Dramione - Side Effect
64 Silêncio perigoso
Notas iniciais
— A Pansy tentou atingir você com um feitiço. — Luna explicou pela milésima vez. — Draco só te tirou da frente.
Ela estava argumentando contra o meu recém adquirido mal humor matinal, naquele momento, totalmente direcionado a Draco. A imagem de Astória enroscada no pescoço dele parecia ter sido gravada a ferro e fogo na minha mente. Eu havia sonhado, repetidamente, com a cena, a noite toda. E por mais que eu soubesse que meu noivo não tinha culpa nenhuma no que aconteceu, não conseguia não sentir uma ponta de raiva dele também.
— Você sabe que está sendo irracional, né?! — emendou Gina. — Nunca pensei que diria isso na vida, mas o Draco não tem culpa. Não dessa vez.
— Eu sei… ‘Tá bom?!
— Mas não consegue evitar ficar chateada com ele. — a loirinha constatou. — Porque sabe que pode. Porque é seguro e mais fácil ter raiva de quem a gente sabe que não vai nos abandonar, de quem a gente tem certeza que nos ama.
— Ah… mas eu também ‘tô com bastante raiva da Parkinson e da Astória. Pode acreditar.
— Todas nós estamos.
— Tenho certeza que sim. — coloquei fim no assunto. — E por que você não está lá no campo treinando com os meninos pra descontar toda essa raiva, hein, Ginevra Weasley?
— É só um treino de reconhecimento. — ela fez uma careta e deu de ombros. — Pro Krum e os outros conhecerem o campo.
O pequeno teatro de Gina não me convenceu.
— Sério mesmo, Gina?
A ruiva simplesmente me ignorou.
— Eles tiraram na sorte e ela perdeu. — Luna disse, um tantinho irritada.
Olhei para Gina que, de repente, parecia muito interessada nos botões do uniforme de quadribol que tinha nas mãos. Estávamos separando o material para organizar nos vestiários e decorar as arquibancadas. Deixei as caneleiras de lado e fui até ela. Mas a ruiva continuou encarando o tecido. Não disse nada, apenas cruzei os braços na frente do corpo e esperei.
— Eles não queriam deixar você sozinha, tá legal? — ela suspirou jogando a camiseta preta de lado.
— E, aparentemente, eu não sou ninguém! — a voz de Luna tinha mais que uma pitada de irritação agora.
— Você sabe que não é assim! — Gina lançou um olhar de aviso para a amiga. — Eles só acharam mais seguro… Quer dizer, vocês não acham nada estranho a Minerva não ter ficado sabendo sobre ontem a noite?
— Se eu tivesse levado uma surra na frente de meia Hogwarts, também estaria com vergonha de mostrar a cara. — comentei.
Gina sorriu de leve.
— De qualquer maneira, é melhor assim. — decretou. — Além do mais, não ‘tô perdendo nada.
— Claro… Por que você iria querer treinar com Viktor Krum, Olívio Wood e alguns dos maiores astros do Quadribol do Reino Unido? — desdenhei.
Ela deu de ombros e não disse mais nada. Pegou o uniforme que havia jogado para o lado e começou a dobrar, mais concentrada na tarefa que o realmente necessário. Havia alguma coisa que elas não estavam me contando.
Algumas horas antes, eu havia descido para o café preparada para encarar a fúria de Minerva McGonagall e aceitar qualquer que fosse o castigo escolhido para mim. Mas, assim que entramos no salão, a diretora — sentada ao lado de Krum — nos ofereceu um sorriso ao mesmo tempo bondoso e orgulhoso, seguido de um pequeno aceno. Ficou claro que ela não fazia ideia da nossa briga com as sonserinas, muito menos das consequências dela. Simas, por outro lado, não estava em lugar algum. E eu acabei sem saber o que tinha acontecido na enfermaria.
Olhei de relance para os lados, preocupada que uma das duas pudesse ter ouvido o estalo quando a ideia tomou forma na minha cabeça. Mas elas estavam concentradas em suas tarefas. Então, peguei minhas luvas sobre a mesa e enfiei no bolso do casaco.
— Droga… — disse enquanto fechava a caixa na minha frente, para que elas vissem minhas mãos desprotegidas. — Esqueci minhas luvas no dormitório. Vou até a Torre buscar enquanto vocês terminam tudo por aqui.
— Ué, mas durante o café eu me lembro que você ‘tava… — Luna começou. Ela escaneou o tampo da mesa, antes de olhar para minhas mãos. — Deixa pra lá.
— Não vou demorar, prometo!
— A gente te espera. — Gina decretou sem nem tirar os olhos do que estava fazendo.
Assim que a porta se fechou atrás de mim, comecei a correr. Nevava do lado de fora e o mais provável é que Simas estivesse na sala comunal da Grifinória. Por causa do frio, quase não havia alunos nos corredores também. E, enquanto eu subia as escadarias, pensei que talvez a ideia de um jogo de Quadribol beneficente no auge do inverno não tivesse sido uma das minhas sacadas mais espertas. As doações, por outro lado, não paravam de chegar, provando que a sugestão de Draco de trocar ingressos por roupas e brinquedos foi acertada. Mas, ainda assim, eu só acreditaria que todas aquelas pessoas deixariam o conforto de suas lareiras para assistir um jogo debaixo de uma nevasca quando as visse nas arquibancadas.
O retrato da Mulher Gorda se moveu antes que eu dissesse a senha e, para minha sorte, Simas surgiu atrás dele. O rapaz me ofereceu um sorriso amarelo como cumprimento.
— Ah, Simas. Eu ‘tava mesmo procurando você! Queria me desculpar por ontem. Eu sinto muito mesmo…
— Hermione. — ele me interrompeu. — Deixa pra lá. Eu sei como aquelas duas podem ser irritantes. Todo mundo perde a cabeça de vez em quando.
