Dragon Ball CDZ: A Batalha do Zodíaco

11 Dia 1 - O Nascimento do Escorpião


A SAGA DO SANTUÁRIO

A porta pesada de madeira se fechou, e o som do mundo exterior morreu instantaneamente. O que restou foi o silêncio opressivo e a brancura infinita da Sala do Espírito e do Tempo. Não havia horizonte, não havia norte, sul, leste ou oeste. Apenas o nada.

Kanon caminhou alguns passos, sentindo o peso do seu corpo além do normal, suas botas de treino ecoando no piso branco infinito. Ele parou, respirou fundo o ar rarefeito e quente, e olhou ao redor com um misto de desprezo e admiração.

— Interessante — comentou o gêmeo, sua voz não ecoando na imensidão, mas morrendo a poucos metros de distância. — Já estive preso em prisões de pedra, no Cabo Sounion, me afogando diariamente na maré. Mas isto aqui... é uma prisão de "nada". É o isolamento perfeito.

Gohan, sentindo o peso repentino sobre os ombros, caminhou até ficar ao lado dele.

— A gravidade aqui é dez vezes maior que a da Terra, Mestre Kanon. A temperatura oscila entre cinquenta graus positivos durante o "dia" e quarenta negativos à "noite". O ar é rarefeito, com apenas um quarto do oxigênio a que estamos acostumados. É desgastante apenas estar aqui.

Kanon virou-se para Gohan, um sorriso de canto nos lábios, os olhos brilhando com a antecipação de um predador.

— Para homens comuns, talvez.

O ex-General Marina cruzou os braços, adotando uma postura relaxada, mas seus olhos analisavam Gohan como um falcão.

— Antes de começarmos a quebrar seus ossos, Gohan... Piccolo disse que você já esteve aqui.

Gohan assentiu, o olhar ficando distante por um momento, varrendo a vastidão branca.

— Sim. Eu era uma criança. Foi antes dos Jogos de Cell. Meu pai... ele era diferente de qualquer outro mestre.

— Como? — Kanon estreitou os olhos, avaliando a informação com ceticismo..

— Ele não me forçava apenas com dor — explicou Gohan, sorrindo ao lembrar. — Nós passamos meses aqui não apenas lutando, mas vivendo. Ele queria que eu me acostumasse a ser um Super Saiyajin como se fosse natural. Ele acreditava que o controle emocional era a chave, não apenas a raiva. Foi aqui que eu aprendi que podia superá-lo.

Kanon ouviu atentamente, respeitando a memória.

— Controle emocional e naturalidade... Uma abordagem luxuosa para quem tem tempo a perder com escrúpulos.

De repente, a aura de Kanon mudou. O ar ao redor dele começou a distorcer, não com o Ki explosivo e vibrante dos Saiyajins, mas com um Cosmo dourado, denso e silencioso.

— Mas a minha abordagem será diferente, Gohan — disse Kanon, a voz ficando fria e autoritária. — Eu não sou seu pai. Eu não quero que você se acostume com o poder. Eu quero que você domine a vontade do seu inimigo. Goku te ensinou a ser um herói. Eu vou te ensinar a ser um executor.

Kanon descruzou os braços. Não houve explosão de energia, apenas o frio gélido de um Cosmo que já habitou as profundezas do oceano e do inferno.

— Me taque. E esqueça que sou seu aliado. Se você hesitar por um segundo, eu enviarei sua alma para uma dimensão onde nem mesmo seu pai poderá te encontrar.

Gohan não hesitou. Com um grito, ele explodiu em sua aura branca mística. Ele desapareceu. Para um olho humano, Gohan sumiu. Para Kanon, que dominava o Sétimo Sentido, Gohan estava se movendo rápido, mas linear.

Gohan surgiu atrás de Kanon com um chute alto capaz de decapitar uma montanha. Kanon nem se virou. Ele apenas levantou o antebraço, bloqueando o impacto com uma elegância assustadora. O chão sob eles rachou em uma cratera, mas Kanon não se moveu um milímetro.

— Forte — elogiou Kanon, sem olhar para trás. — Mas previsível. Você confia demais nos olhos e na velocidade.

Num movimento fluido, Kanon girou, agarrando a perna de Gohan e arremessando-o para o horizonte branco. Gohan se recuperou no ar, freando o voo e preparando rajadas de ki. Mas quando olhou para baixo, Kanon não estava em posição de defesa. Ele estava desenhando formas no ar com as mãos.

Triângulo de Ouro!

