Denebola

Um mês depois

Já fazia um mês que eu estava trabalhando com meu parceiro. Um mês, apenas uma pequena parte do ano, um mês com uma pessoa que eu achava que seria meu melhor amigo, assim como meu avô dizia ser o dele. Mas apenas esse mês interagindo com Avalon me faziam olhar sonhadoramente para as janelas a minha frente. Apenas um mês, e eu queria nunca ter conhecido aquela coisa.

Avalon e eu só interagimos no trabalho, apenas sobre coisas do trabalho e acho que ele tratava os sapatos dele melhor do que a mim. Era sempre “está atrasada”, “está errado, refaça”, “onde está relatório que eu pedi a horas”, “você fala demais”, “por que eu contratei você?”. Eu sempre chego mais cedo, o segundo ponto eu até entendo, mas me irrita, ele sempre me pede relatórios dessa forma, mesmo a primeira vez, eu mal falo aqui dentro e quando falo é sempre em relação aos compromissos dele, e se ele disser mais uma vez “por que eu contratei você”, vou gritar aos quatro ventos que é por que ele é um dragão.

Mas tirando isso, está tudo indo bem. Finalmente tinha um emprego fixo e seguro, um bom salário, meu apartamento tinha terminado de ser reformado, embora Avalon fosse exigente e quisesse tomar todo o meu tempo, eu conseguia ter tempo para sair ainda, e nas horas vagas eu sonhava que tinha um parceiro legal como o que meu avô tinha.

Mas vida que segue. Eu não queria esse emprego? Respirei fundo, enquanto pela milionésima vez, organizava os documentos que eu precisava passar a para ele, antes de finalmente poder ir para casa.

— Ainda não terminou? — Levantei a cabeça. Avalon estava parado no estilo general a minha frente.

— Um minuto — falei enquanto checava de novo se já estava tudo certo, e se não tinha nenhum papel que devia ser entregue ao diretor financeiro por acidente. Estendi para ele os papéis, que para manter nossa rotina, verificou de novo, enquanto eu rezava mentalmente para estar tudo certo.

— Uma hora tinha que acertar. — Ele disse voltando para a sala dele, mas parou quase a porta — Ia me esquecendo, preciso que me acompanhe no coquetel na Amest nesse final de semana, então providencie uma roupa adequada.

— Acompanhá-lo? — Perguntei tendo um ataque interior. Como assim acompanha–ló? Ele levantou a sobrancelha de forma interrogativa, depois sorriu ironicamente.

— É parte do seu trabalho ir comigo em eventos, mas de forma profissional. — Avalon foi indo em direção a sua sala, mas antes de fechar a porta disse. — Não da forma que você imaginou.

Às vezes eu acho que ele gosta de trabalhar comigo, pelo menos de zombar de mim. De acordo com outro assistente que eu conheci, que trabalha para o diretor financeiro “O Sr. Adriacci anda sorrindo mais.” Devo estar deixando Avalon louco.

Peguei minhas coisas e fui para o elevador. Enquanto esperava, percebi uma coisa, se eu estava achando a situação ruim, imagina como estava sendo para ele. Tendo que ensinar coisas simples para mim, sem falar da minha facilidade em me distrair. Com toda a certeza havia motivos para estar estressado. Provavelmente, se eu estivesse no lugar dele já teria desistido, embora ele tenha mais talento para ensinar do que eu.

Meu celular vibrou, provavelmente mais uma mensagem da minha mãe perguntando sobre o trabalho.

Como foi o primeiro mês?

Revirei os olhos daquele jeito malcriado que se ela visse com toda a certeza me repreenderia. Eu não teria essa reação se ela não me perguntasse isso todos os dias.

Bem, acho que finalmente tô entrando no ritmo da empresa

Achei que iria demorar para me responder, mas para ela, dois minutos digitando Que bom! Foi bem rápido.

Eu sabia que meus pais iriam ficar felizes quando eu conseguisse um trabalho, mas não imaginei que seria tanto, tipo ao ponto de fazerem uma pequena festa. Nessa noite me senti como se tivesse deixado de ser um estorvo. Isso por que me viro por conta própria desde os dezoito, eles só nunca souberam como e espero que continuem sem saber. Mia Riddle teria um infarto só de me imaginar em uma situação de risco, como era meu antigo emprego.

Meu celular vibrou de novo, mas não era minha mãe, na verdade fiquei com um pouco de medo de ver o conteúdo da mensagem, eu tinha acabado de sair do prédio, e Avalon já havia me mandado uma mensagem, ele nunca tinha me enviado uma mensagem antes. Entrei no táxi primeiro e respirei fundo antes de ler.

