Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco
30 Kanon, O Primeiro Cavaleiro
A BATALHA DAS 12 CASAS
— Estão tentando nos forçar a revelar os nossos ki a qualquer custo — deduziu Goku. Os olhos escuros do Saiyajin continuavam estreitos, focados na energia sutil de Shun vibrando debaixo da terra. — Ou nós mostramos onde estamos, ou eles vão destruir a Grécia inteira e afogar milhões de inocentes só para nos soterrar junto.
Da ampla sacada do Salão do Grande Mestre, os defensores acompanhavam o espetáculo do apocalipse. As incessantes muralhas de água do Egeu continuavam a consumir a energia de Hyoga, cujo gelo era imediatamente pulverizado e transformado numa chuva de estilhaços nas mãos velozes de Kuririn, Androide 17, Androide 18, Yamcha, Marin e Shaina.
— Os Cosmos do Hyoga e do Shun não vão conseguir resistir a essa carga sozinhos por muito tempo... — Goku murmurou. Sua expressão já não carregava apenas seriedade; havia uma preocupação genuína, típica de um mestre marcial lendo o esgotamento físico de seus aliados. Sem virar o rosto, ele perguntou: — Quem dos seus Cavaleiros conseguiria descer para ajudá-los?
A voz grave e rasgada de Kanon respondeu:
— Camus seria a resposta óbvia para o oceano. Mas o Cavaleiro de Aquário está trancado na Sala do Tempo de vocês. — Kanon fez uma pausa calculada, olhando de soslaio para a esquerda, exatamente onde o Príncipe dos Saiyajins estava postado como uma gárgula tensa. — Para segurar a pressão física que vem de baixo e de cima ao mesmo tempo, a única defesa intransponível que nos resta é a Muralha de Cristal… de Mú.
Goku e Vegeta travaram.
A respiração de Vegeta parou no meio do peito. Os músculos de seus braços cruzados enrijeceram até o tecido do traje azul.
Enquanto a tensão entre os guerreiros se solidificava no plano físico à sua frente, Saori Kido estava num diálogo silencioso no plano mental.
Longe dali, no isolamento místico da Plataforma Celeste, o Carneiro de Ouro dividia sua essência. Mú transpirava, sustentando a arquitetura mental de Bulma e de Trunks contra a maré escura do Submundo, enquanto respondia ao chamado.
"Mú, qual é a situação das vítimas de Pandora?", perguntou a voz serena, porém urgente, de Atena, ecoando na mente do Dourado.
"Será um trabalho longo e exaustivo, Atena", respondeu Mú, carregando um peso diplomático que tentava disfarçar a gravidade da situação. "Pandora está muito mais forte e resistente do que calculamos no último confronto. A escuridão ao redor das consciências deles é espessa. O progresso existe, mas é letárgico."
Atena fechou os olhos por um breve instante, apoiando as duas mãos sobre o Báculo Nike enquanto o vento frio da sacada balançava seus cabelos. Ela fitou as costas dos três homens a poucos metros de si, ciente da bomba-relógio que orbitava o Príncipe dos Saiyajins.
"A fúria de Poseidon está dividindo nossas linhas, Mú", decretou Saori, a voz assumindo a liturgia inquestionável de um comandante de guerra. "Precisaremos de você e de Shaka de volta à linha de frente antes do que antecipamos."
Mú levantou o rosto subitamente. Seu Cosmo, que banhava os corpos inertes de Bulma e Trunks com uma luz suave, oscilou e se elevou, respondendo à realidade da guerra trazida por Atena.
À sua frente, Shaka permaneceu na posição de lótus, imóvel. A mão esquerda repousava sobre o coração, com a palma voltada para a frente. Os dedos anelar e médio estavam dobrados contra o centro da palma, selados suavemente pela ponta do polegar, enquanto o indicador e o mínimo apontavam firmes para o teto — o Karana Mudra, erguido como uma barreira divina contra a escuridão.
— Fale, Mú — a voz de Shaka ecoou pelo quarto, os olhos ainda fechados.
O olhar do ariano passou lentamente pelo rosto pálido de Trunks antes de pousar na figura iluminada do virginiano.
— A nossa entrada na guerra física será exigida em breve, Shaka. — Ele virou o rosto, analisando a expressão fechada e dolorida de Bulma, que lutava bravamente no plano astral. — E não chegamos nem à metade do caminho aqui.
