Drama Total: Floresta dos Mistérios

Capítulo 14 — dIa dos mortos

A lua cheia pairava sobre a floresta de Tipikanizaw, lançando um brilho esverdeado e desconfortavelmente sobrenatural. A trilha sonora era tensa, quase cinematográfica. A câmera, em modo noturno, tremia levemente enquanto seguia os passos silenciosos de uma figura encapuzada, caminhando entre as árvores com um ar cerimonial.

A figura entrou numa cabana rústica no meio da mata. No centro do cômodo, um fogão a lenha crepitava. Um caldeirão borbulhava, soltando uma fumaça espessa e avermelhada. No canto, Chef Hatchet observava tudo de braços cruzados, ainda mais carrancudo que o normal.

CHEF: Finalmente. Tava achando que ia morrer esperando aqui. Vamos agilizar isso!

A figura se aproximou do caldeirão e, sem dizer uma palavra, jogou um punhado de cogumelos suspeitos e um pó vermelho cintilante, mexendo tudo com uma colher enorme.

Chef soltou um sorrisinho malicioso.

CHEF: Isso! Agora sim vai ficar no ponto!

A câmera girou dramaticamente, revelando sob o capuz... ninguém menos que Chris McLean, com aquele brilho maquiavélico no olhar.

CHRIS: Está tudo pronto, Chef...

Ele tirou o capuz como se estivesse no clímax de um ritual obscuro e espiou o conteúdo do caldeirão com entusiasmo.

CHRIS: Nossa sopa está perfeita!

Chris atravessou a cabana até o fundo, onde uma velha TV de tubo descansava sobre uma pilha de livros mofados, ao lado de um sofá surrado.

CHRIS: Hora de ver o que nossos adoráveis eliminados têm a dizer!

Pegou uma tigela fumegante de sopa e se jogou no sofá como um rei satisfeito no trono.

CHEF: De todas as suas ideias malucas... essa é, de longe, a mais preguiçosa. — Comentou, sentando ao lado de Chris. — Um episódio inteiro de entrevistas sem sair da almofada. Só você mesmo.

CHRIS: E o melhor? Nem precisei pagar aquele moleque! Disse que faria tudo “em nome do jornalismo”. Hahaha! Inocente. Muito mais fácil de manipular que a Esther... ou a Blaineley.

Chris mencionou o nome da mulher com um olhar de puro desprezo.

CHRIS: Tá, chega de papo. Vamos rodar essa belezinha!

Ele puxou um controle remoto de algum canto entre as almofadas suspeitas do sofá e apertou o botão.

A imagem da câmera se fundiu com a estática da TV...

*Abertura*

Uma tomada aérea revela a silhueta gótica de uma mansão solitária no topo de uma colina envolta em névoa. Quatro andares. Jardins geométricos com estátuas de cervos em cada canto. Uma fachada que já foi o auge do luxo.

Mas havia algo mais.

Essa mansão tinha um segredo: ela simplesmente aparecia e desaparecia do topo da colina quando bem entendia. Sem aviso. Sem lógica. E, alguns dias atrás, ela voltou.

Corte para um zoom dramático no portão da frente.

A porta de madeira range e se abre lentamente, revelando um garoto visivelmente nervoso. Ele ajeita os óculos redondos com um dedo trêmulo, segura firme um bloco de anotações numa mão e, na outra, um microfone vintage. Apesar dos dezoito anos, se veste como se cobrisse a queda da Bolsa de 1929.

TOBY: Ah! Vocês chegaram! Já estamos ao vivo?

Ele olha fora de quadro, recebe um aceno afirmativo e então limpa a garganta.

TOBY: Sejam bem-vindos, fãs e amigos, ao meu documentário extra especial: “A Vida Após a Reserva Florestal de Tipikanizaw”, apresentado por mim, Toby Darlington! Cidadão orgulhoso de Whistler, Colúmbia Britânica!

Ele sorri. A câmera registra seus dentes levemente amarelados, efeito colateral da absurda quantidade de café que consome desde os doze anos.

TOBY: A pedido do glorioso e econômico Chris McLean, estou aqui para entrevistar os atuais ocupantes desta mansão misteriosa: os campistas eliminados da temporada! Este lugar, que um dia pertenceu a uma ramificação da poderosa família Von Nordwesten, agora abriga o nosso elenco. E em breve... seremos júri de verdade, decidindo quem vai ganhar Drama Total: Floresta dos Mistérios!

Seus olhos brilham.

TOBY: Mal posso esperar pra dar meu voto!

Toby entra no saguão principal com passinhos ansiosos. A câmera o acompanha enquanto ele atravessa um portal arqueado, revelando um dos quatro salões de festa da mansão. A lente permanece ali por alguns segundos, registrando a decoração imponente.

TOBY: Aquele salão ali? Vai ser palco da nossa festa de encerramento, hoje à noite! Tudo bancado pelos nossos colegas Seth e Serena. Claro, né? Ela é uma Von Nordwesten, afinal...

