Dramione - Side Effect
54 Casa comigo?
Notas iniciais
— O que eu quis dizer, é que você me ensinou a te amar. — Eu disse ainda de olhos fechados. Fazia alguns minutos que nós estávamos acordados, mas eu estava concentrada no ritmo das batidas do coração de Draco. Aproveitando os carinhos dele. — Você… Por isso a culpa é toda sua. Porque eu não consigo mais pensar na minha vida sem você… Eu fico desesperada diante da possibilidade de te perder… Eu sinto a sua dor e queria poder transferir ela toda para mim… O que eu to tentando dizer… Não tem mais eu, Draco. Só nós. Você e eu. Juntos.
Ele parou de brincar com as costas da minha mão. Mas não disse nada. Mordi o lábio, receosa. Talvez eu estivesse indo rápido demais, atravessando as coisas. O mundo lá fora ainda estava uma bagunça. E por mais que a tranquilidade e a segurança daquele quarto nos deixassem confortáveis e confiantes, em algum momento teríamos de enfrentar a realidade — difícil e dolorosa, como ela realmente era. Havia muito o que colocar no lugar e mais coisas ainda para esclarecer.
— O que você disse? — Ele finalmente perguntou baixinho.
Afundei o rosto no peito dele, que subia e descia um pouco mais rápido agora, pensando se deveria repetir a frase ou tentar inventar uma desculpa, mudar parcialmente as palavras e talvez diminuir o peso delas. Draco segurou meu queixo com a ponta dos dedos e virou minha cabeça para cima, para ele, obrigando-me a encará-lo. Então, arqueou uma sobrancelha, cobrando a resposta.
Respirei fundo e mordi o lábio. Eu sempre fui uma péssima mentirosa mesmo.
— Eu… eu falei… Disse que... pra mim… da maneira como eu vejo as coisas agora… A gente… Quer dizer, nós… É quase como se fossemos um só.
Acho que fiz uma careta e fechei os olhos quando as últimas palavras deixaram a minha boca. Porque quando dei por mim, estava mais uma vez de costas na cama, com os lábios colados nos de Draco. Ele segurou meu rosto entre as mãos e deu um beijo na minha testa antes de se afastar só o suficiente para olhar nos meus olhos.
— Casa comigo?
Engoli em seco. Eu imaginei as palavras. Tinha que ter imaginado. Eu só podia ter imaginado as palavras saindo da boca dele, porque não fazia o menor sentido. Quer dizer, por mais que eu amasse Draco e ele me amasse, ainda estávamos na escola. Nenhum de nós tinha um emprego. Eu tinha acabado de completar 18 anos. Meus pais ainda nem sabiam que eu tinha um novo namorado, principalmente, que esse namorado era Draco Malfoy. E, aparentemente, ele estava me pedindo em casamento.
— Hermione? — Uma voz que vinha de longe chegou aos meus ouvidos. — Hermione? Você me ouviu? Estou perguntando se quer ser minha mulher?
Definitivamente, contrariando a sensatez, ele tinha acabado de me pedir em casamento. Encarei os olhos cor de tempestade e meu reflexo me encarava de volta de dentro deles — os olhos ligeiramente arregalados, a boca aberta de forma idiota, a expressão vazia e perdida.
Por que minha expressão chocada de felicidade precisava ser tão patética?
Sim, eu ouvi. Pensei. Sim, eu caso. Eu queria gritar em alto e bom som, apesar de todas as ressalvas e argumentos que inundavam a minha mente. Porque quando se tratava de Draco a lógica e a razão não valiam de nada. Mas minha voz havia desaparecido. Toda a minha capacidade de articular palavras, pensar, e me mover tinha sumido. Nunca imaginei que a felicidade também pudesse sufocar, fazer você perder o ar e a linha de raciocínio, paralisar. Só que, naquele momento, não havia espaço suficiente dentro de mim para o tamanho e a intensidade do que eu estava sentindo. E, por isso, a felicidade acabou transbordando pelos meus olhos.
Um sorriso incerto surgiu nos lábios de Draco. Ele me analisou por mais alguns instantes e sem conseguir se conter, perguntou.
— Isso é um sim? Por favor, me diz que estas são lágrimas de felicidade?
