Uma semana após deixarem para trás as luzes douradas de Solaria, Perya e Serena finalmente alcançaram Aldea.

Era uma cidade pequena, quase modesta demais para ser chamada de cidade. Poucas casas de pedra estavam completas, outras ainda em construção, e as ruas estreitas pareciam mais caminhos improvisados do que avenidas verdadeiras. Aldea existia como um ponto de passagem — um lugar neutro, um último respiro antes das vastas florestas e montanhas que marcavam os domínios de Terrea.

Ali, viajantes vindos do calor de Solaria e mercadores que se aproximavam das fronteiras terrestres costumavam se encontrar, trocar notícias, descansar por uma noite e seguir viagem.

Por ter vivido tanto tempo em paz, Aldea não possuía muralhas altas, nem guardas treinados, nem guerreiros preparados para emergências.

Era apenas um lugar comum.

E talvez por isso… vulnerável.

O crepúsculo caía em faixas de púrpura sobre os telhados baixos quando Perya percebeu que algo estava errado.

No centro da cidade, uma multidão se reunia em tensão, como um círculo prestes a se fechar. Vozes duras se misturavam ao vento.

Muitos contra um.

No meio deles, uma jovem de pele pálida e cabelos violetas tão escuros que pareciam engolir a luz permanecia ereta, mesmo cercada. Seus olhos brilhavam com medo contido, mas também com uma exaustão antiga — como se fugir tivesse se tornado parte de sua existência.

Os elfos ao redor não escondiam o desprezo.

— Ela não pertence aqui.

— Sombras não trazem nada além de desgraça.

— Devia voltar para o reino dela.

— Antes que atraia algo pior…

Perya sentiu o estômago revirar.

A injustiça era simples demais.

Cruel demais.

Ela avançou antes que pudesse pensar, e sua voz cortou o ar como uma lâmina.

— Parem com isso!

A multidão hesitou, surpresa com a firmeza da estrangeira.

Perya se colocou entre eles e a garota, os olhos negros queimando em indignação.

— Vocês não podem condenar alguém só pela origem. Nem sabem quem ela é.

Alguns recuaram ao reconhecerem o brasão discreto que ela carregava consigo. Outros apenas resmungaram, contrariados.

Mas, lentamente, o círculo se desfez.

A jovem respirou como se tivesse esquecido como fazê-lo.

Então, em voz baixa, disse:

— Asami…

Havia alívio, mas também incredulidade. Como se gentileza fosse algo raro demais para ser real.

Serena se aproximou com cautela, observando-a com atenção.

Perya apenas assentiu.

— Venha conosco. Pelo menos até descansarmos.

Asami hesitou, mas acabou aceitando.

Aquela noite deveria ter sido simples.

Um descanso.

Uma pausa.

Mas Aldea não teria paz.

Horas depois, quando as lanternas já estavam acesas e o silêncio começava a cair sobre as casas, um tremor profundo atravessou o solo.


As janelas vibraram.


O chão gemeu.


Cães uivaram.


E então, no horizonte… surgiu o brilho.


Um vulcão distante, adormecido há séculos, despertara.


O céu se tingiu de vermelho enquanto fogo e fumaça subiam como um presságio. Rios de lava começaram a descer pelas encostas, devorando colinas como serpentes incandescentes.


O pânico tomou Aldea.


As pessoas correram sem direção, gritando nomes, buscando filhos, tentando entender o impossível.


A cidade não tinha guerreiros.


Não tinha defesa.


Apenas cidadãos comuns diante de um desastre que parecia divino.


Serena reagiu primeiro, agarrando pessoas pelos braços.


— Para o norte! Corram! Saiam das ruas centrais!


Asami, apesar do medo estampado no rosto, começou a ajudar também, carregando crianças pequenas e amparando idosos.


Mas mesmo assim…


Mesmo no meio do caos…


Os olhares ainda a seguiam.


As vozes ainda a acusavam.


— Isso aconteceu por causa dela!


— Eu disse que ela traz desgraça!


— Uma sombra ambulante!


Asami baixou a cabeça, como se cada palavra fosse uma pedra em suas costas.


Perya ouviu.


E algo dentro dela ferveu.


Mas então…


A terra se partiu.


Um estrondo colossal ecoou como o mundo rachando ao meio, e das entranhas ígneas do vulcão algo começou a emergir.


Não era animal.


Não era espírito.


Não era algo que deveria existir em Dracônia.


Era uma monstruosidade sobrenatural.


Uma criatura de quinze metros de altura, feita de rochas vulcânicas negras e vivas, rachadas por magma pulsante. Cada passo fazia o chão tremer. Cada movimento derramava brasas e fumaça.


