Dramione - Side Effect
65 Ronald? Quem é Ronald?
Notas iniciais
A neve finalmente havia parado de cair. Mas o chão estava coberto por uma camada branca de pelo menos 30 centímetros. A caminhada até o campo de Quadribol durou o dobro do tempo, mesmo com as caixas flutuando à nossa frente. A área do estádio, contudo, estava quente e confortável, graças aos feitiços contra o vento e a neve. E os jogadores já estavam suados pelo esforço do treino. Escaneei o céu a procura de um em específico.
— Hey, vocês… Que tal um intervalo? — Gina gritou.
Havíamos passado pela cozinha e, além das caixas com uniformes e itens de decoração, trazíamos conosco água, suco de abóboras, e frutas.
Harry foi o primeiro a pousar. Ele tentou passar a mão pela cintura da noiva e puxá-la para si, mas a ruiva se esquivou fazendo uma careta de nojo.
— Eca, Harry. Você ‘tá suado! — reclamou entregando-lhe um copo d’água.
— Eu estava precisando mesmo disso. — Olívio agradeceu quando o servi um copo enorme de suco. — Então, como vão as coisas por aqui?
— Acho que melhor do que o esperado… você sabe, diante de tudo. — respondi encarando a jarra nas minhas mãos. As festas na Sala Precisa eram a maior e melhor chama de esperança que os alunos vislumbravam em muito tempo. O problema é que, depois do que eu aprontei, não tinha certeza se elas continuariam acontecendo. — E você?
— Bem. Mas eu tenho o Quadribol, então… — Olívio olhou de esguelha para Gina ao dizer isso e uma pequena ruga surgiu na testa dele quando percebeu que eu havia seguido o olhar. — Harry disse que é nisso que ela está se apoiando... no jogo. Não conte pra ninguém, mas tomei a liberdade de convidar alguns olheiros dos times femininos da Liga pra vir amanhã. — sussurrou.
Tive que respirar fundo para não começar a chorar, tamanha a alegria e gratidão que senti por Olívio naquele momento. Mesmo que não admitisse isso para ninguém, eu sabia que Gina adoraria ter a chance de jogar profissionalmente. Merlim! Eu queria abraçá-lo o mais forte que pudesse em agradecimento. Mas ele estava todo suado e grudento, então tive que me contentar em sorrir.
— Muito, muito obrigada. — murmurei de volta entusiasmada. — Muito obrigada mesmo, Olívio.
— Posso ter um desses também? — Krum nos interrompeu, apontando para o copo nas mãos de Olívio.
— É claro. — respondi de forma seca.
O semblante dele estava ainda mais fechado que o normal. Minha grosseria devia tê-lo magoado. Mas naquele momento, eu realmente não me importava com os sentimentos do búlgaro. Ele estava com Pansy e Astória. Assistiu de camarote ao showzinho das duas e não fez nada. Na verdade, ajudou a socorrê-las. Viktor Krum merecia um pouquinho da minha raiva também. E sabia disso.
— Eu sinto muito por ontem à noite. — disse em seu sotaque carregado. — Não sabia que elas iam fazer aquilo.
— Tudo bem. — menti. — Na verdade, acho que eu é quem devo um pedido de desculpas. Nossas festas geralmente são mais civilizadas.
— Festa? Eu sabia que devia ter vindo ontem. — Olívio brincou.
— Tudo bem. — Viktor ecoou o que eu havia dito, ignorando Olívio. — A verdade é que nem era para eu estar naquela festa. Era uma coisa de vocês, alunos de Hogwarts. Mas alguns imprevistos me seguraram na Bulgária e eu cheguei muito depois da hora marcada.
Por alguma razão, aquelas informações cutucaram meu cérebro. Havia algo que não fazia sentido naquilo tudo. Não que eu duvidasse do que ele estava dizendo, longe disso. Sabia que Viktor não tinha razões para mentir. Mas o que ele estava me contando não condizia com alguma coisa. Eu só não conseguia me lembrar o quê.
— Como assim? — eu precisava conseguir alcançar aquela linha de raciocínio.
