O silêncio que tomou conta do campo de batalha após a derrota de Kuronemi parecia quase irreal.

Durante vários segundos, Perya permaneceu imóvel, apoiada em um dos joelhos, tentando recuperar o fôlego. Seu corpo inteiro doía. As Botas Infernais haviam desaparecido, suas Luvas Flamejantes estavam instáveis e cada músculo parecia protestar contra qualquer movimento.

À sua frente, Kuronemi permanecia caída entre os escombros, inconsciente após receber o Punho do Dragão Sagrado diretamente em seu Núcleo Sombrio.

A vitória havia vindo.

Mas o preço tinha sido alto.

Perya levou a mão até o lado direito do rosto e sentiu um leve ardor.

Quando seus dedos tocaram a pele, ela percebeu a extensão do ferimento.

O corte que Kuronemi havia causado atravessava a região acima de seu olho direito, descendo pela bochecha. Apesar de ter conseguido impedir que o dano afetasse sua visão, a marca permanecia ali.

Ela ativou suas Luvas Flamejantes.

Uma luz dourada envolveu o ferimento.

Normalmente, qualquer lesão desapareceria em poucos segundos.

Mas não daquela vez.

A luz se dissipou.

A cicatriz continuou exatamente onde estava.

Perya tentou novamente.

E mais uma vez.

Nada aconteceu.

— Estranho... — murmurou.

Pela primeira vez desde que despertara seus poderes de cura, ela não conseguia regenerar completamente um ferimento.

Antes que pudesse refletir mais sobre aquilo, uma sensação desagradável percorreu seu corpo.

Era como se o próprio ar tivesse ficado mais pesado.

Ela imediatamente se colocou em guarda.

Tera, que começava a recuperar a consciência após o golpe que recebera para ser retirado da luta, também sentiu a mudança.

Os dois se viraram ao mesmo tempo.

E então o viram.

Uma figura caminhava lentamente entre os destroços.

Alto.

Imponente.

Assustador.

O elfo sombrio tinha mais de dois metros de altura. Seus longos cabelos roxos balançavam ao vento enquanto uma energia negra parecia distorcer o espaço ao seu redor.

Cada passo que dava transmitia uma sensação sufocante.

Como se a própria presença dele fosse um aviso de perigo.

Perya sentiu um arrepio percorrer sua espinha.

Aquele poder era muito superior ao de Kuronemi.

— Então você é Perya... — disse o desconhecido.

Sua voz era calma.

Mas carregava uma autoridade assustadora.

— Quem é você? — perguntou Tera.

O homem abriu um pequeno sorriso.

— Meu nome é Darvyam.

O sorriso desapareceu.

— Primeira Estrela Sombria de Darkyum.

Ao ouvir aquelas palavras, até mesmo Tera empalideceu.

Se Kuronemi ocupava a segunda posição entre as Estrelas Sombrias, então aquele homem estava acima dela.

Muito acima.

Perya tentou reunir forças para lutar novamente.

Mas seu corpo estava longe do limite.

Estava além dele.

Darvyam ignorou completamente os dois e caminhou até Kuronemi.

Ajoelhando-se ao lado dela, observou seu estado.

Então seus olhos se fixaram no local onde o Núcleo Sombrio havia sido atingido.

Por um breve instante, sua expressão mudou.

Surpresa.

— Interessante...

Ele passou a mão sobre as rachaduras que haviam surgido no núcleo.

— Então alguém conseguiu danificá-lo.

Perya apertou os punhos.

Darvyam então ergueu os olhos.

— Foi você.

Não era uma pergunta.

Era uma constatação.

Mesmo exausta, Perya manteve sua postura.

— E se foi?

Por um momento, um silêncio desconfortável tomou conta do local.

Então Darvyam sorriu.

Não era um sorriso amigável.

Era o sorriso de alguém que acabara de encontrar algo que despertou seu interesse.

— Talvez você seja mais interessante do que eu imaginava.

Uma esfera de energia negra começou a surgir sobre sua mão.

Instantaneamente, Perya sentiu o perigo.

Aquela quantidade de energia era absurda.


Mesmo se estivesse com força máxima, ela não conseguiria bloquear aquilo.

No estado atual, seria impossível.

Tera também percebeu.

Seu corpo inteiro congelou.

Mas então algo inesperado aconteceu.

Darvyam observou a esfera durante alguns segundos.

E a dispersou.

— Não.

— Ainda não chegou a sua hora.

Perya não entendeu.

— O quê?

— Se você conseguiu chegar até aqui, quero ver até onde consegue ir.

Ele então se levantou.