Ele coça o queixo, pensativo.

TOBY: Mas se você tá assistindo isso, provavelmente já conhece bem a fama, ou a infâmia, da família Von Nordwesten. Quer dizer... até duas semanas atrás, pelo menos. De lá pra cá, algumas coisas mudaram.

Corte brusco. Um chiado estático. Nova cena.

A câmera treme levemente enquanto se move por um dos muitos cômodos escuros da mansão. Toby surge atrás de Serena, enfiando o microfone quase no rosto dela, com o entusiasmo de um repórter que não conhece limites.

TOBY: Serena! Serena! Como você se sente agora que se emancipou legalmente da sua família? Foram só duas semanas! Você pagou pra acelerar o processo? Sente saudades dos seus pais? Ou já superou tudo?

SERENA: Sai da minha frente, repórter de meia tigela! — Ela revira os olhos, puro desprezo. — E para de fazer essas perguntas idiotas.

Ela ergue o queixo com firmeza, como se fosse dar uma entrevista na passarela de Milão.

SERENA: É ÓBVIO que eu tô feliz por me desvencilhar das falcatruas da minha família. — O tom é firme, mas o olhar vacila. — E é óbvio que eu sinto saudade. Eles são meus pais, afinal. Mesmo sendo criminosos... foram eles que me criaram.

Por um instante, parece que ela vai desabar. Mas Serena respira fundo, engole seco e vira o rosto, fechando a expressão com força.

SERENA: E, SIM, eu paguei pra acelerar o processo. Minhas contas foram descongeladas e agora posso gastar o que eu quiser, QUANDO eu quiser! — Ela sorri, satisfeita. — Agora sai daqui. Preciso me maquiar pra festa.

Toby e o cameraman permanecem imóveis.

TOBY: Tem certeza que não quer dar uma entrevista? Esse documentário vai ganhar todos os prêmios, eu tenho certeza!

Serena cruza os braços, impassível.

SERENA: Toby, eu te pago pra me deixar em paz.

Corte seco. Chiado. A câmera balança, tentando focar. O enquadramento está torto, e o rosto de Serena surge fora do centro, visivelmente irritada.

Ela suspira alto, encarando a lente com aquele olhar fulminante.

SERENA: Isso aqui tá todo torto. Que curso de cinegrafia você fez? — Ajeita o cabelo, tentando manter a compostura mesmo indignada. — Mas tudo bem. Já vi que não vão aceitar meu suborno. Prometi cinco minutos. Depois disso, sumam da minha frente. E apaga aquela foto minha de biquíni, Toby. Tô falando sério.

Cruza as pernas, apoia o cotovelo no braço da cadeira e encara a câmera com sarcasmo.

SERENA: Vamos lá. Sim, eu me emancipei. E foi rápido. Tipo, muito rápido. Mas é o que acontece quando se tem um bom advogado. Ou, no meu caso, quando seu pai te dá um aos dez anos. Obrigada, papai.

Sorri sem mostrar os dentes. Um riso seco escapa.

SERENA: Ele provavelmente vai precisar de um também. Com todas as denúncias... trabalho análogo à escravidão, apropriação de terras, fraude, estelionato, peculato... é quase um bingo de crimes corporativos.

Faz uma pausa teatral.

SERENA: As contas dos meus pais foram congeladas. E, honestamente? Acho que vão ficar presos um bom tempo. Talvez não pra sempre. Ainda tem gente tentando livrar a cara deles. Amigos leais. Mas também tem muita gente... que agora é leal a mim.

Ela sorri de canto enquanto cutuca as unhas.

SERENA: Não por amor, óbvio. Mas porque eu ainda tenho dinheiro. Um fundo... digamos... “protetivo”. Sempre tive. E, diferente de muita gente rica por aí... eu sei administrar.

Muda de posição, mais relaxada.

SERENA: Ainda tenho meu staff. Cozinheiro, segurança, assistente, personal stylist, etc. Acham mesmo que vou abrir mão disso só porque virei a ovelha negra da família? Por favor. Isso aqui é o básico da sobrevivência pra alguém como eu. Só... redirecionei as prioridades.

Ela olha pra cima, entre o sonhador e o prático.

SERENA: Tô procurando um lugar novo. Não uma mansão. Quer dizer... talvez uma mansão pequena. Dois andares, piscina, vista pro mar, espaço pra eventos íntimos, tipo 200 convidados no máximo. Algo modesto, sabe?

Sorri como se falasse de uma cabana rústica.

SERENA: O ponto é: não sou mais só uma Von Nordwesten. Eu sou a minha própria marca agora. E isso... é libertador. E aterrorizante. Mas principalmente libertador.

Silêncio. A câmera treme levemente, como se o cameraman tivesse batido o joelho em algum móvel.

TOBY: Uma última pergunta! — Serena fecha os olhos e respira fundo. — Na última vez que estivemos nessa mansão, você foi aterrorizada pelos fantasmas dos funcionários da sua família. Mas desde que retornamos, eu não notei nenhum deles. Você sabe de algo?

