O peso ainda parecia presente.

Mesmo longe da arena, o corpo de Perya não respondia como antes. Cada movimento carregava um resquício da gravidade aumentada, como se o próprio mundo ainda insistisse em empurrá-la contra o chão.

O grupo havia se afastado do centro de Gravitol, encontrando abrigo entre estruturas metálicas abandonadas e máquinas antigas, deixadas para trás pelo avanço tecnológico da cidade. O silêncio ali era diferente — pesado, quase sufocante.

Perya tentou fechar a mão.

Seus dedos tremeram.

— Droga… — murmurou.

Haku observava, de braços cruzados, com o olhar sério de sempre.

— Força bruta não vai funcionar — disse ele. — Você sentiu isso lá dentro.

Perya desviou o olhar, irritada, mas sem rebater.

— Eu sei.

Serena caminhava lentamente ao redor dela, analisando cada detalhe de sua postura, como se estivesse estudando algo muito além do físico.

— A gravidade não é apenas peso… — começou ela, com calma — é pressão constante. Você tentou resistir a ela… quando deveria aprender a se mover com ela.

Asami, um pouco mais afastada, repetiu em voz baixa:

— Se adaptar…

Perya soltou o ar, passando a mão pelo cabelo.

— Tá… então como eu faço isso?

Serena parou.

Por um breve instante, o ambiente pareceu se contrair.

Então, sem aviso, uma corrente de água surgiu ao redor das pernas de Perya — densa, pesada, puxando-a para baixo com força.

— Ei—!

Antes que pudesse reagir, raízes brotaram do chão e se enrolaram em seus pés.

Haku.

— Começa agora.

Perya tentou dar um passo.

Seu corpo não respondeu.

Outro.

Nada.

A pressão era absurda.

— De novo… — disse ela, com os dentes cerrados.

— Não — corrigiu Serena. — Diferente.

O silêncio se instalou.

Perya fechou os olhos por um instante.

Respirou fundo.

Quando os abriu novamente, as chamas surgiram — mas não como antes.

Não explosivas.

Não descontroladas.

Elas envolveram seu corpo de forma contida, pulsando de maneira estável, como se acompanhassem sua respiração.

Ela deu um passo.

Pesado.

Mas firme.

Depois outro.

As raízes rangeram sob seus pés.

A água ao redor tremeu levemente.

Serena esboçou um leve sorriso.

— Isso… não lute contra a pressão. Distribua ela.

O treinamento continuou.

Sem pausas.

Sem alívio.

Haku aumentava a intensidade das raízes, tornando cada movimento mais difícil do que o anterior. Serena tornava a água ainda mais densa, comprimindo o corpo de Perya como se estivesse sendo esmagado lentamente.

E ainda assim… ela continuava.

Cada passo mais estável.

Cada movimento mais consciente.

Até que, em determinado momento, Haku desviou o olhar.

— Você também.

Asami piscou, surpresa.

— Eu?

— Vai enfrentar o mesmo inimigo — respondeu ele.

Relutante, ela avançou.

Sombras começaram a surgir ao seu redor, ondulando como um véu vivo — mas, quase imediatamente, se dissiparam, instáveis.

— Muito disperso — disse Serena.

Asami apertou os punhos.

— Eu… não consigo manter…

As sombras tremiam, prestes a desaparecer completamente.

Foi quando Perya se aproximou.

Sem hesitar, segurou levemente o braço de Asami.

— Ei… olha pra mim.

Asami hesitou por um segundo, mas obedeceu.

— Não tenta controlar tudo de uma vez — continuou Perya, com a voz mais suave do que o normal. — Só… mantém perto.

A escuridão vacilou.

Depois, lentamente, começou a se recolher.

Se concentrar.

Se estabilizar.

Menos espalhada.

Mais firme.

Os olhos das duas se encontraram.

Dessa vez, por mais tempo.

— Viu? — disse Perya, com um leve sorriso.

Asami assentiu, ainda um pouco surpresa.

— Obrigada…

Mas, mesmo depois disso, nenhuma das duas se afastou imediatamente.