— Cheguei realmente atrasado ontem à noite. Harry e Gina foram muito educados em me esperar por tanto tempo e até tão tarde. Acabei aceitando o convite pra festa como forma de agradecer.
— Harry e Gina? — repeti de forma estúpida, observando meus amigos conversarem com outros jogadores e alunos ao longe. Eu sabia que estava cada vez mais próxima da lembrança. Então, deixei a intuição me levar. — Desculpe, Viktor. Mas a que horas você chegou ontem à noite?
— Não sei, exatamente. Talvez depois das onze. Mas foi pouquíssimo tempo antes de irmos pra festa. Nem cheguei a deixar minhas coisas no dormitório.
— Então, não viu Ronald?
— Ronald? Quem é Ronald? — ele pareceu fazer força para se lembrar.
— Irmão da Gina. Ruivo, alto, olhos azuis. Fã incondicional de Quadribol e, óbvio, seu também. Não sei como ele não estava te esperando. — Olívio respondeu.
— A senhorita Weasley tem muitos irmãos. Eles são todos ruivos e muito parecidos, então não me julgue por ainda os confundir. — o sotaque de Krum fazia tudo o que ele dizia parecer sério. Mas o pequeno sorriso no final da frase mostrou que ele estava brincando. — Mas eu sei de quem estão falando. É o cara que esqueceu de te convidar pro Baile de Inverno e ainda assim você aceitou namorar… — o bom humor sumiu tão rápido e fugaz quanto surgiu. — Tenho certeza de que não vi. Deveria ter visto?
— Oh… Não. Acho que não. — Krum olhou de mim para Olívio, mas o goleiro apenas deu de ombros.
Escaneei mais uma vez o espaço ao meu redor. Todos os jogadores já haviam pousado e conversavam em pequenos grupos ao longo do campo. Mas Draco não estava entre eles. Uma espécie de vazio surgiu na boca do meu estômago, ao mesmo tempo em que alcancei a memória que precisava. Se Krum chegou pouco antes de nos encontrarmos na festa, Ronald havia mentido sobre estar fora da cama depois do horário para recebê-lo. Isso! Era isso o que estava me incomodando na história toda. Não que houvesse alguma novidade em Ronald ter mentido. O problema é que ele estava com Draco quando o encontrei. E aquilo significava que, aparentemente, o sonserino havia compactuado com a mentira.
— Desculpem rapazes, mas vou ter que roubar Hermione agora… — Gina disse ao me segurar pelo braço, interrompendo minha linha de raciocínio. — Temos muita coisa para organizar.
Apenas sorri para Wood e Krum e me deixei ser arrastada pela ruiva até um dos vestiários, enquanto repassava os acontecimentos a procura de algo — uma frase, uma briga, uma troca de olhares — que colocasse sentido no que eu havia acabado de descobrir. Desde quando Draco e Ronald tinham segredos em comum? Quer dizer, por que Draco acobertaria qualquer coisa que Ron pudesse ter feito?
— Achei que Draco estava treinando com todo mundo. — falei assim que Gina me soltou. A garota Weasley simplesmente deu de ombros e começou a caminhar em direção às caixas espalhadas pelo aposento. — Gina! — foi a minha vez de pegá-la pelo braço.
— Eu não faço ideia de onde ele está, Hermione.
— O que ele tinha para fazer hoje?
— Treinar, assim como todo mundo que vai jogar amanhã. As únicas da comissão com tarefas para hoje somos nós.
— Então, por que ele não está aqui, como todo mundo? — uma pontinha de histeria começava a aparecer na minha voz.
De repente, fiquei desesperada com a possibilidade de Draco estar me evitando. Eu sabia que deveria ter contado sobre o sumiço do pingente assim que dei falta dele. Mas aquele foi o primeiro presente que ele me deu e eu não queria magoá-lo admitindo que havia perdido a jóia. Sabia o quanto o colar significava para Draco, porque significava muito para mim também. Era uma representação da nossa descoberta mútua, uma lembrança de como ele me apoiou no que deveria ter sido o momento mais confuso e amedrontador da minha vida — mesmo que eu nunca tenha ficado grávida como ele, então, acreditava.
