Dramione - Side Effect
72 Ele não se importa
Notas iniciais
— Não vai funcionar. — gaguejei. — Ele não vai cair nessa armadilha fajuta.
— Oh… Por favor. — ele desdenhou. — Tenho observado o interesse de Draco por você desde antes da guerra. Ele foi capaz de ignorar a origem, o sangue, trair até a própria família.
— Ele não traiu ninguém. Draco nunca quis ser um Comensal. Ele não teve escolha. E não existe essa idiotice de sangue puro e sangue sujo.
É claro que Derick ignorou o meu discurso. Falar com ele sobre sangue era como argumentar com uma parede de tijolos.
— E, ainda assim, o Lorde das Trevas o agraciou com a tarefa mais importante de todas. — ele sibilou.
O rosto dele estava muito próximo ao meu agora. E eu podia enxergar pequenos pontos pretos em suas íris verde esmeralda. A pupila estava começando a se dilatar por causa da adrenalina, transformando os olhos, antes gélidos, nas orbes ameaçadoras de um verdadeiro predador.
— Não foi uma honraria, foi um castigo! — praticamente cuspi. — Voldemort sabia que Draco não conseguiria completar a tarefa. — coloquei o máximo de desdém e nojo que consegui nas palavras.
— E, como esperado, ele falhou. — um sorriso de escárnio tomou o rosto perfeito de Derick. — Como não o faria? Sempre foi um fraco…
— É preciso muito mais coragem pra não tomar esse caminho.
— Poupe-me do seu discurso heróico e politicamente correto. — ele continuou a desdenhar. — Será que não entende? Somos de uma linhagem antiga, tradicional. Nosso sangue é inconspurcado, puro como poucos. Nossa servidão ao maior bruxo de todos os tempos é um legado incontestável, nascemos para isso.
— Alvo Dumbledore foi o maior bruxo de todos os tempos. — desafiei. — Qual teria sido a reação do seu chefinho ao descobrir que Dumbledore morreu exatamente da maneira como viveu? Como quis, quando achou mais apropriado e para estragar os planos de-
Meu pescoço estalou quando o tapa de Derick jogou minha cabeça com violência para o lado. A pele ardeu em brasa e eu pude sentir minha bochecha ficando roxa e inchando conforme o latejar aumentava. Os olhos dele estavam injetados, cheios de raiva. Eu havia cuspido na maior ferida do rapaz com olhos cor de esmeralda.
— Eu devia ter tido a honra de matar Dumbledore. — ele esbravejou. — EU. Não Draco Malfoy. E muito menos aquele traidor asqueroso do Snape.
— Severo Snape foi um dos bruxos mais corajosos que já existiram. — ergui o queixo o máximo que consegui, encarando-o. — E o homem mais fiel de Alvo Dumbledore.
— E acabou morto. Como quase todos os outros. — ele se deliciou com a reação que as palavras causaram em mim.
— Mas enganou Voldemort até o fim. — ri sem vontade e me esforcei para ser bastante sarcástica. — Eu estava lá, Derick! Voldemort só matou Snape porque acreditava que ele era o Senhor das Varinhas. Do contrário, poderíamos estar os três aqui, agora, conversando. Seu Lord foi feito de idiota por anos e nunca sequer desconfiou disso.
Ele colocou a mão sobre a minha boca, pressionando-a, apertando as maçãs do meu rosto e mandíbula com a ponta dos dedos. Estava transtornado pelo que acabara de ouvir.
— Cala a boca! — gritou.
— Você seria um Comensal da Morte muito ruim. — a primeira ofensa saiu meio abafada. Então, ele minimizou o apertão. — Mesmo que tivesse conseguido voltar para se juntar aos seguidores dele, duvido que Voldemort sequer notaria a sua existência.
Minha ousadia levou a outro tapa. Quando os dedos de Derick tocaram minha pele, a sensação foi de que ela tinha rasgado do queixo até a têmpora. Trinquei os dentes recusando-me a externar a dor. Eu não ia ceder, recusava-me. Já tinha experimentado doses muito piores de dor e coerção para me entregar sem lutar, justamente agora. Enquanto ele estivesse concentrado em meu rosto, eu ficaria bem.
— Como ousa? — eu tinha conseguido tirá-lo completamente do sério. — Meu pai tomou medidas para garantir que eu não voltasse. Demorou até eu descobrir o que me mantinha ligado com tanta força a eles…
O discurso de Derick começava a perder o sentido e eu tive que me esforçar para ignorar a queimação no meu rosto e prestar atenção.
— … achei que seria mais difícil. Mas assim que a maldição o atingiu, a ligação desapareceu e eu pude enfim deixar a propriedade.
Não consegui registrar todas as palavras, mas ligar as partes que entendi fez meu coração perder uma batida. Engoli em seco, tentando aplacar a sensação de vazio dolorosa dentro do meu peito.