Ainda estava muito anestesiada para falar, mas consegui menear a cabeça de forma positiva. O sorriso, antes incerto, iluminou o rosto do loiro e ficou tão grande, que acabou chegando até mim. E Draco soltou um longo suspiro de alívio antes de me beijar de novo.
— Hermine Jean Granger Malfoy… — ele disse enquanto se afastava, claramente testando como o nome e os sobrenomes soariam juntos.
— Pode dar certo. — sussurrei.
Eu ainda me sentia meio desconectada do mundo ao redor e até de mim mesma. Como se estivesse assistindo à tudo o que estava acontecendo pelo lado de fora. Mas, aos poucos, a pressão ia diminuindo e ficou mais fácil respirar.
— Scorpius Granger Malfoy…
— Scorpius? — repeti. — Quem é Scorpius?
— Prefere uma menina? — ele acariciou meu lábio inferior com a ponta dos dedos. — Podemos ter uma menina também.
— Uma menina? — minhas conexões neurais pareciam ainda não ter se restabelecido totalmente. — Por acaso já está planejando… Draco! — revirei os olhos quando finalmente entendi do que ele estava falando. — Não acha que é um pouco cedo para isso, quer dizer, eu quero me casar com você, mas ainda nem oficializamos nosso namoro pras pessoas. — soltei um suspiro divertido. — E eu que achei que estava apressando as coisas.
Draco, que no instante anterior me encarava com uma expressão iluminada, mordeu o lábio ao mesmo tempo em que uma ruga vincou sua testa. Ele depositou um beijo longo e estalado na minha bochecha. E começou a se levantar.
— Venha, você precisa se alimentar.
Demorei alguns segundos para conseguir me orientar e mais alguns tantos para me tocar de que ele não deveria estar de pé. Quando puxei a mão dele, fazendo-o parar, Draco já havia girado a maçaneta da porta.
— Onde pensa que vai? Você precisa descansar. Pode tratar de ficar bem quietinho aqui e eu vou buscar seu café.
O sorriso torto, sacana, aquele que vivia quase escondido no canto da boca, surgiu nos lábios de Draco. E o olhar que ele me dirigiu conseguiu fazer corar até a raiz dos meus cabelos.
— Está falando sobre os machucados ou sobre ontem a noite? — ele ria abertamente agora, satisfeito por me deixar encabulada. O sonserino enlaçou minha cintura e me encostou no portal. Depois, aproximou-se perigosamente da minha orelha para sussurrar. — Ainda tem dúvidas de que eu estou bem? Porque, se tem, acho que é melhor voltarmos lá pra dentro.
Um calafrio desceu pela minha espinha, fazendo todos os pelos do meu corpo se arrepiarem no caminho. E agradeci mentalmente por ele estar com o braço ao redor da minha cintura, quando meus joelhos fraquejaram. Mas o som de metal contra madeira, vidro se quebrando e, especialmente, o praguejar, que ressoaram em seguida, trouxeram um novo tipo de arrepio — nem um pouco agradável e nada bem-vindo. Procurei pela origem do som e encontrei Ronald parado a alguns passos de nós. Aos pés dele, jaziam uma bandeja de prata, cacos de vidro, pedaços do que antes foram um copo e um prato, restos de comida, talheres e uma flor.
— Ro… Ro… Ro…
— Weasley. — Draco se recuperou do susto mais rápido que eu, mas sua voz pareceu tremer de um jeito estranho quando ele pronunciou o nome.
— Posso saber o que significa isso?
Ronald não se mexeu, não moveu um único músculo enquanto falava conosco. Mas por baixo da máscara de calma que ele tentava vestir, seus olhos azuis faiscavam, fixos no braço de Draco que ainda estava enrolado ao redor da minha cintura.
— Desculpe, mas não. — respondi no mesmo tom moderado.
— Exatamente o que você está vendo. Eu estava convidando Hermione para voltar lá pr- — tapei a boca de Draco com as mãos e ele riu contra a minha palma, antes de segurá-las na sua e voltar a falar. — Você precisa se acostumar com o fato de que estamos juntos, Cenoura. Vai ter que lidar com isso para o resto da sua vida.
