Dramione - Side Effect
55 É melhor você ir...
Notas iniciais
— Gi… Gi… Gina. — Ronald balbuciou de forma idiota. — Você está bem. Que… que bom que está bem.
— Ainda não… — disse Harry seco, ao surgir de trás da noiva. — Mas vai ficar.
Senti alguma coisa pingar na minha mão e vi que Draco estava chorando de cabeça baixa. Ele se recusava a olhar para Gina e Harry. Quando o menino que sobreviveu começou a falar, o sonserino apertou minhas mãos nas dele, envergonhado, e eu soube que ele se culpava por tudo o que havia acontecido.
— Mas não graças a você! — o moreno completou de forma dura.
Em outros tempos, a expressão no rosto de Ronald teria despertado minha simpatia. Entretanto, diante do que eu havia descoberto, o desespero que derramava dos olhos dele não significou absolutamente nada. Eu não conseguia olhar para ele sem me sentir enjoada, quase doente. Minha consciência insistia em contra-argumentar que Draco também havia ferido muita gente, tentado assassinar Dumbledore, colaborado com os comensais. E que se eu havia conseguido perdoar isso, também descobriria uma maneira de perdoar Ronald Weasley. Mas naquele momento, parecia impossível, totalmente fora de cogitação.
— Harry, eu… — Ronald começou. — Eu estava sob o domínio da Maldição Imperius. Depois que... Depois… Eu ajudei!
— Você sabia que Draco estava do nosso lado! — Harry gritou. — Sabia desde o começo e não disse nada… Por ciúmes. Porque estava obcecado com uma ideia deturpada de justiça. Porque precisava se vingar dos comensais, independente das consequências. Faz ideia da diferença que essa informação teria feito?
— Lily ainda podia estar aqui! — Gina completou, falando pela primeira vez, enquanto levava às mãos até a barriga.
A voz dela era dura, havia amargura e dor. Mas também havia cansaço, tristeza e principalmente, decepção. Draco apertou minhas mãos ainda mais. Retribui o gesto, desesperada para encontrar uma maneira de confortá-lo, de fazê-lo entender que não era culpado. Procurei pelos olhos cor de tempestade. As lágrimas haviam cessado, mas as íris azul-acinzentadas ainda estavam escondidas pelas pálpebras.
— Mas… Vocês não… Não iam acreditar em mim… — o ruivo gaguejou. — Você sempre foi o primeiro a desconfiar do Malfoy! — ele disse a frase para Harry de maneira acusatória, como se aquilo o abstivesse da responsabilidade.
— Sabe muito bem que aprendi minha lição. — Harry rebateu ainda seco, mas em um tom de voz mais moderado. — Da pior maneira possível. Você estava lá quando Snape…
O garoto que sobreviveu deixou a frase morrer. Ninguém mais conseguia sequer pensar naquela palavra, no que ela significou e ainda significava, no que tinha feito com nossas vidas.
— Harry… Gina… Eu… eu sinto muito! Eu não queria…
— Sentir muito não vai trazer a Lily… — a voz de Gina tremeu quando ela disse o nome da filha, mas, de alguma maneira, ela conseguiu se recompor e completar de forma fria. — ou mesmo a Héstia de volta.
— Só… fica longe da gente. — Harry sussurrou triste. Seus olhos verdes brilhavam, cheios de lágrimas.
O rosto de Ronald perdeu o restante de cor que possuía. Ele encarou o amigo por alguns instantes, de olhos arregalados e com a boca ligeiramente aberta. Quando o casal se virou em direção à porta do quarto, o ruivo pareceu finalmente despertar de seu estado de choque.
— Você não pode estar falando sério! — chiou. — Quer dizer, eu sou seu melhor amigo… E seu irmão, Ginevra.
— E ainda assim, nada disso impediu você de mentir, de nos esconder a verdade. — Harry disse, ainda de costas. — De arriscar a vida da sua irmã e da sua sobrinha.
— Quer dizer que eu sou o vilão da história agora? Eu? — o ruivo deu alguns passos para frente, esmagando o vidro e os restos de comida. Gesticulando e batendo no próprio peito com o indicador de forma quase teatral. — Não sou eu quem tem uma Marca Negra no braço.
Draco finalmente abriu os olhos e eles estavam lívidos, claros como o céu sem nuvens de uma manhã pós tempestade. Ronald voltou-se para ele e assisti o sonserino morder o lábio para não responder à indireta.
