Notas iniciais
Os capítulos serão lançados todos os domingos por volta das 20h

Alguns dias haviam se passado desde o inferno em Aldea… mas a paz ainda parecia distante.


O caminho até Terrea seguia adiante, e embora a floresta ao redor estivesse silenciosa, o grupo carregava marcas invisíveis da batalha que enfrentaram.


Perya não dizia muito.


Seu corpo ainda sentia o peso do golpe final que destruíra a criatura de magma.


O Sopro do Dragão não era apenas uma técnica poderosa.


Era algo além.


Algo que parecia grande demais para existir dentro dela.


Durante os dias seguintes, suas mãos tremiam sempre que tentava conjurar fogo. Às vezes, pequenas faíscas surgiam… e desapareciam como se recusassem obedecer.


Outras vezes, o calor escapava de forma errada, queimando sua própria pele, como se aquela chama não fosse totalmente parte de sua natureza.


Serena insistia para que ela descansasse.


Asami, por outro lado, permanecia quieta.


O olhar sempre baixo.


O silêncio sempre pesado.


A culpa ainda a seguia como uma sombra.


Foi apenas quando encontraram um trecho seguro — uma clareira cercada por árvores altas e antigas, onde o vento soprava calmo e o mundo parecia respirar — que decidiram parar.


Montaram um pequeno acampamento.


A noite se aproximava lentamente.


E por um momento…


Dracônia parecia em paz.


Mas Perya sabia.


Ela não podia parar.


Não agora.


Ela precisava dominar aquilo antes que aquilo a destruísse.


Quando o céu começou a ganhar tons dourados, ela se levantou.


— “Eu vou treinar.”


Serena virou o rosto.


— “Perya… você ainda está se recuperando.”


— “Eu sei.” A voz dela era firme. “Mas eu não posso depender do acaso.”


Seu olhar então se voltou para Asami.


— “Treine comigo.”


A elfa sombria congelou.


— “Eu não gosto de lutar.”


— “Você lutou em Aldea.”


— “Porque eu não tive escolha.”


Asami desviou o olhar.


Sua voz saiu baixa.


— “Eu só… só uso meu poder quando não há outra saída.”


Perya se aproximou devagar.


— “O treino pode ser uma saída.”


Asami franziu o cenho.


— “Você não entende…”


— “Talvez não.” Perya admitiu. “Mas eu sei como é ter algo dentro de você que parece instável.”


Ela ergueu a mão, mostrando as marcas leves de queimadura que ainda carregava.


— “Meu fogo me machuca.”


Asami piscou, surpresa.


Perya sorriu de leve.


— “Então… vamos aprender juntas.”


O silêncio se estendeu.


Por fim, Asami respirou fundo.


— “Só… só um pouco.”


O treino começou devagar.


Movimentos simples.


Golpes contidos.


Perya atacava com chutes rápidos, punhos firmes, energia concentrada.


Asami apenas desviava.


Como se não quisesse revidar de verdade.


Mas conforme os minutos passavam…


algo mudou.


As sombras ao redor dela começaram a reagir.


Primeiro, como um tremor.


Depois, como um sussurro vivo.


Quando Perya avançou mais rápido, Asami ergueu a mão instintivamente.


E a sombra no chão…


subiu.


Como correntes.


Prendeu o tornozelo de Perya por um instante.


— “O quê…?”


Perya puxou com força e se libertou, recuando.


Asami arregalou os olhos.


— “Eu não quis—”


— “Está tudo bem.” Perya sorriu, animada. “De novo.”


Asami hesitou.


Mas então atacou.


Dessa vez, uma esfera escura surgiu diante dela, girando como um pequeno eclipse.


Perya lançou uma chama curta.


A esfera engoliu o fogo.


Apagou-o.


Perya parou.


— “Isso foi… incrível.”


Asami respirava mais rápido agora.


— “Eu não controlo bem…”


— “Então controle comigo.”


E então, as duas avançaram.


O treino virou combate.


Perya atacava em sequência, fogo explodindo em rajadas curtas.


Asami desviava, criando sombras que se esticavam como lanças.


Correntes negras tentavam paralisar seus braços.


Perya girava no ar, escapando por pouco.


Asami erguia barreiras escuras.


Perya quebrava com calor.


O chão rachava sob a energia.


O vento rodopiava ao redor delas.


