Dragon Pals
2 Uma Má Influência
Notas iniciais
O Colégio Interno Starswirl era um dos mais tradicionais de Equestria, e estudar nele era considerado uma grande honra para qualquer pônei, unicórnio ou pégaso que conseguisse uma das vagas concorridíssimas nele. Há não muito tempo atrás, com o intuito de promover uma maior integração entre os diversos povos de Equestria e de outras regiões, a Princesa Celestia havia emitido um documento criando um programa de intercâmbio para receber alunos de outras localidades.
Foi justamente nesse programa que um filhote de dragão chamado Sleet acabou se inscrevendo, e ao contrário dos outros, para ele não era considerada honra nenhuma estudar naquele colégio.
Sendo o único aluno dragão do colégio, era impossível para ele não se sentir deslocado: os colegas não o entendiam, seus professores se mostravam distantes, as aulas eram chatas e enfadonhas e também parecia que não importava o quanto ele se esforçasse, suas notas nunca conseguiam subir acima do suficiente para passar de bimestre. Como se tudo já não fosse ruim o bastante, na turma de Sleet havia uma unicórnio chamada Starry Night, que era uma das melhores estudantes de todo o colégio, e que também era tremendamente arrogante, e adorava se gabar em cima dos outros alunos sempre que tirava notas altas.
Só havia uma coisa que lhe servia de refúgio para Sleet naqueles dias turbulentos: seus livros de “Orengi, o Dragão”, que ele havia trazido consigo.
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Era uma bela manhã em Ponyville para todos... exceto para Spike. Depois que Twilight percebeu que Spike era o responsável pelos incidentes de perturbação da ordem pública na cidade, que variavam desde assustar os animaizinhos da Fluttershy até criar neve no pomar de Applejack, ele acabou ficando de castigo. Por um lado, ele realmente se sentia mal por ter causado tantos problemas, especialmente para a Rarity. Por outro... aquele amigo dragão que ele havia conhecido parecia ser sua única chance de se vincular com sua identidade dracônica da qual ele passara tanto tempo distante.
De repente, ele ouviu de novo o som de alguém batendo de leve na janela do seu quarto.
- Yo, Spike. – Sleet o chamou discretamente.
- Sleet? O que você está fazendo aqui? A Twilight vai te ver! – Spike exclamou.
- Eu podia te perguntar a mesma coisa. Você não tinha dito “A gente se vê?”
- É... mas isso foi antes de eu ficar de castigo por duas semanas. – Spike suspirou.
- Ah, cara, que chato. – Sleet suspirou de volta. – Mas vem cá, por que tu se submete a isso?
- Eu sou o assistente da Twilight. Foi uma honra que eu recebi da Princesa Celestia.
- É, dá pra ver. – Sleet respondeu com sarcasmo. – Me fala aí, no que consiste essa sua grande “honra”?
- Bom, como assistente, meu trabalho é cuidar de tudo: eu varro, arrumo a biblioteca... essas coisas de assistente.
- Entendo...
Sleet parou de falar, e então sua expressão facial mudou para algo pensativo, até que ele pareceu ter uma grande ideia.
- Vem cá, você também tem que ficar lendo tijolões iguais ao que a nerd de franja lê também?
- Fala da Twilight? Ah não, eu não preciso ficar lendo aquilo..., mas acho que ela ia gostar se eu lesse mais de vez em quando.
- Que bom, porque eu trouxe um material de leitura para você.
Sleet entregou, pela janela de Spike, um livro extremamente grosso, até mesmo para os padrões de Twilight. Na capa, estava escrito: “História da Magia – Edição de Luxo”.
- Dá uma lida aí. Quem sabe se você fizer um esforcinho, você ganha uns pontos com a carcereira e ela te libera por bom comportamento.
Spike fez uma careta de quem não gostou.
- Ei, sem careta. – Sleet respondeu. – Quanto mais rápido você terminar sua pena, mais rápido a gente volta a se ver.
- Está bem... valeu, Sleet.
