Dramione - Side Effect
71 Visão de Draco Malfoy: Eu estraguei tudo... mais uma vez
Notas iniciais
O garotinho pulou para os braços do Weasley em um rompante e tive poucos segundos para agarrar a vassoura antes que ela desgovernasse. Mase mal conseguia respirar. Ele puxava o ar com força para tentar falar, mas engasgava em seguida, tamanho seu nervosismo.
— O que aconteceu? — Ronald colocou-o de pé, tentando soar calmo e tranquilizador.
Mase tentou responder e mais uma vez começou a tossir antes que as palavras pudessem sair de sua boca.
— Você está machucado? — perguntei, passando a mão por seus cabelos emaranhados e me abaixando para ficar da altura dele.
Ele negou com a cabeça.
— Ótimo. — Weasley se adiantou a mim. — Onde você estava?
Ele apontou para trás, para o horizonte. O que não foi de muita ajuda.
— Hermione estava com você? — tentei.
Senti todos os pelos do meu corpo se arrepiarem assim que Mase balançou a cabeça positivamente. Quando pronunciei o nome de Derick e a criança se encolheu, confirmando mais uma vez, meu coração parou de bater. Assisti Ronald Weasley engasgar, enquanto suas orelhas ficavam vermelho escarlate e os músculos de suas costas se retesavam, provando que eu tinha mais coisas em comum com ele do que jamais iria admitir.
— Tem dezenas de aurores aqui. — desdenhei, em uma péssima imitação da voz arrastada e enfadonha dele. Mais para extravasar minha frustração do que para provocá-lo.
— Ok, Malfoy. Eu estraguei tudo. Satisfeito? — ele gritou levantando os braços em sinal de rendição. — Esse é o enredo da minha vida. Eu estrago todas as coisas boas que, por milagre, acontecem comigo, afasto as pessoas, destruo meus relacionamentos. Não devia mesmo ter confiado em mim pra cuidar dela. — o tom de voz era mais brando, mas continuava carregado de amargura. — Fracassei nisso mais vezes do que posso me lembrar.
Mase nos encarava de baixo para cima, ainda muito assustado. Seus olhinhos brilhavam com as lágrimas que ele tentava não deixar cair. Dava para ver que ele estava fazendo um esforço enorme para se manter inteiro. Sem saber o que, ou como fazer aquilo, peguei-o no colo. Ele imediatamente passou os braços ao redor do meu pescoço e se agarrou a mim com toda a força, finalmente, permitindo-se ser o que era — uma criança com medo. Senti um enorme nó se formar na minha garganta.
— Pare de sentir pena de si mesmo, Weasley. — minha voz saiu um pouco engasgada, mais rouca que o normal.
— Eu estraguei tudo... mais uma vez. — ele resmungou.
— Por Merlin! O que está feito, está feito. Será que pode parar de resmungar e se concentrar em me ajudar?
Ronald me encarou com sua carranca desprovida de emoção, tentando decidir se havia escutado aquelas palavras de verdade ou apenas imaginado tudo. Voltei-me para a criança no meu colo, odiando a mim mesmo pelo que ia ter que fazer.
— Acha que pode nos mostrar onde você e Hermione estavam?
— Não pode levá-lo de volta pra lá! — Ronald protestou.
— Gosto da ideia tanto quando você. — admiti.
Vi a determinação faiscar por baixo do medo, tornando-se mais forte a cada respiração dele. Então, após algum tempo concentrado nas tramas do meu suéter, Mase me encarou decidido e balançou a cabeça de forma positiva.
— Quero… quero ir. — finalmente, falou.
Naquele momento, experimentei um novo tipo de sentimento. Nunca me dei muito bem com crianças. Sempre achei os alunos do primeiro ano demasiado barulhentos e irritantes. Mas assistir aquele pequeno ser nos meus braços lutar com todas as suas forças contra o temor, e moldá-lo em um tipo de coragem que poucas pessoas adultas possuíam, despertou em mim uma afeição que eu não sabia que tinha: a vontade de proteger e cuidar, de ser o porto seguro que ele tanto precisava, a pessoa a quem ele quereria recorrer a qualquer instante, diante de qualquer problema.
— Draco, Ron… — a voz de Luna quebrou minha conexão com Mase. — Vocês o encontraram.
Ela vinha até nós acompanhada de Neville. E pela maneira como estavam vermelhos e suados eu podia apostar que haviam corrido bastante.
— Na verdade, ele nos encontrou. — Ronald reconheceu.
