Drakons
4 Capítulo 4
Seryn
Um mês depois
Passei o dedo pelo meu pulso, já havia visto essa tatuagem incontáveis vezes nesse um mês que passou e eu ainda custava a acreditar que ela estava lá, meu avô sempre falava sobre o laço de parceria para mim e minha prima quando éramos crianças, ele dizia ter um parceiro dragão, não acreditávamos nele na época, é claro, e não lembro de ter sequer visto o tal dragão que ele sempre mencionava como melhor amigo. Eu dês de cedo soube que os dragões fizeram parte da história, porém, hoje em dia muitos esqueceram ou consideram um mito e poucos livros dizem sobre o assunto.
Me joguei na cama pensando novamente em um mês atrás, aqueles olhos âmbar brilhantes não saíram da minha cabeça, depois que Myna abriu aquela porta e eu senti em todo o meu corpo que estava em extremo perigo eu corri de lá e nunca mais voltei, tentei esquecer sobre o que vi, sobre o que senti que ele era, mais essa marca que estar em mim não me deixava esquecer, tentei tirá-la de todas as formas possíveis, mais simplesmente não saia, como se sempre estivesse ali.
A reunião que meu pai havia marcado daqui a alguns dias veio a minha mente novamente e senti um medo crescer em mim, daquele olhar que ele deu da última vez e do quanto eu sei que ele pode me matar se quisesse, sem piedade e sem amor, comecei a senti minhas mão suarem frio e levantei da cama rapidamente, conhecia esses sintomas, cambaleei para o lado claramente tonta. Não, de novo, não, engoli minha saliva com dificuldade enquanto me apoiava na parede para ir até a cozinha, a imagem do meu pai cortando a garganta da minha mãe passava incontáveis vezes na minha cabeça e senti vontade de vomitar. Pare. Pare. Pare. Pare! Demorei para pegar o remédio que estava em cima da mesa enquanto tentava de todas as formas focar em alguma coisa que não fosse esses pensamentos, engoli o remédio por mais que meu corpo protestasse, eu havia descoberto que havia adquirido ansiedade naquele mês quando o prazo de entrega de um projeto estava perto, no final, eu não consegui apresentá-lo e muito menos entregá-lo.
Eu sabia que algo estava errado quando comecei a sentir mau estares constantes que em uma semana evoluíram para dores de cabeça e logo em seguida as crises de ansiedade apareceram, foi um colega de trabalho que me levou ao médico que deu o diagnóstico, não lembro como voltei pra casa naquele dia, foi um choque para mim descobrir isso, eu me cuidava tão bem, física e psicologicamente e em tão pouco tempo algo assim acontecer, havia alguma coisa de muito estranha.
Peguei minha bolsa e sai de casa, determinada em ir em direção aquela livraria novamente, alguma coisa me dizia que o fato de Albus ser meu parceiro poderia ter algo haver com isso. Parei em frente a porta que tinha uma placa dizendo “em construção”, a madeira era antiga e escura, havia um vidro em formato retangular com uma grade preta em frente a ele, suspirei e a abri, um sino tocou e vi a cabeça de Myna se mover para ver quem havia entrado, ela parecia estar organizando uma das prateleiras.
— Seryn? – Ela disse surpresa. – Sinceramente pensei que não voltaria mais aqui depois de sair correndo daquele jeito.
— Sim, também pensei que não voltaria, mais precisava esclarecer umas coisas. – Percebi que Myna me olhava de um jeito estranho enquanto eu examinava o local, tudo parecia mais arrumado agora, muitos dos livros que estavam espalhados a um mês atrás pareciam estar agora em seu devido lugar.
— Posso saber o que você veio resolver? – Myna se levantou do banco que estava sentada e agora estava na minha frente, com um olhar desconfiado.
— Bem... – Eu não fazia ideia de como explicar, além disso, não fazia sentido contar a verdade, na melhor das hipóteses ela riria de mim, coloquei uma mecha do meu cabelo pra trás sem saber o que falar.
— Seryn, você sempre teve essa tatuagem? – Ela apontou para o meu pulso.
— Não, eu senti vontade de fazê-la. – Menti. Myna agora tinha uma expressão séria no rosto, ela me olhava intensamente, talvez uma mistura de alívio e raiva.
— Então decidiu combinar com o Sr. Fallenius? – Ela se virou de costas para mim, claramente fingindo arrumar os livros. – Ele tem uma exatamente igual no peito.
— Não sei nada sobre isso, ele deve ter visto em algum lugar e gostado. – Disse quase atropelando as palavras.
— Seryn você tem se sentindo bem ultimamente? – Sua voz estava ainda mais séria. – Tem tido algumas tonturas e tomado remédios regularmente?
— Bem, eu descobri que adquiri ansiedade recentemente, mas porque está me perguntando isso?
— Deixe-me fazer só uma última pergunta – Myna ainda não olhava para mim. – Por acaso, essa tatuagem apareceu quando você viu o Sr. Fallenius pela primeira vez?
