Dramione - Fotografias
31 A Ilha / Revolução
Notas iniciais
A Ilha
Pov. Mione
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
Os dias... Os dias se passavam e com eles, meu cansaço aumentava. Se não fizesse os riscos na parede toda vez que ia me deitar, estaria completamente perdida no tempo. Melgaço tinha cumprido sua promessa, todos os dias chegava comida para mim na hora do almoço e jantar enquanto ele estava fora.
Eu não sei se algo tinha dado certo, ou errado, mas já estava fazendo mais de sete dias que não o via e que ele não aparecia por aqui ou me mandava convites para as refeições, e eu esperava que ele morresse por lá e me deixasse em paz.
Theo e Simas, naquela dia que almocei com Melgaço, haviam conversado com Aline. A garota estava meio resistente, é obvio, depois de tudo que ela estava sendo obrigada a passar era compreensível, mas acabou aceitando nos ajudar no que fosse possível.
Eu quase nunca falava com ela, e ela parecia ter a mesma resistência em relação a mim. Geralmente era com Theo, ou com Simas que ela conversava durante poucos segundos enquanto a porta lá em cima ficava aberta esperando para ela voltar. Eu não sabia se ela estava aproveitando que Melgaço estava fora ou não, mas pelo menos minha marmita e a de Simas vinham bem mais cheias para que pudéssemos dividir com Theo, que não recebia nenhuma.
Os dias aqui eram como se fosse meu inferno particular. Meus livros, por mais que eu os amasse ainda sim não era o suficiente para me tirar do tedio, minhas lembranças e a saudade viraram meus inimigos mortais porque cada vez que eu me apegava a elas eu caia num buraco profundo de sofrimento e dor.
Eu queria estar ao lado de Draco agora, estar com ele e ajuda-lo a proteger as duas pessoas que ambos mais amávamos. Com o tempo eu já não sentia mais fome, não porque eu recebia minha própria comida, mas porque eu já não tinha mais apetite suficiente para isso não era aqui que deveria estar, não era essa comida que eu queria comer...
Eu apenas me afundava...
E sempre que eu sentia que minhas forças estavam indo, que estava no mais profundo buraco, eu via duas mãos estendidas para me puxar de lá e me arrancar pra fora, mesmo que eu caísse nele um milhão de vezes, a mão de Simas e surpreendentemente, a mão de Theo.
É claro que lhes contei sobre o que Melgaço queria com os gêmeos, Theo não pareceu muito chocado, mas a reação de Simas foi a mesma que eu tenho certeza que na hora que contasse para os outros amigos da família teria. Ele ficou assustado, indignado e com medo. Exatamente como eu também me sentia, acrescentando apenas a desesperança porque de certa forma eu tinha desistido de sair dali tão cedo...
Tirando-me dos meus devaneios, um grande alvoroço foi ouvido do lado de fora, mas precisamente perto das grades encostadas no chão, para nós, o teto. Eu estava deitada no chão da cela, Theo e Simas cada um na sua cama e assim que escutaram se levantaram também.
Por um segundo eu tive esperanças... Mas elas morreram ao ouvir que os gritos de sustos, foram substituídos por risos e divertimento.
–Merda! Exclamei furiosa.
Os dois me olharam e pude ver que eles estavam pensando a mesma coisa que eu minutos atrás... Não era tão simples assim, não poderíamos contar simplesmente que Harry Potter iria aparecer aqui sem nem ter ideia de onde estávamos. Se eu acreditava em magia? Claro que sim, eu sou bruxa. Se eu acreditava em milagres? Hoje? Não, com certeza não.
Milagre para mim hoje, nesse inferno, era conseguir dormir numa cama de casal ao lado do Draco ou estar sentada numa mesa grande de jantar com Enzo e Sophia... Não estar numa cela, onde estávamos vivos por “conveniência”.
O barulho lá fora continuou. Pelo visto os capangas de Melgaço se divertindo com o que parecia alguns animais bem irritadiços. O olhar de Simas em mim me fez estremecer, ele pensava a mesma coisa que eu... Qual experiência deu errado dessa vez? Quem eles iriam matar por causa dos seus erros?
Não falamos nada, Theo parecia estar num casulo só dele... Ou provavelmente estava contando os dias que iria morrer, porque quão mais próximo Melgaço voltasse para essa ilha dos terrores, mais próxima a morte dele estava. Mesmo nós três não tocando nesse assunto, sabíamos que se não saíssemos dali ele seria o primeiro de nós a morrer.
Nesse momento eu agradecia a ser eu, e não o Draco a estar ali... Não conseguia imaginar a possibilidade dele morrendo aqui nas mãos de Melgaço apenas por capricho, pelo menos eu estando aqui, a probabilidade de permanecer mais tempo viva era maior, Draco não iria viver mais que Theo, com certeza.
Como se pensar no diabo o atraísse, Melgaço chegou no fim daquele dia, o vigésimo terceiro dia de inferno, mandando meu convite. Eu bufei de raiva e apesar de não ter vontade nenhuma de aceitar, eu tive que ir.
Ele estava lá lindo e imponente, não troquei uma palavra com ele o jantar inteiro mesmo ele insistindo muito, só que o meu silêncio não parecia incomoda-lo nenhum pouco. Ele conversava sozinho comigo principalmente quando a mesa foi retirada, como se eu respondesse mentalmente o que não era verdade, eu não lhe dava nenhuma atenção... Até ele tocar num assunto me fez gelar a espinha.
–Lucio Malfoy e Avery já estão com Joseph há alguns dias, ele vai trazê-los para a ilha.
Pela primeira vez na noite eu o olhei realmente, seus olhos claros e um sorriso me receberam.
–Vejo que ganhei sua atenção – falou satisfeito – Não se preocupe querida, eles não vão fazer nada contra você.
Oi? Querida? Fiz uma careta, mas ele nem pareceu perceber direito. Então o Ministério tinha aceitado a primeira troca...
–Acho bom se despedir do seu amigo, ele e a auror vão voltar para casa daqui a três dias.
Uma parte de mim queria que Simas fosse com eles, seu joelho já estava quase cem por cento bom graças a uma poção que Aline havia conseguido nos mandar a cinco dias atrás no meio da marmita dele a pedido de Walisson, mas outra parte sentia medo de ficar sozinha quando... Quando Theo não estivesse mais por aqui.
Eu me negava a pensar que Theo fosse morto... Mas infelizmente se não saíssemos dali logo eu ficaria sozinha, porque mais cedo ou mais tarde Theo também seria retirado dali... Eu não queria ficar sozinha, só eu e Walisson nessa ilha onde tínhamos todas as varinhas apontadas para a nossa direção.
Eu gostava do Simas, mas era egoísta demais para ficar feliz por ele ir. Eu gostava do Theo e era egoísta demais para deixa-lo morrer... O que eu podia fazer? Eu estava no meio do quinto dos infernos, não queria ficar sozinha.
Como eu convenceria Simas a ir e me deixar aqui apenas com Theo, que logo me deixaria também, quando eu mesmo não queria que ele fosse embora? Eu estava sendo fraca, nunca tinha me sentindo tão fraca na vida como agora.
–Hermione?
Olhei para ele confusa, tinha ficado perdida novamente nas minhas limitações mentais e egoístas de “não querer ficar sozinha nessa ilha”.
–Acho que por hoje já está bom querida, podemos entrar.
Novamente a palavra querida. Affs! Ele estava me achando com cara de esposa dele?
Nos levantamos, tínhamos jantando novamente no jardim da casa sendo vigiados pelos capangas dele. Dei a volta na mesa e ele ficou ao meu lado enquanto caminhávamos para a mansão, quem o visse de longe, ou de perto, sem conhecê-lo nunca imaginaria que aquele homem tão bonito fosse um monstro que iria tirar a vida dos próprios netos, meus filhos.
Eu nunca iria gostar dele! Eu nunca sentiria ao menos piedade ou admiração por Melgaço porque eu simplesmente o abominava de todas as formas...
