Dramione - Side Effect
68 Ginevra Weasley
Notas iniciais
Gina fez um desvio repentino para a direita, tirando Katie da jogada, e passou a goles para Cho. A garota de cabelos negros acelerou pela lateral do campo com os olhos fixos em Olívio. O movimento de seu braço foi rápido, fluido e teria enganado um goleiro menos experiente com facilidade. Mas Wood esperou até o último segundo para sair do lugar e conseguiu agarrar a goles pouco antes de ela cruzar o arco central. Draco — que estava jogando como rebatedor — mandou um dos balaços na direção do goleiro. Ele se esquivou, deitando sobre a vassoura, antes de repor a goles para Angelina.
Eu ainda estava meio perdida sobre como me sentir diante daquilo. A cada lance, eu vibrava e ficava decepcionada ao mesmo tempo. Havia pessoas que eu gostava e admirava nos dois times. Amigos, companheiros de estudo, brincadeiras e batalhas. E eu queria que todos eles se saíssem bem. As pessoas nas arquibancadas pareciam compartilhar da mesma desorientação. Estávamos todos abismados, envolvidos, maravilhados. Até mesmo os fãs — vestidos com camisetas de Viktor Krum, Meagan McCormack, Olívio Wood e outros — vibravam com absolutamente todas as jogadas, tendo elas sido realizadas por seus ídolos ou não.
Então, Gina escapou do balaço de George com um movimento ascendente e no mergulho de volta interceptou um passe entre Angelina e Katie. Como se não bastasse, logo em seguida ela tabelou com Cho em uma sequência de passes rápidos e, finalmente, marcou no aro da esquerda. Gritei a plenos pulmões, engrossando o coro da torcida, que chamava o nome dela. A ruivinha estava especialmente inspirada naquela manhã. Espiei a arquibancada dos convidados especiais — onde estavam sentados os professores, jornalistas esportivos, olheiros e técnicos — tentando decifrar os semblantes. Passeei por uma infinidade de expressões com olhos atentos, arregalados, brilhantes de empolgação. Mesmo os que estavam sisudos, apesar da aparência crítica, batiam palmas para a performance.
Sorri abertamente para Luna quando me dei conta de que Gina tinha toda a atenção do mundo bruxo, mais uma vez. Só que, naquele momento, não tinha nada a ver com namorar Harry, ou perder o irmão mais velho, ou ser sequestrada, ou estar grávida de Harry, ou não estar mais grávida de Harry. Ginevra Weasley tinha o mundo aos seus pés simplesmente por ser Ginevra Weasley. Meu peito parecia que ia explodir de tanto orgulho. E a felicidade acabou transbordando pelos meus olhos.
— Herrmione, você está bem?
Ainda acompanhando minha amiga serpentear pelo céu, sorri de novo, antes de responder.
— Você não faz ideia. — suspirei.
— O que?
— Ela quis dizer que está bem. — o rosto de Luna refletia minha alegria.
— Eu estou ótima, René. Eu só estou… feliz. — ri de mim mesma. — Na verdade, acho que vou explodir de tanta felicidade e orgulho.
A francesinha sorriu para mim, de forma bastante honesta e maternal.
— Ronald havia dito que ela jogava bem. Mas confesso… achei que erra só converrsa de irrmão corruja. Agorra entendo o porrque de tanto orrgulho.
Troquei um olhar confuso e desconfiado com Luna, enquanto tentava formar uma imagem de Ronald elogiando Gina para alguém na minha cabeça. Juro que tentei. Mais de uma vez e em diversas situações. Mas simplesmente não consegui. Por um segundo, pensei em contestar a declaração. Então, a empolgação brilhou nos olhos azuis de René e eu apenas balancei a cabeça em concordância.
— Pelo jeito, Harry se sente exatamente como você. — Luna disse, apontando na direção do nosso amigo.
O menino que sobreviveu pairava acima dos outros jogadores, mas não parecia nem um pouco interessado na partida. Krum lançou-se em uma descida vertiginosa para atravessar o campo, na direção da arquibancada, logo atrás do gol de Meagan McCormack. Mas Harry sequer se mexeu. Acho que ele nem mesmo percebeu o movimento. Um sorriso gigante rasgava seu rosto, enquanto ele seguia a noiva pelo campo. Estava hipnotizado, só tinha olhos para Gina.
