Dramione - Side Effect
44 Manipulável
Notas iniciais
— O Desiluminador sumiu! — repeti de forma idiota. — O Desiluminador sumiu e a culpa é toda minha.
— Não acho que a culpa seja sua. Nem todo mundo acha que a culpa é sua… quer dizer, você estava exausta...
— Nem todo mundo?
— Percy definitivamente culpa você. — ela fez uma pequena careta. — E o Harry… Bem, Harry, na verdade, está magoado pelo que aconteceu no jardim. Mas não acho que ele te culpa de verdade.
Cai sentada na cama com as mãos no rosto. Ótimo! Isso era tudo o que eu precisava naquele momento, bem quando eu ia tentar provar a inocência do meu namorado ex-comensal da morte, enquanto salvava minha melhor amiga das mãos do tio e do pai dele. Meu melhor amigo magoado comigo e o resto da Ordem nem um pouco disposto a me ouvir.
— Que novidade incrível. Isso é realmente uma grande evolução nos acontecimentos.
Luna não tinha culpa de nada. Estava apenas me colocando a par da situação que me esperava lá embaixo.
— Tem outra coisa que você precisa saber…
Pela cara da loirinha era uma notícia tão agradável quanto a primeira. Não me arrisquei a abrir a boca e ser grosseira de novo com a única pessoa que, aparentemente, não me julgava culpada, então apenas assenti.
— A coruja do Profeta Diário chegou logo depois de vocês ontem de manhã. E… bem…
— Luna, realmente não ligo para o quer que Annie Pottins tenha escrito sobre mim dessa ve-
Ela bufou e falou um pouco mais alto que eu, chamando-me para a realidade.
— Ouve uma fuga em massa, de novo. Zabine, Notte, comensais e outros condenados. O Ministério acredita que os dementadores estão envolvidos. Percy ficou uma fera, teve que voltar às pressas pro Ministério. Você sabe que ele sempre foi contra os Dementadores continuarem trabalhando em Azkaban ou qualquer outra coisa que envolvesse o Ministério. Então…
Meu cérebro, finalmente, uniu as as palavras de Draco com a imagem das capas pretas invadindo o chalé.
— Vi duas ou três capas pretas irromperem pela porta da frente enquanto aparatávamos de volta. Mas nem parei para pensar direito sobre isso, achei que fossem foragidos. Bruxos que acreditávamos estar mortos, assim como Rodolfo. Por Merlim, Luna… — fiquei de pé de novo, ignorando a tontura e dor na parte de trás da cabeça. — Por isso eles fugiram de Dunstanburgh.
— O plano sempre foi atrair Harry para uma emboscada. Mas em Dunstanburgh…
— Chegamos antes do que eles esperavam. Eles foram pegos de surpresa!
— Exato! — Luna soou um tantinho exasperada. — Eles não estavam prontos. Sabiam que a Ordem ia se reunir para ajudar, que ficariam em menor número, em desvantagem…
— Para o plano dar certo, eles precisavam esperar pela fuga.
A expressão no rosto dela me disse que eu tinha deduzido grande parte do que ela tinha planejado me contar. Mas havia algo mais.
— Mione. — ela deu um passo na minha direção e quando falou, foi quase um sussurro. — Já percebeu que toda vez que a gente chega perto, algo dá errado? Quase como se eles soubessem o que a gente vai fazer…
A voz arrastada e desprovida de emoção de Lucius Malfoy invadiu a minha cabeça. Aumentando a dor e me fazendo engasgar. “Ainda bem que ele conseguiu nos avisar a tempo, isso sim. Que espécie de plano é esse Rodolfo?”
— Ah. Meu. Merlin. Luna…- forcei as palavras para fora. — Tem alguém tentando atrapalhar a gente...
Ela simplesmente assentiu.
— O próprio Lucius disse… As palavras exatas foram “Ainda bem que ele conseguiu nos avisar a tempo”. Alguém avisou a eles que sabíamos sobre o castelo, que estávamos a caminho, para que eles pudessem sair antes da gente chegar.
Ela me encarou, a nuvem de tristeza e preocupação que escurecia o olhar alegre e vivo havia voltado.
— Neville usou exatamente as mesmas palavras. Mas ainda assim… — ela me segurou pelos ombros com um pouco menos de delicadeza do que costumava fazer. — Hermione, eu insisto, precisamos contar a eles que Draco está do nosso lado.
— Eles não vão acreditar…
— Precisamos tentar. Se não conseguirmos convencer, pelo menos vamos fazer com que pensem sobre o assunto.
— Luna… Isso não é o mais importante agora.
— É claro que é. Hermione... Provar a inocência do Draco é a única forma de provar a inocência de Narcisa e a sua.