Risadas grossas foram ouvidas perto da floresta e nos viramos para olha-los assim que nos aproximamos da entrada da mansão.
–Desculpe chefe.
A voz grossa de um homem soou engraçada, mas ele não estava sozinho e carregava algum animal muito peludo e castanho-avermelhado dentro de uma jaula com mais três homens o ajudando.
–Estão achando graça de algo? – Melgaço perguntou firme e os homens negaram com a cabeça – Então façam o serviço de vocês, avise os outros que daqui meia hora eu vou para o laboratório.
–Sim senhor.
Os homens saíram carregando a criatura que era extremamente estranha, e que parecia realmente ser uma experiência que deu errado, mas não me era desconhecida. Os olhos do “animal” me encararam junto com o mesmo barulho que ouvimos cedo na cela.
–Crianças. Murmurou Melgaço tocando minhas costas para entrarmos e eu bruscamente tirei sua mão de lá.
Adentramos a mansão e eu mesmo abri a porta de carvalho e desci o corredor sem que nenhum deles me pedisse ou mandasse, esperando-os apenas para abrir a cela.
–Seis capangas para uma mulher sozinha – riu Theo – Achei que fosse mais corajoso Alexandre.
Eu nem tinha visto que Alexandre estava atrás de mim, ele me empurrou para dentro da cela e entrou caminhando furioso para o rumo de Theo sendo segurado por François e Walisson.
–Olha aqui moleque, se eu fosse você não ficava com brincadeiras, seus dias estão contados. Acho bom se despedir da sua “amiga”. Cuspiu Alexandre.
–Pode deixar. Riu Theo o deixando mais nervoso.
–Não ache tanta graça assim Dore, seu amigo já pegou ela – falou apontando para Simas – Eu se fosse você pegava logo antes que morra. Aproveita a vadia!
Senti meu corpo inteiro entrar em combustão de raiva e meus dentes trincaram, minhas mãos se fecharam em punho e eu escutei um barulho alto e grande de um punho chocando com a cara de alguém. Quando dei por mim, não era eu que havia acertado em cheio a cara do homem caído no chão com o nariz sangrando, era um moreno alto que balançava a mão xingando alguns palavrões obscenos.
Olhei para Simas, olhei para Theo, que olhou para Simas e começamos a rir, os capangas nos olhavam sem entender enquanto nós apenas riamos. Arrastaram Alexandre da cela que resmungava “desgraçado, meu nariz!” tentando se levantar.
Walisson trancou a cela piscando para mim com um sorriso de lado.
–Levem ele para a enfermaria – mandou Walisson – De novo.
Os outros capangas começaram a rir também, enquanto nós três ainda não parávamos. Simas estava encolhido na cama segurando a barriga e Theo dando gargalhadas altas e grossas sacudindo a mão, pelo visto eu tinha que dar umas aulinhas para ele.
–O Alexandre sempre torna meus dias mais alegres. – Falei tentando parar – Obrigado Theo.
–Por nada, eu já queria fazer isso há muito tempo.
Nossas risadas estavam mais baixas conforme fomos nos controlando. O que não foi muito bom para mim... As lembranças vieram em raio, era estranho sorrir quando na verdade só se tem motivos para chorar.
–Lucio e Avery estão sendo trazidos para cá, e daqui três dias você e Natalia vão ser mandados, Simas. Falei de uma vez.
O sorriso que estava no rosto do Simas desapareceu, dando lugar a outra máscara, a de desgosto.
–Eu não vou, já falei.
Não discuti com ele, não era o momento. O silencio na cela foi constrangedor, encolhi as pernas e joguei o cobertor por cima encarando as pequenas gostas de sangue de Alexandre no chão.
–Como foi o jantar? Perguntou Theo tentando quebrar a tensão.
–Nada demais, além disso. Ele passou o jantar inteiro falando sobre os negócios dele, mas eu não troquei nenhuma palavra com ele em nenhum momento além de me chamar de querida DUAS vezes.
Nós três sorrimos.
–Ele está obcecado por você, não tem outra explicação – falou Theo, eu gostava desse lado dele racional, porque ele era ainda mais inteligente do que Jeovane o que era muita coisa já que Jeovane era muito inteligente – Ele te quer ao lado dele, não duvido nada que ele não te deixe ir quando os gêmeos virem – olhei feio para ele e ele ergueu as mãos como se rendesse – Eu sei que não vai haver troca, é só uma suposição.
Apenas acenei, Theo estava certo, na verdade quase sempre ele estava certo porque apesar de ser ás vezes sincero demais, suas teorias sempre davam em algum fundamento.
–Ele te quer como rainha Hermione, não como se ele tivesse um reino ou algo parecido, mas de todas as mulheres do mundo a que ele escolheu para viver a eternidade ao lado dele é você – continuou Theo – Não que ele esteja apaixonado, eu duvido muito que um homem como Melgaço se apaixone de verdade por alguém. Ele é inteligente demais para isso. Mas ele está obcecado por você por tudo que você significa. Ele se vê desafiado a ter você, pelo simples fato que de todas, você é a única que ele nunca pode ter. Você nunca vai o amar, nunca vai mudar de lado, nunca vai ao menos gostar dele... Ele vê em você o maior desafio de todos, e de certa forma isso pode ser bom, ou ruim. Bom, por quê ele vai proteger você de todos aqui dentro...
–Isso é bom, pelo menos ela está segura. Falou Simas.
–Mas tem o lado ruim. Falei e Theo concordou.
–Qual? Perguntou.
–Na cabeça dele, ninguém pode toca-la, mas ele pode.
Theo não precisou explicar mais nada, até mesmo Simas entendeu.
–Hermione, temos uma péssima noticia para você. – falou Simas depois de longos minutos e eu o incentivei ele a continuar me levantando para me arrumar para deitar – Aline disse que a irmã dela está aqui.
Eu não sabia se ficava aliviada ou furiosa. Minha vontade naquele momento era de estrangular o pescoço daquela vadia até a cabeça rolar no chão, sacudi a cabeça com aquele pensamento, era irresistível demais.
–Pelo menos isso explica porque Alexandre sabe que a gente transou antes, ela deve estar espalhando minha vida pela ilha.
–Muita coisa saiu no jogo da verdade ou desafio. Até hoje me lembro da cara do Draco na despedida de solteiro quando você contou sobre a gente. – Riu Simas – E a cara dele quando você dançou para o Rafael? Foi hilária, eu jurava que ele ia te arrancar de lá no tapa.
–Alice bem que ficou afim do Rafael. Falei entrando no banheiro.
–Espera aí! Então vocês dois realmente já transaram? Perguntou Theo e pela primeira vez eu vi que ele estava de boca aberta.
Dei de ombros.
–Extremamente bêbados. Sussurrou Simas.
–E foi bom?
–Ei, eu escutei isso. Gritei com a escova na boca.
Terminei minha higiene e sai do banheiro, Simas e Theo conversavam baixo e pararam rindo assim que eu parei na porta.
–É sério? Perguntei bufando.
–Qual é? E engraçado saber que a santinha de Hogwarts, é uma devoradora sexual que pegou Simas bêbada. Draco deve ter ficado maluco, agora sei como você agarrou o loiro – riu Theo e eu revirei os olhos – Você nem fica corada? Eu acabei de comentar sobre sua vida sexual e você nem ficou com vergonha? Quando tempo eu fiquei fora? Tem razão da Aline não gostar de você, você já transou com a paquera dela.
–Sem gracinha Theo. Pedi me embrulhando de novo, já estava bastante frio.
Ele cruzou as pernas na frente sentado e estralou o pescoço, tentando esconder o riso.
–Foi alguma experiência que deu errado lá em cima? Perguntou Simas mudando de assunto extremamente vermelho, apesar de não conversar com ninguém era notável a troca de olhares de Simas e Aline.