Fez-se um silêncio reticente. O Zelador de Áries continuou alternando o olhar entre a mãe e o filho sobre as camas de pedra, até que a respiração de Shaka mudou sutilmente à sua frente.
— Sabemos o que deve ser feito, Mú de Áries — a voz serena e implacável de Shaka irrompeu no silêncio. — A rede não suportará os dois se a dividirmos por mais tempo.
Agora, foi o silêncio de Mú que tomou conta do ambiente. Ele piscou algumas vezes. Os dois pontos característicos sobre seus olhos se enrugaram nitidamente.
— Haverá consequências para a mente que for solta. Consequências que não podemos mensurar, Shaka — disse ele, finalmente, a voz pesada.
— …Mas que podemos minimizar se a escolha for feita agora — concluiu o virginiano, sem mover um único músculo.
Mú percorreu o olhar pelas duas vítimas sob seus cuidados e, numa exalação sonora e profunda, elevou a sua mente, projetando sua voz telepática em um último e doloroso contato com o Santuário.
De repente, Vegeta virou levemente a cabeça em direção ao ombro esquerdo, como se alguém tivesse sussurrado em seu ouvido. Seu semblante, inicialmente fechado pela impaciência, começou a desmoronar. A boca do Príncipe se abriu ligeiramente. Os olhos se arregalaram, as írises encolhendo até virarem dois pontos minúsculos de puro choque. Ele apertou os punhos cruzados com tanta força que o som dos ossos estalando competiu com o tremor da terra.
— Vegeta, o que está acontecendo? — perguntou Goku. Ele não tirou o olhar do horizonte tempestuoso, mas seus instintos de luta captaram a mudança imediata no parceiro.
Parado entre os dois, Kanon correu o olhar de Goku para Vegeta.
Os braços do Príncipe dos Saiyajins começaram a tremer. O rosto se contorceu em uma máscara de ódio absoluto, e os olhos escuros ganharam um brilho avermelhado, injetados pela fúria de um animal encurralado.
— Vegeta! — chamou Goku, agora virando o rosto e cobrando atenção, assustado com a resposta corporal do rival.
Vegeta o ignorou completamente. O bloqueio que suprimia a sua energia foi rompido.
O ki explodiu de seu corpo. A pressão atmosférica no Salão do Grande Mestre esmagou os pulmões dos presentes em uma fração de segundo. Pego totalmente de surpresa pela densidade violenta daquela energia, Kanon foi forçado a erguer os braços e recuar um passo pesado para trás, arrastando as botas no chão de mármore para não ser empurrado sacada afora.
— Está na hora de entrarmos nessa guerra — Vegeta sibilou por entre os dentes trincados. O ódio fervia ao redor de seu corpo, rachando o piso sob seus pés.
— Vegeta, o que foi que aconteceu? — Goku levantou o tom, perdendo qualquer traço de calma.
Vegeta fechou a cara, cortando de vez a conexão telepática com a Plataforma Celeste, inconformado em fazer a escolha que Mú havia lhe apresentado.
Ele virou o rosto molhado na direção de Goku. O olhar marejado lutava para ser suprimido pelo ódio de um guerreiro manchado de sangue.
— Eles só podem... salvar... um…
A imagem de Bulma, a garota de cabelos azuis que o atropelou com um carro e disparou vários tiros contra ele na primeira vez que o viu, cruzou a mente de Goku.
A primeira pessoa que conheceu quando ainda vivia isolado nas montanhas. Sua primeira amiga.
Goku não pensou duas vezes. Virou as costas para a guerra lá fora, cravando os olhos escuros diretamente em Saori Kido.
— Kanon — chamou Goku. A voz perdeu qualquer vestígio de leveza, assumindo uma autoridade inquestionável que raramente mostrava. O polegar e o indicador da mão direita já estavam pressionados contra a própria têmpora. — Mudança de planos.
Kanon franziu o cenho, mas Goku não parou para ouvi-lo. Ele se dirigiu à deusa.
— Sem a Bulma, o nosso mundo já teria acabado dezenas de vezes. Sem ela, não teríamos as Esferas do Dragão. Esta aliança sequer seria possível. Nós não vamos deixá-la para trás.
E a resposta foi um cataclismo.