Sua aparência era demoníaca: chifres retorcidos como coroas, garras enormes capazes de esmagar casas inteiras, dentes afiados de obsidiana brilhando dentro de uma boca cheia de lava.


Ela não rugiu como um monstro.


Rugiu como um desastre.


E então avançou.


Uma construção inteira foi destruída sob seu peso.


O povo gritou.


Serena gritou de volta:


— Continuem evacuando! Não parem!


Mas Perya já corria na direção contrária.


Ela se colocou diante da criatura, pequena diante daquela muralha viva.


— Ei!


A besta virou lentamente a cabeça.


O calor era insuportável.


Perya ergueu as mãos.


Chamas surgiram — violentas, brilhantes.


Mas o fogo queimou sua própria pele.


Era sempre assim.


O poder dentro dela não era natural.


Era como se o fogo lutasse contra seu corpo por existir.


Mesmo assim, ela atacou.


Uma rajada flamejante explodiu contra o peito da criatura.


O impacto fez o monstro cambalear…


Mas não caiu.


Apenas virou a cabeça, mais irritado.


Perya tentou novamente.


Outra explosão.


Depois outra.


O fogo golpeava, serpenteava, tentava empurrar.


Alguns ataques arrancavam magma.


Outros apenas faziam a criatura rugir ainda mais.


Era como tentar deter um vulcão com faíscas.


A criatura ergueu um braço colossal e golpeou o ar.


O impacto lançou Perya para trás.


Ela rolou pelo chão, tossindo, sentindo sangue na garganta.


Serena, ao longe, guiava pessoas desesperadas.


Asami ajudava como podia, mas tremia a cada rugido da besta.


Perya se levantou.


Atacou de novo.


Uma lança de fogo.


Uma onda de calor.


Uma explosão direta no ombro.


O monstro recuou um passo.


Depois outro.


Mas então rugiu, furioso.


Mais rápido.


Mais violento.


Ele avançou como um inferno caminhando.


E então parou.


Virou a cabeça.


Como se sentisse algo.


Seus olhos de brasa se fixaram em outro ponto.


Asami.


Ela estava ajudando uma criança quando sentiu o calor crescer atrás de si.


Virou-se lentamente.


E viu a criatura vindo.


Direto.


Como se tivesse um único objetivo.


Como se algo ancestral a caçasse.


Asami congelou.


— Não… não…


Os elfos ao redor recuaram.


— É por causa dela!


— Sempre é!


— Deixem-na!


Asami tentou correr…


Mas tropeçou.


A criatura ergueu uma garra de magma, pronta para esmagá-la.


Perya viu.


O mundo desacelerou.


Ela correu.


Se colocou entre Asami e o ataque.


Braços abertos.


Protegendo.


O golpe veio.


O calor rasgou o ar.


Perya sentiu a pele queimar.


Quase caiu.


Asami olhou para ela, desesperada.


— Por quê…?


Perya respirou fundo.


Seu corpo tremia.


Ataques comuns não funcionariam.


Ela não tinha escolha.


O fogo dentro dela rugiu, perigoso, indomável.


Ela abriu a boca.


E gritou, com toda a força da alma:


— SOPRO DO DRAGÃO!!!


Um jorro colossal de fogo e energia explodiu de sua garganta, um rugido flamejante que iluminou Aldea como um segundo sol.


As chamas engoliram a criatura por completo.


O monstro gritou, pela primeira vez não como destruição…


Mas como algo sendo apagado.


Suas rochas se desfizeram.


Seu magma evaporou.


E então…


Silêncio.


Perya caiu de joelhos.


Ofegante.


Queimada.


O golpe a machucara por dentro e por fora.


Serena correu até ela.


— Você está viva?!


Asami se aproximou, tremendo.


— Aquilo… aquilo foi…


Ela engoliu em seco.


— O que foi aquele último golpe?


Perya respirou com dificuldade, sentindo a garganta arder.


Então murmurou:


— Um ataque que eu ainda não domino…


Ela levantou o olhar.


— O Sopro do Dragão.


Asami repetiu, quase em sussurro:


— Dragão…


E naquele instante, o fogo, o medo e o destino pareceram se entrelaçar.


A jornada já não era apenas sobre viajar.


Algo impossível estava começando.


E elas estavam no centro disso.


E assim, quando Aldea ainda fumegava sob o céu vermelho, Perya, Serena e Asami partiram juntas…

Três vidas unidas por acaso.

Ou talvez…

Por algo muito maior.