Depois de descansar um pouco, Haku levou Perya para uma área de treinamento localizada em uma parte mais tranquila de Terrea. O caminho atravessava bosques antigos, onde as árvores eram tão largas que pareciam pilares naturais sustentando o céu.

Quando finalmente chegaram, Perya parou imediatamente.

No centro da área havia um altar de pedra coberto por raízes antigas e símbolos druidas entalhados no chão ao redor. Sobre ele repousava algo que parecia pulsar com uma energia silenciosa.

Não era uma joia.

Nem uma arma.

Era um artefato.

Uma estrutura de madeira petrificada, com veios dourados correndo por sua superfície como se fossem rios de energia. Sua forma lembrava uma grande semente ancestral, como se fosse o coração de uma árvore primordial.

Perya arregalou os olhos.

— Isso é…?

Haku assentiu.

— A Semente Primordial.

O ar ao redor parecia mais vivo perto dela. O chão era fértil, e pequenas plantas cresciam espontaneamente nas rachaduras das pedras.

— Ela foi encontrada muito tempo atrás — continuou Haku. — Em um templo antigo abaixo da cidade. Mas quando nossos ancestrais a retiraram, o templo inteiro começou a desmoronar. O acesso foi perdido para sempre.

Ele cruzou os braços, olhando para o artefato.

— Desde então, ela permanece aqui. Graças a ela, os poderes de cura de Terrea se tornaram muito mais fortes. Nosso reino prospera porque a própria terra responde à sua presença.

Perya observava fascinada.

Era a primeira vez que via outro artefato além daquele ligado ao fogo.

Haku então caminhou até o centro da clareira.

— Este é o melhor lugar para aprender a curar.

Ele olhou diretamente para ela.

— A energia da vida aqui é muito mais forte.

Perya esticou os braços, animada.

— Então vamos começar!

Haku, porém, levantou a mão.

— Antes disso, preciso entender como o seu poder funciona.

Ele deu um passo à frente.

— Ative aquelas chamas que você usou na nossa luta.

Perya respirou fundo.

Ela fechou os olhos e concentrou sua energia nos punhos.

O calor começou a crescer dentro dela.

Poucos segundos depois, as Luvas da Chama surgiram novamente, envolvendo suas mãos em fogo vivo.

Por um instante, ela sentiu aquele leve incômodo familiar — o calor intenso tocando sua pele. Não era dor suficiente para fazê-la parar, mas era um lembrete constante de que aquele poder ainda não era completamente natural para ela.

Haku percebeu.

— Esse fogo… ainda te machuca um pouco, não é?

Perya deu um pequeno sorriso.

— Só às vezes.

Ele ficou em silêncio por um momento antes de continuar.

— Para nós, curar significa sentir a vida ao redor.

Ele caminhou até uma pedra próxima e, sem hesitar, fez um pequeno corte na palma da própria mão.

Perya arregalou os olhos.

Mas Haku permaneceu calmo.

Ele fechou os olhos e respirou profundamente.

— Eu sinto a energia das árvores… das raízes… dos animais… da própria terra.

Uma luz verde começou a surgir em sua mão.

— Eu reúno essa energia… e a guio para onde ela é necessária.

A luz envolveu o corte.

Em poucos segundos, o ferimento desapareceu completamente.

Perya ficou impressionada.

— Incrível…

— Agora tente você.

Ela olhou para a própria mão.

Determinada, fez um pequeno corte.

Então fechou os olhos e tentou sentir a mesma energia que Haku havia descrito.

As árvores.

A terra.

Os animais.

Por um instante, ela quase conseguiu.

Mas então—

BOOM

Uma pequena explosão de energia aconteceu entre suas mãos.

Perya deu um pulo para trás.

Haku apenas suspirou.

— Eu imaginei que algo assim aconteceria.

Perya olhou frustrada para o próprio corte.

— Por quê?

— Porque isso é uma habilidade natural dos elfos de Terrea — explicou ele. — Você foi criada pelos elfos solares. Seu poder responde ao fogo, não à terra.

Por um momento, Perya ficou em silêncio.

Mas então respirou fundo novamente.

— Então eu só preciso fazer do meu jeito.

Ela fechou os olhos outra vez.

Desta vez, ela não tentou sentir a vida da floresta.

Ela buscou algo que conhecia melhor.

O calor.

O calor do sol tocando as folhas.

O calor que vinha da terra aquecida.

O calor que existia em toda chama.

As Luvas da Chama começaram a mudar.

O fogo que antes era intenso agora se tornava mais calmo… mais estável.

O brilho das chamas ficou mais suave, quase como uma luz dourada.

Haku observava com atenção.

— O que você está fazendo…?

Perya não respondeu.

Ela levou a mão até o pequeno corte na própria palma.

As chamas tocaram sua pele.

Por um instante, Haku se preparou para interromper.

Mas então algo inesperado aconteceu.

O ferimento começou lentamente a se fechar.

A pele se regenerava pouco a pouco, como se aquela energia quente estivesse estimulando o próprio corpo a se reconstruir.

Perya abriu os olhos, surpresa.

— Funcionou…

Haku franziu a testa.

— Isso não deveria ser possível.

Perya olhou para as próprias mãos.

Curiosa, decidiu testar novamente.

Próximo dali havia uma pequena planta com folhas quebradas.

Ela se ajoelhou e aproximou as mãos envoltas em chamas.

O fogo tocou as folhas.

Mas nada queimou.

Nenhuma folha virou cinza.

Nenhuma pétala foi destruída.

Pelo contrário.

As folhas lentamente voltaram à posição natural, como se a planta estivesse sendo restaurada.

Haku arregalou os olhos.

— Isso… é impossível.

Perya piscou.

— Por quê?

Ele respondeu lentamente.

— Porque isso é fogo.

Para testar mais uma vez, Perya se aproximou de um pequeno animal da floresta que mancava levemente.

Ela estendeu as mãos.

As chamas tocaram a pata da criatura.

Mais uma vez…

Nada queimou.

Nenhum pelo foi chamuscado.

O animal apenas relaxou, como se estivesse envolto por um calor reconfortante.

Pouco a pouco, sua pata se recuperou.

Quando Perya afastou as mãos, a criatura simplesmente correu de volta para a floresta.

O silêncio tomou conta da clareira.

Haku encarava as mãos dela.

— Esse fogo…

Ele falou em voz baixa.

— Não é um fogo comum.

Perya observou as chamas em seus punhos.

Elas não pareciam destrutivas.

Pareciam obedecer a ela.

Como se reconhecessem sua vontade.

Haku então completou:

— Essas chamas não queimam a vida…

Ele olhou diretamente para ela.

— Elas a fortalecem.

Mas antes que Perya pudesse responder…

Os dois sentiram algo.

Uma energia sombria.

Vinda das profundezas da terra.

E então—

Um grito ecoou pela floresta.

— PERYA!!

Era a voz de Asami.

Perya e Haku se entreolharam.

Algo estava muito errado.

E vinha de baixo deles.

Notas finais
Próximos capítulos serão parados nos domingos as 20:00