Sua pergunta me surpreendeu e o meu silêncio fez Myna se virar para mim e eu podia jurar que estampado em suas feições havia uma pontada de tristeza.
— Então você é a parceira do Sr. Fallenius. – Não era uma pergunta. – Isso explica o número gigantesco de remédios que ele tem tomado. – Ela olhou para mim e percebendo minha surpresa, explicou. – Eu sei sobre ele ser um dragão, minha família o serve dês dos tempos mais antigos. – Myna se afastou de mim e foi subindo as escadas. – Queria que você não tivesse aparecido. – A ouvi dizer, eu sabia que ela tinha sentimentos pelo Sr. Fallenius, talvez a ideia de uma parceira feminina a desagradasse. – Irei dizer a ele que você finalmente veio.
Ela desapareceu na minha vista enquanto virava em algum corredor ao lado do alto da escada, fiquei parada tentando ingerir as informações que ela simplesmente cuspiu pra mim, certamente o fato dela saber sobre os dragões e o laço de parceria ajudava muito, porém o fato dos meus sintomas repentinos de ansiedade, que parecia ter algo haver com o laço, não afetavam somente a mim e sim a ele. Suspirei, já basta os meus problemas, não preciso me preocupar com os outros.
— Você parece está tendo uma reflexão interessante. – Virei rapidamente assim que ouvi a voz masculina e forte, os olhos âmbar estavam lá, lindos, seu cabelo despenteado era totalmente negro a não ser por algumas mechas castanhas, e em mesmo com roupas tão casuais ele parecia impotente. – Não irei deixar você fugir dessa vez. – Desviei o olhar.
— Não irei, gostaria de deixar as coisas claras. – Albus se aproximou de mim e eu dei um passo involuntário para trás, ele riu de escárnio.
— Não é isso que parece. – Ele comentou.
— De qualquer forma – Tentei começar logo o assunto principal. – Você deve ter notada que somos parceiros – Mostrei a tatuagem. – E tenho uma certa desconfiança de que os problemas que eu estou tendo seria por causa disso.
— Pelo menos você não é burra. – Ele se sentou em uma poltrona e fez sinal para eu me sentar em uma cadeira ao lado, recusei. – Ficamos separados por muito tempo, e isso afeta a mim e a você. – Olhei com atenção para ele, havia olheiras profundas em seu rosto. – A magia as vezes é bem inconveniente.
— Isso está afetando meu dia a dia, meu trabalho, minha vida, preciso tomar remédios a cada hora. Como podemos resolver isso?
Albus me encarou por um longo tempo, talvez analisando a situação.
— Eu não sei seu nome. – Ele estava sério.
— Isso é realmente importante no momento?
— É o básico para socialização humana. – Ele deu de ombros. – Myna não mencionou seu nome nenhuma vez, além disso, você sabe o meu, não é?
— Seryn Natassya – Disse simplesmente e um leve sorriso estampou o seu rosto.
— Prazer em conhecê-la, oficialmente dessa vez. – Ele estendeu a mão para mim.
Suspirei e peguei na sua mão e instantaneamente senti algo, primeiro um peso enorme pareceu sair dos meus ombros, me senti relaxada, leve, como se os todos os problemas tivessem deixado de existir, logo depois pequenas memórias pareceram invadir minha mente, porém não minhas e sim, dele. Guerras, explosões, desespero e por último uma gigantesca falta de esperança, um vazio, algo sozinho. Soltei a mão dele rapidamente e Albus olhava para mim, ele parecia surpreso, mas ao mesmo tempo compreensivo e sereno.
— O que foi isso? – Perguntei olhando para a minha mão.
— Você não vai mais precisar tomar os medicamentos, jogue todos fora. Parceiros precisam conviver, próximos, se não fazem isso sintomas acontecem e quando estão avançados são resolvidos com um simples toque. – Ele explicou se esquivando totalmente da minha pergunta, eu sentia que ele sabia exatamente sobre o que eu perguntei. – Se nos separamos por um longo tempo novamente os sintomas irão voltar, venha me ver quando sentir leves tonturas e faremos isso novamente.
— Só um minuto, você não irá me pedir para ser sua parceira e ficar do seu lado? – Ele se levantou da poltrona.
— Você não mostrou exatamente um interesse nisso. Você até tentou retirar a tatuagem.
— Como você sabe disso? – Ele somente deu de ombros com um sorriso enigmático nos lábios. – E você? Isso afeta você também, não é?
— Isso não interessa. – Disse, seco.
— A partir desse momento, sim. – Eu sabia que ele estava mentindo, sentia isso. – Albus Fallenius, eu irei ser sua parceira. – Falei convicta, aquela solidão, aquele desespero, eu não iria conseguir abandonar.
— Você é uma garota interessante. – Ele se aproximou muito de mim, me arrepiei enquanto ele falava próximo demais. – Então, querida parceira, cuide bem de mim.
Apesar do constrangimento por ele estar próximo apenas assenti, naquele momento acreditei que a partir dali que o meu encontro com ele seria o presságio de que a minha vida começaria a ser mais interessante.
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