Encarei Luna por alguns instantes. Inspirei e expirei devagar, enquanto organizava as últimas palavras dela na minha mente. Precisávamos mostrar que Draco estava do nosso lado para mostrar que eu também estava… Que espécie de lógica era aquela? Da maneira como Luna estava colocando as coisas, parecia até que alguns desconfiavam que… que eu… que eu era a informante dos comensais, a traidora. Meus olhos se arregalaram quando tudo finalmente fez sentido. Não à toa ela havia se esforçado tanto para encontrar evidências da inocência de Draco e convencer Neville disso. Não por acaso ela começou o assunto por essa parte.
— Eles acham que estou ajudando Draco? Que estou ajudando os comensais?
— Ronald se lembrou de uma briga no jardim. — senti minhas bochechas esquentarem. — Ele estava discutindo com Harry sobre ter flagrado você e Draco juntos, reclamando que vocês provavelmente atacaram ele e causaram a perda de memória. Foi quando o Carlinhos entrou. E bem… Agora todos já sabem sobre você e o Draco. Além disso, você foi a única que viu a Gina ser levada. Você quem contou boa parte do que sabemos.
Senti meu desespero transbordar e escorrer pelo meu rosto. Finalmente todos sabiam da minha irresponsabilidade, da minha verdadeira e real traição. Minhas escolhas continuavam a cobrar seu preço. Mas isso só provava que eu era inocente, idiota... Manipulável.
— Acham que Draco está me manipulando para ajudar aos comensais. — constatei.
— Mione, você precisa acreditar que eu… — as lágrimas encheram os olhos de Luna de novo.
— Eu sei.
— Não só eu. Neville, Héstia, Hagrid e Harry… e até Ronald…
— Ronald? — repeti automaticamente. Pisquei algumas vezes, desanuviando minha cabeça. — Esquece o Ronald. — decretei. Colocando meus pensamentos sobre o ruivo de lado também. — Luna, por acaso, está querendo me dizer que todo o resto da Ordem agora desconfia de mim?
— Sim… quer dizer, não! Molly quase estuporou o Percy quando ele tentou falar contra você. Mas as pessoas estão procurando explicações.
— Eu também ia querer uma explicação para tudo, mas isso não significa que eu colocaria a lealdade de um de vocês em dúvida.
Antes mesmo de terminar a frase, caminhei decidida até a porta. Mas a maçaneta nem se mexeu quando tentei torcê-la. Olhei desesperada para Luna, as lágrimas acumuladas escorriam por sua face pálida, mais uma vez. As íris azuis, quase transparentes de tão claras, estavam carregadas de agonia.
— Não adianta tentar o Allorromora também. — disse com tristeza. — Percy usou sua autoridade ministerial e obrigou os outros a manter você e Narcisa nos quartos enquanto eles investigam melhor as coisas. Mas… — ela hesitou por dois segundos. Então, murmurou em direção à porta. — Abaffiato!
— Luna?
— Mione... Não disse o que eu vou te falar agora nem pro Neville. — senti meu estômago revirar. — Mas, infelizmente, acho que devemos mesmo nos preocupar com a existência de um traidor. A gente sabe que não foi você… Mas alguém repassou as informações. Alguém interceptou o Patrono do Neville. E alguém pegou aquele Desiluminador.
Meu sangue parecia congelado nas veias e meu coração tão imóvel quanto uma das pedras do calçamento lá fora.
— Acha que alguém interceptou o Patrono do Neville?
— Acho! Nós duas sabemos que ele é capaz de produzir um Patrono quase tão bom quanto o do Harry. E você mesma disse que ele executou o feitiço. Mas a mensagem nunca chegou. Não vejo outra explicação.
— Não dá para imaginar alguém da Ordem virando as costas para nós depois de tudo. Simplesmente não dá! — suspirei, sentindo-me ainda mais cansada que depois da batalha no Havaí. — A não ser... — tentei encontrar alguma razão, dar sentido às coisas, mas não consegui nada. — ...eu não sei.
— A não ser que essa pessoa nunca tenha estado do nosso lado.
— Um espião, um agente duplo, como Snape? Mas quem?
— Quem estava aqui na madrugada em que Gina desapareceu?
— Nós fomos primeiros a chegar, depois Andrômeda, em seguida o senhor Weasley e os meninos. E a Narcisa, que já estava aqui. Mas não acho que ela… Luna, não faz sentido.
— Não. A Narcisa ficou o tempo todo na cozinha. Foi alguém que saiu. E entre fazer o que Harry pediu e voltar, mandou uma coruja até Dunstanburgh. Hermione, eu vi. Quando subimos para checar as crianças, eu vi pela janela quando uma das corujas deixou o sótão. Eu estranhei mas não dei grande importância na hora, quer dizer…
— Estávamos tentando contatar quantas pessoas pudéssemos. Era natural mandar corujas.