SERENA: Sabe, Toby, parece que os fantasmas dessa mansão conseguiram ver meu coração puro e boa intenção.

Uma caneca cai com um enorme estrondo no fundo. Serena suspira.

SERENA: OK, acho que todos estamos tentando melhorar, não é? Eu estou tentando meu melhor e os fantasmas também e assim vivemos em paz. Eles não me assombram e eu não causo mal a ninguém mais.

Ela sorriu forçadamente.

SERENA: Pronto. Feliz agora, Toby? Só edita isso direito e não coloca nenhuma transição brega, tá? Eu te conheço. Se botar efeito de estrela brilhante, te demito de uma função que nem existe.

Ela se levanta, ajeita a roupa com elegância e sai do quadro, deixando para trás um rastro de perfume caro e julgamento.

***

A câmera corta para Toby diante de uma porta antiga. Ele sorri com o entusiasmo forçado típico de repórter.

TOBY: Uau! Que entrevista reveladora, hein? O que será que o futuro reserva pra Serena Von Nordwesten? Não faço ideia... mas tô morrendo pra saber que vestido ela vai usar na festa de hoje! Mas antes...

Ele bate levemente na porta, como se temesse acordar um urso adormecido.

TOBY: Hora de um update com a campista que menos apareceu desde a eliminação. Xerife Harper... tá aí?

A porta range devagar. Harper surge com sua clássica expressão de tédio misturado com ameaça. Uniforme impecável.

HARPER: O que você quer, garoto? Tô ocupada com trabalho policial oficial.

A câmera espiando o quarto mostra outra realidade: pilha de biscoitos, copo de leite quase vazio, novela policial pausada na TV. Nada de distintivo, algema ou investigação em andamento.

TOBY: Vim te entrevistar, claro! Quem não quer uma conversa exclusiva com a respeitadíssima xerife de Eureka?

Harper cruza os braços, mas não esconde um leve rubor. A bajulação colou.

HARPER: Hmph... já que alguém aqui reconhece autoridade e respeito...

Ela abre a porta de vez, resmungando algo sobre "desperdício de tempo".

Corte para Harper sentada com postura rígida numa poltrona surrada. Na frente, uma caneca com “MELHOR XERIFE”. Toby aparece ao lado, ligeiramente espremido no quadro, tentando ajustar o microfone e manter a compostura.

TOBY: Senhoras, senhores e suspeitos em geral... estamos de volta com uma entrevista exclusiva com quem causou medo em criminosos, e em câmeras: a própria Xerife Harper! Diretamente da gloriosa... última colocação da temporada.

Harper ergue o dedo, ofendida.

HARPER: Ei! Última não, tá legal? Eu fui a segunda eliminada. O McConnor saiu antes. Que ele tenha voltado depois não muda isso. Foi uma tentativa do Chris McLean de manchar minha imagem. E funcionou. Maldito canalha carismático...

TOBY: Então, tecnicamente... você é a vice-pior?

HARPER: Exatamente. Medalha de prata... no torneio da injustiça.

Toby ri e folheia suas anotações.

TOBY: E falando em injustiça, ou como alguns dizem, consequência de atitudes mandonas, como Eureka reagiu à sua imagem no programa? Os apelidos incluíam “preguiçosa”, “fala muito e age pouco” e “xerife de papelão”.

Harper respira fundo, se endireita e responde com altivez.

HARPER: Primeiro: "preguiçosa" é só outro jeito de dizer eficiente. Não corro atrás de qualquer barulho no mato como um guaxinim ansioso. Eu observo. Analiso. Depois ajo. “Fala muito”? Desculpa se minha inteligência assusta. “Age pouco”? Gestão delegada. Eureka entendeu. Meus eleitores ainda me respeitam. Especialmente porque... minha parceira me defende.

TOBY: Ah, sim! Sua parceira... policial?

HARPER: Detetive Carla Rodriguez. Brilhante. Rápida no gatilho e nos argumentos. Ela disse que fui mais contida que o normal. Pra ela, isso é crescimento. Comentou que, se eu tivesse levado minha algema reserva e um pouco menos de orgulho, teria vencido.

TOBY: Palavras fortes. Agora, mudando de foco... você viu a Willow chegar ao Top 3. Como ex-líder da equipe, como se sente vendo ela assumir a liderança e, sejamos francos, fazer melhor?

Harper hesita. A mandíbula trava. Coça o queixo. Cede com relutância.

HARPER: A garota lenhadora... mandou bem. Não é fácil manter a equipe nos trilhos com dois adolescentes hormonais no encalço. Mas ela foi firme. Direta. Decidida. Deu um belo chute no Tommy. E manteve o Cyrus na linha. Colocou o dever acima da emoção. Tem futuro. Posso até... escrever uma carta pra academia de polícia.

Pausa dramática.

HARPER: Talvez. Ela já é maior de idade, né? Seria uma boa xerife. Não melhor que eu, claro.

Toby sorri e folheia a última página.

