Depois de mais de um mês de viagem desde que deixaram Terrea, Perya e seus companheiros finalmente atravessavam os limites de Gravital, o reino da tecnologia avançada de Dracônia.

Diferente de qualquer outro lugar que já haviam visto, Gravital não parecia apenas um reino — parecia o futuro.

Estruturas metálicas se erguiam aos céus, engrenagens giravam expostas em enormes torres, e dispositivos desconhecidos cruzavam o ar emitindo sons suaves e constantes. Havia ordem… precisão… mas algo ali não estava certo.

Assim que entraram na cidade, o grupo sentiu.

O clima.

Os elfos que passavam pelas ruas evitavam contato visual. Alguns desviavam o caminho. Outros simplesmente abaixavam a cabeça e aceleravam o passo.

Medo.

— Isso não é normal… — murmurou Asami, inquieta.

Serena observava tudo em silêncio, analisando.

— No Reino Oceânico, também desenvolvemos tecnologia… — disse ela, com calma — mas ela é usada para compreender o fluxo da magia e do mundo… não para… isso.

Ela olhou ao redor novamente.

— Aqui… parece que a tecnologia substituiu tudo.

Haku cruzou os braços.

— E não de um jeito bom.

Decidiram procurar um lugar para descansar, mas antes que pudessem seguir muito além—

Passos pesados ecoaram.

Guardas.

Fortemente armados, com equipamentos que claramente ampliavam suas capacidades físicas.

— Vocês. — disse um deles, frio — o Rei Shikki exige a presença de todos imediatamente.

O grupo trocou olhares.

Algo estava muito errado.

O palácio de Gravital era tão imponente quanto o resto da cidade — mas muito mais opressor.

E lá…

Sentado em um trono de metal e energia pulsante…

Estava ele.

Shikki.

Um elfo de quase dois metros de altura, coberto por uma armadura tecnológica que parecia fazer parte de seu próprio corpo. Seus olhos carregavam algo estranho.

Não era apenas autoridade.

Era… instabilidade.

— Visitantes… — disse ele, com um leve sorriso — faz tempo.

Perya deu um passo à frente.

— Estamos só de passagem. Queremos descansar e seguir viagem.

Por um momento…

Silêncio.

Então ele riu.

Baixo.

— Claro… apenas viajantes.

Mas seus olhos não saíram de Perya.

Nem por um segundo.

Ao deixarem o palácio, foi impossível ignorar o que viram.

Elfos.

Trabalhando sem parar.

Máquinas sendo construídas.

Corpos exaustos.

Nenhuma liberdade.

O ar pesava.

— Isso… — murmurou Asami — isso está errado…

Antes que qualquer um pudesse reagir—

Perya avançou.

Impulsiva.

Determinada.

Mas no instante em que tentou se aproximar—

Seu corpo parou.

Forçado contra o chão.

Como se o próprio mundo tivesse aumentado de peso.

— Eu estava esperando por isso… — a voz de Shikki ecoou atrás deles.

O grupo se virou imediatamente.

Perya tentou se mover.

Não conseguia.

— Você…!

Mas Shikki não olhava exatamente para ela.

O olhar dele atravessava.

Como se enxergasse algo além.

— Desde o momento em que você entrou em Gravital… eu senti.

Ele se aproximou lentamente.

A cada passo…

O ar distorcia.

— Uma energia… pulsante…

Uma breve pausa.

— Como um coração.

O calor ao redor de Perya reagiu.

Instintivo.

Involuntário.

Shikki sorriu.

— Então eu estava certo.

Seus olhos brilharam de forma instável.

— Você carrega um artefato.

O silêncio caiu pesado.

— E não é qualquer artefato…

Sua voz falhou por um instante.

Mais grave.

Quase… dupla.

— O Coração Ígneo.

Perya cerrou os dentes.

— Você não faz ideia do que está falando.

— Eu sei exatamente o que eu quero.

A gravidade aumentou.

— E eu vou obtê-lo.

Ele ergueu a mão.

— Um duelo.

— Eu aceito. — respondeu Perya, sem hesitar.

— Ainda não terminei.

Os olhos dele se voltaram para os outros.

— Se vencer… todos serão libertos.

Uma pausa.

— Mas se perder…

O chão vibrou.

— o Coração Ígneo será meu.

A tensão aumentou.

— E seus companheiros…

O ar ficou mais pesado.

— …se tornarão parte deste sistema.

— Perya, não! — Asami deu um passo à frente.

— Isso é uma armadilha — disse Serena, firme.

Haku apenas falou:

— Pense.

Mas Perya…

Sorriu.

Mesmo pressionada contra o chão.

— Eu já pensei.

Ela ergueu o olhar.

— Eu vou vencer.

Shikki a observou por alguns segundos.

— Então que seja.

O duelo foi marcado para o meio do dia.

Mas quando o momento chegou…

Perya entendeu.

Assim que entrou na arena—

Seu corpo desabou.

A gravidade ali era esmagadora.

Muito mais intensa do que fora dela.

— Esqueci de mencionar… — disse Shikki — aqui dentro… a gravidade é tripla.

Perya tentou se levantar.

Seu corpo tremia.

Mas então—

Chamas surgiram.

As luvas flamejantes se ativaram.

O fogo não queimava o chão.

Não destruía.

Ele estabilizava.

Adaptava.

Como se respondesse à vontade dela.

Ela conseguiu ficar de pé.

Com dificuldade.

Mas conseguiu.

Shikki avançou.

Rápido.

Pesado.

Cada golpe carregava o peso do próprio mundo.

Perya tentou reagir.

Contra-atacar.

Mas era lenta.

Limitada.

Mesmo com o fogo…

Não era suficiente.

O impacto final veio como uma sentença.

Ela foi arremessada para fora da arena.

Silêncio.

— Vitória por eliminação. — declarou Shikki.

Perya respirava com dificuldade.

Frustrada.

— Sem esse campo… você não seria nada.

Shikki a observou.

Em silêncio.

Por um momento…

Seus olhos vacilaram novamente.

Como se algo dentro dele lutasse.

— Talvez.

Uma pausa.

— Eu lhe darei uma chance.

O grupo se surpreendeu.

— Dez dias.

Perya se levantou lentamente.

Mesmo exausta…

Determinada.

— Não preciso de dez.

Ela limpou o sangue do rosto.

— Em três dias… eu volto.

O olhar dela queimava.

— E da próxima vez…

O fogo ao redor aumentou.

— eu venço.

Shikki sorriu.

— Estarei esperando.

De volta à cidade, o grupo se reuniu em silêncio.

Mas agora…

Não era apenas uma luta.

Era tudo.

O artefato.

A liberdade.

E algo muito maior… começando a se revelar.

E no fundo…

Mesmo sem entender completamente…

Todos sentiram.

Aquilo não era apenas sobre Gravital.

Algo estava começando a se mover em Dracônia.

E eles estavam no centro disso.