Dragon Souls
3 Chantagem
Notas iniciais
Maxwell estava nervoso. Aquela menina parecia maluca aos olhos dele. Devia estar metida com drogas, com bandidos e o sistema de tráfico de trabalhos escolares. Ele percebeu que ela o observava toda hora e isso o deixava bem desconsertado, ela parecia tramar algo. Assim que o sinal tocou, eles guardaram o material e se dirigiram para fora da sala. Lindsay estava logo atrás dele e de repente ela arrancou a mochila das costas de suas costas. Ele definitivamente não esperava isso, bullying no meio de um corredor lotado, haviam professores ali. O que ela queria? Max olhou para trás.
– Opa, desculpa, eu tropecei — Ela sorria para ele ao entregar a mochila de volta.
Ele não sabia exatamente como reagir àquilo. Também não estava acreditado muito que fora um acidente.
– N-não, tudo bem... Eu acho. — gaguejou.
Depois disso, ela entrou em algum corredor diferente do dele. Max se sentiu aliviado por não tê-la mas atrás de si. Ele passaria em seu armário, mas lembrou que havia deixado suas apostilas de exercício em casa há alguns dias, então seguiu seu caminho até o ponto de ônibus.
Maxwell Cluecni era seu nome completo. Ele pegava um ônibus todos os dias para ir e voltar da escola. Não tinha amigos e não queria ter, ele não se importava mais. A maior parte das pessoas o procurava apenas por puro interesse, ele era inteligente, tinha notas boas. Nenhum de seus colegas de classe falava com ele até a época de provas e trabalhos em grupo. As vezes alguns meninos ficavam o enchendo e caçoando dele por ser muito quieto e ter os cabelos verdes.
Assim que desceu do ônibus, caminhou até uma lanchonete, onde comeu um cachorro quente e depois andou até em casa. Seus pais não estavam, eles trabalhavam o dia todo e chegavam pouco antes de anoitecer. Ele subiu para seu quarto, jogando a mochila em cima da cama e ligando o computador. Porém Max notou que seu material escolar fez um barulho estranho. Ele abriu a mochila.
“O que...? Como...?” Pensou. “Como isso foi acontecer? Como que ela...?”
Max segurou a garrafa de uísque na mão lembrando da cena de logo antes de sair da escola. Não havia como ela ter posto aquilo em sua mochila em tão pouco tempo e com risco de ser pega por outros alunos e professores. Intrigado, ele procurou outros objetos ali que podiam não lhe pertencer e percebeu que nenhum material seu estava ali. Havia um estojo vermelho, cadernos sem nome que não eram seus e um bilhete escrito com uma caligrafia bem arredondada.
“Te devolvo depois da nossa prova em dupla. Espero que saiba física. Eu não sei nada.”
Essa era a última coisa que ele precisava. Fazer a prova com uma ladra alcoólatra louca que ele apostava que nem havia posto as mãos no material de estudo. Ele não se importava de por nomes em trabalhos, mas provas ele preferia fazer sozinho sempre que podia e se não era uma opção, ele escolhia alguém que merecesse alguma ajuda ou que desse alguma.
Ele levantou a mão à testa e massageou suas têmporas. Ainda não acreditava completamente em todo o acontecido. Tudo por causa de um maldito sanduíche que agora estava com ela, já que ele havia o colocado de volta na mochila. Max andou até seu computador e abriu a agenda virtual de seu e-mail, já que sua agenda normal estava perdida. Checando as tarefas ele percebeu que o dia do passeio também seria no dia seguinte. Eles iriam até o bosque que ficava nos arredores de Parlak para tirar fotos e redigir uma redação inspirada na foto como projeto de português e artes. A tarefa poderia ser feita em grupos de até 3 e ele pretendia fazer sozinho, contudo não sabia se seria possível agora que tinha essa garota em seu caminho.
Sem ter muito mais o que fazer, ele decidiu fazer mais alguns exercícios e terminar a apostila complementar. Ele até cogitou a possibilidade de usar o material de Lindsay, mas ficou apreensivo. Ele não sabia do que ela era capaz. A menina poderia muito bem fazer parte de uma gangue e, se isso fosse verdade, ela poderia os mandar atrás dele, então pegou o que precisava do escritório de seu pai. Depois que terminou, ainda tinha bastante tempo de sobra, então resolveu passar o resto da tarde e parte da noite jogando videogame em seu quarto. Só viu seus pais, Dominic e Lauren, na hora do jantar e depois foi dormir.
