O nascer do sol trouxe consigo um silêncio estranho.

Depois da destruição causada durante a noite, o grupo havia seguido viagem em um ritmo muito mais lento do que o normal. Nenhum deles sabia exatamente o que dizer depois do que aconteceu com Perya.

Ela caminhava alguns passos atrás dos outros.

Quieta.

Pensativa.

Seu olhar evitava qualquer reflexo do céu.

Principalmente da lua que ainda podia ser vista desaparecendo lentamente no horizonte da manhã.

Asami observava aquilo em silêncio.

Desde que Perya voltou ao normal, ela havia mudado.

Estava mais retraída.

Mais distante.

Como se tivesse medo de si mesma.

Haku percebeu também.

Mas preferiu não tocar no assunto.

Nem ele sabia exatamente como reagir ao fato de que sua amiga havia se transformado em uma criatura colossal capaz de destruir tudo ao redor.

Mesmo Serena, sempre tão calma, ainda parecia abalada.

Porém…

Depois de algumas horas de viagem, algo finalmente conseguiu quebrar aquele clima pesado.

Skyea.

O Reino dos Elfos Celestes.

Assim que atravessaram as montanhas, o reino surgiu diante deles.

E todos ficaram em silêncio.

Ilhas flutuavam pelos céus, conectadas por enormes pontes de cristal branco. Correntes de vento percorriam toda a cidade de maneira harmoniosa, movendo moinhos suspensos e estruturas brilhantes que pareciam feitas de nuvens sólidas. O próprio céu parecia mais vivo naquele lugar.

Tudo era claro.

Leve.

Pacífico.

— Uau… — murmurou Asami.

Até Haku parecia impressionado.

— Então esse é o Reino Celeste…

Serena sorriu de leve.

— Dizem que os ventos de Skyea nunca param de correr.

Perya observava tudo em silêncio.

Mas, pela primeira vez desde a transformação…

Ela parecia um pouco mais tranquila.

— É bonito…

Asami sorriu discretamente ao ouvir aquilo.

Talvez aquele lugar fosse exatamente o que ela precisava.

O grupo atravessou as ruas movimentadas da cidade enquanto vários elfos celestes voavam entre plataformas usando correntes de vento criadas magicamente.

Mas então—

Perya parou.

Uma sensação estranha percorreu seu corpo.

Instinto.

Ela virou rapidamente.

— Espera—

No mesmo instante, uma figura passou entre eles em altíssima velocidade.

Todos sentiram o impacto do vento.

E então—

— Minhas coisas! — gritou Serena.

— O quê?! — Haku olhou ao redor.

Asami rapidamente percebeu.

— Ele roubou nossas bolsas!

A figura já estava longe.

Rápida demais.

Mas Perya ainda conseguia vê-la.

Seu corpo reagiu no mesmo instante.

Ela disparou.

O chão rachou sob seus pés.

O vento explodiu atrás dela enquanto avançava em velocidade absurda pelas ruas de Skyea.

A figura olhou para trás.

E começou a rir.

Era um garoto.

Aparentemente da idade deles.

Cabelos brancos levemente azulados.

Olhos dourados.

E um sorriso irritantemente convencido.

— Então você consegue me acompanhar? — ele provocou.

Perya acelerou ainda mais.

Mas o garoto simplesmente desapareceu.

Ela arregalou os olhos.

— O quê?!

Uma rajada de vento passou acima dela.

Ele reapareceu sobre uma ponte suspensa.

— Você é lenta demais!

E voltou a correr.

Perya avançou novamente.

Mas, por mais que acelerasse…

Ela não conseguia alcançá-lo.

O garoto se movia como um relâmpago.

Mudando de direção no ar.

Desaparecendo entre correntes de vento.

Até que—

Ele sumiu completamente.

Perya parou.

Respirando pesado.

Irritada.

— Droga…

Pouco tempo depois, ela retornou até os outros.

Asami foi a primeira a se aproximar.

— Você tá bem?

Perya suspirou.