Gohan viu o espaço ao seu redor se dobrar. Linhas douradas surgiram do nada, formando tetraedros impossíveis. De repente, o chão branco sumiu. O céu sumiu. Gohan não estava mais na Sala, mas flutuando em um abismo escuro, distorcido, sem referência de cima ou baixo.

— O que é isso?! — gritou Gohan, tentando sentir o ki de Kanon, mas o espaço estava confuso, ecoando energias de lugares inexistentes.

— Entenda a técnica para escapar dela, Gohan! — a voz de Kanon ecoava de todos os lados, professoral e severa, como se ele fosse o próprio universo falando. — O Triângulo de Ouro não é um simples teletransporte. Eu distorci a geometria do espaço-tempo ao seu redor, criando uma fenda similar à do Triângulo das Bermudas no Atlântico Norte. Eu isolei sua existência em uma dimensão paralela de descarte. Aí dentro, a lógica não se aplica. Não há saída física, pois não há paredes para quebrar.

Gohan disparou uma rajada de energia. Ela viajou alguns metros, fez uma curva impossível e quase o atingiu nas costas.

— Se você não conseguir encontrar a dissonância dimensional com sua mente e romper a estrutura do meu cosmo, ficará vagando aí pela eternidade como um navio fantasma. Use o cérebro! Sinta a distorção!

Gohan fechou os olhos. O pânico inicial tentou tomar conta, mas ele lembrou das lições de meditação. Ele parou de tentar ver e começou a sentir. Não o Ki, mas a costura do universo. Ele sentiu onde o cosmo de Kanon mantinha a realidade dobrada.

Com um rugido, ele elevou seu Ki ao máximo, focando não em explodir tudo, mas em desamassar aquele ponto específico. A realidade estilhaçou-se como vidro, e Gohan caiu de joelhos no chão branco da Sala, ofegante.

Gohan caiu de joelhos, o peito subindo e descendo freneticamente, o suor evaporando instantaneamente no calor da Sala. Kanon não se moveu. Ele não sorria, apenas o observava como um mestre de armas observa uma lâmina torta.

— Você conseguiu sair — a voz de Kanon era seca. — Mas olhe para você. Usou o Ki como um animal acuado para rasgar a realidade. Se estivéssemos no Submundo, os Espectros já teriam sentido sua exaustão a quilômetros de distância.

Kanon caminhou até ele, sua roupa ondulando no ar pesado.

— Força bruta é o recurso de quem não tem controle. Da próxima vez, não tente quebrar a minha dimensão. Tente entender a fraqueza do meu pensamento que a sustenta. Levante-se! De novo!

Meses se passaram. A barba de Gohan crescia, e suas roupas estavam rasgadas e sujas. Eles haviam acabado de fazer uma pausa para comer as provisões secas. O "céu" branco escurecia para a noite artificial da sala.

Sentados no chão, recuperando o fôlego, Gohan observava Kanon. O cavaleiro parecia imperturbável, com uma disciplina espartana.

— Mestre Kanon... — começou Gohan, quebrando o silêncio. — Você disse que meu estilo é "linear". Mas eu fui treinado pelos maiores guerreiros do meu universo.

Kanon ergueu uma sobrancelha, interessado.

— Me diga... Quem moldou esse seu estilo híbrido? Eu vejo fragmentos de genialidade, mas eles não se conectam perfeitamente.

Gohan sorriu, nostálgico.

— O primeiro foi o Senhor Piccolo. Ele é um Namekuseijin, mas na época era a encarnação do mal na Terra.

— Um demônio? — perguntou Kanon.

— Quase isso. O Senhor Piccolo me ensinou que o poder sem estratégia é inútil. O estilo dele é observador. Ele analisa, encontra a fraqueza, estuda o terreno e ataca com precisão cirúrgica. Ele me ensinou a pensar antes de bater. O Masenko é uma técnica dele. E mais importante... ele me ensinou o sacrifício. Ele morreu para me salvar quando eu era criança.

Kanon assentiu.

— Estratégia e sacrifício. Um bom alicerce. Continue.

— Depois, meu pai, Goku. — Gohan olhou para as próprias mãos. — O estilo do meu pai é... instinto puro. Ele é um gênio que se adapta no meio da luta. Ele não odeia o inimigo; ele ama o desafio. Ele me ensinou a fluidez, a calma no meio do caos, e a nunca desistir, não importa o tamanho do oponente.

— Um idealista... Perigoso em guerras reais.

— Houve também o Senhor Kaioshin. — Gohan ergueu o rosto, lembrando-se do planeta sagrado. — Ele é um deus de 15 gerações passadas.