— E Hermione?
O sorriso esperançoso de Lovegood murchou quando ela notou a expressão apática em meu rosto, dizendo tudo o que ela precisava, mas não queria, saber.
— Ah, meu Merlim! Não… não… não… De novo, não. Por favor! Eles não podem… — os olhos azuis ficaram banhados de lágrimas.
— Luna… — Neville passou o braço pelos ombros dela de maneira incerta.
Eu nunca vira Luna perder a calma antes na vida, por, absolutamente, nenhuma razão, nem mesmo quando os alunos zoavam com ela e escondiam suas coisas. Ela não levantava a voz, não ficava nervosa, não se desesperava. E, principalmente, ela não deixava os outros nervosos, pelo contrário, elas os mantinha focados. Luna Lovegood era tranquilidade. Mais que isso, era NOSSA fonte de tranquilidade. Alguma coisa estava muito errada.
— Por favor, Merlim… — ela repetiu contra o peito do namorado. — É demais até mesmo para ela.
— Luna. — segurei-a pelo braço, obrigando-a a olhar para mim com um pouco menos de cortesia do que o normal. — É a minha vez de perguntar. O que você não está me contando?
— Eu sinto muito, Draco. Eu tentei fazer ela contar. Mas ela ainda se sente muito culpada por tudo o que aconteceu com Harry e Gina. Disse que queria esperar, pelo menos, até depois do jogo.
— Ela finalmente percebeu…
Achei que conhecia o medo e o desespero. Mas absolutamente nada era comparável ao vazio doloroso que me invadiu naquele momento. A iminência da perda parecia querer me devorar por dentro. A única coisa me mantendo de pé, era o garotinho no meu colo.
— Você já sabia? — o lábio inferior da loirinha tremeu quando ela terminou de falar.
— Eu a conheço melhor que a mim mesmo. — suspirei, reconhecendo a verdade por trás daquelas palavras.
— Vocês dois podem, por favor, dividir a informação! — Ronald bufou.
— Sabem que essa conversa não faz o menor sentido pra nós, né? — Neville se juntou ao ruivo.
Troquei um rápido olhar com Luna, num pedido silencioso de ajuda. E suas íris refletiram a decisão contida nas minhas. Eles iam ficar sabendo de qualquer maneira. Seria melhor dizer logo de uma vez.
— Ela está grávida. — soltei.
— Quem? Luna?
Lovegood e Longbottom ficaram extremamente vermelhos e desconcertados.
— Não, Ronald. — às vezes eu podia jurar que Weasley se fazia de idiota, por querer, para se divertir. — Hermione! Hermione está grávida.
Ele sequer se importou com o fato de Mase estar no meu colo. E eu não fiz o menor esforço para me defender. Eu merecia aquele soco há muito tempo. Por várias razões. Conhecendo Hermione tão bem, sabia que o que ela mais odiava era a mentira. E eu vinha mentindo para ela desde a batalha na mansão: sobre o desaparecimento de Derick, sobre o perigo que ela corria enquanto ele não fosse preso, sobre trabalhar com o Weasley para encontrar o canalha, sobre o esquema de segurança para protegê-la durante o jogo.
— Ronald Weasley! — Luna apalpou desesperadamente a criança em meus braços, avaliando-a, procurando por algum hematoma. — Ficou maluco? Perdeu a noção?! — Mas o golpe do cabeça de fósforo tinha sido certeiro e apenas minha mandíbula tinha sido afetada.
— Não achou que seria interessante compartilhar esse pequeno detalhe? — Neville questionou.
O rosto e as orelhas de Ronald estavam da cor de seu cabelo. Ele abria e fechava as mãos ao lado do corpo de forma ritmada, tentando se acalmar. E eu podia jurar que a qualquer momento suas narinas dilatadas iam expelir fogo ao invés de ar.
— Eu não tinha certeza do que fazer, tá bom? Tudo que aconteceu com Gina e Harry ainda é muito recente. Além do mais, o que isso teria influenciado no cenário todo? Não é como se a gente fosse mudar o plano por causa disso…
— É claro que ia. Eu teria… — o ruivo gaguejou, em busca de uma resposta. — Teria amarrado ela ao pilar da arquibancada.
— Duvido que isso fosse segurar Hermione.
Luna quase sorriu, quase.
— Espera aí um segundo! Como assim plano? — suas duas grandes e interrogativas íris azuis passearam por todos os presentes, fazendo Neville murchar, e se fixaram em mim. — Estão dizendo que todos vocês sabiam que esse monstro ainda estava lá fora, só esperando o momento certo de vir atrás dela e ainda assim ajudaram a criar a oportunidade perfeita? E pior! Ninguém pensou em me contar?