Gina, entretanto, girou nos calcanhares e seu olhar poderia ter nocauteado Ronald, se ele tivesse sensibilidade o suficiente para notar os sentimentos concentrados nele. Mas em se tratando de Ronald Weasley, ele apenas pareceu feliz por ter conseguido demovê-la a responder.
— Se a carapuça serviu tão bem em você, amarre. — ela bufou. — Mas pare de tentar justificar seus próprios atos através das falhas de outras pessoas. Você, e só você, é responsável pelas decisões que tomou e pelas consequências que essas decisões tiveram.
— Ele tentou matar o Dumbledore! — Ronald gritou, com os olhos fixos em Draco. — Ajudou os comensais a entrar no castelo. Enfeitiçou a Cátia. Ele ajudou a torturar a Hermione.
— Ele não ajudou a Bellatrix coisa nenhuma. — gritei ainda mais alto que o ruivo.
— Não, ele só se omitiu... assistiu quieto e calado enquanto ela te machucava. Quando é que vai entender? Ele não te ama, Hermione. Está usando você, pra me atingir.
Levei uma das mãos à cabeça, sentia-me cansada, estava ficando zonza de raiva e frustração. Draco imediatamente passou o braço pela minha cintura, lançando-me um olhar preocupado. Não adiantava discutir com Ron. Ele nunca ia admitir que estava errado. Jamais daria o braço a torcer sobre Draco ou sobre qualquer outra coisa. Era exaustivo e inútil, eu não aguentava mais ter que repetir sempre as mesmas coisas. Ronald só via o que queria, do jeito que queria ver.
— É Weasley, eu fiz tudo isso sim. — Draco falou taciturno. O ruivo finalmente tinha conseguido tirá-lo do sério. — E eu nunca neguei, pra ninguém. ‘Tava pronto pra ir pra Azkaban e pagar por tudo. Mas por alguma razão, que eu ainda não descobri, Harry, Luna e Hermione convenceram o Ministério de que não era a melhor forma de eu pagar pelos meus crimes. Algo que eu nunca vou ter como agradecer. Se quer colocar a culpa pelos últimos acontecimentos em mim, fique a vontade. Eu não vou discutir, nem discordar de você. Eu sou mesmo culpado. Não fiz o suficiente. Não consegui proteger… — ele não pode terminar a frase. E quando senti minha garganta se apertar ao pensar em Lily, entendi porque. — Eu queria poder fazer alguma coisa para mudar isso, qualquer coisa... Mas não dá. Por isso, não existe nada que você ainda possa dizer, que vá me fazer sentir pior do que eu já me sinto. Vá em frente. Descarregue a sua frustração, seu rancor, seu ciúme. Eu não me importo.
— Frustração? Por que eu sentiria ciúmes de-
— Chega Ron. — Gina não levantou a voz. Mas a força que ela imprimiu nas palavras calou o irmão. — Não vamos mais perder nosso tempo discutindo com você. Se ainda não se deu conta de quão erradas são suas atitudes… não adianta ficar tentando explicar.
— Ele faz algum feitiço de memória em vocês assim que as sessões de tortura terminam, po-
O movimento de Draco foi tão rápido, que antes do meu cérebro terminar de registrar que nossos corpos não estavam mais se tocando, ele já segurava Ronald pelo colarinho. O loiro bateu com as costas do ruivo contra a parede, fazendo-o perder o ar e o segurou ali. A voz rouca do sonserino saiu baixa, ameaçadora, quase sibilada.
— Se continuar insistindo nessa discussão, garanto que não vou pedir tão educadamente quanto a sua irmã.
O piso de madeira rangeu alto quando Nevile bateu nele com a ponta das muletas, para chegar até os dois. Ele colocou a mão no ombro de Draco, de forma cuidadosa, como quem diz “não vale a pena”. O rapaz loiro apenas meneou a cabeça de forma negativa e soltou Ronald.
— É melhor você ir. — Neville disse para o ruivo.
Ronald Weasley marchou pelo corredor até a escada com cara de poucos amigos, a testa vincada e os lábios apertados em uma linha fina. Ele ainda deu uma última olhada para trás antes de começar a descer — primeiro para Harry, passando por Gina e, finalmente, por mim. Então, virou-se e sumiu. Ficamos todos parados, escutando o barulho das botas dele batendo nos degraus. Era como se ninguém soubesse como reagir, como agir. O silêncio era quase mórbido e eu me senti inquieta, parecia até que tínhamos perdido Ron também.