–Não sei, os capangas dele estavam carregando um animal numa jaula. Acho que pode ser realmente uma experiência que deu errado, mas tenho a sensação que o conheço de algum lugar, talvez é só impressão minha.
–Que jeito é ele? Perguntou Theo.
–É peludo, muito peludo. Parece uma bola de pelo castanho avermelhada, com os olhos e dentes grandes. Respondi.
–Não é experiência. Eles vivem aqui, não sei o nome deles porque desde quando me pegaram não confiam muito em mim para “missões”, apenas para matar as experiências que deram errado e a segurança no galpão.
–Então ele não é um animal novo? Perguntei desconfiada.
–Já o viu antes? Perguntou Simas.
–Já de longe, tem uns cinco na ilha. Eles capturaram todos e colocaram o rastreador bruxo neles para quando precisam de material para as poções e experiências malucas do Melgaço.
Mordi o canto dos lábios.
–O que você sabe dessas criaturas Theo? Perguntei.
–Minha área nunca foi criaturas magicas, sou mais da área de poções comuns, feitiços e Artes das Trevas.
–Mas os detalhes dessa criatura? Insisti.
–É um bicho feio pacas, uma das criaturas mais feias que já vi – ele falou rindo – É uma bola de pelos atarracado ao chão, só que por incrível que pareça o bicho é rápido, mas com cinco pernas até um elefante se torna veloz.
Um sorriso se abriu no meu rosto e ele parou de rir.
–O que foi? Perguntou Simas.
–Cruzem os dedos e rezem – falei me levantando e indo para a minha bolsa – Eu já falei que amo o livro Animais fantásticos e onde Habitam?
–Não. Respondeu Simas.
–Você não tá dizendo o que eu acho que está dizendo está? Perguntou Theo.
Sacudi a cabeça.
–Será que dá para vocês me falarem o que está acontecendo? Perguntou Simas estressado.
–O pássaro que a gente viu, lembra que conversamos sobre ele? Perguntei.
–Sim, quer dizer que estamos numa ilha mágica. Falou Simas como se eu tivesse o ofendido.
–Acontece que se essa criatura que Theo disse é realmente bruxa e o tanto que ela parece ser estranha, tem um lugar que podemos achar mais sobre ela.
–Animais Fantásticos e onde habitam. Falou deixando a ficha finalmente cair.
–Agora se não for pedir muito e nem tomar conta da sua boa vontade de querer dar uma sabe tudo irritante tentando explicar para o lerdo Ronald Weasley – Theo falou irritado – PEGA LOGO A MERDA DESSE LIVRO.
Theo tomou minha mochila e virou de cabeça pra baixo, uma avalanche de livros e outras coisas que estavam ali caíram no chão.
–É sério? Eu sabia onde estava Theodore Nott. Eu. Quero. Tudo. Ai. Dentro. Falei irritada.
–Acho bom você fazer o que ela está mandando.
–É mais rápido. Justificou Theo.
–Coloca tudo aí dentro. Falei alto.
Ele revirou os olhos e começou a guardar todas as minhas coisas enquanto eu avistei o livro que tanto queríamos.
–Eu não mandei você parar. Falei me sentando na minha cama.
–Tá vendo? Por isso eu não me casei. Falou mal humorado.
–Você não casou Theodore Nott, porque ninguém te quis ainda.
–Eu que não quero ninguém!
–É sério que vão discutir sobre isso, enquanto estamos a algumas paginas de descobrir em qual lugar estamos? – Perguntou Simas e nós olhamos surpresos para ele – Você guarda logo as coisa dela que jogou no chão, e você Sra. Malfoy... ABRE A MERDA DESSE LIVRO.
Abri a pagina do livro e comecei a passar as páginas, ainda nervosa. Minha mão estava suada e eu sentia meu coração disparando conforme as paginas iam passando. Aquela sensação de esperança voltando com tudo, eu não conseguia me imaginar mais perto de sair dali...
–Eu não acredito! Falei assim que avistei.
–Não acredita o que? Perguntou Simas.
–É um quintípede! Eu devia ter ligado o nome ao animal! No laboratório do Melgaço, eu vi alguns frascos de ingredientes escritos: quintípede.
–Então aquela coisa feia é um quintípede? Perguntou Theo se levando.
–É esse o animal que você falou? – perguntei mostrando e ele confirmou com a cabeça – Então é o quintípede mesmo!
–Mas aí diz alguma coisa de onde estamos? Perguntou Simas.
Voltei-me para o livro, meu peito batendo num ritmo ainda mais acelerado enquanto meu dedo trêmulo percorria as linhas do texto e eu recitava...
–“O quintípede é um animal carnívoro perigosíssimo com um certo gosto por humanos. Seu corpo atarracado e rente ao chão é coberto por pelos castanho-avermelhados, do mesmo modo que suas pernas, que terminam em patas tortas. Ele é encontrado na ilha de Drear, ao largo do extremo norte da Escócia, razão pela qual a ilha foi considerada imapeável.”
–Meu Merlin! Exclamou Theo.
–Meu Deus! Disse Simas.
Um sorriso gigante se abriu nos lábios de Simas, Theo ainda parecia sem reação enquanto eu sentia as lagrimas finalmente rolaram pelo meu rosto em meio ao meu sorriso.
–Estamos na ilha de Drear! Falei sentindo meu coração sair do peito.
O silêncio era palpável, ninguém falava nada. Era como se a nossa ficha não tivesse caído ainda, eu não sabia o que fazer e nem eles... Tínhamos a informação, mas agora o que podíamos fazer com ela?
–Precisamos avisar a Natalia – falou Simas – Ela pode levar essa informação para os outros.
–Seria bem mais fácil se você fosse com ela. Falou Theo.
–E deixar Mione aqui sozinha? Tenho certeza que eles preferem que eu fique aqui com ela.
–Theo vai ficar aqui comigo, Simas.
–Por quanto tempo? Melgaço está aqui Mione, se os outros não virem nos resgatar logo... Eu sinto muito Theo, mas estou falando apenas a verdade. Você está com os dias contados cara, por mais que eu não queira admitir porque gosto de você, essa é a verdade.
Theo apenas acenou com a cabeça para ele. Apesar de não falarmos isso abertamente, sabíamos bem desse “detalhe”.
–Mesmo assim você precisa ir Simas. Falei.
–Vendo pelo outro lado Mione, Simas está certo – Theo falou e eu ergui uma sobrancelha, não foi ele que acabou de falar que o Simas tinha que ir? – O que? Eu não vou conseguir sair daqui vivo mesmo, não vai dar tempo dos seus amigos chegarem aqui antes deles me matar. Eu tenho o que? Dez dias de vida? No máximo quinze?
Massageei as têmporas, nervosa. A gente achou o lugar, mas deixar Theo morrer era demais! Ele era meu amigo, eu não podia deixa-lo morrer.
–Vamos pensar em alguma coisa. Por hora precisamos descansar. Vamos dar um jeito de avisar Walisson o mais rápido possível e descobrir uma forma da informação do local chegar até Natalia nesses três dias que temos ainda.
Theo já sabia que o Walisson estava disfarçado de Marciano, uns dois dias depois de ser trancafiado aqui ele descobriu sozinho depois de dar apenas dois chutes errados e ficar se achando por descobrir antes de Melgaço.
– Minha cabeça vai explodir! Falei nervosa.
–O Walisson não pode tentar falar para a Natalia? Perguntou Simas.
–Ele está chefiando aqui Simas, se ele ficar indo para o lado de lá, vai ser muito suspeito – falou Theo – Se o chefe dos capangas da casa, estiver andando perto da auror, eles vão desconfiar.
–Podemos tentar Aline? Sugeriu Simas á contra gosto.
–Vamos tentar com ela...
–Vamos ser realistas! Eles não vão deixa-la em Londres, eles vão soltar Natalia e ela vai demorar uns três dias para chegar ao ministério depois que sair daqui o que ainda vai levar mais três dias. É tudo muito bem planejado, ela toma uma poção para não fazer magia, nem aparatar ela pode... Não vai dar tempo de eles chegarem aqui, eles têm que organizar muita coisa antes.
