Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco

14 Dia 2 - Os Primeiros Defensores


A SAGA DO SANTUÁRIO

Exatamente vinte e quatro horas após a porta de madeira maciça ter se fechado, um clique metálico ecoou pelo pátio silencioso da Plataforma Celeste. O som, embora pequeno, fez com que todos os presentes — os outros Cavaleiros de Ouro, Dendê e Mr. Popo — virassem seus rostos instantaneamente para a entrada da Sala do Espírito e do Tempo.

A porta se abriu lentamente.

O primeiro sinal não foi visual, mas sensorial. Uma rajada de vento quente e seco escapou da sala, carregando uma pressão atmosférica que fez o ar ao redor do templo vibrar. Não era apenas Ki, nem apenas Cosmo. Era uma amálgama densa e pesada de ambos.

Dois vultos emergiram da escuridão do portal.

Kanon saiu primeiro, caminhando com a postura ereta de um imperador. Suas roupas estavam em frangalhos, o cabelo azul embaraçado e o corpo coberto de poeira e suor seco, mas seus olhos brilhavam com uma nitidez aterrorizante. Ele parecia uma lâmina recém-afiada.

Logo atrás dele veio Gohan. O jovem Saiyajin não tinha mais os ombros caídos ou o olhar hesitante de um acadêmico preocupado. Ele caminhava com passos firmes, emanando uma calma perigosa, similar à quietude antes de um terremoto.

— Incrível... — sussurrou Dendê, recuando um passo involuntariamente. — O poder deles não apenas aumentou, como amadureceu. Parece mais... denso.

Saga de Gêmeos deu um passo à frente, encarando o irmão.

— Você parece ter atravessado o inferno e voltado.

Kanon parou diante de Saga e dos outros Cavaleiros de Ouro. Um sorriso de satisfação cruzou seus lábios rachados.

— O inferno seria um passeio turístico comparado àquele lugar — respondeu Kanon, sua voz rouca, mas potente. — Aquele quarto não é apenas uma forja psicológica. Vocês nunca viram nada como aquilo.

Ele olhou seriamente para Shaka e Mú, que já haviam deixado sua vigilância, a próxima dupla.

— O silêncio lá dentro grita mais alto que qualquer trovão. É uma experiência absurda e magnífica. Aproveitem cada segundo.

— Fico feliz que tenham sobrevivido — disse Mr. Popo, aproximando-se com duas pilhas de roupas limpas. — O Senhor Kami-Sama preparou trajes novos para vocês. As roupas terráqueas não aguentam a sala por muito tempo.

Popo entregou a Gohan um novo dogi de combate roxo, similar ao de Piccolo (como Gohan preferia), e para Kanon, uma túnica de treino resistente, azul-escura, simples, mas digna.

— E imagino que estejam com fome — completou Popo. — A comida está servida no refeitório.

A menção à comida fez o estômago de Gohan roncar tão alto que parecia o rugido de uma besta selvagem, quebrando a tensão solene do momento. Gohan coçou a nuca, sorrindo sem jeito — o primeiro vislumbre do velho Gohan gentil.

— Hehe... é verdade. Eu estou morrendo de fome!

Minutos depois, no refeitório do Templo

A cena era, no mínimo, contrastante. Kanon comia com a etiqueta de um nobre grego, apesar da fome voraz, servindo-se de pão, frutas e carne de forma metódica.

Ao lado dele, Gohan havia entrado em "modo Saiyajin". Tigelas vazias de arroz se empilhavam como torres. Ele devorava frangos inteiros em segundos, engolia massas sem mastigar e pedia por mais antes mesmo de engolir o que tinha na boca. A velocidade com que a comida desaparecia desafiava as leis da física.

Kanon parou com o garfo no meio do caminho, observando o companheiro de treino com uma expressão de choque genuíno que nem a guerra havia lhe causado.

— Isso... isso é a coisa mais assustadora que eu já vi em toda a minha vida.

Gohan engoliu, limpou a boca e sorriu, com os olhos fechados de satisfação.

— O treino abre o apetite, Kanon... Você devia comer mais também, a gente precisa repor as energias para enfrentar o Thanatos!

Kanon balançou a cabeça, voltando ao seu prato com um suspiro quase divertido.

— Se o exército de Hades for feito de comida, você vence a guerra sozinho, Escorpião.

Enquanto Kanon balançava a cabeça, observando a montanha de pratos de Gohan diminuir, o som de uma bengala batendo no piso de pedra ecoou pela entrada do refeitório. Mestre Kame entrou, sua expressão incomumente séria, sem os óculos escuros habituais. Ele olhou para Gohan com um misto de orgulho e preocupação urgente.

— Gohan — chamou o velho mestre. — Fico feliz em ver que seu apetite continua o mesmo, mas temos um problema.

Gohan engoliu rapidamente o que estava mastigando e se levantou em sinal de respeito.

— Mestre Kame? Aconteceu alguma coisa?

— Ainda não, e é exatamente o que quero evitar — respondeu Kame, caminhando até a mesa onde Mr. Popo servia mais água. — Eu vi o estado em que Bulma e o Trunks ficaram. Se eles pegaram a família do Vegeta, a sua será a próxima.

Kame virou-se para Mr. Popo.