Com uma única mão, colocou Kuronemi desacordada sobre o ombro.

— Ela perdeu hoje.

Mas isso não significa que perdeu para sempre.

Perya sentiu um peso estranho naquelas palavras.

Darvyam virou as costas.

— Da próxima vez que nos encontrarmos, espero que tenha ficado mais forte.

A energia negra ao seu redor começou a se intensificar.

— Porque eu certamente estarei.

No instante seguinte, ele desapareceu.

O silêncio voltou.

Mas dessa vez era diferente.

Perya não sentia alívio.

Sentia preocupação.

Se aquele era o poder da Primeira Estrela Sombria...

Então os inimigos que enfrentariam dali para frente seriam muito mais perigosos do que imaginava.

Pouco tempo depois, ela e Tera finalmente alcançaram o restante do grupo.

Assim que os viu, Asami correu em sua direção.

— Perya!

Ela a abraçou imediatamente.

Só então percebeu o ferimento em seu rosto.

Seu sorriso desapareceu.

— Seu olho...

Perya levou a mão até a cicatriz.

— Estou bem.

— Não está.

A voz de Asami tremia.

— Você quase morreu, não foi?

Perya tentou sorrir.

— Já passei por coisas piores.

— Mentira.

Asami cruzou os braços.

— Você sempre fala isso.

Apesar da bronca, seus olhos demonstravam puro alívio.

Ela estava feliz apenas por vê-la viva.

Haku se aproximou logo em seguida.

Depois de ouvir o que havia acontecido, decidiu examiná-la.

Sua magia de cura restaurou rapidamente sua energia.

Os hematomas desapareceram.

As dores diminuíram.

Mas a cicatriz permaneceu.

Haku tentou novamente.

E mais uma vez.

Sem resultado.

— Estranho...

— Não consegue curar? — perguntou Serena.

Haku balançou a cabeça.

— Não completamente.

Ele observou a marca por alguns segundos.

— Existe alguma energia residual nela.

— Talvez tenha sido causada pelas propriedades do Núcleo Sombrio.

Perya ficou em silêncio.

Então sorriu.

— Nesse caso, ela será um lembrete.

Todos a olharam sem entender.

— Como assim?

— Ela vai me lembrar de uma coisa.

Asami suspirou.

— O quê?

— Que sempre existe alguém mais forte.

— E que eu nunca posso parar de evoluir.

Pela primeira vez, ninguém tentou argumentar.

Porque todos sabiam que aquela era exatamente a forma como Perya enxergava o mundo.

Naquela mesma noite, os reis de Skyea convocaram uma reunião privada.

Após ouvirem tudo sobre Kuronemi e Darvyam, a preocupação tomou conta do salão.

A ameaça agora era muito maior do que imaginavam.

Foi então que Perya apresentou sua proposta.

— Se eles querem a esfera, vão continuar atacando Skyea.

Os reis concordaram.

— Então deixem que eu a leve.

O salão inteiro ficou em silêncio.

— O quê? — perguntou o rei Kilian.

— Eles já estão atrás de mim por causa do Coração Ígneo.

— Um artefato a mais não fará diferença.

— Mas deixará Skyea segura.

A proposta gerou horas de discussão.

No fim, porém, todos chegaram à mesma conclusão.

Talvez aquela realmente fosse a melhor opção.

Mas havia uma condição.

— Tera irá com vocês.

O príncipe imediatamente se levantou.

— O quê?!

A rainha Mylena sorriu.

— Você precisa aprender mais sobre o mundo.

— E nós acreditamos que viajar com Perya será a melhor forma de amadurecer.

Tera abriu a boca para protestar.

Mas acabou desistindo.

No fundo, ele sabia que seus pais estavam certos.

Além disso...

A ideia de conhecer novos lugares não parecia tão ruim assim.

Na manhã seguinte, diante dos reis e dos guardiões do templo, o Fragmento Celeste foi entregue aos cuidados de Perya.

Agora ela carregava dois artefatos divinos.

A responsabilidade sobre seus ombros se tornava cada vez maior.

Mas também sua determinação.

Quando o grupo finalmente deixou Skyea para trás, Perya lançou um último olhar para o reino celestial.

Sua mão tocou involuntariamente a cicatriz em seu rosto.

Uma marca permanente.

Uma lembrança de sua vitória.

E também de seus limites.

Enquanto caminhavam rumo ao horizonte, uma certeza ocupava seus pensamentos.

Darvyam voltaria.

Kuronemi voltaria.

E quando esse dia chegasse, ela precisaria estar pronta.

Porque a jornada estava apenas começando.

E além do oceano, o próximo reino os aguardava.

Olceos.