— Um deus treinou você? — Kanon pareceu impressionado pela primeira vez.

— Não foi um treino físico. Foi um ritual de paciência. Ele passou mais de vinte horas apenas realizando uma dança estranha e emanando energia sobre mim. Eu queria lutar, queria me transformar, mas ele me ensinou que a verdadeira força não precisa de transformação ou fúria explosiva. Ele desbloqueou todo o meu potencial oculto de uma vez só. É por isso que não fico loiro como meu pai ou Vegeta quando luto a sério agora. Eu luto com a minha essência pura no máximo.

— Eficiência divina... — murmurou Kanon. — Acesso total ao poder sem o desgaste emocional da transformação. Interessante. E quem mais?

— O senhor tem a mesma disciplina do Vegeta. — disse Gohan. — Ele sempre briga comigo para eu treinar mais, que não devo parar de treinar em tempos de paz. Ele nunca me treinou, mas eu aprendi muito lutando ao lado dele.

Kanon terminou sua água e se levantou, a expressão tornando-se severa.

— Estratégia, instinto, eficiência divina e disciplina... Você foi montado como um mosaico de virtudes. E é por isso que você é frágil. Cada um desses mestres deixou uma porta aberta para a misericórdia.

Gohan balançou a cabeça.

— Todos eles, de certa forma, lutam com honra ou emoção. Contra Thanatos e Hypnos, contra deuses que veem humanos como formigas, a sua honra será sua morte.

Kanon caminhou até Gohan, sua sombra projetando-se sobre o rapaz.

— Fisicamente, você é muito poderoso. Talvez mais forte que eu, Saga ou até mesmo seu pai em força bruta. Mas a mente de vocês é uma porta aberta. Foi assim que eu controlei os Generais de Poseidon. Guerreiros bondosos como você hesitam. E mentes que hesitam são fáceis de invadir.

Kanon ergueu o dedo indicador, que começou a brilhar com uma luz sinistra e pulsante.

— Vamos começar o verdadeiro treino... Vou usar o Satã Imperial em você.

Gohan arregalou os olhos, recuando um passo.

— Vai usar o quê? – Gohan perguntou, assustado com o nome.

— Você tem medo do nome do golpe? — Kanon solta um inevitável sorriso de satisfação. — Ótimo. O medo é o lubrificante que faz meu Cosmo escorregar pela sua mente.

Gohan arregalou os olhos. Pela primeira vez, sentiu mais medo que admiração pelo cavaleiro redimido.

— Mas você precisa entender como ela funciona para resistir — explicou Kanon friamente. — O Satã Imperial invade o cérebro do oponente, transformando-o em um fantoche violento e leal a mim.

Gohan deu mais um passo para trás, sem tirar os olhos de Kanon. "Ele é incrivelmente forte... Se eu não aprender isso vou ser um inútil nessa batalha", pensou. O medo oscilava como combustível e autocobrança.

Kanon tocou a própria têmpora.

— Ele reescreve suas sinapses morais. Eu posso transformar o homem mais santo em uma besta sanguinária. E o pior: a técnica tem um gatilho. A hipnose só é quebrada quando a vítima vê alguém morrer diante de seus olhos. É um golpe cruel, feito para usar o inimigo como arma contra seus próprios aliados.

Kanon apontou o dedo para a testa de Gohan.

— Eu não vou completar o golpe para te escravizar. Vou aplicar a pressão mental dele. Você vai sentir o desejo incontrolável de obedecer, a alucinação, a distorção da realidade. Você precisa aprender a erguer barreiras psíquicas. Você precisa aprender a dizer "não" a um deus dentro da sua própria cabeça.

Um raio de luz disparou do indicador de Kanon.

Gohan gritou, caindo de joelhos, as mãos na cabeça. Em sua mente, a sala branca desapareceu. Ele via Cell perfeito matando Chi Chi. Via Freeza rasgando o pequeno Goten ao meio. Via Majin Buu devorando Videl.

— AAAAAAAAAAHHHHHHH... Isso é uma tortura... – Ele dizia, com as mãos cobrindo os ouvidos.

E uma voz — a voz de Kanon, mas distorcida e demoníaca — ordenava: Mate todos eles para parar a dor. Destrua a Terra para salvá-los.

— Não é real! — gritava a voz do verdadeiro Kanon, cortando a alucinação como um farol na tempestade.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH... — Gohan sofria mentalmente.

— Foque no meu Cosmo real! Separe a ilusão da verdade! Quem manda na sua mente é você, Gohan! Mate a compaixão, mate a dúvida, ou você matará seus amigos!