— Quem é você e o que fez com Hermione Granger? — fuzilei Luna com o olhar. — ‘Tá, isso passou pela minha cabeça por um instante também, mas não. — ela admitiu diante da minha cara amarrada. — A Ordem usa Patronos para se comunicar. Patronos. Porqu-
— Porque ninguém pode falsificar uma informação repassada por um Patrono. — rosnei com raiva de mim mesma. Minha cabeça latejava, clarões brancos manchando minha visão de tempos em tempos.
— Então, quando Neville contou o que Lucius disse, tudo se encaixou. Suspeitar uns dos outros era tudo que não precisávamos agora, mas…
Comecei a caminhar de um lado para o outro na frente da loirinha. Eu precisava me concentrar, pensar. Mas estava começando a ficar claustrofóbica trancada naquele quarto. Quanto mais eu tentava forçar a minha mente a reviver as lembranças e procurar por pistas, mais minha dor de cabeça aumentava.
— Hermione…
— Preciso fazer alguma coisa. Preciso… Preciso provar que não fui, que não sou eu quem está sabotando os planos da Ordem. Mas não posso fazer isso trancada aqui.
— Eu passei a madrugada pensando em uma maneira de te tirar daqui. E acho que talvez… — calcei a sapatilha que estava ao lado da cama em velocidade recorde e parei ao lado dela na porta. — A gente pode entrar e sair, mas você não pode sair. Pelo que entendi, é uma espécie de feitiço que identifica quem está tentando passar pela porta. Então, se fizermos isso juntas…
— Pode ser que a gente consiga enganar o feitiço. — completei. — Vale a pena tentar.
Luna entrelaçou o braço no meu e segurou minha mão. Olhei para a porta, depois para ela e recebi um caloroso sorriso de incentivo.
— Tente se mexer junto comigo.
Assenti e respirei fundo quando ela colocou a mão na maçaneta de ferro. A porta cedeu com um click metálico, mas ainda faltava atravessar o portal. E torcer para que ninguém estivesse do lado de fora.
— Agora. — ela murmurou baixinho. E nos movemos juntas.
Foi como atravessar uma cortina de água. Como se o ar debaixo do portal fosse mais denso e pesado. Alguma coisa dificultava a locomoção, a passagem. Forcei o corpo para frente e em dois passos, estávamos fora. A porta bateu atrás de nós e se trancou instantaneamente. Esperei alguma sirene ou alarme começar a tocar. Mas nada aconteceu.
— Estão todos lá embaixo tomando café. Vou descer e dizer que você continua indisposta. — virei para correr pelo corredor, mas ela segurou meu braço. — Para onde vai?
— Pro sótão. Tenho que começar por algum lugar. Mantenha todos longe do quarto até eu voltar.
Desvencilhei-me e apressei o passo em direção à escada.
— Me encontre aqui em meia hora para poder entrar de novo. — ela disse às minhas costas. — Pode ser que alguém resolva vir checar você.
Por sorte, estávamos no terceiro andar, onde só havia quartos e banheiros. Eu só precisava passar por mais um lance de degraus e o pequeno hall, onde ficava um pequeno quarto, e estaria no alçapão. Encostei-me na parede e subi com cautela pela escada de madeira. Espiei antes de entrar no espaço aberto, mas estava tudo calmo. Então corri e puxei a cordinha, a escada gemeu ao se desdobrar e meu coração quase saiu pela boca, quando o barulho pareceu amplificar-se no ambiente vazio. Mas ninguém apareceu.
Depois de subir correndo e puxar a escada de volta, examinei o cômodo. Excremento e penas de coruja cobriam o chão. Partículas de poeira levantavam-se conforme eu caminhava e dançavam à luz difusa, que entrava pela pequena janela aberta, antes de pousarem novamente. As corujas ainda dormiam na gaiola ao lado da janela. Tão juntas que pareciam apenas uma.
Aproximei-me mais e percebi que não era apenas impressão, havia mesmo apenas uma coruja. Meus olhos foram tragados para a janela aberta mais uma vez. E a voz de Luna encheu os meus ouvidos. “A Ordem não usa corujas, apenas Patronos”. O que quer que tenha sido decidido nas últimas horas, já devia ser de conhecimento dos comensais aquela altura. Eu precisava avisar aos outros. Se eles agissem, estariam indo direto para uma armadilha. Só que eu não podia fazer isso na presença do traidor. E eu não estava, nem um milímetro sequer, mais perto de descobrir quem é que estava repassando nossas informações.
Consegui fechar o alçapão do sótão sem alardear minha presença. Virei-me, orgulhosa de mim mesma, e foi como se tivesse sido atingida em cheio no peito por um feitiço estuporante, de novo.
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