Notas iniciais
Gentem... O capítulo anterior tava muito ruim?! Ele quase não teve acessos. Ou foi culpa da manutenção do site?! Se tava ruim mesmo, sorry. É que era um capítulo de transição necessário. Às incríveis Nina Chan e Maia Malfoy, OBRIGADA! Não tenho como agradecer o suficiente as lindas palavras nas recomendações. Dito isso, vamos ali morrer de vontade de ter a Luna como melhor amiga!

Alguém girou a maçaneta da porta. Imediatamente, procurei pela varinha no bolso do jeans, mas ela não estava no lugar. A náusea sacudiu meu estômago ao mesmo tempo em que uma dor aguda se instalou na parte de trás da minha cabeça, perto da nuca. E tudo rodou quando forcei o corpo para cima, desvencilhando-me das cobertas com dificuldade. Alcancei a varinha na cabeceira bem quando Luna apareceu na soleira com uma bandeja nas mãos. Só então, dei-me conta de onde estava. Senti-me ridícula quando ela me encarou assustada mas, principalmente, preocupada.

— Oh, Hermione! Eu não queria te assustar. Desculpa!

Olhei para mim mesma por um instante. Roupas limpas — uma calça de flanela e uma camiseta de mangas; mãos limpas, sem nenhum resquício de sangue. Puxei a manga esquerda, já a meio caminho do desespero, e o roxo estava lá, cobrindo toda a parte debaixo do meu pulso, terminando em um amarelo desbotado na palma da mão e serpenteando para cima no braço. As coisas estavam tão embaralhadas na minha cabeça, piscando em flashes difusos, que eu não conseguia saber se tinha sonhado ou se aquilo tinha mesmo acontecido. Especialmente a parte em que Ele...

— Vocês aparataram no jardim ontem de madrugada depois de lutar com os comensais, no chalé do Havaí. — ela respondeu baixinho, como se lesse meus pensamentos, enquanto se aproximava da cama. — Derick te trouxe para dentro e curou seu pulso. A sra. Weasley quase o matou por ter feito você deitar e te deixado dormir. Segundo ela, você também sofreu uma concussão. — Luna tocou a parte de trás da própria cabeça com um pedido de desculpas no olhar. E eu soltei um gritinho de dor ao imitar o gesto. Havia um galo gigante pouco acima da minha nuca. — Então, eu te dei um banho e troquei suas roupas enquanto estava apagada.

Não respondi, apenas agarrei a loirinha pelo pulso e a puxei para um abraço. Quando ela passou os braços em torno de mim, foi como emergir na superfície de um lago gelado e, finalmente, respirar. Uma onda de alívio tão grande tomou conta de mim, que eu pude sentir cada um dos músculos tensos das minhas costas relaxarem.

— Obrigada, Luna. — não era apenas pelo banho, pelo cuidado e preocupação. Era por tudo. Pelo que a presença calma e acolhedora dela tinha significado nos últimos tempos, pelo que significava naquele momento. Por ela sempre saber o que dizer e fazer para tornar as coisas melhores, ou mesmo suportáveis. Por sua bondade e sabedoria sem limites. — Por você ser… sempre... tão... você.

— Não foi nada… — ela suspirou modesta. — Se sente um pouco melhor? Acha que consegue comer?

— Sim… — estendi a mão e alcancei um bolinho da bandeja que ela tinha deixado na mesinha de cabeceira, para mostrar meu empenho. Meu estômago parecia mesmo muito vazio, emitindo sons nada educados ao registrar a presença da comida. Era como se eu não ingerisse nada a dias. — Espera aí!

Luna tentou sorrir como se nada tivesse acontecido, mas desistiu diante do meu olhar e suspirou.

— O que foi?

— Você disse… Ontem de madrugada… Isso significa… Luna, quanto tempo eu dormi?

— Primeiro, fica calma. — ela empurrou meus ombros com delicadeza de volta para a cama. — Não aconteceu nada demais nesse tempo. O Harry também ‘tava apagado por causa da poção pra febre.