— Por mais que eu entenda como ele se sente. Acho melhor ele parar de babar e começar a jogar. Se Harry deixar Krum capturar o pomo sem uma boa disputa, Gina vai matá-lo.
Não conseguimos segurar o riso, quando — como se tivesse ouvido minha declaração — Gina avistou Krum. A ruiva deu um giro em torno de si mesma procurando pelo namorado e gritou com Harry, gesticulando na direção do adversário. O búlgaro estava quase chegando ao seu destino quando Harry finalmente disparou atrás dele, e apesar de eu não conseguir ver além da plataforma, não tinha dúvidas de que miravam o pomo de ouro.
A risada de René abruptamente deu lugar a um engasgo, fazendo com que desviássemos os olhos do céu. Ronald vinha em nossa direção, tentando parecer relaxado e displicente. Mas a pequena ruga no canto de sua boca e a vermelhidão que começava a surgir em suas orelhas entregavam seu nervosismo. Sei que era melhor ter arranjado uma desculpa para sair de lá e dar privacidade aos dois. Mas se ele não fosse perfeitamente educado com a francesinha…
— Hey… tudo bem por aqui?
René fingiu não ter escutado o cumprimento e voltou seus olhos para o jogo. Mas eu sabia que a atenção dela estava conosco.
— Oi, Ron. — Luna cumprimentou por todas nós.
— Já se arrependeu de ter abandonado? — perguntei.
— Abandonado? — Ronald retrucou, nervoso. — Eu… Como assim?
— O jogo, Ronald. — segurei-me para não rir. — Estou perguntando se está arrependido de ter desistido do jogo?
— Cara, que partida. — ele relaxou minimamente. — Não dá pra tirar os olhos deles.
— Da Gina, você quer dizer.
— Tem alguns dos melhores jogadores de Quadribol do mundo voando acima da sua cabeça, Luna. — Ron disse aquilo como quem explica algo muito complicado para uma criança.
— E a Gina não deixa nada a desejar a nenhum deles. — pelo jeito, Luna estava tão orgulhosa quanto eu.
— Nunca vi essas crianças tão quietas. — comentei por acaso, para acentuar o brilhantismo do jogo. Desde que a partida tinha começado, eles não haviam, sequer, se movido, estavam colados em seus lugares ao lado de Andrômeda. Mas minha declaração pareceu alarmar René.
— Onde ele está? — ela gemeu.
A pergunta era claramente direcionada a Ronald, já que ela parecia procurar alguma coisa, ou alguém, atrás dele.
— Ele quem? — Ron ficou roxo.
— Mase! Ele deverria estarr com você. — ela passou a mão pelos cabelos, desesperada. — Onde ele está?
— Não o vejo desde o Salão Principal.
— Segundos antes da parrtida começarr nós te vimos do outrro lado do campo. Ele pediu parra irr até você e eu deixei. Eu ainda fiquei vigiando ele contorrnarr os arros… — ela levou as duas mãos trêmulas a cabeça. — Eu… Eu… Merrlim! Tem gente demais porr aqui. Ele é só uma crriança.
Ron cobriu o espaço entre os dois em duas passadas e segurou a francesinha pelos antebraços, fazendo com que ela olhasse para ele. Foi como se todo o nervosismo, desconforto e hesitação que existiam entre os dois evaporassem. Eles se encararam por longos segundos, em que se comunicaram apenas pelo olhar. Até que René inspirou profundamente e soltou o ar devagar, visivelmente mais calma.
— Nós vamos encontrar o Mase. Eu prometo. — o ruivo foi firme e protetor, ao mesmo tempo. — Onde exatamente ele estava quando o viu pela última vez?
— Lá. — ela apontou através do campo, para o espaço ao lado do banco de reservas. — Ele estava quase ao seu lado quando desviei os olhos dele… Merrlim! Eu nunca devia terr desviado os olhos dele. Devia terr segurrado a mão dele e ido até lá com ele.
— Nós vamos achá-lo. — reafirmei. — Vamos nos dividir pra procurar. Assim cobrimos mais espaço mais rápido.
Assim que as palavras deixaram minha boca, Ronald me lançou um olhar discreto, mas preocupado. A irritação e a curiosidade estavam começando a corroer as paredes do meu estômago. Mas respirei fundo e voltei a focar na situação. Afinal, encontrar Mase era mais importante que qualquer coisa que eles pudessem estar escondendo de mim.