— Matou seu próprio pai? — não consegui me segurar, sabia que era perigoso questioná-lo daquele jeito, mas foi mais forte que eu. — Matou seu próprio pai para poder voltar e se juntar a Voldemort?
— O velho e, como consequência, a mulher e o moleque. — ele juntou meus pulsos acima da minha cabeça, fazendo eu me encolher de dor. — Eles nem eram grande coisa. Não é minha culpa se o cabeça dura conectou a família toda com um feitiço para que não pudéssemos nos separar.
Um arrepio percorreu a minha espinha. E eu me senti gelada e sem esperança. O vazio no meu peito dificultava cada vez mais a minha respiração. Quando eu achava que já tinha encarado o mal em suas piores formas, a vida se encarregava de me mostrar que o ser humano sempre pode ser pior.
— Todos… todos eles…
— Para todos os efeitos minha mãe e meu irmão ainda estão vivos, morando em nossa casa de campo. Isolados do mundo em seu luto pela morte do meu pai. — Derick descrevia aquilo como quem comenta o tempo, sem a menor emoção ou remorso. — Fiz questão de garantir sua segurança com vários feitiços de proteção. Não se preocupe, ninguém vai encontrá-los. — ele inclinou a cabeça para o lado e examinou minha expressão. — Não faça essa cara de espanto.
— Você… isso é…
— Fico lisonjeado de conseguir te deixar sem palavras. — ele riu, deixando-me ainda mais acuada ao me encarar com intensidade, de uma forma penetrante e muito mais perigosa. — É quando fica mais bela. — Derick passeou com a ponta dos dedos pelo hematoma na lateral do meu rosto. — Ah, Hermione… Você sempre foi tão inteligente, tão audaciosa, tão boa, tão inocente, tão… pura.
O tom de voz dele fez cada mínimo pedaço de mim entrar em alerta. Meu coração batia com tanta força que minhas costelas já estavam começando a protestar. Tentei engolir, respirar normalmente. Mas o asco fazia minha garganta se contrair involuntariamente, mesmo que não houvesse nada no meu estômago para vomitar. Era como se meu corpo estivesse com nojo dele mesmo. Um punho de gelo gigante havia se fechado ao redor do meu estômago. Eu tinha a impressão de que a minha alma ia deixar o meu corpo a qualquer instante e eu seria abandonada para sempre na escuridão, onde não havia calor, segurança, amor.
As lágrimas encheram meus olhos. Sentia-me impotente como nunca na vida. Apenas uma coisa ainda mantinha minha determinação e esperança em sair daquele lugar — o pequeno ser dentro de mim. Eu precisava tentar alguma coisa, por ele. Ou ela. Derick correu a ponta dos dedos pela lateral do meu corpo e eu experimentei o calafrio, mais intenso e desesperador de toda a minha existência, descer pela minha espinha. Comecei a tremer de forma descontrolada.
— De… De… Derick. — forcei minha voz a sair. — Por favor… Não… Não… Não fa… Por favor.
Descobri que preferia ser torturada por Bellatrix Lestrange indefinidamente que ter de aguentar mais um minuto sequer com ele. Todo o sadismo e maldade dela não chegavam aos pés da loucura de Derick. Eu achava que havia provado uma dose generosa de desespero e terror nas mãos da tia de Draco, mas Derick estava me provando que esses sentimentos podiam, sim, dobrar de proporção sem levar à morte imediata.
— Shhh… Não se preocupe. — ele sussurrou. — Serei um perfeito cavalheiro.
Deixei escapar um soluço engasgado, quando Derick colocou a mão por baixo da minha roupa para acariciar a pele da minha barriga. E as lágrimas rolaram livremente pelo meu rosto. Então, o vestiário todo tremeu. Ele levou alguns segundos para registrar o fato. Mas quando o fez, seu semblante se transformou. A fúria transpareceu nos olhos verdes e se derramou para o restante do tronco. Os músculos se retesaram e ele assumiu uma postura rígida e atenta.
Mais um tremor balançou as paredes e Derick bufou de raiva. Aproveitei para tentar me libertar. Reunindo toda a concentração que podia, consegui tirar o corpo alguns centímetros do chão. Mas ele me empurrou de volta com força. E minhas costas protestaram ao bater contra o piso duro.
— Pare de me fazer te mach-
Dessa vez, os móveis também balançaram. Queria ter podido levantar os braços para me proteger quando o cabideiro e o armário de vassouras do outro lado do cômodo explodiram espalhando lascas e pedaços de madeira por todos os lados. A ducha do cubículo em que encontrei Mase também explodiu, fazendo chover no vestiário. E as portas das cabines foram arrancadas das paredes numa confusão de tijolos, poeira e mais madeira. Derick encarou a mobília destruída com a mandíbula trincada, a água barrenta escorria por seus cabelos fazendo-os grudar na testa. A próxima coisa que eu registrei foi a ponta da varinha dele contra a minha jugular.
— De pé… Agora! — ordenou.
