Dragon Pals
3 Guerra Fria
Notas iniciais
Quanto mais tempo passava desde que Sleet havia sido matriculado no Colégio Interno Starswirl, mais isolado ele se tornava. Ele não fazia amizades, não conversava com ninguém e, pouco a pouco, ele começou a cabular aula. Primeiro, isso ocorreu de forma esporádica, mas pouco a pouco foi ficando mais frequente.
Foi numa dessas “cabulações” de aula que ele encontrou um grupo de dragões, mais ou menos da idade dele. O grupo era formado por cinco dragões: havia um dragão roxo, um dragão cinzento, um dragão marrom, um dragão branco e um dragão vermelho, que parecia ser o líder do grupo. Todos estavam brincando de lutinha, e Sleet teve vontade de se juntar a ele.
- O-Oi, pessoal. Posso brincar com vocês? – Sleet perguntou, se aproximando.
Os cinco dragões olharam para ele como quem olha para um fedelho enxerido. O vermelho pareceu estar prestes a soltar uma piada, até que ele percebeu algo em Sleet que o fez mudar totalmente sua expressão facial.
- Caramba! Você é igualzinho ao Príncipe Algol!
- Quem é “Príncipe Algol”? – Sleet perguntou, levantando uma sobrancelha.
- Como assim, “quem é o Príncipe Algol”? Você não lê os livros do Orengi? – O dragão roxo perguntou.
- São os únicos livros que valem a pena ser lidos. Por isso que os nerds e os professores não gostam deles. – O dragão cinzento complementou
- É claro que eu leio. – Sleet respondeu. – Eu tenho os três livros da coleção, e não lembro de ter visto nenhum “Príncipe Algol” em nenhum deles.
O grupo começou a cair na gargalhada.
- Ah, tá explicado. Ele ainda não leu o livro novo que saiu.
- Espera, saiu um livro novo do Orengi? – Sleet abriu um sorriso enorme.
- Saiu faz tempo! – O dragão vermelho respondeu. – Eu tenho um exemplar bem ali. Se quiser, pode dar uma lida.
- Puxa, valeu! – Sleet sorriu. – Qual é o seu nome?
- Garble. E o seu?
- Sleet. Sleet Frostbite.
- Peraí, “Frostbite”? – Garble levantou a sobrancelha. – Você quer dizer... igual ao Hailstorm Frostbite, “O Gigante de Gelo”?
- Sim, eu sou filho dele.
O grupo de cinco dragões ficou embasbacado com aquela informação.
- Incrível! O que aconteceu para o filho do Gigante de Gelo ter vindo parar nesse colégio de pôneis? – O dragão marrom perguntou.
- Eu... não quero falar sobre isso.
- É isso aí, não encham o saco dele. – Garble respondeu. – Aí, mano Sleet, fica à vontade para ler meu livro do Orengi.
Garble e seus companheiros dragões voltaram a brincar de lutinha, enquanto Sleet ficou num canto, com o livro que Garble havia emprestado para ele. Na capa, havia um desenho de Orengi, agora adulto, em posição de alerta, e acima dele, havia três outros dragões sobrevoando, em poses ameaçadoras. O primeiro era vermelho, com uma crista escamosa enorme e maior que a de seus companheiros. O segundo era verde, não tinha crista nenhuma e tinha um bigode à moda dos dragões chineses. O terceiro, e também o mais baixo do trio, era azul, com olhos vermelhos e detentor de um sorriso que exalava orgulho e arrogância.
Os olhos de Sleet brilharam ao perceber que Garble tinha razão: aquele dragão era igualzinho a ele.
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Twilight e Spike deram duro reorganizando os livros em suas respectivas prateleiras. Durante toda a organização, Spike não conseguiu deixar de perceber o quão mal-humorada Twilight estava.
- Twilight... você está bem?
- Não, Spike, eu não estou bem! Aquele... IDIOTA do Sleet! Tudo isso foi culpa dele! Eu sei que foi!
- Twilight, você não pode acusar os outros assim sem provas!
- Eu SEI que foi ele! Eu saí para ter uma conversa com ele quando...
- Espera, você foi falar com ele? – Spike levantou uma sobrancelha. – Por quê?
- Por causa desses livros que ele deu para você ler.