Sleet foi embora, deixando Spike sozinho com aquele livro extremamente grosso e pouco convidativo. Spike se perguntava por que Sleet achou que ele iria querer ler um livro daquele, que parecia ser complexo até para os padrões de Twilight, até que ele percebeu uma coisa: na capa, na letra H, havia um rasgo. Spike foi verificar ali e, com uma puxadinha leve, descobriu algo que fez um sorrisão abrir em seu rosto: aquele volume grosso era, na verdade, um embrulho, que disfarçava outros seis livros menores.
Na capa de todos, estava escrito o mesmo título: “Orengi, o Dragão.”
Ao ver o presente que havia recebido, Spike prontamente se apressou para terminar as atividades que Twilight havia lhe passado como castigo, e então se apressou para começar a ler. Pegando um livro maior da biblioteca de Twilight, para servir de disfarce, Spike colocou, por dentro, o primeiro livro da série, e começou a lê-lo.
O livro contava a história de Orengi, um bebê dragão que, assim como ele, havia crescido longe de outros dragões, sendo criado por um pônei terrestre chamado Bonfire. Sua vida mudaria radicalmente ao conhecer Star Chaser, uma unicórnio cheia de personalidade que, nas palavras de Spike, “tinha a beleza de Rarity e a inteligência de Twilight”. Juntos, essa dupla improvável partiria numa jornada inesquecível para além dos limites de Equestria.
Twilight havia dado a Spike um castigo de duas semanas, por causa da bagunça que ele e Sleet fizeram por Ponyville, mas os livros que Sleet havia lhe dado fizeram com que as duas semanas passassem voando. Nesse meio-tempo, Spike devorou os livros sem dó, rindo dos momentos em que a inocência de Orengi fazia Star Chaser perder a paciência com ele e se empolgando com os momentos épicos, como a vez em que Orengi invadiu a fortaleza do Marechal Persian para libertar um pônei idoso, chefe de uma pequena comunidade local, que era mantido prisioneiro.
Secretamente, Twilight observava Spike lendo cada vez mais e ficava feliz pelo gosto pela leitura que ele estava desenvolvendo. Como demonstração de seu apreço por isso, Twilight encurtou o castigo de Spike pela metade, o que deixou o bebê dragão muito feliz.
Isso, porém, não durou muito: certa noite, quando Spike tinha ido dormir, Twilight pegou um tratado sobre magia para estudar. Foi naquele momento que um dos livros de “Orengi”, que Spike havia esquecido lá dentro, acabou caindo. Erguendo uma sobrancelha, Twilight começou a ler o livro. De início, sua expressão facial, mostrou desinteresse, até que certas coisas começaram a chamar a atenção dela. Então, sua expressão mudou para indignação com o conteúdo do livro e, por fim, horror puro com o que ela estava lendo.
No dia seguinte, Spike acordou para tomar café-da-manhã com Twilight, sem perceber a expressão facial séria no rosto da unicórnio.
- Spike, precisamos conversar.
- Claro, Twilight. O que houve?
Twilight pegou o livro que Spike estava usando como fachada para esconder um de seus livros de “Orengi”.
- Eu sei que você não está lendo esse livro. Sei porque fui pegar ele para ler e achei isso dentro. – Twilight, disse, revelando um dos livros de “Orengi”
- Ei, você mexeu nas minhas coisas? – Spike perguntou, aborrecido.
- Spike, o livro que você estava usando como disfarce é meu, e eu quis lê-lo. Encontrei esse seu outro livro por puro acidente.
- Me devolva!
- Nada disso! Tem ideia do quão impróprio isso é para a sua idade?
- “Impróprio” coisa nenhuma! – Spike se aborreceu ainda mais. – O Sleet me disse que...
Spike tapou a própria boca ao perceber a gafe que cometeu, o que fez Twilight semicerrar os olhos.
- Quer dizer que foi o Sleet quem te deu isso, não foi?
- E se foi ele, o que é que tem demais?
- Tudo, Spike! Isso aqui é tão... tão...!
- “Tão” o quê, Twilight?
