Dragões ascendentes.
26 A esperança floresce
Notas iniciais
Lá estava ele, sim, estabelecendo uma conexão única com o local em que encontrava-se: uma ''caverna'', com estalagmites, obscuras, cingindo a parte superior da localidade. Cada passo, realizado, era incerto. Possuía receio, decerto, mantendo sua respiração controlada e os pensamentos voltados a algo que, certamente, lhe livraria daquela insegurança precedente. Emily, subitamente, segurara nas mãos do garoto, o suficiente para fazê-lo saltar.
Medo, sim, definia exatamente o que sentia. Seu coração, acelerado, bem como a respiração ofegante, entregava-o de forma displacente. Seus olhos, locomovendo-se de um lado a outro, definiam um estado inquieto, em relação ao seu interior. Até o jeito que andava, poderia entregá-lo. Porém, à garota, não relatava atos de insegurança ou medo, parecia que estava acostumada com o ''estranho''.
Mas como poderia? Ela possuía apenas oito anos, eram crianças. Normalmente, deveriam estar brincando, sob o cuidado de seus pais. Mas a guerra fizera com que tudo isso mudasse. A necessidade de ter que treinar e dedicar-se a estudos incessantes, modificaram vossas mentes infantis. Garotos que viram, o que eles presenciaram, jamais seriam os mesmos.
Foram inqueridos a duvidarem de tudo, sequer deveriam piscar. Dês do ano em que nasceram, tiveram de demonstrar a capacidade cognitiva, em relação aos seus atos. Gênios, é o que precisavam ser. Suas famílias não permitiam erros. E isso, no caso, enquadrava-se a ambos: tanto Emily, quanto Kenji. Mesmo não sendo irmãos e, conhecendo-se praticamente, a pouco tempo, já sabiam demais sobre os segredos mais intimos.
Mesmo de maneira restrita, Emily demonstrava um apego por Kenji. Conquanto, era um sentimento inocente, típico de uma criança. Ela gostaria que, naquele instante, pudessem estar brincando. Kenji, também, apenas desejava uma infância comum e sem preocupações. Todavia, sabiam que isso não era permitido, tinham um destino a ser cumprido.
– Pare! — Disse, sustentando um semblante que sugeria o descaso, demonstrando escárnio perante a situação. Kenji mantivera-se alguns centímetros afrente de Emily, uma mão sobre o cabo da espada e a outra, mantendo a jovem afastada dele. Seu corpo servia como ''escudo''. Ao longe pode perceber, felizmente — ou infelizmente-, a aproximação de uma criatura. Seus passos, ligeiros, havia lhe entregado de imediato. Logo, pôde concluir que tratava-se de um Mãngryton. Seres, nada amigáveis, que adaptam-se a escuridão e possuem extrema agilidade. Não possuem um corpo físico... São ''sombras'', que conseguem transmitir vossos resultados para o plano ''real'', ao ponto de conseguir matar alguém.
Seu pai teria lhe contado sobre eles: — Odeiam luz e acabam afugentando-se quando encontram-na. Contudo, percebera que não teria esse tipo de material em mãos. O que sugeria que, naquele momento, estavam em desvantagem. Se decidisse lutar na umbra, acabaria perdendo. Não podia esquecer que era um garoto, e seu corpo não possuía a força de um adulto.
Eis que, então, uma ideia surgira. Arriscada, sim, mas a única que poderia funcionar. Raciocinando, ordenara que Emily ficasse escondida, sem quaisquer ruído que pudesse entregar a sua localização. Ele sairia correndo, ao passo que riscava com a espada, a parede, produzindo faiscas. Esse barulho chamaria a atenção, permitindo que Emily encontrasse a saída. E, assim o fez. Subitamente, correra, sua voz preenchera todas as lacunas da localidade. O grunhido, irritante, das criaturas sombrias, delataram que seu plano teria dado certo.
A jovem, aproveitando a distração, correra na direção oposta. Porém, seu coração encheu-se de culpa. Como poderia estar fazendo isso? Eram crianças, claro, mas isso não significava que o correto envolvia abandonar um companheiro. Porém, sabia que nada poderia fazer e se ficasse apenas iria atrapalhá-lo. Madeixas, escarlates, correndo de um lado a outro ao passo que seus olhos, dourados, brilhavam mediante a situação — estava chorando. Gotículas, escaparem, indo contra o rosto. Não poderia perdoar-se, caso ele morresse.
Kenji permaneceu correndo, incessantemente, a cada passo sabia que concedia a chance de Emily fugir. O problema é que não teria elaborado um plano, em relação ao que faria quando chegasse o fim daquela caverna. Pouco a pouco, então, o limite mostrara-se claro. Agora, já não possuía a capacidade de escapar, independente de como faria, sabia que estava encrencado.
Os barulhos, amedrontadores, denotaram a presença dos seres sombrios. Agora, a criança, deveria confiar nos sentidos outrora ensinados a serem utilizados: seus ouvidos. Seus olhos não lhe ajudariam naquela situação e se dependesse da visão, certamente acabaria morrendo. Fechara as pupilas, concentrando-se no ambiente. Cada passo, ou manifestação, deveria ser escutado a tempo.
A aproximação fora realizada, sim, mas ainda não deveria agir. Em sua mente, as palavras do seu pai o guiavam: — Manter a calma, jamais desesperar-se e sempre confiar naquilo que irá fazer. Se não houver certeza, simplesmente não realize ato algum. Se for para atacar, faça-o para matar e obter um resultado gratificante. Essas eram as palavras que sempre lhe eram dirigidas, afim de conduzi-lo à vitória.
Agora, podia sentir a ''respiração'' era como se os olhos daquelas horrendas criaturas, recaíssem sobre si. E a certeza envolvera-o plenamente, deveria ser naquele momento ou jamais teria outra oportunidade. Kenji avançou, mergulhando na escuridão. Sua lâmina envolvera-se em um brilho sagrado, bem como uma sensação de paz o conduzia. Cada vez mais, embrenhava-se no breu eterno, mas guiado pela luz que era emanada de sua lâmina. Eis que, então, as criaturas foram subjugadas, desparecendo com um grito estridente.
Kenji pudera abrir os olhos, já ofegante. Era como se houvesse acabado de conjurar uma magia e, agora, sequer soubesse reutilizá-la novamente. Pensamentos desconexos e uma sensação de liberdade, percorria o seu peito. Aquilo era poder? Desejava ter àquela mesma noção, novamente, queria mergulhar no poder, outra vez. Porém, como o faria? Logo, dispertara-se do transe, em relação ao que teria acontecido e seguira rumo a saída.
Emily estava lá, com as mãos sobre o peito, esperando-o. Quando vira Kenji e suas madeixas enegrecidas, como a escuridão que enfrentaram, correra em sua direção. Um salto amplo e completamente feliz, definia vossa vitória. Mas teriam conquistado apenas a glória daquela batalha, pois sua aventura ainda estava começando. Seguiram, então, a uma direção que- certamente-, todos acabariam se encontrando. O que aconteceria? Eles não sabiam dizer.
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