Dramione - Side Effect
36 O que nós vamos fazer?
Notas iniciais
— Largo Grimmauld? — balbuciei incerta. — O que… Por... Narcisa! Você acha que ela pode saber de alguma coisa?!
— Acho. E é por isso que precisamos impedir que ela fuja.
Ele agarrou a minha mão e começou a andar em direção à porta o mais rápido que podia sem chamar muito a atenção. Olhei ao redor procurando não sei exatamente o que ou quem e notei Luna nos observando com atenção. Ela pareceu ler o perigo em meu rosto, pois meio segundo depois estava puxando Neville em direção à saída atrás de nós. Assim que ganhamos o jardim, Harry desistiu de tentar disfarçar o que quer que fosse. Quando passamos pelo grande portão de ferro batido, tive tempo apenas de segurar a mão da loirinha antes de ser sugada para o turbilhão. A pressão no meu umbigo começou a diminuir e vislumbrei a fachada borrada do prédio enquanto girava uma última vez.
Eu não havia nem conseguido me recuperar da vertigem e Harry já esmurrava a porta da frente. Esperamos pelo que me pareceu uma eternidade até que ouvi alguém girar a chave na fechadura. Narcisa Malfoy segurava o robe verde musgo na altura da cintura com uma das mãos, mantendo-o fechado; seu cabelo estava solto e bagunçado; os olhos azul-acinzentados, idênticos aos do filho, estavam vermelhos, com grandes olheiras pretas sob eles, e ainda pareciam meio fora de foco quando ela nos encarou parada na soleira da porta. Então, ela os fixou em mim, alarmada. Um sensação de total vazio, incômoda e dolorosa, me invadiu assim que encarei as orbes cor de tempestade, que agora brilhavam de preocupação.
— Potter? Granger? O que…? Aconteceu alguma coisa com Draco? — era mais um gemido que uma pergunta.
Harry bufou exasperado e entrou na casa, pegando a mulher pelo braço e praticamente a arrastando até a cozinha. Narcisa não fez muita força para protestar ou se livrar das mãos que a apertavam, apenas seguiu tropeçando e se deixou ser lançada em uma das cadeiras. Não havia ali nenhum resquício da mulher altiva e intimidante de tempos atrás. A dor fez dela um bicho ferido e acuado.
— Harry. Não acho que ela saiba de nada, ou tenha condições de contar qualquer coisa. Quer dizer, olha para ela… Ela acabou de perder o marido.
— E eu vou perder minha futura esposa e meu filho…
— Calma aí! Eu sabia que alguma coisa grave tinha acontecido quando Luna me fez seguir vocês, mas eu não podia imaginar… Cadê a Gina?
— Isso é o que eu espero que ela me diga. Já que foi o cunhado dela quem levou minha noiva. Onde? Para onde ele levou a Gina?
— Meu cunhado? Rodolfo está vivo? — os olhos de Narcisa se arregalaram, mas sua pergunta não parecia endereçada a Harry. Era eu quem ela encarava.
— Olhe para mim! Pare de fingir. — Harry explodiu.
— Hermione. — ela choramingou. — Draco… Draco pode confirmar que eu não sabia de nada.
Engasguei. A respiração presa na garganta, fazendo meus pulmões doerem e minhas narinas pegarem fogo ao tentar capturar um pouco de ar.
— Chega, Narcisa. A máscara do seu filho já caiu. Ele ajudou Rodolfo a levar Gina do castelo. Hermione viu tudo.
— Merda! — Neville disse um pouco mais alto do que gostaria, e corou em seguida.
Eu não era a única que parecia ter sido esbofeteada. A minha incredulidade estava refletida nos olhos de Narcisa Malfoy. Mesmo tendo visto tudo acontecer, eu ainda não conseguia acreditar. A bruxa começou a menear a cabeça de forma negativa aumentando a intensidade do gesto gradativamente, até o pescoço começar a estalar. Sentindo minha insegurança, Luna entrelaçou os dedos nos meus e apertou com força. Isso pareceu aliviar um pouco da pressão e eu encontrei uma maneira de forçar as palavras a saírem.
— É verdade. Não sei o quanto ele está envolvido nisso tudo, mas foi Dra... — precisei respirar fundo de novo para fazer o nome sair. — foi Draco quem me imobilizou e permitiu que o tio levasse Gina. Se faz alguma ideia de onde eles possam estar, Narcisa, por favor, nos diga. Gina está grávida, ela…
Narcisa emitiu um soluço engasgado. Ela tampou a boca com as mãos e ficou me encarando enquanto tentava se controlar, a tempestade em seus olhos acentuada pelas lágrimas.