— Nenhuma frase que começa com “Fique calma” termina bem. — fiz questão de imitar o sinal de aspas com os dedos ao repetir a frase para enfatizar meu desespero.

— Você dormiu por umas 25 horas, mais ou menos. Mas… — ela levantou um dedo em riste para cortar minha tentativa de protesto. — ...seu organismo precisava disso, Hermione. Todos nós precisávamos desacelerar, descansar um pouco. Para conseguir pensar com clareza, recuperar a força.

— Mas que droga! Cadê os outros? Eles já sabem que Lucius está vivo? Alguma pista de para onde os comensais podem ter ido agora? Preciso descer e conversar com-

Levantei-me da cama com um pulo e o quarto saiu de foco. As camas, a estante, os criados-mudos, tudo parecia girar na velocidade de uma Firebolt. Dei alguns passos para trás à procura da cama e Luna estava lá, segurando-me com firmeza.

— O que você precisa fazer é sentar e se alimentar.

— Mas Luna…

— Hermione, por favor. — aquele pedido me atingiu como a lâmina de uma adaga.

Estava tão perdida no meu próprio desespero e agonia, tão concentrada na dor de perder Draco e Gina de uma única vez, que nunca havia parado para pensar no que essa jornada, essa busca desesperada, significava para os meus outros amigos.

— Desculpe… — murmurei sem olhar para ela.

— Você e o Harry se matarem não vai trazer a Gina de volta mais rápido.

— Por que é que todo mundo fica repetindo isso?

— Porque é a verdade! — a voz dela parecia quebrada, frágil. Algo incomum para Luna. Então, levantei a cabeça e vi que as lágrimas rolavam dos olhos azuis pela pele clara. E outra punhalada acertou em cheio meu coração. — Não é como se a gente tivesse sentado e cruzado os braços. Gui e Carlinhos organizaram uma incursão ao Bangalô Kamari, em Santorini, na Grécia. Mas acabou não dando em nada. — ela completou rapidamente diante da minha excitação. — Todos querem encontrá-los. Tanto quanto vocês. Mas precisamos fazer isso da maneira mais inteligente e segura que conseguirmos. Não precisamos… não podemos perder mais ninguém no processo. ‘Tá legal?

— Eu sei… Mas… Tenta entender, Luna. Se já era difícil antes… Se esperar e planejar era angustiante antes, agora que eu sei… que eu vi…

— Viu? — ela estimulou. Mas não havia nenhuma exigência em sua voz ou em seu semblante. Por mais curiosa que estivesse, ela deixou claro que não ia insistir se eu não quisesse dizer.

— Esquece… Essa pancada na cabeça bagunçou meus miolos. Não tenho certeza do que foi alucinação, sonho e do aconteceu mesmo. Eu não tenho certeza do que eu vi.

— Não tem certeza, ou tem medo?

— Como é que é?

— Sabe, Gui fez Neville explicar tudo o que aconteceu lá assim que passamos pela porta. Mas o Neville omitiu uma parte; na minha opinião, a mais intrigante da história toda; porque queria conversar com você primeiro. E foi por isso que eu disse encontrá-los. No plural. — minha respiração ficou presa na garganta, enquanto eu esperava ela terminar a frase. — Lembra do que eu disse... sobre ter alguma coisa muito estranha acontecendo? E do que eu não disse em Dunstanburgh?

— Como é que eu vou lembrar do que você não disse, Luna? Percebe que o que está dizendo não faz o menor sentido?

Fiz questão de não comentar a primeira parte da declaração. Porque ela estava certa, pelo menos em partes. Eu realmente não tinha certeza do que eu vi e ouvi. Mas eu também estava morrendo de medo de que fosse real, do que aquilo significava. Porque se tinha acontecido mesmo mesmo, se aquele diálogo existiu, quem sabe o que podia ter acontecido com Ele depois que fugimos. Ele podia muito bem estar… A palavra se recusava a sair. Entalando na garganta toda vez em que eu tentava dizê-la, em que eu pensava nela.