TOBY: E pra fechar... Harper, animada pra festa de encerramento hoje à noite? Vai usar alguma roupa especial? Um vestido policial, talvez?

Harper revira os olhos e cruza os braços.

HARPER: Festa? Sou xerife, garotinho. Não tenho tempo pra... dancinhas, suco de fruta e balões. Meu dever é proteger, servir... e monitorar comportamentos suspeitos com lanterna e bloquinho.

Ela solta um suspiro teatral. Um leve rubor trai o discurso.

HARPER: Mas... vou dar uma passada, claro. Como segurança. Toda festa precisa de ordem. Nunca se sabe quando alguém vai tentar roubar o controle da música ou sabotar o ponche.

TOBY: Perfeito! Muito obrigado, Xerife Harper! Essa entrevista foi mais emocionante que um boletim de ocorrência!

A câmera foca Harper bufando... mas com um sorrisinho no canto da boca. Toby se levanta. A câmera começa a se afastar.

***

A câmera abre num terraço iluminado pela luz dourada da tarde. Almofadas macias, uma fonte discreta com água cintilando em glitter e uma mesinha com queijos raros e frutas exóticas compõem o cenário. Seth está reclinado numa espreguiçadeira, usando um suéter de caxemira bege claro e pulseiras de ouro minimalistas. Ao lado, Toby ocupa a pontinha de uma poltrona dourada, equilibrando um bloquinho de notas com visível nervosismo.

TOBY: Bem... não é todo dia que a gente entrevista alguém que, num reality show, tropeça literalmente num tesouro e sai mais rico que o Chris McLean. Seth, obrigado por nos receber.

SETH: Claro. Sempre reservo um tempinho pra imprensa... ou, no seu caso, Toby, pra velhos colegas de confinamento.

Ele sorri com uma gentileza tão cuidadosamente polida que quase parece genuína.

TOBY: Vamos voltar ao começo. Nos primeiros episódios, você se colocou como assistente pessoal da Serena. Votava com ela, carregava as bolsas... E agora, tecnicamente, tem mais dinheiro que ela. Como essa relação evoluiu?

Seth pensa por um instante, olhando o horizonte.

SETH: Mudou... e não mudou. Acho que agora temos um certo respeito mútuo e silencioso. Até ofereci uma casa nova pra ela. Nada exagerado. Só uma mansãozinha na costa da Itália, com vista pro mar e garagem pra barco.

TOBY: E ela aceitou?

SETH: Não. Disse que quer conquistar as coisas por mérito próprio, sem depender do sobrenome. Que quer aprender a fazer por conta própria. Confesso que me surpreendeu. No bom sentido.

TOBY: E você respeitou isso?

SETH: Claro. Mas ela aceitou um chalé de inverno depois. Modesto. Um lugar pra refletir e fugir da mídia. Em Aspen.

TOBY: Hum. Com lareira ativada por comando de voz?

SETH: Obviamente. — Sorriu, natural.

TOBY: Agora sobre sua família. Desde o início parecia que você queria provar algo, especialmente pro seu pai e pro Henry, seu irmão advogado. Como estão as coisas agora que você é, digamos... trilionário?

SETH: Ah, Toby. Agora eu sou o filho especial, sabe? — Ele ri. — A ovelha negra virou lã de ouro. Meu pai liga todo dia. Minha mãe colocou uma foto minha no lugar do Henry na estante principal. E meus tios? De repente lembraram que eu existo e fizeram questão de mandar parabéns no meu aniversário.

Ele bebe um gole de suco e sorri com gosto.

SETH: Nada como um tesouro ancestral pra curar décadas de expectativa frustrada, né?

TOBY: E o Henry?

SETH: Ainda tenta competir. Mas... ele nunca achou uma fortuna escondida numa caverna protegida por um dragão. Então...

TOBY: Justo.

Toby folheia as anotações.

TOBY: Vamos a outro assunto. Minyoung. Ela claramente tinha um... crush em você. Como foi lidar com isso?

SETH: Ah, Minyoung. Eu percebi, sim. Difícil não notar. Ela é doce, muito inteligente. Talvez um pouco tímida demais pra mim. E mais nova. Mas é uma garota legal.

Pausa.

SETH: Talvez eu compre um presente pra ela. Um iate, quem sabe. Algo simbólico. Não por romance. Só... gratidão.

TOBY: Porque nada diz "amizade platônica" como um iate de 35 metros.

Seth pisca, sinceramente convencido.

SETH: Exatamente.

TOBY: E pra fechar: vai à festa da final? Vai estar todo mundo lá.

SETH: Claro. Tenho um terno novo esperando. Ouro champanhe. Costurado à mão. Vai combinar com o tapete. Que, aliás, eu ofereci pra bancar.

Toby se levanta com um sorriso sarcástico.

TOBY: Bom, se surgirem fogos de artifício, fontes de chocolate ou balões com seu rosto, já sabemos quem agradecer.

SETH: Por favor, não me entenda mal. Eu prefiro uma abordagem mais... discreta.