–A gente vai sair daqui juntos Theo – falei firme – Se não der tempo deles virem a gente foge.
–Como se fosse fácil sair dessa cela, não é a primeira vez que fico nessas celas especiais. Se fosse fácil já tínhamos saído antes...
Eu o interrompi o abraçando e o pegando desprevenido e assustado, podia fazer pouco tempo, mas eu gostava de Theo... Ele e Simas eram o que não me deixaram sucumbir esses dias. Os braços dele que estavam nas grades envolveram meu pescoço retribuindo.
–A gente vai sair daqui. Falou Simas e eu o puxei para o abraço também.
–Isso é meio guey, não acham? Brincou Theo.
–Abraço em grupo. Riu Simas.
–Concordo com Theo, isso está meio estranho. Falei rindo.
Nos separamos e nos sentamos no chão escorados na grade.
–Obrigado por não me julgarem, a gente se conhece a o que? Sete dias? E eu me sinto muito bem com vocês, como poucas vezes me senti.
–Não vou falar que me sinto bem aqui. Isso é o Inferno! Brincou Simas e eu dei um tapa na sua cabeça.
Eu fui dormir muito tarde, os outros dois pareciam não ter nada de errado como se estivessem num hotel cinco estrelas enquanto eu encarava o teto.
No dia seguinte passamos ele inteiro tentando pensar em maneiras diferentes de sair dali. Rasguei a pagina do livro que estava falando sobe o quintípede e tentei arrumar as beiradas para ficar menor deixando apenas a explicação essencial sobre o quintípede. Eu rezava com todas as minhas forças que esse papel chegasse na mão da Natalia e que eles entendessem o que aquela mensagem quer dizer.
Aline desceu com o carrinho, eu ia almoçar ali na cela e jantar com o maluco. Assim que ela colocou as marmitas no buraco eu passei o papel rapidamente para a sua mão. Ela olhou para a porta onde o capanga a esperava e olhou para mim com uma sobrancelha erguida.
Theo colocou o dedo indicador nos lábios pedindo para ela não falar nada e eu apenas sussurrei: “Entrega para a Natalia, por favor”.
Ela pareceu ficar em duvida, não seria nada fácil para ela sair da mansão e ir até a enfermaria, mas ela apenas concordou com a cabeça discretamente e empurrou o carrinho ladeira a cima.
Meu coração parecia queria sair pela boca com tudo aquilo... Nos dois dias seguidos eu tentei ao máximo deixar meu coração mais leve, mas estava impossível. Eu continuei jantando com Melgaço, mas não conversava com ele. Simas se negou a ir com os capangas quando eles vierem lhe buscar, eu pensei que eles iriam insistir e arrasta-lo, mas por incrível que parecesse quando ele se negou a ir, nenhum deles nem ao mesmo tentou obriga-lo.
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
O vigésimo sexto dia na cela foi tenso, Natalia partiria sozinha levando o pedido de troca... Eu pelos gêmeos! Eu já tinha cansado de falar que era perda de tempo, Draco não iria entregar as crianças para eles. O problema era o que Theo havia falado, Melgaço com certeza tinha um plano se não, não estaria tão tranquilo assim.
Naquele noite eu não recebi um convite para jantar, o que era sinal que Melgaço não estava na ilha, ou estava ocupado demais com seus “convidados”. A grande porta de carvalho abriu ás oito horas para o jantar, levantei-me de uma só vez para falar com Aline, mas não era ela que descia com as marmitas, era Walisson segurando uma marmita em cada mão e a porta lá em cima fechada.
–Cadê a Aline? Perguntou Simas.
–Ela foi pega.
Dei um soco no meu travesseiro e Theo um na parede. Era o que faltava agora! Merda!
–Como assim foi pega? Perguntou Simas.
–Eu não tenho tempo, se eu ficar muito tempo aqui vão desconfiar – Walisson falou rápido – pegaram ela saindo do laboratório hoje perto da enfermaria e ela é proibida de andar para aquele lado, então prenderam ela, ela pediu para eu falar que a entrega foi feita. O que tem isso?
–Graças a Merlin! Ela entregou o papel para Natalia. Falei aliviada.
–Que papel?
–Com a localização daqui Walisson. Respondeu Simas.
–Graças a Merlin. Ele falou encostando a cabeça na grade e eu ri.
–Está tudo bem lá em cima? Perguntou Theo sem jeito, ele e Walisson quase nunca se falavam.
–Tirando o fato de que Lucio Malfoy e o velhote do Avery estão andando por ai como se fossem chefões e tem uma vadia que acha que é a primeira dama. Tá ótimo. Respondeu sarcástico.
–Alice. Falamos eu, Theo e Simas juntos.
–Quantos dias de poções? Perguntei preocupada.
–Quatorze no máximo.
–Temos quatorze dias então para eles virem nos resgatar. Falei mordendo o canto do lábio.
–Nem tanto assim, temos apenas dez até eles matarem seu amigo aí – falou Walisson – Se lembram dos enforcamentos da época medieval? Melgaço marcou a data de morte dele, não se fala de outra coisa na ilha. Vão montar uma forca na frente do galpão e todos os capangas, cobaias, todo mundo... Parece que já aconteceu isso antes, mas esse é realmente um grande evento, dia seis de março tem até data marcada... Eu tenho que ir... Qualquer coisa me avisem.
Rapidamente ele se virou e subiu correndo de volta para a porta de carvalho. Nos deixando sozinhos.
–Precisamos sair daqui antes deles... Antes desse dia.
–Algum plano? Perguntou Simas, Theo permanecia calado.
– A gente vai pensar em algum.
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Revolução
Quanto mais tempo você quer que o tempo demore, mas o tempo corre... Parece que o mundo e o relógio sempre correm contra o seu favor. Os dias ali pareciam estar contados, de maneiras diferentes, para mim e Simas significava que um dia os aurores iam acabar chegando aqui para nos salvar, para Theo era o dia da forca, literalmente, e para Walisson o dia que Melgaço iria descobrir que ele na verdade era apenas um traidor...
Aline continuava na prisão do laboratório, os dias dela também provavelmente estavam contados... Eu ainda jantava com Melgaço, mas intercalávamos em almoços também. Ele sempre falava demais, e eu não abria a boca para falar com ele nem uma única palavra.
Theo nunca tocava no assunto da sua morte, mas pra que falar se você já sabe que vai morrer? Eu me sentia a pessoa mais imprestável do mundo, meu amigo ia morrer e eu não conseguia pensar em nada. Simas parecia no mesmo estado que eu, ficava o tempo todo tentando descobrir uma forma de sairmos e principalmente, uma forma de salvarmos a Aline também.
Eu sentia tanto nojo de Melgaço. O cara era odioso, queria matar seus próprios netos por causa de um elixir ridículo, queria obrigar centenas de pessoas a ver um enforcamento... Quem era esse homem?
Uma hora ele se mostrava um homem sem coração, não ligando para nada a não ser seu próprio umbigo. Na outra, lá estava ele puxando a cadeira para eu sentar, me enchendo de elogios cabulados e me tratando como se eu realmente fosse a pessoa mais interessante do mundo.
Ele veio visitar Theo três vezes, nesse período de vida... Mas ele se recusou a relatar os nomes das pessoas que eram aliadas. A última vez que o chamou foi no ultimo dia de vida de Theo, dia cinco de março, no dia seguinte ás 18 horas ele seria... Morto.
Nós jantamos na mesa e Melgaço apenas me comunicou que seus capangas iriam buscar eu e Simas para assistir a execução do nosso “amigo”. Eu não falei nada, e ele voltou a falar o quanto Lucio Malfoy e Avery eram importantes para seu negocio porque ambos já trabalharam com artigos não comerciáveis... E blá blá blá.
IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
Trigésimo sexto dia no inferno, dia 6 de março de 2006, dia da semana... Vai saber! Dia da execução de Theodore Nott.
Eu mal dormi aquela noite, e praticamente não toquei no jantar. Quando fui dormir já era quase de manhã e acordei poucos minutos depois com a figura de um homem parado junto com dois capangas me olhando, eu levei um susto com isso. Já fazia um bom tempo que ele não fazia isso o que me assustou bastante...
– O que você está fazendo aqui? Perguntei irritada.
–Voltou a falar comigo? – perguntou Melgaço com um sorriso de lado e eu o ignorei sustentando meu olhar – Eu vim lhe trazer um presente, um aviso e uma proposta.
–Então fala!
–A garrafa de whisky é para você se despedir do seu amigo – o capanga dele colocou a garrafa no suporte do buraco que colocava a marmita – O aviso é que, talvez seu marido ame mais você do que seus filhos.
–O que você quer dizer com isso? Perguntei, Simas e Theo pareciam ter acordado.
–Que ele aceitou fazer a troca – meu coração disparou – Vai ser feita daqui uns dias, seu amigo auror vai poder ir junto, mas eu tenho uma proposta a te fazer...
Eu nem consegui pensar, nem responder. Tentava pensar numa logica para Draco entregar nossos filhos, ele me prometeu...
–As crianças vêm para a mansão e você pode ficar aqui se quiser – olhei para ele sem entender – Se você ficar, sabe o que eu te ofereci e a proposta ainda está de pé. E como um presente eu te deixo ficar com uma das crianças...
–O que você quer dizer com isso? Perguntei.
–Que eu te deixo escolher ficar com uma das duas para continuar viva, caso você resolva ficar comigo. – ele falou com um sorriso – É uma proposta irrecusável! Você fica comigo, fica imortal e ainda por cima ganha um dos pirralhos para sempre. Qual você vai querer para ficar com a gente querida? Eu prefiro o varão, Enzo vai ser um homem muito bonito, mas se você preferir pode escolher a menina, geralmente as mulheres preferem uma companhia...
Eu senti tanta raiva, que senti minhas pernas tremerem e os meus dentes trincarem. Peguei o livro que estava na minha cama com mais e quatrocentas paginas e taquei com todas as minhas forças, ele passou retinho pelo vão da grade, mas infelizmente não acertou ele que apenas deu um passo para o lado como se deslizasse de uma forma irritantemente elegante.
–Qual você prefere querida? Ele perguntou como se eu não tivesse feito nada.
–O que eu escolho? O QUE EU ESCOLHO? VAI A MERDA MELGAÇO.
–Eu sou estou de dando uma oportunidade de escolha. Você pode escolher salvar um querida...
–Querida. É. A. Puta. Que. Te. Pariu. Falei pausadamente.
Queria tanto sumir com aquelas grades da minha frente e arrancar a cabeça dele fora apenas para tirar aquele sorrisinho maldito dos seus lábios.
–Não me culpe se depositou sua confiança no homem errado. Falou Melgaço.
–Draco não é o homem errado. Falei, mas para mim mesmo do que para ele.
–Não que eu esperasse menos dele, mas realmente me surpreendeu bastante ele aceitar a troca. Pensei que teria que bolar outro plano, a fé que você colocava nele era revigorante que até eu achei que ele tivesse se tornado digno de uma mulher como você. Posso ser todas as coisas que você me falou durante esse tempo Hermione, mas eu nunca mentiria para você. As cartas sempre estão na mesa. Até mais tarde, vistam-se de luto hoje, em respeito ao falecido.
Ele subiu e seus capangas deixaram uma muda de roupa branca para Theo vestir.
–Draco não iria entregar as crianças Mione, você sabe disso. Falou Simas.
–Eu sei?
Eu mesmo me surpreendi com a pergunta que saiu dos meus lábios, me sentei no chão encostada na cela e abri a garrafa de Whisky de fogo. O álcool queimou minha garganta.
–Você sabe que ele não faz isso, ele te ama, e apesar de não conviver com ele há mais de sete anos eu sei que ele gosta das crianças. Qual é Hermione? Você sabe que ele nunca faria isso, até parece que não conhece o teimoso do Draco Malfoy, ele é o cara que entrou para o lado de Voldemort para proteger a mãe, e olha que ele não queria isso de jeito nenhum. Ele deve estar querendo ganhar tempo, ele vai fazer qualquer coisa para proteger seus filhos e você.
Theo se sentou ao meu lado e pegou a garrafa da minha mão tomando um gole menor que o meu. Ficamos parados sentados no chão observando o nada.
–Você prometem que vão sair daqui vivos? Perguntou Theo, a garrafa já estava quase no fim.
–Que pergunta mais idiota Theo, você não vai morrer. Falou Simas passando a garrafa para ele.
–Eu tenho uma hora de vida no máximo! Eu quero morrer sabendo que meus dois novos e únicos amigos vão sair daqui vivos.
–Eu vou te ajudar a sair disso. Falei para ele.
–Com uma faquinha de mesa que você pegou no jantar? Uma faca Tramontina não vai me salvar, me desculpe.
–Eu acho que você bebeu isso demais – falei, eu realmente tinha pegado uma faca, como eu ia usa-la? Não sei, mas alguma coisa eu tinha que fazer – Eu não vou deixar você morrer. É uma promessa.
Evitei o olhar, eu não estava bem... Eu não conseguia abrir um sorriso sequer porque como eu poderia sorrir, se em pouco tempo meu amigo estaria com uma corda no pescoço? Minhas mãos estavam tremulas de certa forma, não por causa do álcool, ele parecia não fazer efeito nenhum, nem por causa da comida, já fazia tempo que eu não conseguia comer direito. Era porque de certa forma, de uma forma dolorosa até, eu tentava ser firme para os outros dois, quando eu mesmo não tinha tantas esperanças de sair dali viva.
–Bebe o resto. Mandou Theo me entregando o final.
Peguei a garrafa e virei, dando quase três doses de uma só vez. Minha garganta queimou feito brasa, mas eu nem ao menos tossi.
–Vamos nos arrumar? Pelo ponto do sol, está quase na hora de ir. Chamou Simas.
Theo foi o primeiro a tomar banho e se arrumar, vestiu as vestes brancas que Melgaço havia trazido para ele colocando apenas o sobretudo que ele já tinha e o coturno, se sentou na cama com as pernas afastadas e apoiando os braços nela. Eu não falei nada, não conseguia dizer nada, apenas rezava para que desse tempo e que um milagre acontecesse... Que os aurores chegassem na ilha e salvasse a gente desse inferno, e que desse tempo de Theo continuar vivo. Realmente um milagre. Eu oscilava em ter fé e não ter o tempo todo.
Assim que Simas saiu do banheiro eu entrei, tomei um banho rápido e me troquei. Ignorei todas as minhas roupas pretas, vesti um short curto jeans e peguei uma blusa caída no ombro e manga comprida que quase cobria o short todo rosa choque com uma estampa de flores, bem chamativa. Prendi meu cabelo e calcei um tênis star branco com preto, coloquei a faca no cós do short e coloquei um cinto por cima, para parecer “casual”.
–Essa é a Hermione Granger que eu conheço. Riu Theo da minha roupa “colorida”.
–Ele que vá a merda!
Não demorou nem dois minutos que eu sai do banheiro e a porta de carvalho se abriu num estrondo, por ela desceu todos os dez capangas responsáveis pela gente numa organização impecável, a camisa sempre vermelha, agora preta sem o sobretudo.
Walisson sorriu de canto para mim e abriu a cela nos mandando sair.
–O chefe foi bem claro sangue ruim. Falou Alexandre.
–Sério? Perguntei me virando de costas para ele algemar.
–Eu não sei porque ele te suporta ainda, sua nojenta.
–Sem ofensas hoje hein. Falei piscando para ele.