Tentei obedecer. Mas meus músculos não quiseram colaborar. Então, ele agarrou a gola do meu suéter e me içou até o peito.
— Vamos dar ao Draquinho o que ele quer. — desdenhou, antes de murmurar. — Finite Incantatem...
O feitiço não ia segurar quem quer que estivesse lá fora por muito mais tempo. Aquilo era justamente para dar a Derick a vantagem. Ele queria garantir que saberia quando e por onde Draco iria entrar. Por isso, reuni toda a força de vontade que pude, a fim de gritar para avisá-lo. Mas as palavras não chegaram a deixar minha boca, pois quem irrompeu pela porta quando o encantamento se dissipou foi Ron.
— O quê… — Derick soou realmente surpreso. Mais surpreso até que eu.
— Por que o espanto, Williams? Sabia que o Departamento de Aurores estava te procurando. — Ron provocou. — A não ser… Estava esperando outra pessoa? Atrapalhei seus planos? Sinto muito.
Eu sabia, pela vermelhidão nas orelhas dele que aquilo era uma encenação.
— Teria ficado, sim, mais satisfeito em ver outro rosto. Mas desse jeito também serve. — Derick soava calmo e controlado como sempre. — Vou acabar com você e depois terminar meu assunto com a nossa amiga. Assim, posso colocar mais uma morte na consciência dele.
— Está perdendo seu tempo. Ele não se importa.
Tentei fazer contato visual com Ron, mas ele parecia estar evitando olhar para mim. Estava concentrado em algum ponto logo ao nosso lado.
— Acha mesmo que eu sou idiota, não é, Weasley?
— Acredite. Ele aprendeu a lição com o sequestro da minha irmã. Não vai aparecer. Está mais preocupado em entreter as pessoas que estão assistindo ao jogo lá fora.
Derick deu uma gargalhada que fez até o meu corpo, comprimido contra o dele, reverberar.
— Essa é a pior desculpa que eu já ouvi em toda a minha vida.
— Sou obrigado a concordar com você.
Não tive tempo para raciocinar sobre a forma como meu coração respondeu, totalmente enlouquecido, fazendo calor se espalhar pelo meu corpo; ou como cada pequeno pelo que eu possuía se arrepiou; ou como minha respiração falhou miseravelmente, quando aquela voz chegou aos meus ouvidos. Como se um laço invisível tivesse envolvido a minha cintura, fui puxada de encontro a alguém. Olhei para cima e encontrei o rosto corado de Neville sorrindo para mim. Logo, outro par de braços me cercou e um mar de cabelos loiros me cobriu — Luna.
— Vamos… Vamos tirar você daqui. — ela sussurrou.
Por um segundo, me permiti relaxar. Ao lado dela eu me sentia aquecida, segura e confortável. Era como estar enrolada em um cobertor, deitada numa cama macia e aconchegante. Até que uma maldição atingiu o portal, bem ao lado das nossas cabeças.
— Draco, Ron, Neville… — balbuciei, voltando à realidade.
Estávamos do lado de fora mas eu podia ouvir o som abafado e apavorante de coisas estilhaçando.
— Hermione, precisamos ir.
— Não. De jeito nenhum. Precisamos ajudar. — insisti.
Uma agitação incomum parecia querer tomar conta de mim. E Luna me segurou com toda a força que possuía, enquanto meu corpo se preparava para a batalha instintiva e instantaneamente. A sensação de segurança trazida por ela ficou de lado e a calma se transformou em atenção. Era como ter energia correndo nas veias, fazendo o sangue pulsar mais forte.
— Acredite em mim, você só vai atrapalhar. Vai acabar tirando a concentração deles.
— Qual é, Luna? Já lutamos juntos outras vezes. — minha voz beirava a histeria. E eu sabia que o nervosismo extremo se apossaria de mim logo, logo. Minhas emoções vinham se comportando como se estivessem andando de montanha russa nas últimas semanas. — Somos até mais fort-
— Em nenhuma das outras vezes você estava grávida. — ela interrompeu, usando sua voz mais firme e categórica.
Engoli em seco, sabia o que ela diria a seguir. Derick tinha feito questão de me contar. E aquelas palavras, ao contrário do que ela imaginava, em lugar de me convencer, só me deixariam ainda mais desesperada para voltar.
— Luna… — levei a mão até a barriga, mas ela não notou de imediato.
— O Draco sabe de tudo. Soube antes mesmo de você. Essa é a intensidade com que ele te ama, Hermione! Por isso, por Merlim, não o faça enfrentar mais uma perda. Ele já carrega culpa demais. Sabe que isso destruiria, não só ele, mas você também. Na verdade, destruiria todos nós. Lil-
— Luna...
Tive me fazer um esforço sobrenatural para conseguir colocar o nome dela para fora. E fiquei exaurida. Dobrei-me sobre mim mesma, tentando aplacar a dor. E não vi mais nada.
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