O treino seguiu, mais intenso do que antes.

Agora, não era apenas resistência.

Era controle.

Coordenação.

Adaptação.

Horas se passaram até que o grupo finalmente parasse.

O cansaço era evidente em todos.

O silêncio que veio depois não era desconfortável — era merecido.

Serena, sentada próxima a uma estrutura metálica, observava as pequenas chamas que ainda dançavam nas mãos de Perya, agora muito mais estáveis do que antes.

— Em Solaria… — começou ela, quebrando o silêncio — existe um ritual antigo.

Perya olhou de lado, curiosa.

— Ritual?

Asami também voltou sua atenção para ela.

— Chamado de Forja dos Laços — continuou Serena. — Quando dois indivíduos criam um vínculo verdadeiro… eles moldam seus elementos em forma de anel… e os entregam um ao outro.

Haku ergueu levemente a sobrancelha.

— Um tipo de aliança?

— Mais do que isso — respondeu Serena. — Os anéis carregam parte do poder… e da essência de quem os criou.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Mais denso.

Mais significativo.

Asami desviou o olhar, pensativa.

— Então… não é algo simples…

— Não — disse Serena. — Só pode ser feito quando há conexão real.

Perya coçou a nuca, meio sem jeito.

— Parece complicado…

Mas, por um instante, seus olhos encontraram os de Asami.

E, dessa vez, nenhuma das duas desviou imediatamente.

Aquele momento foi interrompido quando Haku se levantou.

— Chega de descanso.

O chão ao redor deles começou a tremer.

Estruturas de terra se ergueram, formando um campo improvisado.

Serena se posicionou à frente.

Água começou a se condensar ao seu redor, aumentando gradualmente a pressão do ambiente.

— Lutem — disse ela. — Como se fosse contra ele.

Perya avançou primeiro.

As chamas ao seu redor agora eram mais densas, mais controladas.

Ainda havia peso.

Mas não a paralisava mais.

Asami hesitou por um breve momento… então avançou também.

As sombras surgiram novamente.

Dessa vez, mais firmes.

No início, os movimentos ainda eram desordenados.

Ataques desencontrados.

Falta de ritmo.

Mas então—

— Pela esquerda! — gritou Perya.

Asami reagiu no mesmo instante.

A sombra se moldou com precisão.

Pela primeira vez… havia sincronia.

Perya lançou uma rajada de fogo controlada.

Asami envolveu o ataque com sua escuridão.

A explosão resultante não se dispersou — foi direcionada.

Concentrada.

E poderosa.

Haku observou em silêncio.

Um leve sorriso surgiu em seu rosto.

— Agora sim…

Serena aumentou ainda mais a pressão.

A água se intensificou.

O peso aumentou.

O ambiente inteiro parecia comprimi-los.

Perya caiu de joelhos.

Mas não parou.

As chamas ao seu redor pulsaram com mais força.

Empurrando contra a pressão.

Asami estendeu a mão.

As sombras envolveram parte da carga que recaía sobre Perya.

Dividindo o peso.

Equilibrando.

— A gente consegue… — disse Asami, firme.

Perya sorriu, mesmo exausta.

— Eu sei.

O sol já começava a desaparecer no horizonte quando o treino finalmente terminou.

O cansaço era visível.

Mas algo havia mudado.

Perya se levantou lentamente.

Respirou fundo.

O peso ainda existia.

Mas agora… ela conseguia se mover dentro dele.

Ela ergueu o olhar para o céu.

Depois, para Asami.

Um leve sorriso surgiu em seu rosto.

— Em três dias… eu vou vencer.

Asami respondeu sem hesitar:

— Nós vamos.

Ao longe, as torres de Gravitol brilhavam sob a luz do entardecer.

E, no topo do palácio…

Uma presença observava em silêncio.

Esperando.

Notas finais
Pessoal, estou postando no insta as capas e fichas de todos os capítulos e personagens, me sigam lá @tmota_fanfic, espero que gostem e já agradeço as 200 views, tamo junto