— Você não sabe mentir, Luna. E o- — Neville engoliu o restante das palavras diante do olhar acusador da namorada.
— Vejo que, por outro lado, vocês estão se tornando especialistas nisso.
— Desculpa, Luna. Nenhum de nós fazia ideia de que Derick ainda era uma ameaça. Pelo menos, não até a própria Hermione começar a insistir em saber mais sobre ele, porque voltou pra Inglaterra, porque resolveu ajudar meu tio... — a loirinha revirou os olhos. — É sério, Luna. O sexto sentido dela nunca falha. E isso me deixou com a sensação de que alguma coisa estava errada, que havia mais sobre ele do que, simplesmente, um cara da Sonserina que, do dia pra noite, resolveu se tornar um capanga do mal.
— Então, o Malfoy me procurou. — Ronald completou.
— Weasley fez o trabalho dele e descobriu que pelo menos parte da história que o Derick contou era verdade. A família dele fugiu sim da Inglaterra quando o Voldemort retornou. Eles eram do alto círculo, sangues puros, tinham medo de serem recrutados.
— Mas não o bastardo. Aparentemente, ele sonhava em ser um Comensal da Morte. E, depois que o papaizinho morreu, voltou correndo para tentar realizar o sonho. Mas era tarde demais. — Weasley colocou todo o nojo e desgosto que podia em suas palavras. — Como bom maluco que é, Derick odeia nosso amigo Draco Malfoy, aqui, porque ele foi escolhido para a grande honra de matar Alvo Dumbledore.
— Mas a gente só soube disso tudo ontem, pela Parkinson e a Greengrass.
— Por isso você aceitou fazer parte da equipe delas na organização do jogo... Estavam trabalhando pro Derick. — Luna concluiu.
— Jura que não achou nem um pouco suspeito duas das mais frescas e esnobes sonserinas de Hogwarts se candidatarem para ajudar a organizar um evento beneficente? — Neville soou quase divertido.
— No começo eu estava apenas seguindo meus instintos. — revirei os olhos para a declaração do Weasley e ele mudou um pouco o tom. — Er… Quer dizer.. Já aconteceu antes. Ele ia acabar precisando que alguém daqui de dentro em algum momento. Como o Neville disse, foi uma atitude bem suspeita das duas. E, no fim, acabou que eu estava certo.
— Se me perguntassem, há dois anos, o que eu achava dele… — ri com desgosto. — Lembro de pensar “Como esse cara veio parar na Sonserina?”. Ele sempre foi… sei lá, muito tranquilo. Não zoava os outros estudantes como o restante de nós. Tirava boas notas. Só, não tinha amigos. Mas isso é mais que comum na casa de onde eu venho. Nossas relações são de conveniência, nada mais.
— Enfim… — Ronald interrompeu meu devaneio. — Acabamos concordando que cancelar o jogo seria o mesmo que contar ao Derick o que havíamos descoberto.
— Qual é? — Luna estava realmente irritada. — Vocês não aprenderam nada com a droga do Baile de Halloween?
— Não era pra ter sido assim. Harry, Neville, Krum, Olívio, minha irmã, o departamento de aurores, McGonagall… Tinha mais gente do que você imagina de olho nela.
— Exceto, é claro, EU. Mas porque incluir a pessoa que praticamente não sai do lado dela na droga do plano, né? — Luna estava completamente ultrajada. — Vocês usaram uma garota grávida como isca para pegar um criminoso assassino.
— Não é bem assim…
Engoli em seco, sentindo a culpa arranhar as minhas entranhas. Mesmo sem querer, foi exatamente nisso que acabamos transformando Hermione — uma isca. Weasley estava verde. Parecia que ia desmaiar, ou vomitar. Uma sensação que eu compartilhava.
— Se alguma coisa acontecer com ela ou com o bebê eu nunca vou perdoar vocês.
A loirinha tomou Mase dos meus braços e ele apontou mais uma vez para a direção de onde tinha vindo. Então, sem dizer mais nada, ela começou a caminhar a passos largos para lá.
— Luna… Espera. Ficou maluca? Precisamos de um plano.
— Eu TENHO um plano. — ela bufou. — Vocês idiotas podem não saber como foi que Derick entrou no castelo. Mas, no que depender de mim, pretendo garantir que ele não saia.
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