- Mas eu devolvi os livros, como você pediu!
- O ponto não é esse, Spike! Esse dragão é uma má influência para você! Primeiro, ele faz uma brincadeira onde ele amarra um explosivo em você...
- Twilight, só tinha confetes lá dentro. – Spike respondeu. – Tudo bem que eu tomei um susto, mas ele me contou que ele mesmo passou por aquilo. É parte da brincadeira.
- Segundo, ele saiu vandalizando metade de Ponyville com aquela brincadeira dele. – Twilight ignorou totalmente o que Spike disse.
- Tá bom, eu admito, nós fomos descuidados.
- Terceiro – Twilight continuou. – Ele te dá esses livros cheios de violência gratuita e humor de gosto questionável!
- Escuta, eu já entendi. Você não gosta dos livros do Orengi, mas isso não significa que...
- Spike, pare de me responder! – Twilight levantou a voz. – Por que você está tão decidido a defender esse sujeito?
- Porque ele pode ser a minha única chance de descobrir quem eu sou de verdade...
A expressão facial de Twilight amoleceu no momento exato que ela ouviu aquelas palavras.
- Eu pensei que você, entre todo mundo, entenderia isso...
- Spike, espera...
Spike saiu cabisbaixo e chateado depois de ter falado aquilo e bateu a porta com força, ignorando o pedido de Twilight. Enquanto vagava ensimesmado por Ponyville, ele relembrava os comentários que suas amigas haviam feito sobre ele durante a imigração dos dragões.
“Uma mancha forte contra um dragão fraquinho! Hahahaha!”
“O estilo do Spike é único! Não precisa parecer com outros dragões.”
“E nem agir como eles.”
“Você tem uma coisa que aqueles dragões terrivelmente ferozes só podem sonhar: Bochechas rechonchudas que são uma graça!”
“Ah, ele não é adorável quando anda como um pato raivoso?”
Imerso nos próprios pensamentos, Spike acabou trombando com alguém.
- Olha por onde anda, sua... Ah, oi, Spike. Não tinha percebido que era você.
Era a voz de Sleet.
- Nossa, cara. Está tudo bem com você?
- Não. – Spike disse, enxugando uma lágrima. – Não está tudo bem.
- Vixe... quer falar sobre isso, cara?
- Não, não quero.
Um silêncio constrangedor se formou entre os dois.
- Quer rachar um punhado de joias comigo?
- Obrigado. – Spike respondeu em voz baixa.
Sleet parecia não ter uma residência fixa em Ponyville... ou em lugar nenhum, para falar a verdade. Geralmente, quando ele falava em pegar algo para Spike, ele pedia para Spike esperar em um lugar “X”, e então, voltava com essa coisa “X” para ele. Daquela vez, ele havia voltado com outro daqueles saquinhos de joias... mas dessa vez, com doces.
- Foi mal, cara. Estou ficando sem joias. – Sleet riu.
- Está tudo bem. Obrigado.
Sleet deu um sorriso discreto ao perceber que o humor de Spike havia melhorado.
- É como eu sempre digo: um saquinho de joias e uma leitura de “Orengi” fazem milagres por um dragão. Falando nisso, o que está achando dos livros que eu te dei?
- Bom, eu... pare de ler na parte que o Orengi finalmente chega para enfrentar o Rigel e o Príncipe Algol. – Spike respondeu, desviando o olhar.
- O que houve? Você não gostou?
- Não, não, eu adorei! O problema é que os livros não estão mais comigo.
A expressão facial de Sleet mudou para algo aborrecido
- Aquela sua “amiga” roxinha...
- A Twilight. – Spike complementou.
- Sim, a Twilight. Ela confiscou os livros?
- Não, ela me mandou devolvê-los, senão ela ia mandar uma carta para a Princesa Celesta, mas eu os escondi. Eles estão com a minha amiga Rainbow Dash.
- Peraí, você deixou meus livros com uma pônei?
- Não esquenta, a Rainbow Dash é legal. – Spike sorriu.
- Duvido muito.
Outro silêncio constrangedor se formou entre os dois. Dessa vez, quem quis quebra-lo foi Spike.
- Sleet, posso te perguntar uma coisa? Por que você não gosta da Twilight e das outras?