No dia seguinte, Max acordou muito antes de seu despertador. Hoje seria apenas a prova nos dois últimos horários Ele abriu a janela para ver o sol nascer. Estava cada vez mais frio, o inverno chegava, logo haveria neve. Ele sorriu ao observar o céu em tons de vermelho, laranja, roxo e azul. Tudo lindo. Maravilhoso. Até ele se lembrar do que ocorrera no dia anterior, então seu humor escureceu, ele perdeu completamente o ânimo e foi se arrumar.
Já quase entrando pelos portões da escola, ele viu sua colega de classe andando em sua direção. Ele notou que ela usava uma mochila rosa claro que não combinava nada com sua aparência sempre sombria. Pensando melhor, ele começou a achar que a que estava em sua posse era a dela.
– Bom dia, Max. — Ela tinha um enorme sorriso nos lábios rosados com seu novo BlackBerrry Lips.
– Cadê minha mochila? — Ele respondeu seco, porém em um tom baixo para que não soasse como uma ameaça.
– Direto ao assunto, hm? — Ela entrgou a ele um estojo e um caderno. — Taí o que você precisa pra sobreviver um dia na escola.
– Você pretende me devolver minha mochila? — Max se mantinha completamente sério.
– Claro que sim! Você acha que eu sou uma ladra? — Os dois trocaram olhares por alguns segundos. — Enfim… Eu ia gostar muito de te entregar sua mochila, mas eu não trouxe ela, eu esqueci em casa.
– Ótimo. — Ele virou os olhos e levou a mão à testa.
– Ih, calma, eu vou te devolver, relaxa. — Ela levantou as mãos em redenção. — Aliás, meu nome é Lindsay.
– Muito interessante. — Seu tom implicava exatamente o oposto.
– Olha, Max, eu não vou te deixar em paz até eu ter um mínimo de certeza de que não vou levar bomba em todas matérias. — Lin falava calmamente. — Então, já que eu não vou largar do seu pé, aproveita a companhia. Eu também não to pulando de alegria em ter que ficar com você. Se você não percebeu, você não é exatamente o tipo de cara que eu costumo sair.
“Claro que não sou. Não sou um bandido viciado em crack.” Max achou melhor manter esse comentário para si mesmo.
A professora de física parecia um pouco intrigada com a dupla sentada logo a sua frente. Ela esperava que Maxwell viesse pedir para ser uma excessão na regra de dupla, como todas as outras vezes, mas ele tinha um par ainda mais incomum, Lindsay Steel. Ela se sentia confusa. Só não mais confusa que a própria Lindsay que não entendia nada do que seu parceiro escrevia no papel. Max percebendo isso começou a tentar dar explicações bem superficiais das questões. Lin, apesar de ainda estar perdida, conseguiu começar a enxergar alguma lógica no que ele dizia. A atenção completa dela em Max fez a professora ficar ainda mais perplexa.
Dada a hora do almoço, Lin seguiu Max até o pátio, onde ele se sentou para comer seu sanduíche. Ela o encarou por algum tempo enquanto ele comia e quando ele percebeu, encarou de volta, sem saber o que fazer ou o que ela queria. Ele não daria seu almoço para ela, ela já tinha sua mochila. Mas ao ver a expressão no rosto de Maxwell, ela demonstrou estar apenas se divertindo às custas dele, tirando um pote cheio de biscoitos do bolso da mochila rosa.
O almoço seguiu com um silêncio esquisito entre os dois, preenchido por conversas dos outros. Quando terminaram de comer, foram até o ônibus contratado pela escola que os levaria até o bosque. Ainda que estivesse frio, o sol brilhava forte no céu, batendo nos assentos onde estavam Max e Lindsay, fazendo com que nenhum dos dois conseguisse olhar para o lado de fora da janela durante a hora que passaram ali. Se pudessem, talvez teriam notado as sombras avulsas andando pela calçada, seguindo na mesma direção que eles estavam indo.
– Atenção, alunos, por favor, se juntem todos aqui. Isso, isso. — A professora chamava em uma voz aguda e irritante. — Meninas, sem conversa. Quero que vocês pensem bem na redação que vão fazer depois. E pelo amor de Deus, não se afastem muito do grupo principal. Eu não quero ninguém se perdendo aqui.
– Olha, eu acho que ela não quer é ter o trabalho de procurar alguém. — Lin sussurrou para Max que, apesar de ter fingido que não escutou, concordava.
