Draconia: O Legado do Guerreiro Estelar

6 O Guardião de Terrea e a Chama que Não Pertence


Notas iniciais
Peço perdão por ter demorado tanto para postar, a partir deste capítulo, os próximos serão semanalmente todos os domingos

A entrada em Terrea não foi como atravessar uma fronteira.


Foi como entrar em outro mundo.


Assim que Perya, Serena e Asami cruzaram o último trecho da estrada, a própria paisagem pareceu mudar de respiração.


O verde ali não era comum.


Era profundo.


Vivo.


Como se cada folha carregasse consciência.


Árvores colossais se erguiam aos céus como pilares de um templo ancestral, com troncos tão largos quanto muralhas e raízes que serpenteavam pelo solo como veias expostas da terra. Flores de cores intensas brotavam em abundância, e o ar tinha um perfume úmido e doce, como se a natureza estivesse sempre em eterno amanhecer.


Perya parou por um instante, admirada.


Mesmo após tudo o que havia vivido…


Terrea parecia impossível.


Asami também observava em silêncio.


Havia algo naquele reino que a deixava inquieta.


Não era hostilidade direta…


Era como se o próprio solo soubesse que ela não pertencia ali.


Os elfos terrestres eram diferentes de qualquer povo que Perya já havia visto.


Suas peles tinham tons morenos e escurecidos, como se fossem filhos diretos do solo fértil. Os cabelos e olhos variavam entre muitos tons de verde — musgo, jade, esmeralda profunda.


Muitos carregavam tatuagens tribais pelos braços, costas e rosto, símbolos antigos que pareciam pactos vivos com a terra.


Totens de pedra e madeira estavam espalhados por todo o território, cobertos por cipós e runas druidas que pulsavam discretamente, como se observassem cada visitante.


Perya sentiu o coração acelerar.


Ali…


Ela poderia aprender.


Ali…


Ela poderia encontrar cura.


Não apenas para os outros.


Mas para si mesma.


Sem perder tempo, Perya seguiu diretamente ao castelo, desejando falar com as soberanas de Terrea.


As rainhas Elthea e Laya a receberam com hospitalidade imediata.


Ambas tinham pele morena, cabelos verdes em tons claros como folhas iluminadas pelo sol, e olhos serenos como lagos calmos. Era impossível não sentir paz diante delas.


Elthea sorriu.


— Perya… filha de Solaria. É bom vê-la viva.


Mas então…


o olhar de Laya se desviou.


Para Asami.


O ambiente mudou.


Um silêncio breve, pesado.


Uma elfa sombria dentro de Terrea era algo impensável para muitos.


Asami permaneceu imóvel, como uma sombra tentando não existir.


Perya deu um passo à frente.


— Ela está comigo.


As duas rainhas hesitaram.


— Você compreende o que isso significa? — murmurou Laya.


— Eu compreendo — respondeu Perya, firme. — E eu assumo qualquer responsabilidade.


O silêncio se estendeu.


Até que Elthea respirou fundo.


— Então… aceitaremos sua presença.


Asami não agradeceu.


Apenas baixou o olhar.


Como se nem ela mesma acreditasse que merecia estar ali.


Foi então que as rainhas falaram:


— Se deseja aprender as artes da cura… há apenas uma pessoa em Terrea capaz de guiá-la.


Perya ergueu os olhos.


— Quem?


Elthea respondeu com solenidade:


— Nosso filho mais velho.


— O príncipe Haku.


Quando ele apareceu, Perya entendeu imediatamente por que seu nome era pronunciado com respeito.


Haku não era como os outros elfos.


Ele era maior.


Mais largo.


Seu corpo parecia esculpido em pedra viva, como um guardião criado pela própria terra. Sua pele era mais escura, como solo profundo, e seus cabelos e olhos verdes tinham tons sombrios, como folhas sob a noite.


Ele carregava a maturidade de alguém em seus vinte e poucos anos.


Mas o que mais impressionava…


não era sua força.


Era sua presença.


Quando seus olhos pousaram sobre Perya, ele não sorriu.


Não a cumprimentou.


Apenas observou.


E demorou demais.


O olhar dele desceu lentamente…


até parar na cauda que ela carregava.


Haku estreitou os olhos.


— Você… não é uma elfa comum.


O silêncio ficou estranho.


Perya piscou.


— Eu sou de Solaria—


— Eu sei de onde você vem — ele interrompeu, calmo. — Mas não sei o que você é.