Theo foi na frente algemado, com ele Alexandre e mais três numa formação impecável. Simas atrás dele, com mais quatro e eu por ultimo, com Walisson e mais outro.
– Abaffiatto... Confundus. Sussurrou Walisson no homem.
O homem que estava com a gente olhou para nós com um sorriso bobo.
–Você não está escutando nada.
O homem apenas sacudiu a cabeça.
–O que vamos fazer? Ele perguntou para mim enquanto seguíamos os outros.
–Eu não sei, eu só tenho um plano: Não deixar o Theo morrer. Como eu vou fazer ele, eu não sei.
–Eu só tenho mais quatro dias de poção Mione.
–Eu sei, eu sei... Acredite eu estou pensando em fazer algo... Na hora certa eu preciso que você corte a corda de Theo, eu vou dar um jeito de chamar a atenção de quase todos, você precisa entregar uma varinha para Simas – falei bem baixo e rápido, toda hora olhando para os que andava na frente –Manda os dois fugir, se vira para convencer eles a se esconderem por prazo indeterminado na mata, a ilha é grande... Enquanto a gente só espera. Você pode ir com eles...
–E deixar você aqui? Tenho ainda quatro dias, eu vou ficar.
–Tudo bem, dá um jeito de entregar uma varinha para Simas, por favor.
–E como você vai fazer para eles conseguirem fugir?
–Eu não sei, mas na hora vocês vão saber... Não vou ser muito discreta, o importante agora é libertar Theo. Dá um jeito de avisar todos os aliados do Theo, na hora certa eles vão ter que agir também. Vamos fazer uma bagunça por aqui.
Estávamos quase chegando no local da execução, uma multidão de pessoas estava em pé em formação, inclusive crianças... Na frente estavam várias cadeiras onde estavam sentados todos os cientistas e mestre de poções, os capangas estavam espalhados por todo o terreno, nunca havia visto tantos. Na primeira fileira, no meio, estavam duas cadeiras bem ornamentadas de madeira com estofado vermelho onde Melgaço já estava sentado, do lado dele Avery, e do lado da cadeira vazia Lucio. Todos os presos, inclusive Aline, estavam dos lados do grande palco com a forca, para verem o que acontece com os traidores. Tão melodramático esse Melgaço!
Todos estavam vestidos de preto, menos eu e Theo e se não fosse um enforcamento eu provavelmente estaria rindo da situação, mas pelo contrario, eu estava tremendo muito.
A nossa “comitiva” parou na frente das fileiras, mais precisamente na frente de Melgaço um pouco distante dele. Percorri os olhos pelo lugar e franzi o nariz ao ver Alice, ela me olhou curiosa com uma sobrancelha erguida e um sorriso que eu tinha vontade de arrancar no tapa, sentada entre Lucio e Joseph.
Lucio me olhou com desgosto, seu nariz se retorceu numa careta e seus lábios se franziram como se estivesse com nojo de mim. Eu o desafiei com o olhar a me insultar, mas ele não fez isso. Avery nem ao menos percebeu a minha presença, estava parecendo estar num tedio mortal ao lado de Melgaço.
Melgaço se levantou com um sorriso de canto, com um olhar Walisson/ Marciano entendeu que era para me soltar e assim fez se retirando em seguida.
–Eu sabia que não iria me obedecer. Quando você me obedece? Devo dizer que está linda.
Alice quase engasgou com a própria saliva e cara de nojo de Lucio dobrou de estado.
–Eu separei um lugar para você.
Não, não, não... Eu não acredito que ia passar por isso, a cadeira ao lado do chefão era minha. Quase morri de vergonha por isso.
–Posso me despedir do meu amigo? Perguntei.
–É claro!
Me aproximei de Theo que estava com Alexandre e eles o soltaram e tiraram o saco preto que tinha colocado na cabeça dele. Passei os braços pelo pescoço dele erguendo os pés para abraça-lo.
–Adeus. – Ele falou – Foi bom te conhecer, manda um abraço pro Draco e seus pirralhos.
–Você. Não. Vai. Morrer. – falei pausadamente – Na hora certa eu quero que você corra com Simas, corra com toda a sua vontade para o meio da mata. Se escondam e ficam lá. Promete que vai fazer isso?
Ele me olhou confuso.
–Promete? Insisti.
Ele olhou para trás, onde Simas estava na ponta da fila com Walisson e mais três capangas ao lado dele.
Ele apenas acenou e eu me afastei dando um beijo na bochecha dele. Os outros o levaram e quando Alexandre se aproximou de mim, eu dei as costas para ele e segui até Melgaço.
–Eu sinto muito – falou tocando meu queixo e eu tirei sua mão do meu rosto – Eu pedi para não se apegar. Quero que seja minha acompanhante hoje, tem um lugar de honra ao meu lado.
Revirei os olhos e ele me guiou até a cadeira ao lado dele e consequentemente de Lucio. Nos sentamos e ficamos encarando o palco na nossa frente, com um alçapão e uma alavanca. O badalar de um relógio marcando seis horas da tarde fez todo mundo se sobressaltar.
–Se me dar licença. Pediu Melgaço.
Pra que duas cadeiras se ele realmente nem vai assistir? Perguntei-me mentalmente.
–Vai e não volta. Respondi com um grande sorriso forçado.
Ele sorriu de volta divertido e se encaminhou para o palco. Seus capangas o olhando como se fossem capazes de se atirar na frente dele. Ele se posicionou de frente no palco, Theo estava atrás com a corda no pescoço, literalmente.
–Hoje estamos aqui para mostrar o que acontece com os traidores – falou com sua voz aveludada e ampliada – Theodore Nott...
Eu não consegui me concentrar nas palavras dele, eu apenas pensava numa forma de não deixar que nada acontecesse com Theo. Discretamente puxei a pequena faca de mesa e coloquei na manga da minha blusa, perto do punho.
O discurso nele continuou e eu apenas olhava para todos os lados. É sério, dona Hermione, que você chegou a pensar que realmente vai conseguir sair viva daqui? Perguntou minha consciência. Eu nem tive trabalho de respondê-la, mordi o canto dos meus lábios com força olhando através do homem de preto, para meu amigo atrás dele.
–Eu sinceramente não sei o que os bruxos veem numa sujeitinha sangue ruim igual você Srta. Granger.
Levei alguns segundos para ver de onde vinha a voz e me deparei com Lucio Malfoy olhando para mim, enquanto Melgaço ainda discursava.
–Vai ver são meus olhos. Respondi sarcástica.
–Duvido muito. Você é mulher de usar uma vez, não vejo como meu filho, um sangue puro Malfoy deixou se envolver por uma mulher igual a você. Tão... Descartável e nojenta que me dá nojo.
–Sentimento reciproco. Falei com os dentes trincados.
–Saiba que você nunca vai ficar com Draco, vagabunda. Meu filho ainda vai acordar e perceber o quanto está desonrando o nome da nossa família.
–Você já fez isso por ele, Lucio – pronunciei seu nome com o mesmo nojo que ele pronunciava “sangue ruim” – Draco apenas está conquistando um lugar dele no mundo, limpando o nome que você sujou.
Os dentes deles trincaram e seus lábios crisparam, seus dedos ficaram brancos apertando sua bengala, onde ele guardava a sua varinha. Um sorriso se formou nos meus lábios.
–Eu quero ter o prazer de te matar pessoalmente sua sangue ruim, não ligo que Melgaço tenha um fascínio por você. No fim das contas ele vai me agradecer.
O discurso de Melgaço terminou e eu nem prestei atenção, arregalei os olhos, mas ele não puxou a alavanca, apenas desceu dando lugar a um homem muito alto que era o segundo no comando aqui, o segundo cara que sabia a localização da ilha.
–É realmente um desperdício. Uma sangue ruim sentada aqui, e sendo morto uma linhagem inteira de sangue puro. Falou Lucio com desgosto.