A câmera corta para um mordomo servindo um abacaxi esculpido em formato de diamante. Seth faz um gesto sutil com a mão.

SETH: Pode cortar agora.

***

A câmera corta para um corredor mal iluminado. Toby está parado diante de uma porta, visivelmente animado, microfone em mãos.

TOBY: Agora, vamos conversar com o único participante que saiu do jogo com mais espinhas do que aliados: Tommy!

Ele bate duas vezes. A porta se abre devagar, rangendo. Tommy surge com cara de poucos amigos, moletom escuro, cabelo desgrenhado, olheiras fundas e um saco de salgadinhos na mão.

TOMMY: O que é agora?

TOBY: Uma entrevista rápida, juro como repórter! — Sorri. — Os fãs estão doidos pra saber... e você tem fãs, acredita?

TOMMY: Devem ter um gosto horrível. — Resmunga.

Toby entra com o cameraman. O quarto é escuro, cortinas fechadas, uma meia jogada casualmente sobre o abajur.

TOBY: Ok, direto ao ponto. Todo mundo viu o triângulo amoroso mais caótico da temporada. Você. Cyrus. Willow. E o final... bom, não foi exatamente romântico. Como se sentiu levando um pé na bunda em rede internacional?

TOMMY: Não exagera. — Enfia um punhado de salgadinhos na boca. — Nem foi um pé na bunda. Foi tipo... um afastamento tático. Ela queria focar no jogo. Respeito isso.

TOBY: Ela também disse que você era imaturo. Que agia como uma criança.

TOMMY: ...Ela tava errada. E certa. Ugh, sei lá, cara. — Passa as mãos sujas de salgadinho no rosto. — Eu curtia a Willow. Muito. Mas também queria... mostrar que sou mais que o “badboy de moletom”, sabe?

Toby olha para o moletom preto. O mesmo da temporada. Decide não comentar.

TOBY: E o Cyrus? Era rivalidade real ou só drama da edição? Eu nem fiquei tempo o suficiente pra saber!

TOMMY: Ele é irritante. Vive tentando ser o herói perfeitinho. Nerd que resolve tudo, quebra códigos, decifra pistas. — Muxoxo. — Mas... acho que ele também gostava dela. Então, sei lá. Ela chutou nós dois. E fez bem.

TOBY: Vai torcer por ela na final? Já que a Árvore Decorativa não sobreviveu até o fim? — Ri.

Tommy solta um suspiro.

TOMMY: Claro. A Willow foi uma das únicas pessoas reais ali dentro. Merece ganhar.

TOBY: Agora, sobre o Cyrus... teve aquela treta no desafio do lago. Muita gente disse que você foi transfóbico. Inclusive ele. Quer comentar?

TOMMY: Isso é bobagem. — Bufo. — Eu nem sabia que ele era trans, véi. Pra mim ele só parecia um... sei lá, um moleque estranho e sensível demais. Quando falei que ele “não era homem”, quis dizer imaturo. Tipo... 16 anos, sabe? Não foi sobre gênero.

TOBY: Entendi. Mas você reconhece que pegou mal?

TOMMY: Tá. Talvez eu tenha exagerado. — Coça o queixo. — Mas não foi por mal. Se eu soubesse, teria falado diferente. Eu não sou um babaca completo. Só... meio.

Toby faz uma cara de “hmm, justo”.

TOBY: Vai colar na festa da final?

TOMMY: Talvez. Tô pensando. Não curto aglomeração... nem glitter... nem gente feliz. Mas...

A câmera mostra um terno amassado pendurado na cadeira. Tommy o empurra com o pé, tentando disfarçar. Toby percebe, mas só sorri de canto.

De repente, gritos e risadinhas histéricas ecoam do quarto ao lado. Algo cai com um “TUM”, seguido por uma batida frenética de música pop coreana.

TOMMY: De novo não. — Franze a testa. — Mesmo fora do programa, essas duas não me deixam em paz.

Toby segura o riso. A câmera se aproxima da parede, vibrando ao som. Tommy suspira alto, puxa o capuz e enterra o rosto no travesseiro.

TOBY: E assim encerramos a entrevista com Tommy. Agora… vamos descobrir o que está causando esse terremoto no quarto ao lado.

A câmera corta com um estalo seco para a porta vizinha, que se escancara revelando uma explosão de glitter, maquiagem espalhada e puro caos adolescente. Minyoung segura um celular com capinha de coração, enquanto Gretchen gira no centro do quarto testando óculos cintilantes. A música estoura pelos alto-falantes, fazendo a luminária tremer.

MINYOUNG: ELE FALOU COMIGO NO CHAT!!! O SETH!!! ELE QUER ME COMPRAR UM IATE?!

GRETCHEN: O QUE VOCÊ DISSE? VOCÊ VAI USAR ESSA BLUSA COM ESSE SUTIÃ???

As duas gritam ao mesmo tempo, incapazes de se ouvir. A câmera dá um zoom dramático no rosto de Toby, que pisca para a lente, empolgado.

