Aria estava de ouvidos colados na porta de Marie Constance, diretora do orfanato Stan Louise. Seu quarto ficava bem em cima, e ela acordara ouvindo vozes. Bem, acordara não seria o termo certo. Ela nem dormira.
Aria olhou por entre a fechadura e viu que havia duas pessoas na sala além da diretora. Um homem mais velho, com vestes negras elegantes — vestes de mestres professores, pensou Aria -, cabelo grisalho raso e um longo e fino nariz, com cerca de 60 anos. E um garoto alto de pele bronzeada e cabelos negros. – Ela não pode ser descendente de Zenda. É um absurdo o senhor sequer cogitar essa possibilidade! — sussurrava com indignação a Sra. Constance. Aria já ouvira falar de Zenda nas aulas no orfanato. Ela fora a maior caçadora e guerreira de todos os tempos. Um dia, em um resgate a um de seus dragões preferidos, Zenda caíra de um penhasco. Tentaram de tudo para que ela sobrevivesse. Chamaram os melhores feiticeiros curandeiros de Houndland, mas não conseguiram. Isso fora há mais de 40 anos. – Sra. Constance, por favor, ouça. Temos que levá-la para o Palácio Magna antes que amanhece e a movimentação alarme a população.- dizia o homem mais velho, que tinha uma voz profunda, mas calma. Uma voz que convenceria alguém no auge de sua vida se jogar de um penhasco. "Pule, será um lugar bom", Aria o imaginou falando. – Você já olhou para ela? A garota nem consegue manter a coluna ereta, imagine segurar um arco! Só o que me faltava! Agora o nosso maior e mais prestigiado professor de alta classe enlouqueceu! O garoto mais novo deu uma curta risada. Parecia estar achando graça da incredulidade da Sra. Constance. – Eu diria que a senhora enlouqueceu. Ofendendo o Mestre Grun. — disse o garoto com um ar travesso na voz. –Pequeno Maylon, não caçoe da Sra. Constance. — disse o Mestre Grun, com um pouco de rigidez na voz, apesar de ser perceptível que também achava graça daquilo. — Sra. Constance nós realmente precisamos levar a garota. A senhora sabe o quanto estamos inseguros desde... — o Mestre Grun hesitou ao terminar a frase, sua voz tinha um tom de tristeza, como se aquilo fosse doloroso demais para dizer em voz alta. – Desde a morte de Zenda. — completou o garoto. – Sra. Constance nós vamos levar a garota! — disse o Mestre Grun demonstrando sua determinação. — Se a senhora tentar impedir, tenho mais de vinte homens altamente treinados e prontos para levar a garota por bem ou por mal do lado de fora deste prédio – Tudo bem, tudo bem, levem essa maldita garota! – Ótimo, sra. Constance! — disse o Mestre Grun, agora com voltando a voz calma. – Humpft! – Uma última coisa, sra. Constance — disse o garoto Maylon. – Fale logo, criança! Quero ir dormir! – Esta garota é bonita? – Maylon! — disse o Mestre Grun num tom de advertência. — Ignore a pergunta, sra. Contance. – Esses garotos de hoje em dia! Agora andem, peguem a garota! – Vamos, Maylon. Está na hora de conhecermos Aria pessoalmente.
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