Tudo passou muito confuso... Como se fosse em câmara lenta, mas muita coisa ao mesmo tempo. Eu senti os olhares de Simas e Walisson em mim, vi Theo fechando os olhos quando o homem se aproximou dele e vi Melgaço mais distante caminhando em direção a cadeira ao meu lado.
Meu coração estava mais acelerado do que nunca, respirei fundo e olhei para Lucio.
–Realmente um desperdício, que eu não posso deixar acontecer. Falei e cravei a faca em sua mão.
Tudo pareceu acontecer muito rápido depois daquilo, a adrenalina tomando conta completamente do meu cérebro, num segundo eu estava cravando a faca na mão de Lucio, no outro eu estava segurando a varinha dele jogando Melgaço a vários metros de distancia. Vários gritos foram ouvidos e mais rápido do que eu o ataquei, levitei a maioria das cadeiras causando uma grande confusão.
Vi de canto Melgaço ser puxado pelos seus capangas, não sabia se desacordado ou acordado, vi pelo outro Theo cair dentro no alçapão no exato segundo que o homem ao seu lado puxou a alavanca e alguém cortou sua corda. Mais gritos começaram a ser ouvidos e uma grande confusão começou acontecer no fundo. As cobaias começaram a correr desesperadas para todos os lados, alguns cientistas se levantaram, mas não contra mim, me ajudaram a causar ainda mais confusão.
Os aliados de Theo finalmente se ergueram, erámos poucos, mas o suficiente para fazer uma grande bagunça no lugar. Procurei por Melgaço e não achei, seus capangas começaram a cercar um grupo de pessoas que tentavam correr para o meio da mata, apontei a varinha de Lucio para os presos e soltei a maioria das suas correntes.
Os cientistas do lado de Melgaço não eram duelistas, e foram escoltados pelos capangas para dentro do galpão enquanto dezenas de feitiços voavam pelas nossas cabeças. Procurei por Simas e Theo e não os achei, eu apenas rezava para eles estarem longe e disparava feitiços contra todos que eu pudesse acertar.
Tudo parecia acontecer tão rápido, eu não conseguia distinguir os gritos das vozes, era como se eu tivesse na batalha de Hogwarts novamente, mas gigantes, aranhas e dementadores. Apenas inocentes correndo de um lado para o outro, tentando ao máximo fugir de um lugar que não tinha como fugir.
–Quer uma ajuda?
Virei-me para Aline e ela estava atrás de mim, suspirei aliviada, por um segundo pensei que era a irmã maluca dela. Eu não sei como, mas ela tinha conseguido uma varinha e estava de costas para minhas costas.
Theo estava certo, ela era boa. Cobrimos uma as costas da outra acertando feitiços para todos os lados, acertando os capangas que pareciam se multiplicar. Muitos presos fugiram para a mata, enquanto alguns homens/cobaias pegavam tudo que podiam na frente, desde pedaços de madeiras até as cadeiras para atacarem.
Mas não tinha como sairmos daqui, no final aquela “confusão” não ia passar de uma dor de cabeça... Pelos menos alguns tinham que fugir.
–Corre para o galpão dos jatos, levanta voo e leva com você o máximo de pessoas que puder.
–E você? Perguntou Aline.
–Eu vou atrás de você.
Ela acenou e saiu correndo na frente para o lado do galpão onde um monte de pessoas corriam para se esconder da confusão ou tentar invadir para pegar os jatos, eu não sabia dizer, talvez as duas opções. Eu não tinha ideia que a coisa ia ser tão grande assim, era para ser apenas uma distração, acabou virando uma revolução.
Talvez eu apenas comecei o que todos aqueles que estavam aqui presos feito animais queriam fazer. Aproveitei a multidão de pessoas e corri na direção do galpão. Avistei de longe Simas e Theo próximos um do outro na porta do galpão mandando as pessoas entrarem, enquanto eles mantinha alguns capangas distantes. Eles sorriram para mim e eu sorri de volta, voltando a desferir o máximo de feitiços que eu podia àqueles que se aproximavam demais. Olhei para eles e Simas tentou me falar alguma coisa, mas não entendi.
Senti uma mão pegar no meu ombro e algo pontiagudo ser colocado contra o meu pescoço, a mão sobre o meu ombro sangrava e eu não precisava me virar para ver quem era.
–Chega de palhaçada sangue ruim! Disse Lucio.
A mão me fez virar bruscamente e me encurralou, ele não estava sozinho. Alexandre que tinha um corte no supercilio e mais dois capangas estavam com ele e Walisson que me olhava confuso.
–Vem com a gente.
Simas e Theo tentaram correr na minha direção, mas antes de entregar a varinha de Lucio, eu os impedi, jogando-os dentro do galpão e trancando as portas. Lucio estendeu a mão e eu lhe entreguei sua varinha.
A mão dele puxou meu cabelo com força me empurrando para andar pra frente, e eu senti um soco direto no meu rosto me deixando completamente tonta. Abri os olhos com dificuldade e senti os braços de Alexandre me pegando no colo e passos atrás de nós.
Eu ainda ouvia gritos vindos de todas as partes, mas pareciam tão distantes agora. O homem que me carregava andava muito rápido e eu via os outros protegê-lo. Escutei o ranger da porta da mansão e o barulho ali dentro, como se um monte de pessoas corresse de um lado pra o outro ali dentro também.
Devo ter apagado por alguns segundos, porque quando acordei estava sendo jogada no chão frio do corredor da minha cela.
–Agora está com sono sua vadiazinha. Falou a voz irritante de Alexandre.
Levantei-me sentindo ainda meu rosto pegar fogo onde ele havia acertado e encostei na parede. Na cela meu pior pesadelo se possível, Lucio estava com uma mão vermelha, mas não sangrava mais, segurando sua varinha. Com ele seis capangas, sete com Walisson que me olhava intensamente analisando a situação, ele procurava um jeito de me ajudar, mas eu não queria que ele me ajudasse, seria arriscado demais para ele.
–Eu devia matar você aqui e agora, mas o chefe não vai gostar nada disso. – Disse Alexandre segurando meu queixo. – Você é ridícula! – Ele gritou me acertando um chute.
–Você é ridículo, boneca de luxo do Melgaço. Falei de joelhos.
–O que vamos fazer com ela, Sr. Malfoy? Perguntou François.
–Eu não sei... Será que depois de tudo que ela fez, Fabricio Melgaço ainda vai querer ela por perto? Perguntou Lucio como se pensasse realmente, mas não passando de um teatro.
–Ele quer fazer a troca senhor – respondeu Walisson/Marciano – Ela ainda é importante para ele.
–Mas isso não quer dizer que não possamos aplicar um castigo nela não acha? Perguntou Alexandre apontando sua varinha para mim.
–O chefe não vai querer isso para ela. Você sabe que ele anseia pela segurança de Hermione Granger. Falou Walisson.
–Marciano está certo, vamos deixa-la aqui e vamos ajudar os outros. Há muita confusão lá em cima. Falou François.
–Está com pena dela, François? Perguntou Alexandre.
–Só estou cumprindo ordens. Respondeu François.
–Ela destruiu tudo lá em cima, aquela confusão é culpa dela – falou Lucio – Eu sou o sub chefe aqui, pode dar uma lição nela, Alexandre.
Um sorriso se abriu no rosto dele ao escutar a autorização.
–Vamos começar com algumas feridas... Defodio.
Eu senti lâminas me cortarem, mas nada estava tão perto de mim para isso... Senti minha pele e carne se romper em vários lugares, a dor daqueles cortes eram insuportáveis, senti lagrimas escorrerem pelo meu rosto. Olhei para a minha perna e vi uma corte fundo, assim como havia um no meu braço, e enquanto ele apontava a varinha para mim, outros eram feitos.
–Estupefaça... Estupore.
Os cortes pararam de ser feitos assim que Alexandre se chocou com a parede. Olhei zonza tentando entender o que acontecia, perto de mim, Walisson apontava a varinha para todos de uma só vez, o outro capanga estava distante, jogado na subida do corredor.