Tenho certeza que corei de vergonha. Aquilo na festa tinha sido bem mais que perder a cabeça.
— Por que não contou pra McGonagall? Você tinha todo o direito.
— Aquilo era uma festa clandestina, Mione. — fiquei ainda mais envergonhada por não ter me lembrado desse pequeno detalhe. — Pra contar o que aconteceu eu ia ter que contar onde vocês estavam e o que estavam fazendo. Ia acabar sobrando pra mim também. E pra todo mundo que apareceu na Sala Precisa…
— Entendi. — disse, poupando-o de ter que se explicar mais. Eu sabia o que as festas significavam para ele.
— Enfim. Foi bom ter te encontrado. — arqueei as sobrancelhas quando ele tirou uma caixinha preta do bolso. — Isso chegou pra você pouco depois que saíram do salão principal, mais cedo no café.
Peguei a caixinha sentindo meu coração bater forte e apressado contra as costelas. E apertei o embrulho contra o peito por um segundo. Eu não via Draco desde que ele tinha me deixado na entrada do Salão Comunal da Grifinória depois de consertar meus dedos quebrados. Mas aquilo era a cara dele: sentir-se culpado por eu ter me machucado, pela confusão que EU causei. Aquela caixinha só podia ter vindo dele. Ri comigo mesma imaginando qual seria o presente da vez: um bracelete, um par de brincos, um broche…
Quando levantei os olhos para agradecer Simas, ele não estava mais lá. Só então me dei conta de que não havia perguntado o que vim perguntar. Que desculpa ele havia inventado para Minerva e Madame Pomfrey sobre os ferimentos de Astória? E como ele demoveu a garota de me delatar para a diretora? Afinal, eu sabia que Draco estava coberto de razão — Pansy e Greengrass não deixariam aquilo passar. Em se tratando das sonserinas, o silêncio era ainda mais perigoso que qualquer estardalhaço.
O peso da caixinha parecia aumentar, junto com a minha curiosidade, a cada passo que eu dava. Mas esperei até estar segura, dentro da sala com Luna e Gina, de novo, para abri-la. Fechei a porta com mais força do que o planejado e as duas me encararam, assustadas. Imediatamente, elas colocaram de lado o que estavam fazendo. Os olhos de Gina brilharam de expectativa quando ela percebeu o pacote nas minhas mãos.
— Harry está precisando pegar umas aulinhas com o Draco.
— Que maldade! — devolvi. — Você brigaria com ele todos os dias só pra receber presentes. Além do mais, Draco só faz isso porque sabe o quanto fico sem graça.
— Mas bem que você gosta. — Luna brincou. — O que ele colocou no cartão?
— Não… — atentei-me para o fato pela primeira vez. — Não tem cartão.
— Como se você precisasse de um cartão pra saber quem mandou. Abre logo, Hermione! — Gina exigiu.
Forcei o fecho e ele cedeu com um click, revelando a jóia, que brilhava em contraste com o veludo negro, depositada no interior da caixinha.
— Mas esse não é…
Luna desviou os olhos da jóia para mim, confusa e preocupada. Tentei forçar o ar a entrar nos meus pulmões, mas só consegui emitir um chiado engasgado. E Gina teve que segurar o embrulho quando minhas mãos começaram a tremer.
— Hermione? — ela chamou preocupada.
— Eu achei que tinha perdido... em uma das batalhas. Achei que…
Dentro da caixinha, depositado sobre o veludo, sem o mínimo sinal de desgaste, sem uma partícula de poeira, ou um mísero arranhão; estava o primeiro presente que Draco me deu. O pingente em forma de pena com uma pedra na base. Senti meu estômago revirar. Eu vinha mentindo para ele todo esse tempo sobre ter perdido o colar e foi o próprio Draco quem acabou encontrando.
— Ele deve ter achado durante a reforma da Mansão. Assim como foi com a Capa do Harry.
— É… mas eu nunca contei pra ele que tinha perdido.
— E qual o problema?
Não respondi. Então, Luna o fez por mim.
— Ela sente como se tivesse mentido pro Draco.
Concordei de leve com a cabeça. Meus olhos começaram a arder e se encher de lágrimas.
— Ah! Por Merlim, Hermione! Acha mesmo que ele liga pra isso?
— Se não liga... por que não me contou que tinha encontrado? Por que não me entregou pessoalmente?
— Quem garante que ele não encontrou o colar só agora. Quer dizer… Por que ele ia guardar? Além do mais, não sei se se lembra, mas a noite ontem foi um pouquinho mais agitada do que a gente esperava. Não acho que ele tenha tido muita chance para te entregar isso.
Não disse em voz alta, ou teria que acabar contando sobre o aconteceu antes da festa, em uma das salas vazias do castelo. Mas da forma como eu via as coisas, Draco teve várias chances para me devolver o pingente. Até mesmo de perguntar por que eu não contei que o havia perdido. Devemos ter ficado sozinhos por mais de uma hora.
Corei com as recordações e Luna deixou escapar um risinho. Foi quando percebi que estava sendo observada pelas duas enquanto me perdia nas lembranças e senti minhas bochechas esquentarem até arder.
— Ele não falou comigo o dia todo! – choraminguei, tentando disfarçar.
Gina colocou a mão no meu ombro de forma carinhosa e enxugou uma lágrima fujona. Depois, trocou um olhar divertido com Luna. E tenho quase certeza que eu era o motivo da graça.
— Ele provavelmente se atrasou e foi direto pro treino. — ela revirou os olhos quando meneei a cabeça de forma negativa. — O que significa que vamos encontrar com ele em alguns instantes e você vai ver como tudo não passa de um mal entendido.
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