Minyoung, percebendo a equipe, abaixa o som com um clique rápido.

MINYOUNG: Oh, Toby! Me desculpa, talvez o som estivesse um pouquinho alto... — Ri com a timidez de sempre.

TOBY: Imagina! Se toparem uma entrevista, podem até acionar o alarme de incêndio.

***

A câmera sacode tentando focar até parar em Minyoung e Gretchen, sentadas lado a lado numa poltrona rosa exagerada, ainda se arrumando. Gretchen tenta calçar um salto apertado, enquanto Minyoung termina o delineado com um espelho de mão em forma de coelho. Toby, na poltrona dourada em frente, segura um bloquinho, animado com a energia explosiva das duas.

TOBY: Estamos com as queridíssimas Minyoung e Gretchen. Estão prontas pra festa?

GRETCHEN: ANIMADÍSSIMA! EU TÔ COM GLITTER NA LÍNGUA! ISSO É UM SINAL!

MINYOUNG: Dormi só três horas porque passei a noite ensaiando coreografia. É agora ou nunca. Ainda dá tempo de virar trainee!

TOBY: Uau, incrível. Agora, vamos falar da amizade de vocês com a Molly. Pareciam um trio inseparável.

GRETCHEN: Ai, Molly é um cristal. Me defendeu da Serena quando eu quase chorei no desafio dos gnomos.

MINYOUNG: Gostei dela desde o início. Me tratou como gente, sabe? Não como figurante no reality show dela. Na Reserva Florestal, muita gente nem notava que eu existia. — Sua voz cai por um instante.

GRETCHEN: E ela me emprestou o kit de esmaltes. Mais de uma vez! — O clima sobe de novo. — Numa floresta! Isso é amor.

TOBY: Então estão torcendo por ela, imagino?

MINYOUNG: Com certeza. Mesmo que não ganhe, ela já ganhou o público.

GRETCHEN: Ganhou o meu coração. E o da Min. E até dos gnomos. Vai saber se não ganhou até o do Chris, mesmo ele fingindo que não.

TOBY: Agora, uma pergunta mais técnica. Vocês foram eliminadas com a Estatueta McLean de Invencibilidade, cortesia de Tommy e McConnor. Algum ressentimento?

GRETCHEN: Fiquei fora de mim por uns vinte minutos. Depois me deram comidinha, e passou.

MINYOUNG: Sinceramente, preferi sair assim do que surtar com os sonhos bizarros daquela floresta. Quase aconteceu antes… então, vitória, né?

TOBY: Então você não teve mais sonhos premonitórios desde que saiu?

MINYOUNG: É! Cyrus e eu estamos tentando descobrir o motivo desde que ele chegou na mansão. A teoria atual é que a floresta libera um gás incolor que provoca sonhos lúcidos. E eu sou sensível a ele. — Dá de ombros. — Só uma teoria.

TOBY: Fascinante! Cameraman, anota isso! — Sorri, maroto. — E agora... Minyoung, uma pergunta pra você.

Minyoung arregala os olhos, quase derrubando o delineador.

TOBY: Entrevistei o Seth mais cedo. Sei que você tem uns sentimentos por ele. Ele te vê como uma boa garota, mas só quer amizade. Como se sente com isso?

A câmera foca em Minyoung, que tenta disfarçar com um sorriso. Gretchen lança um olhar solidário.

MINYOUNG: Eu meio que já sabia. — Diz, calma. — Ele é... o Seth. Meio impossível de decifrar às vezes, mas tá tudo bem. Nem todo mundo vira crush pra sempre.

Gretchen põe a mão no ombro dela.

GRETCHEN: Você merece alguém que escreva uma música pra você. Ou que leve pra comer sushi sem falar de ações e poupança. Não é o estilo do Seth mesmo.

MINYOUNG: Exato! E... "ser uma boa garota" não significa "gostar de mim". E tá tudo certo. Eu gosto de mim mesma.

TOBY: Isso foi surpreendentemente inspirador. Ok, última pergunta: qual é a coreografia de vocês pra festa?

GRETCHEN: Ensaiamos três entradas diferentes. Com troca de óculos no meio. Depende da iluminação.

MINYOUNG: E se tocarem LADYLIKE, a gente sobe em qualquer mesa. Sem exceção.

TOBY: Já tô com medo… e empolgado. Minyoung, Gretchen, vejo vocês na pista.

A câmera foca nas duas fazendo “poses de diva” improvisadas. Minyoung segura a mão de Gretchen e se levanta num rodopio, enquanto a música sobe de novo.

***

A porta range e se abre. Cyrus aparece com uma meia calçada, a camisa de botão torta e o cabelo num caos controlado. A gravata escorrega do ombro como se tentasse fugir. Pela janela atrás dele, o céu cor-de-rosa anuncia o pôr do sol.

CYRUS: Desculpa o atraso. Ainda tô tentando... parecer um ser humano apresentável.

TOBY: Olha só, não sabia que você era tão vaidoso.