Eu ainda conseguia ver e sentir a dor no rosto de Draco. A imagem da lágrima solitária escorrendo pela pele branca ficaria gravada para sempre na minha memória. Assim como as palavras que vieram depois: “Não importa. Eu serei o pai dessa criança”. Naquele momento, eu finalmente parei de lutar contra mim mesma. Foi naquele instante que eu percebi o quanto ele estava diferente, que tive certeza do homem que ele havia se tornado. Ali, escondida com Draco entre a escada e a escultura de um bruxo do século 15, eu descobri a excitação e a angústia que fariam da minha vida um constante desespero bom. E me entreguei definitivamente à tempestade no céu noturno.
— Eu não sei, tá bom. — Gina me lançou um olhar um tanto preocupado. — Fica calma. Uma hora ele vai ter que aparecer… E aí, vocês conversam.
— Sinto muito, Gina. Mas eu não sou o tipo de pessoa que senta e espera.
Virei-me num rompante, decidida a voltar para o campo e perguntar por Draco aos jogadores. Alguém deveria saber dele — se saiu mais cedo do treino? Para onde foi? Se sequer chegou a treinar? Mas acabei indo de encontro a outro corpo. E o impacto fez nós duas cairmos para trás.
— Ai! — Luna, havia acabado de atravessar a porta de entrada, totalmente distraída.
— Desculpa, Luna. — pedi levantando depressa e correndo para ajudá-la.
A loirinha aceitou minha mão estendida com um sorriso no rosto.
— Obrigada! Onde vai com tanta pressa?
— Falar com Olívio ou Krum, ou alguém que saiba onde está meu namorado.
— Sinto muito, mas eles já foram… — ela disse coçando a parte da trás da cabeça. — Algo sobre precisar de um banho antes do almoço.
— Mas que droga!
Luna fez uma careta para o meu descontrole e se aproximou de mim com cautela. Ela levou as mãos aos meus ombros e me analisou por um longo tempo antes de falar.
— Hermione… — a loirinha parecia incerta sobre dizer ou não o que estava pensando. — Se eu te fizer uma pergunta, promete não ficar chateada comigo? — dei de ombros, imaginando que tipo de pergunta Luna teria para me fazer, que pudesse me deixar chateada com ela. — Jura?
— Por Merlim, Luna. Assim você está me deixando ainda mais nervosa. — encarei seus profundos olhos azuis em busca de uma pista. Mas neles, havia um misto de preocupação, ansiedade, cautela e carinho. O que me deixou ainda mais confusa. — Eu prometo não ficar brava. Só fala logo… Do que você sabe? O que o Draco e o Ronald aprontaram dessa vez?
— O que? — ela foi quem pareceu confusa. — Não… não é sobre os dois… Quer dizer… acho que, com relação ao Draco, podemos dizer que está envolvido.
— Luna, fala logo! — revirei os olhos agoniada.
— ‘Tá bom… — ela respirou fundo. — Lembra que você prometeu não ficar magoada comigo.
— Luna. — minha voz saiu duas oitavas mais alta que o normal. Se ela não dissesse logo eu ia acabar explodindo. Odiava aquele suspense. E é claro que Gina, em toda a sua curiosidade, já havia deixado o que estava fazendo há muito tempo para prestar atenção na conversa.
— Bom, é que eu notei que você an-
— Bom dia, minhas heroínas. Como vão os preparativos para o Jogo Mais Aguardado do Ano? — a voz estridente atravessou meus ouvidos como o vento gelado e fez uma pontada de dor latejar na minha têmpora direita. Aquilo era tudo o que eu não precisava. Mas ela parecia ter o dom de aparecer nos momentos mais inoportunos. Era como se ficasse à espreita, apenas esperando a pior oportunidade para surgir com seu jeito falso e sua voz irritante.
Gina bufou audivelmente, sem a menor vontade de fingir ter gostado do cumprimento, ou da aparição repentina. Mesmo de costas para ela, eu sabia que a ruiva havia revirado os olhos exasperada. Eu tive que fechar os meus e contar até 50 mentalmente, tentando controlar a vontade enlouquecedora de azarar a recém chegada. Luna foi a única que conseguiu autocontrole o suficiente para responder.
— Olá, Annie. Não esperávamos você por aqui tão cedo.
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