Além do mais, isso não provava muita coisa, provava?

— É que as duas coisas estão ligadas. Será que não percebeu ainda, Hermione? — os olhos dela brilhavam de empolgação. Luna segurou minhas mãos nas dela. — O Neville relutou em concordar comigo, no começo… Apesar de ter ficado balançado com a minha teoria. Mas agora ele também não tem mais dúvidas.

Encarei as orbes azuis com o estômago revirando de expectativa. Eu queria tanto acreditar. Eu já havia pensado na possibilidade antes, durante os momentos de negação. Mas eu tinha tanto medo de me apegar a ela e terminar ainda mais machucada. E, claro, nunca disse nada para ninguém. Parecia tão absurdo. Mas com Luna sinalizando compartilhar da mesma opinião, era tão difícil não ter esperança.

— Luna, eu ainda não entendi… — disfarcei, ainda na defensiva.

— Por Merlim, Hermione. — ela jogou as mãos para o alto exasperada. — Ok! Bem, acho que é melhor… Prometa que vai me deixar falar tudo o que eu penso, sem me interromper.

— ‘Tá…

— Bem... — ela se remexeu sobre as cobertas, inquieta. — Sempre achei essa história toda do sequestro muito esquisita e cheia de buracos. E, desde nossa incursão ao castelo, eu venho debatendo comigo mesma sobre te contar das minhas desconfianças, porque… porque eu achava que não tinha provas suficientes. Mas depois do que Neville me contou. Depois do que aconteceu no Havaí. Hermione, você tem que concordar comigo… — ela pressionou minhas mãos entre as dela, mordendo o lábio, a própria imagem da agonia. — Eu acho… na verdade, eu sempre achei… que o Draco nunca traiu sua confiança...nossa confiança. Acho que ele sempre esteve do nosso lado.

— Luna… — supliquei. Mas a loirinha não era o tipo que brincava, que dizia as coisas apenas para te confortar, te fazer sentir melhor. Pelo contrário, sempre falou o que precisava ser dito. — Ele ajudou a levar Gina. Quem garante que aquilo no Havaí não foi apenas encenação? Apenas...

Eu queria desesperadamente dizer que concordava com ela, mas meu lado lógico ainda precisava esgotar todas as possibilidades.

— Apenas uma tentativa de reconquistar nossa confiança para depois nos trair de novo? — ela complementou meu raciocínio. — Não. O Neville não é o tipo de pessoa que exagera. E pelo que ele descreveu. Meu Merlin, Hermione. Quem sabe quanto tempo…

Ela se calou quando registrou o pânico nos meus olhos. Além do mais, não era preciso que ela dissesse. Eu também vi. Vi até mais que Neville. E nenhuma descrição se aproximava o suficiente.

— O que eu quero dizer é… Por que eles o teriam machucado tanto? — Luna parecia já ter repetido aquele argumento muitas vezes antes e eu imaginei para quem mais ela tinha contado sobre isso. — O que leva alguém a maltratar tanto o próprio sobrinho, o próprio filho?

— Luna… Estamos falando de Rodolfo Lestrange e Lucius Malfoy. Pelo que a gente sabe eles podiam simplesmente estar entediados.

— Por piores que eles sejam… — Luna agora andava de um lado para outro no cômodo. Mordisquei o bolinho, mas a minha vontade de comer havia sumido assim que as lembranças de Draco, na escada do Chalé Horseshoe, chegaram. — Pensa comigo! Alguém que planeja uma vingança dessa natureza tem que dar o mínimo de valor à família e ao sangue. Como você mesma disse, estamos falando de Rodolfo Lestrange e Lucius Malfoy. Para quem o sangue vale mais que qualquer outra coisa.

Era um bom argumento. Mas o contraponto dele deveria estar lá em baixo agora mesmo, cozinhando ou cuidando das crianças.

— Andrômeda… — suspirei.

— O que tem ela? — ela perguntou com uma espécie de sorriso na voz.