— Popo, o Templo é protegido por barreiras sagradas e agora temos aqueles dois cavaleiros aqui. Quero permissão para trazer os outros civis para cá. Chi Chi, Goten, Videl, Mr. Satã e até o gordo do Majin Buu. Eles não estão seguros lá embaixo.

Mr. Popo assentiu lentamente, seus olhos negros transmitindo serenidade.

— O Templo de Kami-Sama é um santuário para todas as vidas. Se as famílias dos guerreiros estão em perigo, este é o único lugar onde o mal não entra facilmente.

Gohan fechou os punhos, sentindo um calafrio ao pensar em Videl e Goten vulneráveis à melodia de Pandora.

— O senhor tem razão, Mestre. Eu não posso deixar minha mãe e os outros desprotegidos. Eu vou buscá-los agora mesmo.

Gohan olhou para o lado, onde Kanon terminava sua refeição com elegância.

— Kanon, — chamou Gohan. — o que acha de vir comigo?

Kanon ergueu uma sobrancelha, surpreso pelo convite para uma tarefa doméstica.

— Eu?!

— Se algum espectro tentar emboscar minha família no caminho... eu gostaria de ver a cara deles ao darem de frente com o Cavaleiro de Gêmeos.

Kanon soltou um riso breve, levantando-se e ajeitando sua nova túnica.

— Depois de um ano olhando para o nada branco, um passeio pelo seu mundo parece... instrutivo.

Na Sala do Tempo

A porta de madeira pesada se fechou atrás deles com um som surdo, selando o destino de Áries e Virgem pelas próximas vinte e quatro horas terrestres.

O contraste foi imediato. O ar do Templo, carregado com a tensão da guerra iminente e o cheiro do mar, desapareceu. O que restou foi uma quietude absoluta, quase sólida.

Mú deu alguns passos à frente. Os chifres curvos e majestosos sobre seus ombros reluziam, e a capa branca se agitava levemente devido à pressão do cosmo que ele começava a emanar. Mesmo sob a gravidade esmagadora, o metal de oricalco parecia não pesar nada sobre seu corpo, movendo-se como uma segunda pele. Ele sentiu o aumento repentino da gravidade puxando seus ombros e a densidade do ar rarefeito tentando sufocar seus pulmões, mas sua expressão permaneceu serena. Com um leve ajuste de cosmo, ele neutralizou a pressão.

— Fascinante... — murmurou Mú, sua voz suave não produzindo eco. — É uma dimensão de bolso isolada. Não há fluxo de tempo conectado ao exterior, e o espaço se expande perpetuamente. É um vácuo existencial.

Shaka caminhou até ficar ao lado dele. Ele mantinha os olhos fechados, mas sua percepção ia muito além da visão. A Armadura de Virgem, com suas ombreiras largas e design intrincado que remetia à postura de prece, cobria-o totalmente. O som metálico suave das peças se ajustando ecoou quando ele descruzou as pernas para assumir uma postura de combate, algo raríssimo para quem costuma lutar sentado. Para o homem mais próximo de Deus, aquele lugar não era um vazio assustador, mas um santuário de pureza.

— É o silêncio mais perfeito que já ouvi desde que meditava nas margens do Ganges — disse Shaka, uma leve nota de aprovação em sua voz monástica. — Aqui... aqui há apenas a essência do "nada". É o ambiente perfeito para a elevação do espírito.

Mú olhou ao redor, vendo apenas o horizonte branco interminável.

— O Senhor Kami-Sama disse que a temperatura oscila violentamente e que o ambiente tenta quebrar a mente de quem entra — comentou. — Mas para nós, que vivemos manipulando a psicocinese e viajando por dimensões mentais, isso é quase... acolhedor.

Shaka assentiu, sentando-se na posição de lótus flutuante, a alguns centímetros do chão.

— Você percebe a ironia, Mú? — perguntou Shaka.

— Qual?

— Durante séculos, o Santuário temeu conflitos internos entre os Cavaleiros de Ouro. Sempre nos foi dito que, se dois de nós lutássemos a sério, o poder gerado iniciaria uma "Guerra de Mil Dias", destruindo tudo ao redor e criando um impasse cataclísmico.

Mú sorriu. Ele olhou para a vastidão indestrutível da sala.

— Se Máscara da Morte e Aiolia, ou se Saga e Aiolos tivessem um lugar como este para resolver suas diferenças no passado... o Santuário ainda estaria de pé e as disputas seriam resolvidas sem colocar a Terra em risco.

— Este é o único lugar no universo onde poderíamos liberar todo o nosso poder, colidindo cosmo contra cosmo, sem o medo de ferir inocentes ou destruir a natureza...

Mú elevou seu cosmo, uma aura cristalina e elegante envolvendo seu corpo, fazendo o ar pesado da sala vibrar.

— Então, Shaka... já que não precisamos nos preocupar com a destruição do cenário ou com guerras de mil dias... — Mú assumiu uma postura de combate graciosa. — O que acha de testarmos se a minha Muralha de Cristal pode suportar o peso do seu Tesouro do Céu?

Shaka abriu um sorriso enigmático, as contas de seu rosário começando a brilhar.

— Uma proposta interessante... Vamos ver se a sua telecinese é rápida o suficiente para escapar do ciclo das seis existências. O tempo aqui é eterno, mas não vamos desperdiçá-lo.

E naquele vazio branco, dois dos cosmos mais poderosos e espirituais do universo começaram a dançar, prontos para transcender os limites dos Cavaleiros de Ouro.