— Tem alguma coisa muito errada nisso, Hermione. Eu nunca vi meu filho tão feliz. Ele até se sentia culpado, por estar tão feliz enquanto o pai… Não faz sentido… Por que ele jogaria tudo fora?
Ficou claro que a última pergunta era retórica. Narcisa parecia perdida, verdadeiramente devastada. Senti a outra mão de Luna no meu ombro antes de sentir os efeitos da declaração de Narcisa. Pressionei os lábios impedindo a mim mesma de interrompê-la, de gritar todas as obscenidades que sabia e descarregar minha frustração, minha raiva, meu desgosto comigo mesma e com... Ele. Então, apertei ainda mais os dedos da loirinha entre os meus.
— Exatamente por isso. Culpa. Você o obrigou a assistir a morte do pai e ago-.
— Harry! — Luna soou mais estridente que de costume.
— Hermione, eu juro pela vida do Draco que nunca tive nenhuma notícia de Rodolfo depois daquela batalha. Eu acreditava que ele estava morto. Eu não… Desde que essa maldita guerra começou… tudo o que eu fiz… tudo o que eu queria era proteger minha família. Evitar que Draco se tornasse um comensal, como ele acabou sendo obrigado a fazer. Eu sinto muito, Potter. — ela olhou para Harry pela primeira vez. — Você tem sido muito generoso conosco apesar de tudo. Se eu fizesse alguma ideia de onde, mas eu não sei.
Apesar de todo o ódio que corroía as minhas entranhas, que enchia a minha boca de um gosto amargo, ainda assim, eu sentia que Narcisa estava falando a verdade. Ela não tinha mais razões para mentir. Ela havia perdido tudo, a única coisa que ainda restava era o filho. Não arriscaria a vida dele também. Por mais que a morte de Lucius a tivesse deixado ferida, humilhada e presa em uma nuvem negra de dor. Mas isso significava que Ele a tinha enganado também. E eu, mais que ninguém, conhecia a sensação.
— Ela está dizendo a verdade, Harry. — Luna parecia tão conectada comigo naquele momento, que adiantou as minhas palavras para as outras pessoas na cozinha. E eu emiti um pequeno suspiro de alívio por não ter que usar a minha voz.
— Não! Não está! Eles querem se vingar pelo que aconteceu ontem, Luna! Além do mais, quem garante que, a contrário dela, Draco não soubesse dos planos do tio? Acham de destruímos a família deles e agora querem destruir a nossa. Mas não vou deixar acontecer de novo. Eles não vão nos tirar mais ninguém!
A mulher se encolheu ainda mais na cadeira e levou as mãos à cabeça. Acuada pelas lembranças que as palavras de Harry trouxeram a tona, ela balançava para frente para trás. A cozinha caiu no silêncio por alguns instantes. O menino que sobreviveu analisava a bruxa encolhida na cadeira à sua frente, decidindo se acreditava nela ou não. Então, lentamente Narcisa parou de se balançar e levantou a cabeça para encarar Harry.
— Você não destruiu minha família, Harry Potter. Você fez o que pode e ajudou a salvar o pouco que restava dela. Não tenho razões para querer me vingar. O que aconteceu com Lucius… aquilo foi culpa dele mesmo, e de Lord Voldemort.
— Muito comovente. — Harry desdenhou. — Mas não é isso o que eu preciso ouvir para me convencer da sua inocência. Se quer mesmo que eu acredite em você, Narcisa, pense! Para onde eles podem ter levado a Gina?
— Harry. Acho melhor deixar ela se acalmar um pouco. — há alguns anos, o olhar arrasador que Harry lançou na direção de Neville o teria feito recuar. Mas não mais. O gesto apenas fez com que o rapaz fosse ainda mais incisivo ao continuar. — Todos nós precisamos nos acalmar, ‘tá bom? Todos nós precisamos respirar fundo e colocar a cabeça para funcionar. Avisar a Ordem seria uma boa ideia, para começar. E McGonagall. Ela vai surtar quando descobrir que desaparecemos, nosso retrospecto nisso não é positivo.
— E os Weasley? Quer dizer, eles fazem parte da Ordem também, mas não seria melhor ir até lá, dizer a eles primeiro? Explicar com… calma?
A colocação de Luna era totalmente pertinente. Mas as implicações de fazer o que ela sugeria atingiram Harry como um feitiço. Ele se apoiou no encosto da cadeira e apertou a madeira. Eu sabia o que ele estava pensando e sentindo. Ele também esteve lá, ele também viu e sentiu a dor daquela família nos primeiros meses logo após a guerra. Era inimaginável ter de entrar n’A Toca para dizer aos Weasley que não apenas um, mas dois de seus filhos — entre eles a única menina da família, a caçula, grávida — estavam em poder de comensais sedentos por vingança. Senti a náusea me atingir de novo, meu estômago se contorceu, inquieto, querendo expulsar seu pouco conteúdo. Voltei a apertar a mão de Luna.