— Luna você fica com a parte leste do estádio. Eu pego a parte oeste. Ron você conhece melhor o castelo e é o mais rápido de nós três. René, você fica por aqui para caso ele volte, procura nas barraquinhas de comida e nas arquibancadas mais altas. Ele pode ter subido pra ver o jogo mais de perto.
— Herms… Acho melhor você ficar aqui. — a intensidade nos olhos de Luna deixava claro que havia mais por trás de suas palavras. — O estádio é muito grande, você ainda não está completamen-
— Como eu disse, a René não conhece bem o lugar. — cortei a loirinha antes que Ron se interessasse pelo assunto e levantasse qualquer questão sobre minha saúde. Mas ela continuou me encarando. — Estamos perdendo tempo! — decretei antes de me virar e sair, sem dar a ela oportunidade de argumentar de novo.
Não me atrevi a olhar pra saber se eles haviam seguido meu exemplo e saído do lugar. Não queria abrir nenhuma fresta na minha determinação. Apenas caminhei o mais rápido que pude em direção a parte oeste do estádio. Só que não havia ninguém por ali. O caminho até os banheiros estava deserto, assim como os próprios banheiros. Depois de abrir todas as cabines e procurar até dentro do armário, resolvi tentar os vestiários reservados aos jogadores.
— Mase! Mase, você está aqui? — chamei ao abrir a porta. — Mase, sou eu, Hermione. — continuei.
Não recebi nenhuma resposta. Mas entrei assim mesmo. Eu não acreditava, de verdade, que ele estivesse escondido em algum lugar por ali. Não era o tipo de coisa que uma criança como Mase faria. Ele era decidido demais para isso. Poucas coisas o assustavam. E, mesmo quando tinha medo, ele simplesmente o ignorava e continuava.
Empurrei a porta da primeira cabine só para encontrá-la vazia.
— Se você estiver sentado nas arquibancadas vendo minha melhor amiga fazer a melhor partida da vida dela, enquanto eu perco isso pra te procurar… — murmurei comigo mesma, ao partir para o segundo cubículo. — Mase!
Quando abri a porta, garotinho se encolheu ainda mais no canto da cabine e escondeu a cabeça entre os braços. Meu coração deu um salto no peito. Ele tremia, completamente assustado. Estava vermelho e suado, como se tivesse corrido milhas. E apesar da vontade enlouquecedora de abraçá-lo para nunca mais soltar, aproximei-me com cuidado.
— Mase… Sou eu, Hermione.
Um tremor percorreu o magro e pequenino corpo, mas ainda assim ele levantou um pouco a cabeça e olhou para mim. Havia lágrimas nos olhos castanhos e, por baixo delas, um sentimento que eu daria tudo para não conhecer tão bem: medo, em seu estado mais puro, aquele que paralisa, apavora e deixa sem ação. Mandei o cuidado às favas e puxei-o para o meu colo. Mase se agarrou a mim com força e acariciei suas costas, para tentar acalmá-lo. Vários minutos depois, quando a respiração dele começou a estabilizar, decidi que era hora de sair. René já devia estar surtando sem notícias.
— Você está perdendo um jogo incrível, sabia? — fiz um movimento com a cabeça indicando o lado de fora. Um pequeno sorriso ameaçou surgir nos lábios finos, quando ele balançou a cabeça concordando. Levantei-me ainda com Mase no colo. — Gina roubou a goles do time adversário depois de desviar de um balaço e ainda conseguiu mar-
A frase terminou na metade. Assim como o passo que eu ia dar. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram instantaneamente, meus músculos retesaram e eu não conseguia fazer o ar entrar nem sair pela minha garganta. Senti meus olhos se encherem de lágrimas quando percebi que, com Mase nos braços, seria impossível alcançar minha varinha a tempo. É claro que garotinho notou que havia alguma coisa errada, mas ele não se atreveu a virar para conferir. Outro tremor o balançou e a razão de seu terror ficou clara.
E eu quase pude ouvir o clique assim que os últimos acontecimentos se encaixaram como peças na minha cabeça. Eu detestava ter que admitir que outra pessoa — especialmente se essa pessoa fosse Draco — tinha razão; porém, às vezes, eu também odiava descobrir que estava certa. Sustentei seu olhar — mesmo diante da sensação de que, pouco a pouco, ele estava fazendo meu sangue congelar nas veias. Mas, quando me dei conta que não seria capaz de nos proteger, não pude impedir minhas lágrimas de caírem.
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