A trilha era de terra e cascalho, seguia em apenas uma direção e estava um pouco apagado em alguns locais, já que pessoas que moravam em Parlak não costumavam se aventurar no bosque. Os alunos começaram a andar pela trilha, sendo guiados por professores. Eles tiravam fotos de plantas, insetos, teias de aranha… Max fazia o mesmo, procurava um ângulo e tirava uma foto atrás da outra. Lin segurava as alças de sua mochila observando as árvores de vários tipos. Boa parte tinha galhos apenas na parte de cima e eram bem compridas e estreitas. Em contrapartida, havia árvores de galhos baixos e grossos, com raízes salientes, as fazendo parecer monstros que os agarrariam a qualquer momento, e arbustos de galhos finos e pontudos.
Já estavam andando por meia hora quando Lin puxou Maxwell pela blusa para perto de si, apontando para o meio das árvores.
– Max, olha! Tá vendo ali?
– Não.
– Olha direito.
Ele estreitou os olhos e conseguiu enxergar um brilho constante por entre as folhas.
– O que é aquilo?
– Não sei, vamos lá. — Ela segurou seu pulso e começou a levá-lo para fora da trilha.
– Lindsay, pera aí, me solta. A gente não pode…
– Não se preocupa. — interrompeu. — A gente não vai muito longe, é logo ali.
Mesmo que Max estivesse relutante no início, havia uma ponta de curiosidade nele que queria saber o que era. E essa curiosidade aumentava a cada passo. Tanto que ele nem percebeu quando ela o soltou, ele já estava andando por vontade própria.
Logo que chegaram perto da fonte de luz, perceberam que era uma rosa amarelo-claro que estava a emitindo. A flor não estava nascendo de nenhuma roseira, ela estava sozinha ali em meio à grama e dentes-de-leão com seu caule curto e duas folhas. Em volta de suas pétalas havia um globo de algo que se assemelhava a partículas de poeira quando iluminadas pela luz do sol. Lin se agachou ao lado da rosa e tocou suas pétalas. Assim que seu dedo passou pelas partículas brilhantes e fez com que toda a esfera se deformasse como uma bolha sendo tocada.
– Olha que bizarro. — Ela repetia o processo várias vezes e tirava algumas fotos.
Max não estava prestando mais atenção nela. Ele estava mais interessado na trilha que seguia sem conexão com a original e parecia terminar em uma parede de pedra.
– Lindsay? — chamou.
– Oi?
– Vem cá… — Ele a puxou pela manga da camisa para que ela ficasse de pé.
– O que? Por quê...? Me solta, seu… — Então Lin olhou na mesma direção dele.
Os dois começaram a andar devagar. Max olhou para trás e ainda conseguia ver alguns alunos andando, assim se preocupou menos em se perder por ali e continuou caminhando em frente.
A parede de pedras cinza fazia parte da lateral de uma construção maior. Dando a volta nela, perceberam que a estrutura se assemelhava a um pequeno castelo de três andares (incluindo o térreo). Quatro torres menores, uma em cada canto, e uma um pouco maior no centro, que não dava para ser vista . A porta da frente era enorme, feita em uma madeira avermelhada e pedaços de ferro, parecia muito antiga. As árvores ao redor do castelo formavam um teto por cima dele, deixando alguma, porém pouca luz o iluminar.
– Vem, me ajuda.
Os dois empurraram a porta pesada que se abriu com um ranger alto. Poeira caiu do teto por causa da vibração. Plantas tomavam conta do chão e o encobriam completamente, galhos verdes cheio de folhas, subiam pelas paredes até o teto e passavam por entre os vãos de janelas quebradas. Uma mesa grande de madeira desgastada pelo tempo se encontrava no meio do salão de entrada, cheia de pratos e taças empoeiradas. As cadeiras ao redor estavam derrubadas ou quebradas, com o forro mofado, exalando um cheiro nada agradável. Eles passaram pelo salão e seguiram até uma escada no segundo andar.
O corredor se separava no andar de cima, levando à quatro escadas, cada uma em um canto do andar e no fim do corredor à frente da escada, uma porta estava empenada, deixando a amostra uma estátua.
– Já vamos voltar, okay? — Lin perguntou andando até a porta entreaberta.
– Aham.
O garoto estava preocupado. Ele achava que não achariam mais o grupo, mas ele queria explorar o lugar assim como ela. Tudo ali tinha um ar misterioso, como se atrás de cada porta houvesse um novo segredo para ser descoberto. Um castelo no meio do nada. Ele nunca havia ouvido nada sobre um naquela área. Ele esperava ter alguma pista sobre quem morou ali e porquê foram embora. E se agarrando ao pensamento de que saberia voltar à trilha, ele a seguiu até o que parecia ser uma sala de armas.