— Vocês devem estar morrendo de fome. — Andrômeda disse por fim, desfazendo o peso do momento. — Não querem descer para tomar café?
Procurei pelos olhos cor de tempestade antes de responder. Mas Draco estava de cabeça baixa, com a testa apoiada no braço, as mãos na parede. Por um minuto achei que ele estivesse passando mal e meu estômago revirou de preocupação e culpa. Então, Gina começou a falar e os músculos das costas dele se retesaram, tensos.
— Será que nós podíamos falar com o Draco e a Mione à sós por um instante primeiro? — ela pediu.
— É claro querida. — a bruxa respondeu em seu tom mais maternal, enquanto acenava a varinha para limpar a bagunça no meio do corredor. — Esperaremos por vocês lá embaixo.
Não prestei atenção enquanto os outros se retiravam, estava concentrada em Draco, na forma como a tensão em seus ombros aumentava a cada passo que Gina dava na direção dele.
— Malfoy. — ela chamou.
Assisti o corpo dele tremer. Eu sabia que Draco estava lutando consigo mesmo, com a culpa e a vergonha que sentia. Ele acreditava que tinha fracassado com os dois.
— Draco, por favor… — ela repetiu.
O sonserino finalmente levantou a cabeça e seus olhos estavam mais uma vez cheios d’água. As íris azul-acinzentadas escurecidas de tristeza.
— Por favor, não aceite a culpa que meu irmão quer colocar em você. Não essa.
— Mas a culpa é minha, Weasley. Eu… — ele abaixou a cabeça mais uma vez.
— Você fez tudo o que pode. — Gina também chorava, assim como eu. — Por Merlim, olha para você! Perdi a conta de quantas vezes achei que eles iam… — um soluço cortou a frase da garota. Ela tapou a boca com a mão por um instante e, em seguida, jogou os braços ao redor do pescoço de Draco.
O loiro ficou paralisado por alguns segundos, depois abraçou Gina de volta. Olhei para Harry, que devia estar incomodado com o gesto. Mas a postura dele era a mais relaxada que eu vira em dias. Os braços estavam cruzados na frente do corpo de forma quase displicente. Os olhos verdes encontraram os meus e ele exibiu a sombra de um sorriso, era quase como se estivesse aliviado. E quando Gina levou a mão ao rosto marcado de Draco e tocou-o com cuidado, uma lágrima solitária desceu pela bochecha do menino que sobreviveu.
— Draco, presta atenção... Você me manteve viva. Isso quase custou a sua própria vida. E, mesmo assim, você nem sequer hesitou. Então, não pense, nem por um minuto, em repetir que não foi suficiente.
— Queria ter podido fazer mais. — ele sussurrou.
— Não adianta, você não ia superar minha missão de resgate na Câmara Secreta. — Harry brincou, tornando o momento um pouco mais leve.
— Ah, mas aquilo não foi mais que a sua obrigação. — Gina rebateu divertida. Fazendo todos rirem e Harry revirar os olhos.
— Obrigado. — Harry disse ao aproximar dos dois. Estendendo a mão para o sonserino.
— Sempre que precisar.
— Então? — falei, tentando dissipar o restinho do clima tenso de uma vez por todas. — Café da manhã?
Gina me lançou um olhar afiado, desconfiado, questionador e, ao mesmo tempo, carregado de cumplicidade. Depois que ela me analisou por um instante eu soube que a ruiva só precisava de uma confirmação. Então, meneei a cabeça de forma positiva num gesto mínimo e ela emitiu um gritinho. Harry e Draco se voltaram para ela no mesmo instante, preocupados. Senti minhas bochechas esquentarem quando ela não fez questão nenhuma de disfarçar e murmurou.
— ‘Tá tudo bem. Só soube de uma coisa que me deixou feliz.
Avançamos pela escada mais devagar que o normal. Apesar dos acontecimentos da noite anterior e de ter pendurado Ronald pelo clarinho, ou talvez exatamente por essas razões, Draco estava sentindo dificuldade para descer os degraus. Quando finalmente chegamos ao térreo, ele estava corado pelo esforço.
Não tinha ideia de que estava com tanta fome. Devorei dois pratos de ovos mexidos com torradas e suco de abóbora. Narcisa me lançava olhares discretos, mas desconfiados de tempos em tempos. E Gina estava se segurando para não rir. Em alguns instantes, tornei-me o centro das atenções à mesa. Meu rosto começou a esquentar e meu apetite diminuiu até quase desaparecer.