As palavras não eram agressivas.


Mas carregavam algo pior:


desconfiança.


Como se a própria terra, através dele, não confiasse naquela chama.


Perya sentiu o peito apertar.


— Eu só quero aprender a curar. Quero proteger as pessoas.


Haku permaneceu em silêncio.


Então virou-se.


— Então me siga.


Após alguns dias de descanso, o treinamento começou.


Haku explicou que cura não era apenas uma técnica.


Era um estado.


— O elfo terrestre não força a vida… ele a escuta.


Ele conduziu Perya a uma clareira além do castelo.


O lugar parecia sagrado.


Totens antigos cercavam o campo, cobertos por musgo e símbolos druidas entalhados na pedra. O chão tinha marcas circulares, como um altar dedicado à terra.


Haku parou no centro.


— Observe.


Sem hesitar, ele fez um corte profundo na palma da mão.


Perya arregalou os olhos.


— Você está louco?!


Mas Haku não reagiu.


Ele apenas fechou os olhos…


respirou…


e concentrou sua energia.


Uma luz verde intensa surgiu sobre o ferimento, brilhando como aurora.


Quando desapareceu, a pele estava intacta.


Perya ficou maravilhada.


— Eu quero aprender isso agora!


Haku negou lentamente.


— Antes da cura… vem o equilíbrio.


Ele a encarou.


— E antes do equilíbrio…


um teste.


Perya entendeu.


— Uma luta.


Haku apenas assentiu.


— Mostre-me sua força, princesa.


Perya atacou primeiro.


Uma rajada flamejante cortou o ar.


Mas antes que alcançasse o príncipe…


uma muralha de terra surgiu instantaneamente, bloqueando tudo como se fosse nada.


Perya avançou em seguida, tentando combate corpo a corpo.


Rápida.


Impulsiva.


Como fogo dançando no vento.


Mas Haku era firme.


Ele não se movia como ela.


Ele se movia como uma montanha.


Cada bloqueio parecia pedra contra aço.


Cada passo fazia o chão vibrar.


Quando Perya atacava, ele moldava o solo em escudos, bastões e martelos, lutando como um guardião druida com a própria natureza ao seu lado.


O impacto era assustador.


Perya atacava.


Atacava.


E nada quebrava aquela defesa.


Alguns golpes apenas faziam Haku recuar meio passo…


como se a terra estivesse apenas testando.


Até que Perya parou.


Respirou fundo.


Fechou os olhos.


E algo dentro dela respondeu.


O ar começou a esquentar.


Haku sentiu primeiro.


Seus olhos se estreitaram.


— Esse calor…


Perya juntou as mãos.


Ela não queria aquilo.


Ela não controlava aquilo.


Mas o fogo veio mesmo assim.


Não como chamas comuns.


Não como magia de Solaria.


Era diferente.


Mais antigo.


Mais profundo.


Como algo que não pertencia a este mundo.


E então surgiu.


Sobre suas mãos.


Luvas vivas de fogo.


Fogo dracônico.


Fogo que não queimava…


como se a chama a reconhecesse.


Haku deu um passo para trás.


Pela primeira vez.


Sua voz saiu baixa, grave:


— Isso… não é fogo élfico.


Os totens pareciam observar.


O chão tremeu.


— Esse fogo…


não é natural.


Perya abriu os olhos.


E avançou.


Um soco destruiu o escudo de pedra.


Outro golpe despedaçou uma muralha inteira.


A montanha estava rachando.


Mas aquele poder…


era instável.


Violento.


Ela sentiu o preço imediatamente.


O fogo consumia sua energia rápido demais.


Seu corpo não aguentava.


Ela tentou manter.


Tentou atacar mais uma vez…


mas as Luvas vacilaram.


O calor desapareceu.


E antes que pudesse dar outro passo…


Perya caiu.


Seu corpo desabou no chão, vencido pela exaustão.


Silêncio.


Haku correu até ela e colocou a mão sobre seu peito, canalizando energia curativa.


Uma luz verde suave envolveu seu corpo.


Ela respirou.


Estabilizou.


Mas o príncipe permaneceu imóvel, olhando para ela como se estivesse diante de um presságio.


Ele encarou a cauda.


Encarou as mãos.


Encarou os totens.


E murmurou, como se falasse com a própria terra:


— Você não é apenas uma princesa…


— Você é algo que não deveria existir aqui.


O vento soprou entre as árvores.


E Terrea…


parecia ter escutado.