Draconia: O Legado do Guerreiro Estelar
7 Ecos na Pedra
Enquanto Perya permanecia sob os cuidados e o treinamento rigoroso de Haku, Serena e Asami ficaram no castelo de Terrea pela primeira vez sem ela por perto.
E, embora Serena tentasse agir com naturalidade, Asami não conseguia esconder o desconforto.
Ela caminhava pelos corredores de madeira viva e pedra coberta de musgo como alguém que ainda esperava ser expulsa a qualquer momento. Seus olhos sempre atentos buscavam sinais de julgamento em cada elfo que passava.
Serena percebeu.
— Você está pensando demais — disse, com suavidade, enquanto atravessavam um arco natural formado pelas raízes de uma árvore colossal. — Terrea é diferente. Eles não são como os de Aldea.
Asami apertou os dedos contra o próprio manto.
— Eu não queria deixar Perya sozinha com aquele príncipe… ele parece… estranho.
Serena soltou uma risada baixa.
— Haku parece uma montanha. Montanhas não sorriem mesmo.
Asami quase sorriu, mas logo desviou o olhar.
Serena continuou:
— E além disso… Perya consegue se virar sozinha. Eu já vi do que ela é capaz.
Asami concordou devagar.
Ela sabia disso.
Ainda assim, havia algo inquietante em ver Perya se afastando cada vez mais… como se estivesse sendo puxada para algo que nem ela mesma compreendia.
Para aliviar o peso daqueles pensamentos, Serena decidiu fazer o que sempre fazia quando o mundo parecia grande demais:
explorar.
Terrea era um reino que não se explicava em palavras.
Era um lugar onde a natureza não era cenário… era presença.
As praças não eram feitas de pedra fria, mas de madeira viva, moldada pelas raízes das árvores. Fontes cristalinas brotavam do chão como se a terra respirasse água. Pequenos mercados se espalhavam sob copas enormes, onde elfos vendiam ervas raras, amuletos de cura, sementes luminosas e tecidos tingidos com pigmentos naturais.
Asami observava tudo com uma mistura de fascínio e estranhamento.
Havia crianças correndo entre cipós pendurados, rindo como se nunca tivessem ouvido falar de guerra.
Havia músicos tocando instrumentos esculpidos em bambu e pedra.
E havia paz.
Uma paz tão profunda que fazia Asami se sentir… deslocada.
Serena parou diante de um jardim circular onde flores mudavam de cor lentamente, como se acompanhassem o sol.
— Bonito, não é?
Asami demorou a responder.
— É… estranho.
— Estranho?
— Um lugar onde ninguém olha para mim como se eu fosse uma ameaça.
Serena a encarou.
Asami continuou, em voz baixa:
— Eu passei tanto tempo fugindo… que esqueci como era existir sem medo.
Serena não respondeu de imediato.
Apenas ficou ao lado dela.
E, pela primeira vez, Asami não se sentiu sozinha.
Foi apenas no fim daquele dia, quando o céu começou a escurecer em tons verdes e dourados, que Serena mencionou algo que a fazia brilhar de curiosidade.
— Há um templo antigo nas regiões mais distantes da floresta.
Asami ergueu o olhar.
— Um templo?
— Sim. Dizem que é um lugar anterior até mesmo ao castelo. Poucos vão até lá… fica longe demais.
Asami hesitou.
— Devíamos mesmo ir tão longe?
Serena sorriu.
— Precisamos de algo para fazer enquanto Perya treina com a montanha mal-humorada.
Asami soltou um pequeno suspiro.
E então, concordou.
A viagem durou horas.
Quanto mais se afastavam do castelo, mais selvagem Terrea se tornava.
As árvores ficavam maiores.
O silêncio mais pesado.
As trilhas desapareciam, substituídas por raízes e pedras cobertas de musgo. O ar parecia antigo, como se carregasse memórias que ninguém mais lembrava.
Asami sentia algo estranho desde que começaram a caminhar.