O relatório está correto, podia ser um pouco mais organizado, mas vindo de você está aceitável. Quero anexe isso no e-mail para Volcovy, pode ser amanhã. E esqueci de falar para pesquisar a lista de convidados do coquetel, eu tenho sérios problemas para lembrar o nome daquelas pessoas.

Boa noite.

Suspirei de alívio, não é outra bronca. Um progresso. Imagina como estava sendo para o meu chefinho, que estava precisando, literalmente, me ensinar como fazer meu trabalho. O que meu professor tinha na cabeça ao me indicar para esse cargo?

Fui a melhor aluna da turma? Fui. Mas tinha alguma experiência real de mercado? Não. As únicas experiências que eu tive são irrelevantes para meu atual trabalho, ser modelo e obter objetos valiosos não contam para ser uma assistente pessoal/empresarial. Se bem que eu tinha que fazer alguns pequenos relatórios para o Can, mas aquilo não conta, ele estava sempre mais interessado no objeto, não em saber como eu o obtive. E ser filha de outro empresário também não conta, meu tio também é empresário e a filha dele é arquiteta.

Tenho que parar de ficar pensando em nessas coisas, eu já consegui, eu já estou conseguindo fazer alguma coisa, então vamos fazer o melhor que pudermos aqui. Cheguei em casa pensando no que fazer logo, ou pelo menos começar a ver lista de convidados do coquetel, isso é uma coisa fácil. Ligar para a Amelie, provavelmente ela que fez a lista. Manter contato com os antigos funcionários do meu pai serviu para alguma coisa.

Eu podia ter ido trabalhar na empresa dele, seria bem mais fácil, tenho certeza, mas qualquer coisa que eu fizesse, bem ou não, seria justificado com a frase "Mas ela é filha do chefe." Quem sabe no futuro quando eu tiver um mínimo de reconhecimento próprio, eu vá trabalhar lá. Dizem que quem aguenta trabalhar com Avalon Adriacci, consegue emprego em qualquer lugar. Uma Miranda Priestly na vida. Acho que Avalon não ia gostar de ser chamado assim.

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Conseguir a lista foi extremamente fácil, a parte ruim, não é exatamente ruim, detesto quando eu mesmo me enrolo pensando, é aí que eu me distraio e geralmente faço besteira ou deixo todo mundo louco. Não importa, o que eu não gostei é que conheço metade das pessoas, elas me conhecem apenas por ser a filha bonita de Yerik Riddle, tenho a leve impressão de que Avalon vai rir internamente de mim — quem sabe externamente também — quando eles perguntarem o que eu estou fazendo ali, ou cadê meu pai, ou como vai o curso de moda, ou a carreira de modelo. Detesto esses eventos.

Todo mundo acreditava que eu fazia moda, por causa do meu “trabalho” como modelo. Como se você não pudesse fazer outra coisa.

— Ridley? — Acho que pulei na cadeira, olhei para meu chefe, e forcei um sorriso de desculpas. — Por que eu ainda tento? — ouvi ele resmungar. Minha mãe dizia que quanto mais velhos vamos ficando, mais começamos a resmungar

— Quantos anos você tem de verdade? — fiquei um minuto sem entender que aquela pergunta veio de mim, nos encaramos, e a cada segundo eu afundava um pouco mais na cadeira, meu objetivo final era acabar embaixo da mesa, e torcer para ele ir embora.

— Vou ignorar essa pergunta. — Ele disse quando eu estava quase conseguindo ir para baixo da mesa. — Já enviou o e-mail que eu pedi para Volcovy?

— Já — falei de forma quase inaudível — Sim, enviei — Respondi de novo, torcendo para ele ignorar a primeira resposta também.

Ele ergueu um pouco as sobrancelhas como se estivesse extremamente surpreso. Me senti apenas um pouco ofendida, destaque o ofendida.

— Ótimo, quero dar uma olhada na lista de convidados da Amest quando conseguir. — Ele disse indo para a sala dele.

— O senhor quer a versão impressa ou prefere que eu envie por e-mail? — Perguntei um pouco alto demais.

— Tanto faz, contanto que consiga. — Ele disse de um jeito repentinamente mal-humorado.

— Vou enviar agora então. — Posso me esquecer mais tarde. Eu estava copiando e colando o arquivo, quando fui empurrada para o lado, mas acho que cai mais pelo meu próprio susto, do que pelo empurrão.

— Você já conseguiu? — Ele falou com um tom de incredulidade. Levantei com toda a pouca dignidade que eu ainda possuía, tentando entender o que eu tinha feito de tão impressionante.

— Não era para eu conseguir? — Perguntei desconfiada levemente. Avalon olhou para mim, e fez a coisa mais assustadora que eu já o vi fazer. Ele sorriu. O inferno vai congelar.