CYRUS: É mais autoestima do que vaidade. — Suspirou. — E também… difícil achar qualquer coisa quando você chegou ontem à noite e nem abriu as malas ainda.

A câmera dá um leve zoom dramático na mala aberta no chão, com roupas espalhadas como se tivesse ocorrido uma explosão.

TOBY: Justo. Bom, enquanto você reconstrói sua dignidade, posso fazer umas perguntinhas?

CYRUS: Manda ver. — Disse, tentando abotoar a camisa na ordem certa.

TOBY: Você foi um dos maiores teóricos dos eventos místicos da Floresta de Tipikanizaw. Depois de tudo o que viu, e sobreviveu, chegou a alguma conclusão?

Cyrus se senta na beirada da cama, pensativo.

CYRUS: Na verdade… sim. Quer dizer, é só uma teoria. Mas... tudo aponta pra nave espacial do desafio do Top 4. Ela tava enterrada ali há... sei lá, milhões de anos, segundo o Chris. Acho que funciona como um tipo de imã.

TOBY: Um imã místico? — Anotou com entusiasmo no bloquinho.

CYRUS: Isso. Teorizo que o impacto alterou a gravidade local, criando uma barreira, gravitacional e magnética, que mantém as manifestações místicas presas à reserva. Notei isso com o dragão: ele tentava voar, mas nunca passava da copa das árvores. Os hipogrifos também. E o gás alucinógeno nunca se espalhou além dali. Alguma coisa segura tudo lá dentro.

TOBY: Caramba!

CYRUS: Pelo menos... acho. Preciso revisar as anotações do McConnor. E, se quiser compartilhar as suas, também ajuda.

TOBY: As minhas têm muitos desenhos de árvores com olhos e símbolos suspeitos… mas tão disponíveis. — Disse com certo orgulho.

CYRUS: Aceito. — Riu. — Toda informação é útil quando o assunto é conspiração!

TOBY: Isso daria um ótimo livro. “O Véu Invisível: Mistérios da Reserva Florestal Tipikanizaw.”

CYRUS: Ei! Nem brinca. Esse título é meu. — Repreendeu com indignação cômica.

Toby riu, mas logo o tom mudou.

TOBY: Bom... a produção pediu pra eu fazer mais uma pergunta.

CYRUS: Já até sei qual é. — Suspirou, ajeitando a manga da camisa com um ar resignado.

TOBY: Willow.

Silêncio. Cyrus encara a câmera por um segundo, depois abaixa os olhos.

CYRUS: Claro. Por que não?

TOBY: Você desenvolveu um... interesse por ela. Rápido. Mesmo ela estando com o Tommy.

CYRUS: Tá. Primeiro: ter um crush numa garota descolada e disputada não é crime.

TOBY: E falando no Tommy… vocês se odiavam. Arco digno de novela mexicana.

CYRUS: Eu diria que ele me odiava mais do que eu odiava ele. — Revirou os olhos. — Mas sim, a presença dele me irritava. Talvez por ser um obstáculo. Ou talvez por me lembrar dos valentões da escola. Provavelmente os dois.

TOBY: No fim, ela dispensou os dois.

CYRUS: Eu lembro. Eu tava lá. — Disse com uma risada amarga.

TOBY: E agora ela tá na final. Vai torcer por ela?

Cyrus demora. Olha para o espelho no canto do quarto, ajeita o cabelo, depois encara a câmera.

CYRUS: Vou. Com certeza. Ela foi… Não, ela é uma das pessoas mais fortes ali. Não só fisicamente, mas em presença. Ela me fez querer ser alguém melhor. Não pra conquistar ela, mas pra merecer o respeito dela. E, mesmo tendo doído, eu entendi. Não era sobre mim. Nem sobre o Tommy. Era sobre ela. E ela escolheu a si mesma. Respeito total.

TOBY: Lindas palavras.

Eles trocam um sorriso. A câmera começa a se afastar lentamente, enquanto Cyrus volta a procurar o segundo sapato com menos pressa. Parece mais tranquilo. Um pouco.

TOBY: E assim encerramos nosso round de entrevistas! A festa tá quase começando… e até os mais introspectivos parecem prontos pra dançar.

***

Um remix de pop eletrônico invade o ar, misturando batidas pulsantes com flautas indígenas digitalizadas. Um toque místico pra trilha sonora da noite.

A câmera entra em timelapse: folhas com glitter viram guirlandas, luzes espirais se acendem como mágica, e antigos painéis metálicos se transformam numa cabine de fotos improvisada, enfeitada com perucas e plumas. Um banner torto pisca: “Festa do Fim (da Temporada)!”

Corte seco para a pista de dança: luzes coloridas giram, fumaça de gelo seco se espalha. Minyoung e Gretchen dominam o centro com uma coreografia digna de palco de k-pop. Os passos são sincronizados até nos piscares. Gretchen gira com o cabelo solto como um ataque, enquanto Minyoung bate palmas no alto e finaliza com um mortalzinho casual.

