Draconia: O Legado do Guerreiro Estelar
3 Quando o Fogo Encontrou o Oceano
Depois de deixar para trás as chamas douradas de Solaria, Perya seguia seu caminho com passos firmes, absorvendo cada detalhe do mundo que descobria. O sol alto refletia em sua cauda e no brilho rubro de seu cabelo, e o calor das chamas que às vezes escapavam de suas mãos lembrava a ela, dolorosamente, que seu poder ainda era algo fora da natureza de Dracônia. Pequenas queimaduras surgiam quando se deixava levar pelo impulso de experimentar o fogo, como se sua própria energia a lembrasse de que ela não pertencia completamente àquele mundo.
Enquanto caminhava por florestas densas e vales escondidos, Perya tentava equilibrar curiosidade e cautela. Cada passo era uma nova oportunidade de testar seu controle, mas o esforço físico e a dor provocada pelas chamas não a intimidavam — apenas a lembravam da necessidade de disciplina.
Foi durante uma dessas sessões de treino que o incidente aconteceu. Uma labareda maior do que o planejado se ergueu, alimentada pelo vento. O fogo se espalhou, engolindo um pequeno espaço entre árvores e arbustos. Perya, apavorada, sentiu o calor morder seus braços e pernas, deixando marcas fugazes em sua pele. O coração acelerado, correu na direção da fumaça, percebendo entre o brilho vermelho uma figura caída.
Era Serena. Uma elfa oceânica, de cabelos longos como a espuma do mar e olhos azuis profundos que lembravam as correntes mais misteriosas do oceano. Sua pele era clara, mas com a suavidade da água refletindo a luz, e sua vestimenta leve e fluida se ajustava a seus movimentos, lembrando tradição e disciplina. Um colar simples marcava seu pulso, sinal de sua posição no reino das marés eternas, e sua postura transmitia experiência e determinação.
Perya correu até ela, lambendo os próprios dedos queimados ao tentar apagar a labareda que escapara do controle. — Me desculpe! Me desculpe! — repetia, a voz trêmula. Serena a observava com atenção, avaliando não apenas sua força, mas também seu coração, seu medo e sua coragem.
“Você… consegue controlar isso?” perguntou Serena, a ponta de preocupação na voz.
Perya olhou para as mãos, pequenas chamas ainda tremendo entre os dedos, e sentiu uma pontada dolorosa. — Eu… estou tentando… — murmurou, franzindo a testa, sentindo o calor que escapava de suas palmas. A cada tentativa, pequenas queimaduras surgiam, lembrando-lhe que seu poder ainda não era totalmente natural, mas mostrando que havia grande potencial.
Após um silêncio que pareceu longo demais, Serena finalmente se levantou, oferecendo a mão. — Então… talvez eu precise de alguém como você. Alguém capaz de lutar e proteger, alguém que não teme seu próprio fogo, mesmo que ele não seja totalmente… natural.
Perya ergueu os olhos, surpresa com as palavras. A conexão entre elas foi instantânea, silenciosa, quase instintiva. Ambas sabiam que aquele encontro não era apenas casual.
Enquanto caminhavam lado a lado, Serena começou a revelar seu verdadeiro propósito: ela estava em busca de respostas sobre a profecia do Guerreiro Estelar e os cinco artefatos conhecidos como Esferas Elementais, cada um ligado a um dos Deuses Dragões. Seu objetivo era reunir informações, descobrir a localização das Esferas e compreender a lenda que pairava sobre Dracônia há milênios.
Perya escutava, fascinada, enquanto Serena contava sobre os dragões antigos, os guardiões do planeta que desapareceram, deixando apenas fragmentos de lendas e a promessa de um guerreiro que um dia restauraria a harmonia entre os cinco reinos. Cada palavra fazia o coração de Perya disparar, como se algo em seu próprio passado fosse tocado por aquelas histórias.
Quando Perya tocou no amuleto que seus pais adotivos lhe deram antes da partida — um pequeno objeto quente ao toque, mas cheio de energia — Serena ficou sem palavras. A Esfera Elemental do Fogo estava ali, em suas mãos, brilhando com uma intensidade que parecia desafiar a própria lógica.
— Isso… isso é real — murmurou Serena, como se estivesse diante de uma lenda viva.
E então seus olhos se arregalaram ainda mais quando percebeu algo sobre Perya. — Espere… você… você é filha adotiva dos reis de Solaria? — disse, incrédula. — Mas eles têm apenas três filhos… como isso é possível?
Perya explicou, de forma simples, quase inocente: sobre a nave caída do céu, sobre ter sido encontrada entre destroços sem passado, sem memória, carregando apenas o vazio de não saber quem realmente era. Sobre como Solriom e Solrina a acolheram e a criaram como filha, mesmo que ela não fosse nativa de Dracônia.
Serena franziu o cenho, notando as orelhas arredondadas de Perya e a pequena cauda que carregava. — E… essas características… não são de elfo… — murmurou, surpresa.
— Eu sei — respondeu Perya, baixando os olhos, sentindo-se estranha. — Mas eles me amam como sou.
Ainda assim, algo no coração de Serena despertou curiosidade e admiração. — Você… não é como os outros herdeiros elementais, e mesmo assim consegue controlar o fogo… — disse, observando com cautela, mas também com fascínio.
— Sim… mas ainda dói às vezes — confessou Perya, mostrando pequenas marcas recentes no braço. — Meu fogo… não é totalmente natural para mim. Me machuca se eu não controlar direito.
Serena assentiu, entendendo a importância da disciplina e do controle. — Então precisaremos treinar juntas… você e eu. Eu estou em busca de respostas sobre a profecia, sobre as Esferas… e você… — ela sorriu levemente — você vai descobrir mais sobre si mesma, seu poder e talvez até sobre seu destino.
E assim, com o fogo dentro dela queimando mais forte a cada passo e com o oceano que Serena carregava em seu olhar, as duas partiram. Não apenas como companheiras de viagem, mas como forças complementares, prontas para enfrentar os mistérios e perigos de Dracônia.
Perya sentiu pela primeira vez que sua diferença — suas orelhas arredondadas, a cauda, o fogo que podia feri-la — não era uma fraqueza, mas um sinal de que sua jornada seria única. E enquanto o vento sussurrava entre as árvores, o calor em suas mãos lembrava-lhe que o futuro seria duro… mas também extraordinário.
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