— Andrômeda é o furo na sua teoria. Eles a renegaram por ter se casado com um sangue-ruim. Por ter envergonhado o nome da família.

— Andrômeda… — ela se virou para mim, vitoriosa. — é a confirmação da minha teoria. Eles a puniram pela traição da pior maneira que encontraram. Só puniram... A diferença é que no caso do Draco, a punição foram castigos físicos.

Enterrei o rosto nas mãos. A dor que antes se concentrava na parte de trás da minha cabeça havia se espalhado e agora todo o meu crânio parecia pulsar a cada batida do meu coração.

— É terrível até imaginar uma coisa assim, mas se o que Patil disse na aula de Defesa Contra as Artes das Trevas for verdade… Se o Draco não consegue mesmo produzir o Patrono porque não tem lembranças felizes… — ela se sentou ao meu lado de novo. Os olhos azuis pareciam ter escurecido, cobertos por uma nuvem de pesar. — Imagine quão ruim deve ter sido a infância, a vida dele até hoje. Ser renegado seria quase uma benção, não uma punição.

Dois sentimentos completamente opostos e, entretanto, com o mesmo poder de destruição, lutavam por espaço dentro de mim. Esperança e desprezo. Esperança de que Luna estivesse mesmo certa, de que Draco estivesse do nosso lado desde o começo e, por isso, protegendo Gina — o que aumentava nossas chances de resgatá-la e redobrava minha vontade de lutar por eles. E desprezo por Rodolfo e, especialmente, Lucius — por tudo a que tinha submetido o filho e a esposa. Ele significava ainda menos para mim e eu tinha a amarga sensação de que nem mesmo hesitaria se o visse na minha frente de novo.

— Obrigada…

Antes que eu me desse conta, as lágrimas já escorriam pelo meu rosto. E, pela primeira vez no que pareciam eras, o calor delas contra a minha pele foi revigorante. Elas não vieram acompanhadas de soluços, pesar e desespero, mas de um sorriso, ainda que incerto.

— Então? Acho que é hora de contarmos aos outros. — ela refletiu meu sorriso cheio de esperança. E o fez murchar ao mesmo tempo.

— Não… Olha só o que foi você tentando me convencer. Iniciaríamos a III Guerra Bruxa antes de conseguir começar a falar.

— Mas… Hermione, eles precisam saber. O Draco…

— A gente sabe. E por enquanto vai ter que ser suficiente. — engoli o bolinho e joguei as cobertas para o lado. — Vai ser mais fácil com a Gina aqui para confirmar nossa história e a inocência dele.

— Você quer dizer a coragem…

— Isso também! — dei um beijo estalado na bochecha dela, que riu com gosto. Apesar de ter corado. — Por favor, complete a minha felicidade e diga que quando foram à Grécia descobriram uma maneira de levar todos ao mesmo tempo pelo Desiluminador.

O riso parou.

— Luna… — minha voz saiu um pouco mais alta que o normal.

— Além de fracassada, a Grécia foi uma escolha aleatória. Esperava que você pudesse me dizer onde o Desiluminador está quando acordasse. Não consegui encontrar ele entre as suas coisas.

Levantei as cobertas no mesmo instante, depois o colchão. Remexi desesperada na gaveta da mesinha de cabeceira.

— Tem certeza de que não estava nas minhas roupas?

— É claro que sim! Procurei várias vezes.

— Mas eu me lembro de tê-lo colocado no bolso. Procuraram pela casa, no jardim? Pode ter caído no caminho… Enquanto eu subia as escadas até aqui.

Ela me lançou um olhar exasperado, como se fosse óbvio que eles já tinham feito tudo aquilo mais de uma vez.

Accio Desiluminador! — quase gritei.

— Acha mesmo que Molly, Gui, Arthur, Neville, eu, ou qualquer um os outros lá embaixo não tentamos isso? Várias vezes?

— Por favor, Luna… Não me diz-

— Tivemos de escolher a Grécia ao acaso… Porque… Porque o Desiluminador sumiu.

Notas finais
Quem tá com saudade do Draco, deixa um review! :/