— Sim. — ele balbuciou, os nós dos dedos ficando brancos quando ele aumentou o aperto contra a cadeira.
— Eu vou. — a loirinha anunciou resoluta. — Uso a Rede de Flu e talvez consiga voltar em um par de horas.
Ela se soltou de mim com delicadeza e caminhou com passos firmes em direção à lareira. Então, encheu uma das mãos com Pó de Flu e se posicionou. Só fiquei ciente de que havia gritado quando percebi os olhares espantados na minha direção.
— ESPERE! Não vá par’A Toca. É melhor avisar um dos rapazes primeiro. Eles saberão como contar para Molly.
— O Chalé das Conchas, então. — ela concluiu de forma simples. E eu assenti enquanto o fogo verde fazia a figura delicada dela desaparecer.
— É isso! Hermione você é um gênio! — Neville parecia subitamente reanimado. Ele cruzou o espaço até a cadeira em que Narcisa estava encolhida em duas passadas largas e se ajoelhou ao lado dela. O tom que usou em seguida era calmo, reconfortante, quase paternal. — Senhora Malfoy... Sua família deve ter muitas propriedades, algumas certamente não são utilizadas com frequência. Acha que pode, por favor, elaborar uma lista?
Apressei-me até a pilha de jornais no canto do cômodo e depositei a folha velha e com o maior espaço em branco que consegui encontrar, na mesa em frente à bruxa. Ela analisou o pedaço de papel por um longo instante.
— Precisamos de uma pe-
Antes de eu terminar a frase, Harry já estendia o objeto para Narcisa por sobre a mesa. Ela o apanhou de forma relutante, como se tivesse medo de encostar no rapaz, e concentrou sua atenção na superfície amarelada. Tentei não ficar observando demais para que ela não se sentisse ainda mais pressionada. Mas era impossível não espiar os nomes que ela rabiscava apressadamente. De repente, um barulho de madeira rangendo e passos fez todos se sobressaltarem. Neville correu para o corredor, mas parou ainda no batente da porta.
— Andrômeda. — ele soltou o ar com alívio.
— Longbottom? O que está fazendo aqui? As crianças estão bem? Onde está Narcisa? — a voz de Andrômeda retumbou através do corredor.
— As crianças estão bem. Nós viemos… é que… Bem... É melhor deixar o Harry e a Hermione explicarem tudo.
A expressão acolhedora desapareceu do rosto da bruxa e seus passos se tornaram mais duros, assim como sua postura, quando ela registrou a figura desalinhada e amedrontada de Narcisa sentada na mesa ao meu lado, bem como a preocupação estampada em nossos rostos. Ao contrário do que achei que faria, ela não se sentou, apenas cruzou os braços no peito e esperou. Antes mesmo de eu começar a falar, podia sentir os soluços se formando no fundo do meu peito. Concentrei-me na “lembrança” da garotinha de cabelos ruivos e olhos verdes correndo pel’A Toca, nas covinhas que se formavam em suas pequenas e rosadas bochechas quando ela sorria para mim. E obriguei as palavras a saírem. Contei tudo o que aconteceu, com todos os detalhes que consegui me lembrar.
Era a primeira vez que Neville ouvia o relato todo. Apesar de ter nos seguido até o Largo e ajudado como pode, ele não estava completamente ciente da situação. Quando terminei, ele tinha os olhos arregalados e a pele tingida de uma tonalidade verde. Harry completou explicando porque estávamos ali e o que pretendíamos fazer em seguida. Bem, a última parte nem eu sabia.
— Então, vamos avisar a Ordem e vamos a todas as propriedades que conseguirmos. Você sabe que esse era nosso antigo quartel general, não houve tempo nem necessidade de mudar isso. Até agora.
— O que é isso? Não há necessidade de mudar, querido. Vocês vão precisar de toda a ajuda que conseguirem. É melhor que continuem se encontrando, dormindo, comendo, concentrando informações e o que mais for preciso aqui.
— Espera um minuto. A Hermione disse que o Lestrange só deixou ela viva para te contar quem levou a Gina, que o plano deles era usar a Gina pra te atrair. Se o plano é mesmo esse, não faz sentido eles se esconderem. Mais cedo ou mais tarde eles vão dar um jeito de fazer você saber onde estão. E eu acho que vai ser mais cedo.
— Está sugerindo esperar pela boa vontade de Rodolfo Lestrange?