Serena observava de longe, tensa.


Pronta para intervir.


Mas então…


algo aconteceu.


Asami sorriu.


Não um sorriso gentil.


Um sorriso torto.


Quase… estranho.


Sua aura escureceu.


E sua voz mudou levemente.


— “Mais rápido…”


Perya franziu o cenho.


— “Asami?”


As sombras explodiram.


Correntes negras surgiram do chão como serpentes vivas.


Perya saltou.


Asami lançou três esferas sombrias, rápidas como flechas.


Perya desviou por centímetros.


— “Você está… levando isso a sério demais!”


Asami inclinou a cabeça.


— “Estou?”


Sua expressão parecia diferente.


Mais solta.


Mais caótica.


Como se algo dentro dela estivesse gostando daquilo.


Perya atacou com um arco de fogo.


Mas sentiu a dor.


O fogo queimou sua própria mão.


Ela rangeu os dentes.


Ainda era instável.


Ainda machucava.


Asami avançou.


Sombras tentando agarrá-la.


E então…


as duas colidiram.


Energia contra energia.


Chama contra escuridão.


O impacto foi tão forte…


que o mundo se partiu.


Perya caiu.


Mas não no chão.


Ela caiu dentro do vazio.


Nenhum som.


Nenhuma luz.


Nenhum tempo.


Apenas escuridão absoluta.


Ela tentou respirar.


O ar era pesado, como um sonho antigo demais para existir.


Então…


uma brasa surgiu.


Pequena.


Viva.


Crescendo como um sol dentro da noite.


Perya sentiu o coração parar.


Aquela presença…


era colossal.


Antiga.


Era fogo antes do fogo.


Um olho ardente abriu-se diante dela.


E uma voz falou.


Não em seus ouvidos.


Mas em sua alma.


— “Finalmente…”


Perya tremeu.


— “Quem… quem está aí?”


A chama pulsou.


— “A criança caída das estrelas…”


— “A portadora da chama…”


— “Você cresceu.”


O vazio inteiro parecia curvar-se.


Perya engoliu em seco.


— “Você é um dos…?”


A entidade não respondeu diretamente.


Apenas disse:


— “Eu sou aquilo que permanece quando os deuses desaparecem.”


— “Eu sou o fogo que nunca se apagou.”


A chama brilhou mais forte.


— “Seu poder é real…”


— “Mas não é natural.”


Perya sentiu a dor nas mãos.


Como se aquela voz enxergasse tudo.


— “Ele fere você…”


— “Porque ainda não é seu.”


— “Então o que eu sou?!”


O fogo pareceu sorrir.


— “Você é uma faísca fora do mundo.”


— “E por isso… o mundo mudará.”


Perya reuniu coragem.


— “O que você quer de mim?!”


O vazio se inclinou.


E a voz sussurrou, como profecia:


— “Quando as cinco Esferas despertarem…”


— “Quando os reinos ruírem…”


— “Quando o céu sangrar fogo…”


A chama explodiu em luz.


— “Então… você entenderá.”


Perya gritou:


— “Espere!”


Mas a presença já se afastava.


— “Até breve…”


— “Minha criança.”


E tudo se desfez.


Ela acordou.


O acampamento estava ali.


Serena segurava sua cabeça.


Asami estava ajoelhada ao lado, tremendo.


— “Perya!”


— “Você… desmaiou!”


Perya piscou.


— “O quê…?”


Serena respirou fundo.


— “Você ficou inconsciente por apenas alguns dias.”


Asami baixou a cabeça.


— “Eu… eu sinto muito…”


— “Eu fui longe demais…”


Perya tocou o próprio rosto.


Não lembrava de nada.


Nada.


Apenas uma sensação distante de calor…


como um eco.


— “Está tudo bem…” ela murmurou.


Mesmo sem entender por quê…


algo dentro dela ainda ardia.


Depois de mais algum tempo de recuperação…


elas retomaram o caminho.


Dias depois, o mundo começou a mudar.


A vegetação ficou mais viva.


As árvores mais altas, antigas como guardiãs.


O solo parecia pulsar sob seus pés.


E então…


após mais uma hora de caminhada…


elas finalmente viram.


Terrea.


O reino dos elfos terrestres.


A terra sagrada onde a cura era tão poderosa quanto a guerra.


E onde novos mistérios…


as aguardavam.