- Não é tanto eu que não gosto delas. – Sleet respondeu. – Elas é que não gostam de mim. Os pôneis, no geral, não gostam de nós, dragões.
- Mas a Twilight e as outras são legais comigo.
- Não se ofenda com o que eu vou dizer, amigo, mas a verdade é que elas só são assim porque não enxergam você como um dragão de verdade.
Spike ficou cabisbaixo, aborrecido com o que acabou de ouvir. Já era ruim quando suas amigas falavam que ele não se parecia com os outros dragões, mas ouvir seu novo amigo dragão comentando aquilo também era ainda pior.
- O que tem de errado com o que eu sou?
- Com o que você é? Nada. – Sleet respondeu. – Com o que elas fizeram com você? Tudo.
- Não entendi.
- Elas arrancaram fora suas escamas! Criaram você como um pônei em miniatura e condicionaram você a viver precisando da aprovação delas o tempo todo! – A fala de Sleet começou a ficar carregada de veneno. – Sabe por que você nunca teve contato com a sua própria cultura antes? Acha que é porque elas não sabem nada de dragões? Conversa fiada! Tenho experiência o suficiente com pôneis sabichões como a Twilight para saber que ela sabe de tudo e mais um pouco! Ela com certeza sabe também que, no momento em que você começasse a se aproximar mais da sua cultura, você inerentemente iria começar a se afastar delas, e elas têm medo disso!
- Mas a Twilight passou uma noite inteira pesquisando na biblioteca particular dela, e não achou nada. Ela realmente tentou.
- Tentou nada! – Sleet insistiu. – Você a conhece melhor do que eu, deve saber, bem melhor do que eu, como ela fica quanto realmente foca em um objetivo. Não sabe?
Spike ficou em silêncio. Conhecia Twilight o suficiente para saber que quando Twilight botava algo na cabeça, ela levava aquilo até o fim. Twilight já tinha feito aquilo no caso de Nightmare Moon ou no caso do dragão que estava soltando fumaça sobre Ponyville. Quando ela recebia uma missão importante da Princesa Celestia, ela sempre dava 150% de si mesma naquilo.
- É, você tem razão.
- Claro que eu tenho razão, Spike. Sou um dragão há mais tempo que você, meu chapa. Aliás, falando em ser dragão, já prestou atenção no jeito que elas te tratam? “Spikey-wikey”, “fofinho”, “adorável”? – Sleet fez uma cara de nojo. – Nem meus pais me tratavam de uma forma tão condescendente assim! Elas te tratam assim porque, pra elas, você não é um indivíduo. Você é uma coisinha fofa, um chaveirinho para ser ostentado. O simples fato da Twilight ter ameaçado chamar a tal Celestia, como você me contou é uma prova disso: ela tentou te desmoralizar... mas você mandou bem achando um jeito de contornar a situação.
Spike se sentiu validado quando Sleet elogiou a ideia que ele teve para não ter que se desfazer dos livros. Ao perceber aquilo, Sleet decidiu meter mais lenha na fogueira.
- A verdade é que os pôneis têm inveja do que somos. De nossa aparência, de nossa liberdade, de nossa independência, de nossa força... tudo! Por isso eles fazem tudo o que estiver ao alcance deles para que sintamos vergonha do que somos. Porque quando você não tem nenhuma qualidade positiva, é bem mais fácil se sentir melhor fazendo os que são melhores que você se sentirem envergonhados.
Spike estava concordando com tudo o que Sleet estava dizendo, até aquele ponto em específico.
- Isso não é verdade! A Twilight nunca tentou me fazer sentir vergonha de eu ser quem eu sou!
- Ah, não? – Sleet levantou uma sobrancelha. – Então vai me dizer que você gosta da forma como elas tratam você? Como elas chamam você?
Spike desviou o olhar.
- Foi o que pensei. Guarde minhas palavras, Spike: no momento em que você começar a agir e a aparecer mais com um dragão de verdade, a forma como suas “amigas” lhe tratam vai mudar totalmente.
Outro silêncio constrangedor se formou entre os dois.
- Sleet?
- O que foi?
- Me ensina a ser um dragão de verdade?
- Com todo o prazer! – Sleet respondeu, com um sorriso largo.
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