O sarcasmo tornava a voz de Neville ácida e ameaçadora. Levantei a cabeça e notei Derick pela primeira vez, parado junto ao batente da porta, ainda vestido em cota de malha. Ele não pareceu abalado com a declaração de Neville, mas também não respondeu. A nuvem de cinzas que cobriu a cozinha após uma verdadeira explosão dentro da lareira, deixou todos meio desorientados. Tateei até encontrar o braço de Narcisa e fechei meus dedos em volta dele com força. Mas ela não tentou se soltar, apenas tossiu como os outros, tentando não sufocar. Da mesma maneira rápida com que surgiu, a nuvem desapareceu, ao ser tragada pela ponta da varinha de Derick. Luna, George, Gui, Percy e Arthur Weasley estavam parados no meio da cozinha.
— Harry, por favor, diga que isso é um mal entendido!
— Pai, o senhor concordou em manter a calma. — ponderou Gui.
— Estou calmo, só quero saber o que aconteceu. Onde está a minha filha?
— Luna já nos contou o que aconteceu. Duvido que a situação tenha mudado nos últimos 3 minutos. A pergunta certa é, o que vamos fazer?
— Certo. — Harry começou. — A intenção deles é usar Gina para me atrair. O que, como Derick estava dizendo antes de vocês chegarem, significa que eles vão dar um jeito de nos deixar saber onde estão. Mas não estou disposto a esperar que isso aconteça. Precisamos do elemento surpresa. Além disso quanto mais tempo Gina… ninguém sabe o que…
— Nós entendemos. — decretou Luna, poupando-o do esforço de colocar a angústia em palavras.
— Certo. Narcisa está terminando de elaborar uma lista das propriedades dos Lestrange e Malfoy. Vamos nos dividir e vasculhar cada uma delas até o último cômodo. E quem encontrar algum sinal deles, avisa os outros.
— Deles? — pela expressão no rosto de Percy, Luna tinha resumido bastante a história. — Quantos comensais estão nisso?
— Ao que tudo indica, dois. Rodolfo Lestrange e um homem baixinho e atarracado que eu não consegui reconhe-.
— Quem mais escapou depois da batalha em Hogwarts e ainda não foi capturado, Ron? — Arthur se adiantou a mim, cortando a explicação pela metade.
Por sorte, eu ainda estava sentada. Ou teria despencado no chão ali mesmo. Os ossos do meu corpo pareciam ter se transformado em água. Não tinha como Luna ter contado essa parte da história, mesmo que quisesse. Em momento algum antes de ela partir rumo ao Chalé comentamos sobre Ronald e seu envolvimento no sequestro da irmã. Estávamos tão concentrados em arrancar qualquer informação de Narcisa que não nos preocupamos em repassar a história completa, nem para ela, nem para ninguém. Até Andrômeda chegar.
Troquei um olhar dolorido com Harry, enquanto assistíamos Arthur Weasley descobrir a ausência do filho mais novo. Ele ainda chamou o nome do filho mais uma vez, como se isso pudesse fazê-lo surgir de repente de debaixo da mesa, ou qualquer outro lugar em que pudesse estar escondido. Quando ninguém respondeu, ele se adiantou e pegou Harry pelos ombros, em um pedido mudo por explicações. Percy segurou o pai, obrigando-o a soltar o genro e o sr. Weasley fechou os olhos, cansado. Senti as lágrimas que enchiam os olhos de George escorrerem por meu rosto e pingarem sobre o tampo da mesa e na beirada da folha de jornal — que Narcisa havia silenciosamente empurrado para mim.
— Arthur, eu sinto muito. — a expressão no rosto do bruxo só podia ser descrita como pânico. — Ronald também foi levado. Na verdade ele… ele ajudou no sequestro. Está sob efeito da Maldição Imperius.
Não consegui mais olhar para o sr. Weasley ou Harry, ou os garotos Weasley depois disso. Então, concentrei-me no pedaço de jornal. A primeira coisa que registrei foi que havia cinco endereços ali. A segunda foi que cada um deles ficava em uma região do planeta. Só podia ser brincadeira...
— Não estou tentando enganá-los. — a bruxa colocou a mão sobre a minha, que segurava o papel. Olhei para ela, mas Narcisa encarava Derick, por entre a confusão de que se tornou a conversa no meio do aposento. — Essas são todas as propriedades a que ele teria acesso. Mas não acredito que tenha ido para longe. — o rapaz parecia alheio ao que se passava ali, olhando para aquilo quase entediado. — Eu sinto muito, Hermione. — ela desviou os olhos para mim, levou a outra mão ao meu rosto e enxugou as lágrimas que corriam por ele. E fiquei paralisada sob o toque. — Por… tudo. Sei que isso não ajuda em muita coisa. Mas, por favor, tomem cuidado.
Fale com o autor