Encostei a testa no peito do loiro, derrotada. O que mais tinha que acontecer para esses dois finalmente começarem a se entender? Será que lutar lado a lado, pelos mesmos objetivos não tinha sido suficiente? Será que eles ainda não tinham se dado conta de que, diante de tudo o que enfrentaram e sofreram, aquela implicância já não fazia o menor sentido? Será que essa briga nunca ia chegar ao fim?
— Acha mesmo que vai durar, Malfoy? Esse casinho não tem fôlego suficiente pra sobreviver nem até o Natal. Sabemos quem você é… e vamos ser honestos, não passa nem perto do tipo dela.
— E você? Hermione sabe quem você é? O tipo de pessoa que você se tornou?
Levantei a cabeça e olhei de Draco para Ronald e de volta para Draco, enquanto eles se encaravam, desafiando e ameaçando-se mutuamente, em silêncio. Achei que encontraria no rosto do sonserino aquele velho meio sorriso carregado de sarcasmo, que ele costumava lançar contra suas “vítimas” antes da guerra. Mas Draco estava calmo, quase resignado. Ao observar a curva dos lábios e o olhar que ele destinava a Ronald, eu podia jurar que o que havia ali era, na verdade, decepção.
— Ela me conhece muito bem. Fui em quem sempre esteve ao lado dela, inclusive quando você a atacava com palavras e azarações.
Senti os músculos de Draco se retesarem e ele engoliu em seco. Mas não desviou os olhos do outro. Olhei para Ron mais uma vez e percebi que a calma que ele estava lutando tanto para manter começava a ruir. Suas orelhas já estavam cor de fogo e o rosto dele, ficando vermelho também. Quando percebeu que eu o observava, o ruivo levou as mãos para trás do corpo, tentando fazer o gesto parecer despretensioso.
— Você não para de me surpreender, Weasley. — até Ron ficou espantado com a declaração, mas antes que ele a contestasse, Draco continuou. — Deve achar que estamos lutando de igual para igual agora… Já que, assim como eu, você também faria QUALQUER COISA para ter Hermione. — a forma como o loiro sublinhou as palavras com a voz fez minha garganta se fechar. E aquela sensação incômoda; de que eu sabia de alguma coisa, mas não conseguia me lembrar do que; se instalou mais uma vez no fundo a minha mente. — Mas a diferença é que ela sabe do que eu seria capaz.
Ron tinha começado a tremer e fechou as mãos em punhos ao lado do corpo tentando se controlar. As cascas das feridas nos nós dos dedos se destacaram contra a pele quando ela ficou ainda mais branca por causa da força do gesto. Foi quando eu me lembrei. Meu cérebro só pode ter estalado quando os acontecimentos se uniram, porque eu tinha certeza que estava atônita demais para demonstrar qualquer reação. E, ainda assim, o ruivo soube, na hora, que eu havia descoberto.
— Mione...
Ou, talvez, ele só me conhecesse bem demais. Ronald praticamente gemeu meu nome, num claro e patético pedido de desculpas. Levando as mãos para trás do corpo mais uma vez. Tentando esconder as provas de seu desequilíbrio e insensatez.
— Nunca mais me chame de Mione. — desvencilhei-me do braço de Draco e marchei em direção ao ruivo.
— Não vale a pena acordar as crianças por isso. — o loiro disse baixinho, segurando-me acima do cotovelo e me impedindo de pisar nos cacos espalhados pelo carpete.
— Não ia me contar? — virei-me de volta para Draco. Eu sabia que estava gritando agora, mas Ronald tinha sorte de ser a única coisa que eu podia fazer sem uma varinha.
— Pra quê? Pra te deixar chateada quando você tinha acabado de aceitar casar comigo?
Ron cometeu o erro de emitir um som engasgado.
— Não sei porque eu estou surpresa! — Ronald se encolheu. — Na verdade, eu sei sim! Porque aposto minha varinha que você não estava mais sobre o poder da Maldição Imperius quando bateu no Draco até ficar com as mãos em carne viva!
O ruivo mordeu o lábio e olhou para os próprios pés. Então, cobrei a resposta da outra parte envolvida.