–Ora, Ora, acho que temos um traidor. Falou Lucio surpreso.
–Já chega, ninguém vai tocar nela. Falou Walisson se posicionando na minha frente.
–Finite Incantatem. Lucio falou rapidamente.
O rosto de Walisson foi voltando ao normal, assim com as roupa ficaram um pouco mais larga, eu havia me encolhido na parede tentando não me concentrar na dor que eu sentia em meus cortes. Cadê Fabricio Melgaço quando se precisa dela? Se é que ele iria aliviar alguma coisa para mim, após eu estupora-lo na frente de todos os seus seguidores e cobaias.
–Esse não é um capanga de vocês, é? Perguntou Lucio.
–Não, é um infiltrado. Merda! Falou François contrariado.
Eu tentei me levantar, mas não consegui, apenas me estiquei e peguei a varinha de Alexandre. Num “Estupefaça” não verbal, François caiu no chão arremessado.
–Estupefaça... Gritou Walisson.
–Sectumsempra!
Os feitiços foram rápidos demais para eu entendê-los. Um acertou outro capanga que foi lançado para trás, o outro atingiu Walisson o jogando contra a parede, perto de Alexandre, fazendo cortes bem mais profundos e em maior quantidade do que os meus.
–Ainda estamos em três contra uma, sangue ruim – falou Lucio abrindo os braços para os outros dois ao lado dele – Entrega essa varinha.
Com raiva joguei a varinha para ele, enquanto um dos seus homens apontava para Walisson que ainda sangrava no chão.
–Vamos acabar logo com isso...
Um grande barulho de motor foi escutado um pouco distante, meu coração disparou aliviado. Se tudo abençoasse, era o jato deles, Simas, Theo e Alice dentro de poucos minutos estaria longe daquele inferno, ele tinha conseguido pegar o jato, mesmo com dor não deixei de sorrir. Eles estavam indo embora... Mais gritos foram ouvidos do lado de fora, dos deixados para trás e me apenas me lamentei por eles. Teriam que ficar aqui comigo também.
–Porque você está aqui Malfoy? Por que Melgaço queria tanto ex comensais? Perguntei, não tinha mais nada a perder mesmo.
–Você é tão curiosa sangue ruim insolente – riu Lucio – Ele quer um exército, representamos poder garota. Simples assim. Vamos purificar de vez o mundo bruxo, eu vou apenas ajuda-lo a continuar o que o Lorde das Trevas queria.
–Essa é a diferença entre você e Draco – falei segurando com as mãos no corte da minha coxa esquerda – Você é apenas submisso, gosta de ficar na sombra. Primeiro de Voldemort e agora de Melgaço.
Mesmo com todo o barulho lá fora eu pude ouvir os dentes dele trincarem. Lucio Malfoy se aproximou de mim como se seus pés nem se encostassem no chão e a mesma faca que eu havia enfiado na sua mãe, estava com ele. A faca que tinha começado a pior revolução da Máfia de Melgaço. Sorri de canto, mas não por muito tempo.
–Só vou retribuir o favor. Falou entredentes.
O deslizar da faca foi tão rápido que eu nem a senti perfurando minha barriga. Não doeu no começo, era como se algo gelado percorresse meu corpo num deslizar fácil e suave.
–Eu não vou te matar, acho que foi apenas um pulmão – ele falou sério, seus olhos pareciam brilhar intensamente – Vamos ver a cor do seu sangue ruim.
Ele puxou o objeto gelado de uma vez, ai sim eu senti dor, as palavras dele me lembraram as de Bellatrix anos atrás na mansão dele. Eu senti o jorro quente e instintivamente coloquei minha mão sobre o buraco, minha boca parecia completamente seca e eu senti muito sede.
Nenhum dos capangas falaram nada, mas o olharam assustados... Minhas mãos estavam tremendo, enquanto eu tentava conter o sangue que saia daquele ponto especial.
–Para não perder o costume – falou Lucio limpando a faca nas vestes e jogando perto de mim – Acho que se lembra desse feitiço, vou tentar honrar a memória da minha cunhada... Crucio.
Cada músculo do meu corpo estava doendo, cada osso do meu corpo parecia estar se deslocando do lugar. Aquilo era pior do que o feitiço de Alexandre, pior do que a faca me perfurando... Aquilo era o inferno. Meus dentes se cerraram com tanta força enquanto cada centímetro do meu corpo se contorcia. Eu não contava o tempo, parecia se arrastar. Meus gritos finalmente escapuliram pelos meus dentes, quase rasgando minha garganta extremamente seca... Eu iria morrer...
Ele parou e eu vi que minhas lagrimas se misturavam com a poça de sangue. Não tinha um centímetro do meu corpo que não doía mesmo eu não recebendo mais aquele feitiço.
–Eu quero que se juntem a mim. Falou Lucio.
Ergui minha cabeça alguns centímetros, os capangas olharam para Lucio, receosos. Mas ele permanecia firme.
–Crucio. Falaram em uníssono.
Não... Não... Aquilo era dor. Meu corpo não tinha mais ossos firmes, eu os sentia sendo moídos em cada pedaço do meu corpo. Meus cortes pareciam querer competir com a dor interna e latejavam enquanto minhas costas se arqueavam, os gritos saiam involuntariamente... Eu não iria morrer... Eles não seriam tão bondosos a ponto de me fazerem aquela caridade...
Eu não queria mais sentir aquela dor. Apenas pensamentos incoerentes passavam pela minha cabeça. Não... Eu não queria sentir aquilo... Se eu morresse não iria sentir mais nada. Draco ia cuidar de Enzo e Sophia, quem precisa de mim? Pra que viver quando se sente tanta dor?
–Ela vai morrer Sr. Malfoy, está sangrando muito. Falou alguém.
–Ela é dura na queda. Aguenta mais. De novo – eu esperei por mais dor, mas não veio naquele instante – DE NOVO.
Com o grito, agora ela veio... Ela me atingiu, mas eu já não me retorci mais no chão. Eu apenas sentia a dor, eu apenas sentia os pontos onde a carne do meu corpo estava completamente rasgada. Senti meus ossos reagirem a dor como se tivessem virado gelatina. Senti meus olhos pesarem... Não... Eu não tinha mais forças para me retorcer, eu não tinha mais forças para gritar... Eu só queria dormir. Dormir para sempre, para não sentir mais nada e naquele momento eu senti que eu podia dormir... Eu queria morrer.
Minha garganta estava seca, eu estava numa poça úmida e molhada, mas não era agua... Era meu sangue. Meus olhos pesaram enquanto meu corpo já estava completamente anestesiado de qualquer tipo de dor. Apenas as centenas de agua sendo espetadas na carne anestesiada do meu corpo. Eu mal podia sentir minha respiração, não tinha mais controle de nada... Eu queria desistir, eu queria dormir e não acordar mais, porque eu acordaria? Eu não tinha motivos pra acordar, pra que acordar se eu ainda estaria ali? Não. Eu não iria acordar...
Senti meu peito subir alto e me engasguei com meu próprio folego, sim... Eu iria desistir... Lutei tanto para ser derrotada aqui... Pelo menos meus amigos estavam salvos, Theo iria viver com Simas e quem sabe eles voltassem com ajuda para salvar todos aqueles que foram deixados para trás quando eu não estivesse mais aqui... Quando eu não sentisse mais aquela dor.
Escutei um baque estrondoso, mas não consegui olhar. As agulhas pararam e eu senti meu corpo perder qualquer sentido, mas não antes de escutar a voz rouca que eu tanto rezei para escutar chamando meu nome nesses trinta e seis dias de inferno.
–Hermione...
Num momento parecia estar mais perto a voz, no outro cada vez mais longe, eu estava indo para a escuridão tão tentadora ouvindo a voz rouca me chamar.
–Hermi...
Enfim eu dormi.
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