu e Ronald vamos até lá saber o que está acontecendo… — ele abriu a boca para falar e eu sabia que ia pedir para ir conosco. — Mas precisamos que você fique aqui.

— Mas…

— Andrômeda, com certeza, está precisando de ajuda com as crianças menores. — pensei rápido. — Pode, por favor, procurar por ela? Por favor, Mase.

Ele fez biquinho, mas assentiu, e saiu correndo em direção ao Salão Principal. Enquanto caminhávamos, peguei Ronald me encarando.

— O que?

— O que aconteceu com René?

Engoli em seco.

— Eu não-

— Não minta pra mim. — ele suspirou. — Por favor! Posso não saber tanto de cura quanto você, mas entendo de feitiços. Fui eu quem criou o casulo de proteção. Sei que não consegui fazer… direito. Sei que não chegou até ela.

— Ela deve estar na enfermaria também. — assisti a mandíbula de Ronald tensionar. — Provavelmente, é pra onde estão levando os casos mais graves. E René queimou todo o lado esquerdo do corpo, especialmente o braço. — a respiração dele estava pesada. — Cuidei dela rapidamente quando a encontrei no caminho, mas precisava de mãos mais experientes.

— Quão ruim?

— Ela é forte, Weasley. Estava carregando uma das crianças menores-

— Quão ruim? — ele explodiu. E reparei que seus olhos estavam vermelhos.

— Eram queimaduras graves, atingiram o tecido muscular. — ele suspirou alto e me encarou, deixando claro que não estava entendendo nada. Minha garganta se apertou. — Mesmo com tratamento, ela vai ficar com cicatrizes. Pode até mesmo perder parte dos movimentos.

Ronald perdeu a cor.

— Mas eu posso estar errado. Não tive a chance de olhar direito. Foi tudo muito rápido.

— Não me trate como um idiota. — Weasley enxugou uma lágrima. — Obrigada pela sinceridade.

As portas da enfermaria estavam fechadas. O barulho havia ficado para trás. Segurei a maçaneta com o coração espancando o peito. Empurrei a porta e entrei para o corredor imaculado.

Havia biombos em volta de quase todas as camas, o que significava que estavam ocupadas. Imediatamente, comecei a imaginar quem estaria atrás de cada um deles. E as possibilidades faziam meu estômago revirar. Olhei para Ronald, que parecia estar pensando a mesma coisa que eu, e, quando ele assentiu, dei o passo mais macio e suave que consegui em direção à fileira da direita. O ruivo fez o mesmo para o lado contrário. Era possível escutar o bater de asas de um pomo de ouro. Assim como os solavancos do meu coração.

Espiei pela primeira cortina, e o suspiro de alívio que escapou dos meus lábios soou tão alto quanto um grito, no silêncio sepulcral da enfermaria. Neville dormia tranquilamente, tampado até o pescoço pelas cobertas, corado e aparentemente saudável. Busquei por Weasley mais uma vez antes de avançar. Ele estava parado ao lado do biombo que protegia o terceiro paciente à esquerda, rígido e vermelho. E pela expressão em seu rosto, eu tive certeza de que se tratava de René. Senti pena do ruivo. Aquele era um tipo de angústia que eu não desejaria nem mesmo para ele. Por isso, resolvi dar a Ronald Weasley um pouco de privacidade e continuei minha busca, sem olhar para trás.

Quando estava na quinta ou sexta cama, subitamente, minha respiração ficou presa na garganta. Meu coração perdeu não uma, mas várias batidas; tão descompassado era seu ritmo. Contornei o biombo sentindo minhas pernas vacilarem. Era como se, de alguma maneira, meu corpo e minha alma soubessem que ela estava por perto. E estava. Deitada como se fosse tirar um cochilo, sem qualquer sinal de ferimento, dormindo de forma tão serena e calma que fez meu coração doer.

E, de repente, nada mais importava. Porque tudo por ela valia a pena. E eu faria de novo quantas vezes fosse preciso.

Notas finais
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