— Não, não tinha mais maldição. — Draco suspirou. — Mas eu já ‘tava bem machucado por tentar impedir Selwyn de bater na Gina. — ele completou rápido diante do meu olhar horrorizado. — Ela demorou para entender porque eu tinha ido com eles e não queria colaborar.
— Essa parte o Ronald teve coragem de contar… Quer dizer, ele disse que ela não queria colaborar e o cão de guarda acabou arrastando ela pra uma das celas.
— Tudo ficou ainda pior com a chegada do meu pai no castelo. Acho que dá pra imaginar o choque que foi descobrir que ele ainda estava vivo. E ele não acreditava em mim, queria uma prova da minha lealdade, queria que eu matasse o imbecil ai. Foi quando a primeira coruja do Derick apareceu e vocês com ela. Lucius e Rodolfo fugiram levando a Gina. Mas ordenaram que Selwyn e eu ficássemos pra trás, pra terminar o serviço... — ele fez um gesto na direção de Ronald — E matar quantos de vocês fosse possível.
— E? — insisti, eu precisava esclarecer aquilo de uma vez.
— Graças a Merlim, Selwyn não é a pessoa mais esperta do mundo. Então, convenci ele de esperar por vocês em uma das celas, fazer um tipo de emboscada e levei o Weasley para outra. Achava que quando livrasse ele da Maldição, o idiota ia me ajudar, contar pra vocês de que lado eu realmente estava. Mas assim que saiu do transe a primeira coisa que ele fez foi me socar. Repetidamente. E eu deixei cair a droga da varinha…
A respiração de Draco estava acelerada. Seus olhos estavam fixos na parede atrás de mim. Ele estava mergulhado nas lembranças.
— Quando... quando finalmente consegui pegar a varinha de volta e fazer o Weasley parar.
— Você quis dizer quando me estuporou! — Ronald rosnou.
— Você ia me matar. — o loiro gritou de volta. — Admita Weasley, você não ia parar até… — Draco respirou fundo e não quis completar a frase. — Não importa. — suspirou. — Cheguei ao corredor no momento em que você e a Luna ‘tavam entrando numa cela e Selwyn saindo de outra. Então, selei as portas e ataquei o Selwyn pelas costas. Achei melhor destruir o corredor, pra garantir, fingir que houve mesmo uma luta. Desaparatei com o imbecil desacordado pro Havaí e disse ao Lucius e ao Rodolfo que depois de tentar duelar com vocês, acabei fugindo também, porque estava em desvantagem. Mas...
— Mas eles não compraram a sua história, não é? — a voz de Neville era calma, porém triste.
Não fiquei surpresa em vê-lo parado no topo da escada, apoiado em um par de muletas, ao lado de Luna, Andrômeda e Narcisa. Na verdade, fiquei envergonhada pela cena terrível que protagonizávamos no meio do corredor, em uma casa cheia de crianças.
— Não.
— Então, te bateram ainda mais. E torturaram a Gina, como castigo pra você. — Luna disse de forma sombria.
— Vocês precisam acreditar… — os olhos de Draco se encheram de lágrimas. — Eu nunca soube que Rodolfo estava vivo, muito menos de nenhum dos planos dele. Ele ficou surpreso, mas gostou quando ajudei com a fuga do castelo, só que não confiava totalmente em mim.
— Nós acreditamos. — Luna afirmou com convicção.
— Ele pareceu mesmo surpreso quando você me desarmou naquela noite. — constatei, enquanto revivia a pequena batalha na lembrança.
— Por isso precisava tanto que você me atacasse. — Draco segurou minhas mãos nas dele e olhou nos meus olhos. — Pra tentar convencer os dois de que nos odiávamos ou, pelo menos, de que você me odiava. De que eu tinha realmente usado você. Mas acho que em momento nenhum fui convincente, acho que a única pessoa que eu enganei foi a mim mesmo... Porque não foi o suficiente.
Ele desviou os olhos de mim para a porta do quarto de Andrômeda, que permanecia fechada apesar do escarcéu que acontecia a poucos metros dela. Meu coração se apertou quando me dei conta de que Harry e Gina deviam ter escutado grande parte da discussão. Ronald deve ter se dado conta da mesma coisa, porque empalideceu, instantaneamente, quando a porta finalmente se abriu e figura encolhida de Gina surgiu atrás dela.
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