Foi o calvário de Gohan.

Por semanas intermináveis, eles treinaram defesa mental. Kanon atacava com ilusões cruéis, e Gohan aprendia a quebrá-las, transformando sua mente gentil em uma fortaleza de aço, blindada contra a manipulação, fundindo a disciplina de Piccolo com a frieza necessária que Kanon lhe impunha.

No último mês, a dinâmica havia mudado completamente. As roupas de ambos eram trapos. O corpo de Gohan estava coberto de cicatrizes superficiais que logo sumiam, mas seu olhar havia mudado. Não havia mais a ingenuidade do estudante. Havia a serenidade perigosa de um veterano.

Eles estavam em lados opostos da vastidão branca.

— Último dia — disse Kanon, sorrindo com um brilho selvagem nos olhos. Ele respeitava aquele garoto agora. Gohan havia sobrevivido ao inferno mental e físico de Gêmeos. — Sem contenção?

Gohan sorriu de volta, uma confiança renovada em seu rosto. Ele assumiu a posição clássica da Escola Tartaruga, mas a energia que emanava dele não era calma. Era avassaladora.

— Sem contenção, Kanon.

Gohan começou a carregar o Kamehameha. A luz azul iluminou o infinito, crescendo exponencialmente. O chão tremia violentamente.

— Meu pai me ensinou a concentrar toda a energia em um ponto e dispará-la — disse Gohan, sua voz ecoando com poder. — Mas você me ensinou a não hesitar em destruir o alvo.

Kanon ergueu os braços para o alto, cruzando as mãos. O cosmo dourado começou a queimar com uma intensidade aterrorizante. O ar ao redor de Kanon escureceu, e ilusões de planetas, estrelas e nebulosas começaram a girar e colidir ao seu redor.

— Observe bem, Gohan! — gritou Kanon, sobre o rugido da energia que rasgava suas roupas. — Diferente dos seus raios de energia, a minha técnica suprema não empurra o oponente. A Explosão Galáctica é a manifestação física do colapso de uma galáxia. Eu estou canalizando o poder de estrelas explodindo e concentrando tudo isso diretamente em você. É um ataque onidirecional de pura aniquilação! Se você não suportar isso, morrerá aqui e agora!

— KAMEHAMEHA!

— EXPLOSÃO GALÁCTICA!

Os dois poderes colidiram. O raio azul focado e denso de Gohan encontrou a tempestade estelar caótica de Kanon. A Sala do Espírito e do Tempo gemeu. O espaço-tempo distorceu. Não houve vencedor claro imediato; houve uma fusão de energias que varreu a dimensão, misturando o Ki bruto saiyajin com a destruição atômica do Cosmo. A explosão resultante engoliu ambos em uma luz branca que cegaria qualquer observador.

A luz da colisão entre o Kamehameha e a Explosão Galáctica finalmente se dissipou, revelando o mármore branco rachado e o ar ainda crepitando com eletricidade estática.

Kanon limpou o rastro de sangue que escorria pelo queixo com as costas da mão. Suas mãos ainda tremiam levemente sob o tecido rasgado — um detalhe que ele ocultou imediatamente ao fechar os punhos. Ele observou Gohan. O rapaz não estava apenas de pé; ele sustentava o olhar de Kanon com uma verticalidade que o Gêmeo só vira em homens prontos para morrer por um ideal.

— Você finalmente deixou de ser um pupilo... — a voz de Kanon saiu seca, mas carregada de um reconhecimento gélido. — Escorpião.

Gohan não sorriu com o título. Ele sentiu o peso das Doze Casas desabar sobre seus ombros no instante em que a palavra foi pronunciada. Apertou a mão estendida de Kanon. A palma do Gêmeo estava calejada e fria, a mão de um soldado que já não esperava nada da vida além da vitória.

— Eu entendi, Kanon. — respondeu Gohan, a voz agora um tom mais grave, firme como o aço. — A casa 8 não cairá enquanto eu respirar.

— Guarde esse heroísmo para quando estiver diante dos corpos de Thanatos e Hypnos. — retrucou Kanon, soltando a mão do rapaz e virando-se para a porta dimensional que começava a brilhar intensamente. — O Santuário não precisa de mártires, precisa de guardiões que saibam o preço do sangue.

Kanon caminhou em direção à saída, a postura aristocrática e imperturbável retornando mesmo com as roupas em farrapos.

— Vamos. Eu estou faminto e você tem um templo para proteger. Não deixe que Milo se arrependa de ter deixado a chave da casa dele com você. O ataque dele é um inferno...