— Tem notícias do George, Andrômeda? — eu estava realmente preocupada com o gêmeo Weasley, mas também queria desesperadamente sair do foco.
— Ah, foi por isso que Ronald veio essa manhã. — ela pareceu encabulada ao dizer o nome do ruivo. — Ele vai ficar bem. Está acordado, se recuperando rápido. E pediu para ver vocês..
— Todos nós? — Draco soou realmente surpreso.
Andrômeda deu de ombros. E eu fiquei em dúvida se havia uma resposta para aquela pergunta que a bruxa preferiu não revelar.
— Quando podemos ir? — Gina estava visivelmente agitada com a notícia.
— Assim que se sentirem bem o suficiente.
— Vou me trocar. — anunciou já a meio caminho da porta.
Harry a seguiu e quando Narcisa retirou os pratos deles, notei que nenhum dos dois havia tocado na comida.
De alguma maneira, mesmo com todo o trabalho para cuidar das crianças e a confusão do sequestro, Andrômeda havia providenciado roupas para todos nós e em menos de uma hora, estávamos no corredor do terceiro andar do St. Mungus. O curandeiro que nos acompanhava explicou que George estava tomando poções muito fortes para acelerar a cicatrização das queimaduras e isso o deixava sonolento. Portanto, talvez ele não conseguisse acompanhar a conversa. Ele ainda ficaria no hospital mais alguns dias, mas estava progredindo rápido.
O curandeiro abriu a porta do quarto e avisou que não poderíamos demorar muito. Gina foi a primeira a entrar, puxando-me pela mão, ela se aproximou da cama, onde o irmão parecia dormir. George tinha o braço esquerdo totalmente envolto em faixas, assim como o tórax. Seu cabelo ruivo havia sido cortado rente a cabeça e, percebi, haviam algumas queimaduras no couro cabeludo, próximas à cicatriz da orelha que Snape decepou. Gina apertou minha mão e eu retribui, como forma de consolo e incentivo.
— Esperava que ele estivesse acordado. — ele sussurrou tristonha. — Para poder agradecer.
— Não vão faltar oportunidades para isso.
— Ele não precisava de mais cicatrizes. — ela correu a mão ao longo do braço do irmão, sem tocá-lo.
— Não se preocupe irmãzinha… Angelina acha cicatrizes sexy. Vão fazer apenas aumentar meu charme. — Gina deu pulo e bateu contra Harry, que estava logo atrás dela. — Oi para todo mundo.
— Eu devia saber. — a ruivinha murmurou.
George abriu os olhos e escaneou o quarto. Assim que avistou Draco, ele ergueu uma sobrancelha.
— Também estou feliz em te ver, Gina. Obrigado. — George rebateu.
— George, por que fez aquilo?
— Pra salvar sua vida, talvez… Deixe de ser mal agradecido, Harry.
— Eu não-
— Eu sei que não... Estou brincando. É que na hora, sei lá, não parecia haver muitas opções.
— Você quase matou a gente a susto!
— Por falar nisso… como foi que eu não rachei minha cabeça nos escombros?
— Porque a Hermione pensa rápido e tem menos tendências suicidas, só por isso.
Draco soltou uma risada sarcástica e abafada atrás de mim e me lembrei do comensal que saiu voando quando tentou bloquear meu caminho enquanto eu corria até George. Ali estava minha resposta para quem tinha me dado cobertura, não que eu estivesse surpresa.
— Como está se sentindo? — Luna deu um passo à frente.
— Bem… — ele bocejou. — Sonhei com o Fred hoje. — engoli em seco e senti Gina ficar tensa ao meu lado.
— Sobre o que foi o sonho? — a loirinha perguntou gentil.
— Nada demais… — outro bocejo. — Ele só estava lá… você sabe, com a gente.
George quase não conseguiu terminar de falar antes de cair no sono. Ficamos todos em silêncio, e percebi que passamos a fazer muito aquilo, cada um perdido em seus próprios pensamentos, tentando lidar com sua própria dor. Gina fungou e enxugou os olhos.
— Ele vai ficar bem, Gina. — Harry tentou consolá-la.
— É, vai… mas ficaria melhor se Fred ainda estivesse aqui.
Luna afagou o ombro da amiga.
— Não se preocupe. Lily Potter está cuidando dele, assim como Molly cuidou do Harry todos esses anos.
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