- Vulgar, grosseiro, violento e de muito mau gosto! Dê uma olhada nisso!
Indignada, Twilight abriu o livro e começou a ler um trecho que ela havia marcado para provar seu ponto.
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- Hohoho, tome cuidado! Não vai querer acertar esse cupcake na minha mão, vai?” – Disse a terrível Candy Cane, enquanto segurava Star Chaser, transformada em cupcake, em sua mão.
- Você vai me pagar, isso não é justo! – Esbravejou o pequeno Orengi.
- Cala essa boca, vou lhe ensinar a não se meter com Candy Cane! Pôneis-confeiteiros, me façam uma boa panqueca desse lagartinho!
- Hohohoho, somos muito maus!
- Se prepare para aprender uma grande lição!
- Ai, ui, ai, ui, ai, ui! – gemia o pequeno Orengi, enquanto era moído a coices pelos pôneis-confeiteiros de Candy Cane. Enquanto isso, o astuto grifo Talon e sua companheira Flopsie observavam tudo de longe.
- Uh, mas e essa agora? – Resmungou Talon. – Nunca conseguiremos encontrar os Elementos da Harmonia sem aqueles dois! Não temos escolha, nós temos que ajuda-los!
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Spike não resistiu e começou a rir do jeito que Twilight lia o livro.
- Do que você está rindo, Spike? Isso é sério!
- Desculpa, é que eu sempre rio dessa cena. – Spike respondeu, enxugando uma lágrima.
- Spike, não tem nada de engraçado em violência contra filhotes de dragão! Nem na forma como esse livro retrata grifos e pôneis.
- Mas a Candy Cane é a vilã, oras! – Spike respondeu. – Se você quer uma que seja heroína, tem a Star Chaser. Ela parece você... só que bonita igual a Rarity.
- Você quer dizer, a mesma Star Chaser que atira um raio no Orengi sempre que fica irritada com ele?
- Ah, qual é, Twilight, você tem que admitir que a cena dele arremessando a carroça dela por achar que era um lobo de madeira foi engraçada!
- Não, Spike, não foi engraçado, e eu não quero mais você lendo isso. Devolva isso para o Sleet.
- Mas...
- Sem mais, Spike. Faça o que eu estou mandando. – Twilight começou a perder a paciência.
- ...não”!
- Como é?
- Eu disse “não”! – Spike respondeu. – Você sempre dizia o quanto queria que eu lesse mais, e agora que eu achei algo que gosto de ler, você quer me impedir?
- Eu queria que você lesse mais livros de qualidade, e não esse... esse... lixo!
- Isso não é lixo, entendeu? Pela primeira vez, eu estou lendo algo que é legal de verdade, ao invés de todas aquelas porcarias de tratados e ensaios que você me pede para ler para você.
Twilight ficou espantada. Ela nunca havia ouvido Spike falar daquele jeito com ela. Até mesmo o próprio Spike ficou assustado quando percebeu a expressão que Twilight estava fazendo.
- Spike, você vai devolver esses livros, ou eu vou ter que escrever uma carta para a princesa Celestia.
Agora era a vez de Spike ficar assustado com o tom de voz e com a ameaça de Twilight. Sem querer irritar ainda mais a unicórnio, Spike decidiu devolver os livros para Sleet.
Enquanto procurava por Sleet, Spike olhou para o céu e viu o rastro de arco-íris característico deixado por uma de suas amigas, e então começou a acenar para chamar a atenção dela. Rainbow Dash, a autora daquele rastro, percebeu e desceu até o amigo.
- Ei, Spike, como é que você está, garoto?
- Rainbow, oi! Você é justamente a pégaso que eu estava procurando!
- Por quê? O que houve?
- A Twilight me mandou devolver esses livros, mas eu não quero! Eles são muito bons! Será que você poderia me fazer um favor e guarda-los para mim?
Rainbow Dash deu uma olhada nos livros, e então olhou para Spike com uma expressão facial séria.
- Spike, Spike... você está querendo que eu esconda coisas proibidas da Twilight?
- Sim, quero dizer, não. – Spike gaguejou. – Acontece que...