— De pior assistente que eu já tive, para a mais eficiente. Que grande salto. — O inferno vai congelar.

Depois de passar o resto do dia no meu estupor de ser elogiada pelo meu carrasco que eu chamo de chefe, que devia ser parceiro, descobri que o pessoal da Amest sempre fazia suspense para divulgar a lista de convidados, então conseguir ela em uma noite, sem uma prévia semana de enlouquecimento, era um milagre. Acho que conheci metade da empresa hoje, de tantas pessoas que passaram para falar comigo pedindo uma cópia.

Recebi meio mundo de telefonemas e e-mails sobre a mesma coisa. Uma das ligações me chamou mais atenção foi a de um amigo que é fotógrafo, e estava trabalhando em alguma revista que queria cobrir o “evento”. Esqueci se dragões tem uma audição melhor, mas mesmo que não tenham, acho que Avalon me ouviu rindo quando Marcel me chamou de “traidora”, mas não disse nada.

Estava organizando minhas coisas para poder ir para casa e "providenciar uma roupa adequada", isso não seria difícil, tenho algumas toneladas de roupas para festas. O difícil de verdade seria me decidir por algo que eu considera-se bonito e "adequado". A Adriacci não tinha uma conduta rígida em relação a vestuário, então eu ainda não tinha um pingo de ideia do que poderia vestir para acompanhar profissionalmente meu chefe.

— Olá? — levantei a cabeça muito rápido, tanto que quase bati no homem que me chamou, já que ele estava inclinado sobre a mesa.

— Me desculpe, em que posso ajudar? — perguntei dando um pequeno sorriso. Que deve ter se petrificado no meu rosto, pela beleza estonteante que estava a minha frente. A minha frente estava o homem mais bonito que eu já havia visto, o rosto dele podia muito bem ser a representação perfeita do padrão áureo, os olhos dele eram cinza, eu nem sabia que isso era possível em um humano, mas mesmo sendo uma cor fria, existia algo caloroso ali. E mesmo que ele estivesse usando um casaco grosso azulado, podia-se perceber que tinha um físico bem trabalhado.

— Acredito que ainda não fomos apresentados, sou Christopher Rosier, diretor de criação. — Ele sorriu, o sorriso mais lindo que eu já havia visto em um ser humano. Percebi que estava um silêncio um pouco estranho, e me forcei a dizer algo.

— Denebola Riddle, é um prazer conhece–ló senhor. — falei com um tom que eu não devia usar no ambiente de trabalho. Mas ele riu, e tenho certeza que fiquei com cara de pastel.

— Por favor, nada de senhor, se quiser um pouco de formalidade, no máximo Rosier. — ele olhou para mim de um jeito avaliativo do nada. — Ficaria ótima de azul turquesa ou índigo. — ele sorriu de novo — Desculpe-me, acabei de sair de uma seção de fotografia da próxima coleção e estou ainda pensando no que valorizava cada modelo.

— Ah… — Não tenho ideia do que eu ia dizer, mas fui interrompida bruscamente por uma porta batendo com violência.

— Riddle se alguém vier me procurar diga que eu morri. — Avalon saiu da sala com um olhar assassino. Por sorte não era dirigido a ninguém em especial.

— Ate mesmo a mim? — perguntou Rosier. Avalon olhou em nossa direção, como se não tivesse notado nada de diferente, mesmo tendo um Adônis a menos de dois metros dele.

— Ah era você. — disse com um desdém que me fez achar que eu fui bem tratada nesse mês. — O que quer Christopher? Seja rápido por favor, meu humor não está bom.

— E quando está? — nesse momento Christopher Rosier ganhou meu respeito. — Ignorando isso, quero saber se prefere a reunião na minha casa, na sua ou em um restaurante. — ele se recostou na minha mesa, agora me ignorando completamente.

— Você veio até aqui apenas para perguntar isso? — ele perguntou com isso com a mesma cara de desgosto de quando descobriu nossa ligação.

— E para conhecer sua nova assistente. — Ele piscou para mim. Avalon fez um movimento com a mão como se dispensasse isso, e resmungou algo que não consegui ouvir, mas Christopher pelo jeito sim, já que riu de novo.

— Na sua casa. Vou falar com Volcovy amanhã, eu aviso ele. — Por que aquilo pareceu uma ordem?

— Tudo bem. — ele desencostou da minha mesa, e virou-se para mim, passou pela mesa, pegou minha mão e beijou. — Foi um prazer conhece–lá. — Acho que disse algo, mas não faço ideia do que saiu, mas Avalon dirigiu a mim aquele olhar assassino.