Uma sensação incômoda.
Como se estivessem sendo observadas…
Mas não havia ninguém.
Nenhuma energia.
Nada.
Quando finalmente encontraram as ruínas, o templo estava quase engolido pela floresta.
Colunas partidas, inscrições cobertas por raízes, e um portão de pedra marcado com símbolos druidas tão antigos que pareciam não pertencer a nenhum idioma moderno.
Serena tocou a superfície.
— Isso… é real.
Asami deu um passo atrás.
— Esse lugar não parece abandonado.
Serena ia responder…
quando o chão abaixo delas estremeceu.
Um estalo.
Uma ruptura.
E então—
o solo colapsou.
As duas despencaram no escuro.
A queda foi curta, mas brutal.
Quando se levantaram, tossindo poeira, Serena acendeu uma tocha encontrada entre os escombros.
A luz revelou uma caverna vasta.
E as paredes…
As paredes estavam cobertas.
Não de musgo.
Mas de história.
Gravações gigantescas, entalhadas na pedra como se fossem lembranças de um mundo perdido.
Havia imagens dos primeiros elfos.
Dos cinco reinos surgindo.
De guerras antigas.
E símbolos… símbolos de dragões tão grandes que pareciam deuses.
Serena se aproximou, os olhos brilhando.
— Asami…
— Eu estou vendo.
Mais ao fundo, o teto se abria em uma câmara colossal.
E no centro…
um altar.
Não um altar de elfos.
Mas algo muito mais antigo.
Serena sussurrou:
— Isso é…
A casa de um Deus Dragão.
O lar esquecido do guardião da terra.
Asami sentiu um frio estranho.
— Por que você parece tão feliz com isso?
Serena piscou.
— Você… nunca ouviu falar deles?
Asami desviou o olhar.
— Quando eu era criança, não me ensinaram histórias. Só me ensinaram a lutar.
Serena ficou em silêncio por um instante.
Então começou a explicar, com calma, como se estivesse devolvendo a Asami uma parte do mundo que lhe foi roubada.
Falou sobre os antigos deuses.
Sobre como, antes dos reinos, existiam apenas eles…
e a criação.
E sobre como desapareceram.
Asami ouviu tudo sem interromper.
E pela primeira vez…
ela entendeu.
Entendeu por que seu povo era odiado.
Entendeu por que carregava um peso que não era dela.
E ainda assim…
pensou em Perya.
Perya, que não se importou.
Perya, que a viu como pessoa.
Não como raça.
Foi então que encontraram a última parede.
Diferente das outras.
Mais intacta.
Mais profunda.
As inscrições pareciam… vivas.
Serena passou os dedos pelos símbolos, lendo em voz baixa.
E então, as frases surgiram:
“Quando a estrela cair sobre estas terras…”
Asami sentiu um arrepio.
“Quando uma chama estrangeira respirar sob o céu de Dracônia…”
A tocha tremeluziu.
“O que não deveria existir caminhará entre os reinos…”
Serena engoliu em seco.
A inscrição seguia, fragmentada:
“Cinco ecos adormecidos…
cinco vozes esquecidas…”
O ar ficou pesado.
“E quando o mundo estiver prestes a ruir…”
“Quando a terra tremer e o céu se partir…”
Serena mal conseguia respirar.
E por fim:
“A chama caída escolherá…”
“…ou salvar…”
“…ou consumir.”
Silêncio.
Asami ficou imóvel.
Ela não queria pensar em Perya.
Mas era impossível não pensar.
Serena virou-se, assustada.
— Nós precisamos contar isso a ela.
Asami concordou imediatamente.
— Agora.
Elas se viraram para correr de volta…
mas então…
a tocha apagou.
De repente.
Como se algo tivesse sugado a luz.
O escuro tomou tudo.
E uma presença surgiu.
Não uma energia.
Não um som.
Mas algo pior.
Algo que fazia a própria sombra parecer errada.
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