Da Casa de Virgem, o ki de Piccolo foi o primeiro a romper a barreira da supressão. Uma explosão de energia latente e poderosa irradiou do sexto templo, varrendo a poeira cósmica das escadarias. O Namekuseijin havia dado o comando.
Veio o efeito dominó.
Em Escorpião, a aura de Gohan rasgou as sombras do templo. Em Capricórnio, o poder dourado de Trunks iluminou as fissuras tectônicas. Lá embaixo, operando além de seus limites físicos, Kuririn, Yamcha e Tenshinhan pararam de dosar suas energias, elevando seus ki ao nível máximo.
O Santuário que antes tentava se esconder, agora, fazia questão de ser visto, sentido e temido.
No topo da montanha, o ar dentro do Salão do Grande Mestre se tornou irrespirável. Saori Kido foi forçada a prender a respiração, recuando meio passo e apoiando o peso no Báculo da Vitória.
O Cosmo era uma expansão mística do universo dentro da alma; mas aquela energia que irrompia dos dois Saiyajins era brutalmente física. Pesada. Perigosamente destrutiva. À sua direita, a aura de Goku tomava conta do salão com uma presença colossal e implacável, brilhando com a força que não pedia licença para existir. À sua esquerda, a fúria vingativa de Vegeta era um buraco negro de puro ódio.
Pela primeira vez em sua imortalidade, a liturgia divina de Atena foi ofuscada pela magnitude da fúria mortal.
A detonação de energia desceu pelas Doze Casas como uma onda de choque, alimentando os defensores.
Lá embaixo, ainda contendo o peso monumental do oceano, Hyoga de Cisne sentiu a montanha rugir às suas costas. Em vez de quebrar seu foco, o calor e a pressão daquelas energias brutas recém-ativadas no Santuário serviram como uma injeção de adrenalina em suas veias. Com os dentes trincados, o russo incendiou o seu Sétimo Sentido até o ápice do zero absoluto, empurrando o Pó de Diamante para cima e aumentando vertiginosamente a pressão do gelo contra o Mar Egeu, forçando a maré de Poseidon a recuar.
Nas entranhas da montanha, submerso até o pescoço nas águas frias que haviam invadido as falésias, Shun de Andrômeda mantinha os olhos fechados. O sismo tentava despedaçar seu corpo, mas ele apertou as correntes esticadas com as mãos sangrando. Sentindo o Cosmo de Hyoga e o ki colossal dos novos aliados ecoarem pela rocha, o jovem elevou a sua própria aura. Sua energia desceu pelas correntes, travando as placas tectônicas e opondo uma resistência inquebrável contra a força abissal que emanava do fundo do oceano. A Grécia estava amarrada.
No meio do caminho entre a fúria dos Saiyajins no topo e a resistência de Cisne e Andrômeda na base, a Quinta Casa permanecia em sombras.
Encostado contra uma das pilastras do templo de Leão, de braços cruzados e olhos fechados, Ikki de Fênix sentiu a montanha inteira tremer. O canto de sua boca se curvou para cima e uma risada curta, áspera e carregada de uma satisfação cruel e raramente vista rasgou o silêncio do templo vazio:
— É, Poseidon e Hades... — murmurou, abrindo um sorriso predatório na penumbra. — Vocês estão fodidos.
Já nas profundezas inatingíveis do Submundo, o silêncio perpétuo da Giudecca foi esmagado.
Aos pés das escadarias do trono, Radamanthys de Wyvern trincou os dentes. O Juiz do Inferno levou a mão instintivamente ao peito, sentindo o ar do submundo se tornar subitamente espesso e quente.
— Que anomalia é esta? — rosnou Radamanthys, os olhos injetados cravados no teto do palácio, como se pudesse ver a superfície da Terra através da rocha. — Esta energia... é agressiva. Grosseira.
Aiacos de Garuda, encostado a uma das colunas com os braços cruzados, estreitou os olhos por baixo da franja escura. O seu sorriso arrogante vacilou antes de ele recuperar a postura.
— São várias. E estão todas concentradas no mesmo ponto. O Santuário de Atena acabou de se transformar num abatedouro.
No alto do trono, o Imperador dos Mortos não moveu um único músculo, mas os seus olhos, escuros e insondáveis se abriram ligeiramente. Ele, que governava o fim de todas as coisas, sentiu o gosto daquela energia.