Nas paredes, espadas de todos os tipos e tamanhos, de katanas à cimitarras, sendo seguradas por pregos, nas mesas, martelos de guerra, e mais ao centro da sala, foices diferentes penduradas por correntes no teto. No meio da sala a grande estátua de uma figura encapuzada com dedos esqueléticos segurando uma foice cujo cabo era do tamanho do ser que a segurava. Era difícil enxergar muita coisa por estar escuro, porém feixes de luz refletiam nas lâminas toda vez que o vento mexia as folhas.
– Wow, olha que foda. — Ela largou a mochila no chão e caminhou em direção a escultura que era duas vezes maior que ela.
– Eu acho que a gente já viu de mais, a gente devia voltar…
– Tá, já vou. — Ela segurou a mão da estátua e começou a escalá-la.
– O que você ta fazendo?! — Max instintivamente olhou para os lados para ter certeza de que ninguém os via, se sentindo estúpido logo depois. — Você é louca, vai quebrar alguma coisa!
– Olha, relaxa, tá?! — Lindsay olhou para ele agachada em cima do cabo da foice. — Não é como se eu tivesse feito isso mil vezes, mas não é a primeira vez que eu escalo uma coisa que não é feita pra isso.
– Ótimo…
Max pensou ter ouvido passos atrás de si e se virou. Ele pelo corredor e viu uma sombra ao fim dele que desapareceu em um piscar de olhos. Sem dar muita atenção ele voltou-se para Lin. Ela estava se esticando para pegar algum tipo de colar ao redor do pescoço de pedra clara. De novo, passos, como se mais pessoas estivessem chegando perto deles, porém ao procurá-las, ele nada via.
– Lindsay, acho que a gente devia ir…
– Pera um pouco.
Ele viu sombras pelo canto do olho.
– Não, a gente precisa ir agora!
– Peguei!
Ela arrancou o colar de onde ele estava. Todas as armas do cômodo começaram a se mexer, como se um furacão tivesse começado no meio dele. Elas flutuaram no ar em círculos acima da cabeça de Lin, cada vez mais rápido, o chão tremia, pedacinhos do teto caíam. Então todas elas foram em direção da menina, sendo absorvidas e sumido, porém a derrubando. O impacto no chão o fez ceder e ambos caíram no andar de baixo, ela cima de um monte de tapetes jogados um por cima do outro e ele em cima de uma mesa de madeira que se quebrou.
Max rapidamente se pôs de pé, notando que além da mesa, havia quebrado uma caixa que exalou um cheiro forte de plantas podres que o deixou tonto. Ele correria para longe, porém percebeu que Lin estava desacordada e a arrastou até o salão. Ele a chamou várias vezes antes de começar a ouvir guinchos estranhos como se fossem animais vindos de todo lugar ao redor deles. Ele a sacudiu e procurou seu pulso, ela estava viva. O som ficou mais agudo e ele tentava a acordar desesperadamente até ela abrir os olhos. Ele a puxou pelo braço para que ficasse de pé e correu procurando a entrada do castelo, antes pegando a mochila caída perto da porta do quarto anterior.
Apressados, não procuraram a trilha de volta, apenas correram para a direção que achavam que estaria o ônibus. O sol já estava se pondo e uma atmosfera sinistra se formava ao redor deles. Galhos pareciam mãos os tentando impedir de achar o caminho e lhes arranhando o rosto, raízes os faziam tropeçar, as folhas mortas no chão os faziam escorregar. Após o que pareciam 15 minutos, o sol havia sumido, os fazendo correr no escuro por algum tempo antes de avistarem as luzes dos postes na estrada.
Ao se aproximarem, viram a professora fazendo a checagem de alunos. Os dois se sentiam zonzos e a luz, apesar de fraca, os irritavam os olhos e os dava dor de cabeça, assim como as vozes das conversas.
– …Jane, Laura? Leonard, Lindsay Morris... Lindsay Steel?
Lin levantou a mão para que fosse notada, depois pegou sua mochila da mão de Max e vestiu o casaco de capuz que estava dentro dela. A menina abaixou a cabeça e entrou no ônibus, sentando-se no último banco para que pudesse dormir sem ser incomodada.
– ...Maria, Mathew, Maxwell… Maxwell está aí?
– Presente. — Ele levantou a mão e também subiu no ônibus para chegar em casa e passar uma das piores noites de sono que ele já teve.
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