Tommy observa perto do ponche, copo na mão, expressão de quem está acima daquilo tudo, mas captando cada detalhe como um crítico.

Xerife Harper vigia a saída de emergência, braços cruzados, cara fechada, mas o pé marca o ritmo discretamente. Quando nota a câmera, tosse e finge que não estava dançando.

Serena desfila em câmera lenta num vestido dourado cintilante, como se fosse um editorial de moda. Sai da pista e se junta a uma conversa animada com Seth na mesa de comidas. Cyrus se aproxima, meio sem jeito, e entra no papo.

Corte.


Um corredor lateral. Luzes piscam ao fundo. Toby caminha com pressa discreta, suando sob o calor da festa. Passa por um tapete enrolado, uma placa de “PROIBIDO ENTRAR” caída… e então vê algo.

Sentado contra a parede, num canto mal iluminado, está McConnor. O jaleco ainda chamuscado nos ombros. Ele escreve freneticamente no caderno, absorto. Só nota Toby quando o microfone surge no quadro, apontado discretamente.

TOBY: Você... não tá na festa.

MCCONNOR: Uau. Que observador, Toby. — Responde sem levantar o olhar, seco.

TOBY: Você foi o único que recusou entrevista. Achei que tinha fugido de helicóptero. Ou sido abduzido.

MCCONNOR: Quase. — Ele suspira. — Mas preferi focar no que importa.

TOBY: Posso perguntar... por que não quer ir?

McConnor fecha o caderno devagar. Respira fundo.


MCCONNOR: Porque sei que ninguém lá gosta de mim. Você sabe. Foram o quê, quinze votos? O bastante pra ser eliminado duas vezes.

Ele solta uma risada breve e amarga. Toby se senta ao lado dele, o microfone abaixado.

TOBY: E isso te impede de dançar?

MCCONNOR: Não é sobre dançar. É sobre fingir que pertenço. Fingir que aquelas pessoas se importam, mesmo que só por uma noite. E... eu cansei de fingir. Prefiro terminar minhas anotações. Isso, pelo menos, faz sentido. Sobrevivi a uma floresta, grande coisa. Não mereço uma festa.

Silêncio. Toby encara o chão por um instante, depois fala, mais suave:

TOBY: Ninguém ali acha que você não merece estar aqui. Ok, talvez você não seja o mais sociável... ou carismático... ou, bom, confiável com robôs. Mas você sobreviveu. É um de nós.

MCCONNOR: Isso não significa nada.

TOBY: Significa sim. A festa tá incompleta sem você. E olha... pode levar o caderno. O Cyrus quer conversar sobre as teorias. Ele me disse.

McConnor olha de lado, surpreso.

MCCONNOR: Ele disse isso?

TOBY: Palavra por palavra. Tá gravado. — Ele pisca pra câmera.

McConnor encara o caderno por alguns segundos. Como se ponderasse entre o mundo das teorias e o das luzes. Enfim, o põe de lado e se levanta, relutante. Sacode o jaleco, que solta uma nuvem de fuligem.

MCCONNOR: ...Vou até a porta. Só observar. Se eu me sentir ridículo, saio pela emergência.

TOBY: Harper tá na porta da emergência. E na da entrada. Não sei como ela consegue.

MCCONNOR: Naturalmente.

Eles caminham pelo corredor, lado a lado. A luz quente do salão começa a invadir a sombra, como se atravessassem um portal para outro mundo. A câmera os segue de costas, devagar, até que se fundem com a atmosfera vibrante da festa.

Na pista, Tommy vê McConnor chegando. Não diz nada... mas acena com a cabeça. Harper cruza os braços com mais firmeza, sem sorrir, mas também não impede a entrada. Gretchen, notando a presença dele, improvisa uma nova dança com passos de robô em homenagem.

***

A tela é tomada por estática. A fita chegou ao fim.

Corte para a cabaninha. Chef Hatchet e Chris McLean já devoraram suas porções de sopa; Chef ronca alto, jogado para trás como uma pedra.

Chris sorri de canto. Levanta-se com calma e vai até a janela, tomando cuidado para não acordar o colega. Pega o celular e encosta no rosto.

CHRIS: Tudo nos trincos pra amanhã?

Uma voz abafada do outro lado parece confirmar.

CHRIS: Perfeito. Quero ver esses três sofrendo por cada centavo do prêmio.

Ele dá uma risada. E a risada cresce.

E cresce.

Até virar um gargalhar megalomaníaco de vilão de desenho animado. Então tosse, pigarreia e sai do quadro com um aceno casual.

Os créditos sobem. A tela escurece. Letras brancas surgem sobre o fundo preto:

“R doyeqko riqrl ohhxog, tuêj cmmszsfav ea rlrieetd joybuza,

Iiocoi, Ndtha e Pflxy — vó lm heuá r lgz gf dua.

Xd lqvd f mulkãf, oe oxkras izcmm ffm m lhdbdaqçr cduhc,

Dq Tlgiwaqzzmw, redq o leejpozcmdr é wiql.”