— Não consegui pegar ele.

Haku cruzou os braços.

— Então perdemos tudo?

Perya ergueu a pequena bolsa presa à cintura.

— Não tudo.

Todos olharam.

Ela segurava o Coração Ígneo.

O artefato elemental de fogo.

— Pelo menos isso ele não conseguiu pegar.

Serena respirou aliviada.

— Ainda bem…

Mas Haku franziu o cenho.

— Como alguém conseguiu ser mais rápido que você?

Perya ficou em silêncio por um instante.

Então respondeu:

— Porque eu hesitei.

Asami percebeu imediatamente.

Ela ainda estava insegura.

Ainda tinha medo de usar força demais.

Medo de perder o controle outra vez.

Mas antes que pudesse falar algo—

Guardas celestes pousaram diante deles.

— Os reis de Skyea desejam recebê-los imediatamente.

O grupo trocou olhares.

E então seguiram em direção ao palácio.

O castelo celestial era gigantesco.

Construído sobre a maior das ilhas flutuantes.

Correntes de vento circulavam pelas estruturas como se o próprio reino estivesse respirando.

Ao entrarem no salão principal, encontraram os soberanos de Skyea.

O Rei Kilian.

E a Rainha Mylena.

Ambos possuíam longas vestes claras e uma presença extremamente serena.

— Sejam bem-vindos ao Reino Celeste — disse Mylena com gentileza.

Haku fez uma leve reverência.

— Agradecemos por nos receberem.

Serena então explicou rapidamente o ocorrido.

O roubo.

O garoto misterioso.

A velocidade absurda.

Os reis trocaram olhares.

Até que suspiraram.

— Tera… — murmurou Kilian.

Perya estreitou os olhos.

— Então vocês conhecem ele.

Kilian fechou os olhos por um instante.

— Infelizmente… muito bem.

Nesse momento—

Passos ecoaram pelo salão.

E então o garoto apareceu.

O mesmo sorriso provocador.

As mesmas roupas.

As mesmas bolsas roubadas penduradas nos ombros.

— Ah… então vocês chegaram.

Perya imediatamente sentiu aquela presença de novo.

Rápida.

Leve.

Mas poderosa.

— Você.

Tera abriu um sorriso debochado.

— Gostou do pega-pega?

Asami fechou a cara na mesma hora.

— Devolve nossas coisas!

— Talvez.

Ele deu de ombros.

— Se eu tiver vontade.

Perya avançou um passo.

Mas Kilian interrompeu:

— Pedimos desculpas pelo comportamento dele.

Mylena suspirou.

— Desde pequeno ele possui… hábitos difíceis de controlar.

— Ei! — reclamou Tera.

— Eu só tava me divertindo.

Perya cruzou os braços.

Irritada.

Mas então—

Uma ideia surgiu.

Ela sorriu de canto.

— Então vamos apostar.

O salão ficou em silêncio.

Tera ergueu uma sobrancelha.

— Apostar?

Perya retirou cuidadosamente o Coração Ígneo da bolsa.

O brilho rubro iluminou o salão.

Todos ficaram sérios imediatamente.

— Eu vim para Skyea aprender a técnica do Passo do Trovão.

Ela apontou para Tera.

— E você vai me ensinar.

Ele começou a rir.

— E por que eu faria isso?

Perya respondeu na mesma hora:

— Porque se eu conseguir te pegar em cinco minutos…

Ela estreitou os olhos.

— Você devolve tudo. E me ajuda no treinamento.

Tera sorriu.

Interessado.

— E se você perder?

Perya ergueu o artefato.

— O Coração Ígneo será seu.

O salão inteiro congelou.

— Perya! — Serena arregalou os olhos.

Até Haku pareceu assustado.

Mas Tera…

Começou a sorrir ainda mais.

— Agora você conseguiu minha atenção.

Notas finais
Pessoal, peço perdão por não ter postado domingo passado, com o dia das mães e provas na faculdade acabei me esquecendo e peço perdão mas, agora vamos voltar com tudo.