- Estou dentro! – Rainbow Dash abriu um sorrisão sincero.
Rainbow Dash pegou os livros e então os levou para sua casa em Cloudsdale, onde ficariam escondidos em segurança, longe da tutela de Twilight. Agora, sempre que Spike quisesse ler os livros, ele só teria que arranjar uma desculpa para visitar Rainbow Dash, e Twilight não suspeitaria de nada.
Entretanto, para a dedicada aprendiz de Celestia, aquilo não era o suficiente. Sleet estava se mostrando uma péssima influência para Spike, e isso estava criando um problema que não podia ser postergado. Assim, ela decidiu que iria atrás do dragão para colocar tudo em pratos limpos. Twilight o encontrou deitado ao pé de uma árvore, com um saquinho meio vazio de joias ao lado, e ambas as asas cobrindo seu rosto.
- O que é que você quer? – Sleet perguntou, sem nem ao menos olhar para Twilight.
- Precisamos conversar...
- Não tenho nada pra falar contigo. – Sleet respondeu.
- Mas eu tenho muita coisa pra falar com você sobre o tipo de lixo que você tem dado para o Spike ler.
- Como é que é? O que foi que você disse? – Sleet descobriu o rosto com as asas e encarou Twilight visivelmente aborrecida.
- Você me ouviu bem. Peguei um dos livros que você emprestou para o Spike ler e li um pequeno trecho dele... mais especificamente, o que você usou de “inspiração” para aquela brincadeira perigosa com o boneco explosivo. – Twilight estava séria. – Vem cá, você não tem vergonha de...?
Twilight iniciou um monólogo que começou a estorvar Sleet. Ele não prestou atenção numa única palavra que ela disse, e a única coisa em que conseguia pensar era como fazê-la calar a boca.
- ... você está me ouvindo? – Twilight reclamou.
- Me diz uma coisa: foi para você quem eu emprestei os livros?
- Não.
- Então nada disso é da sua conta, entendeu? – Sleet rosnou. – O Spike merece ter contato com algo feito por dragões e para dragões, coisa que vocês visivelmente não deram a ele... não que alguém como você vá entender esse tipo de coisa.
- O Spike não precisa de nada que venha de você, entendeu? – Twilight rangeu os dentes. – Nós todos estávamos muito bem aqui antes de você aparecer!
- Não, VOCÊ estava muito bem! Eu sei que você deve estar acostumada a ser bajulada por onde passa como a mais inteligente de todas, mas acredite: ser uma sabichona não te dá o direito de falar pelos outros, entendeu?
Antes que Twilight tivesse a chance de falar alguma coisa, Sleet deu um peteleco no chifre dela por puro despeito, e decidiu se preparar para sair voando.
- Aonde você vai? – Twilight perguntou.
- Para o mais longe possível de você. – Sleet respondeu e saiu voando.
Twilight bufou com a falta de educação de Sleet em deixa-la falando sozinha. Ela considerava aquele dragão azulado um sujeito extremamente insuportável, e a única coisa que ela queria dele era que ele sumisse do mapa e parasse de perturbar ela, Spike e suas amigas, principalmente o Spike, haja vista que ele estava começando a se tornar uma má influência para ele.
Respirando fundo, Twilight decidiu seguir em frente e resolver algumas coisas que haviam sido o motivo para ela ter saído de sua biblioteca, para começo de conversa: ela comprou algumas coisas, resolveu algumas pendências, aproveitou para rever alguns rostos conhecidos e, então, voltou para casa. Logo atrás dela, estava Spike, que deu um pulo de susto ao ouvir Twilight berrando de dentro de sua biblioteca. Preocupado, Spike saiu correndo esbaforido para ver o que havia acontecido.
- Twilight, o que houve?
Se Twilight tivesse mãos e dedos, ela com certeza estaria usando-os para arrancar a própria crina devido à visão tenebrosa que ela estava contemplando: as janelas da biblioteca abertas, escancaradas, e todos os livros dela derrubados das prateleiras e espalhados pelo chão.
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