Atena não tinha recrutado humanos. Tinha recrutado bestas.
— Atena deixou a liturgia de lado e resolveu apelar para a brutalidade. — murmurou a voz de Hades, ecoando pelas paredes gélidas e escuras. — Interessante.
A milhares de quilômetros da Grécia e muito acima do Submundo, o cair da noite nas florestas da Capital do Oeste encobria o cenário de devastação.
No epicentro das crateras e ao lado da nave metálica, Minos de Griffon e Giganto de Ciclope aguardavam em silêncio. Uma névoa arroxeada rodopiou subitamente a partir do solo estéril, condensando-se até revelar a figura curvada e ofegante de Niobe de Deep.
O Espectro sorria, os dentes podres à mostra.
— Senhor Minos... a caçada foi produtiva — sibilou Niobe, curvando-se numa reverência apressada. — Encontrei o lugar. Uma estrutura imensa no centro da metrópole. Chama-se Corporação Cápsula. E o melhor de tudo: está completamente vazia de guerreiros. Não há defesa alguma. Apenas civis à espera da mort...
Niobe não conseguiu terminar a frase.
Um calafrio violento lhe subiu pela espinha, paralisando-lhe a língua. Giganto de Ciclope se engasgou, dando um passo pesado para trás e quebrando um galho seco sob a sua bota. O Espectro corpulento começou a transpirar desesperadamente, os olhos esbugalhados por baixo do elmo, enquanto os seus pulmões lutavam para puxar o ar.
Minos de Griffon ergueu o rosto lentamente. Os fios platinados do seu cabelo esvoaçaram com uma rajada de vento quente e antinatural que não pertencia àquele continente. O Juiz do Inferno virou o pescoço na direção leste. Na direção da Grécia.
A sua perceção cósmica, afiada por séculos de condenações, foi engolida pela detonação simultânea daqueles ‘cosmos’ monumentais do outro lado do mundo.
O olhar de Minos fitou o lugar onde estava. Girou o pescoço e fez uma última avaliação do local. Um ‘cosmo’ como aquele que emanava agora seria capaz de causar um estrago como aquele.
— Então... — sussurrou Minos, a voz fria destituída da sua habitual indiferença. O Juiz olhou para o logótipo da nave esmagada e depois para o horizonte distante. — As bestas decidiram sair das jaulas.
Contudo, a pressão esmagadora dos ki de Piccolo, Uub e dos Saiyajins não eram nada comparado ao que veio depois.
Só havia uma coisa mais perturbadora capaz de paralisar o Submundo e o Império dos Mares que os aliados ocultos de Atena.
Nas profundezas da Giudecca, Radamanthys interrompeu o passo subitamente na saída do salão do trono. A respiração do Juiz do Inferno travou na garganta e os seus olhos se arregalaram sob a sombra do elmo; cada célula de seu corpo lembrava perfeitamente daquela energia arrogante e destrutiva.
No fundo do Mar Egeu, o choque foi ainda mais intenso. O sangue se esvaiu instantaneamente dos rostos de Io, Krishna, Sorento, Kasa, Isaak e Thetis. E, pela primeira vez desde o início da guerra, a solene postura divina de Poseidon foi quebrada: o Imperador dos Mares ergueu-se do trono num pulo, os dedos cravando no tridente enquanto o olhar faiscava de pura incredulidade.
No Salão do Grande Mestre, alheio ao pânico interdimensional que acabara de causar, Kanon caminhou a passos lentos e silenciosos. Ele se virou e se sentou confortavelmente na imponente cadeira pontifícia do Santuário sob os olhares sisudos de Goku e Vegeta. Encostou o cotovelo no apoio de braço de ouro e repousou o rosto de perfil sobre o punho semifechado, um sorriso presunçoso desenhando no rosto.
O homem que um dia vestira a Escama de Dragão Marinho liberou a totalidade do seu Cosmo dourado. Não com a fúria desesperada de quem está acuado, mas com a tranquilidade cínica de tempos de paz.
— Hora de devolver as rachaduras aos nossos inimigos.
E, irradiando sua energia para que inundasse a mente de cada deus, Juiz e General ao redor do mundo, Kanon soltou a sua satisfatória e inconfundível risada de assinatura.
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