Draco Malfoy Tem Medo Do Escuro

13 O Plano de Voldemort


Voldemort poderia tamborilar os dedos na mesa, mas ele não achou que isso fosse fazer algum bem para sua imagem de vilão frio e implacável, então ele continuou pacientemente esperando que Belatriz chegasse. Voldemort havia convocado uma importante reunião, ele tinha um grande plano, um grande plano para derrotar Harry Potter, e não podia acreditar que Belatriz estivesse atrasada! É claro, ela não saberia do plano, ele podia até pensar em deixá-la saber se ela tivesse chegado na hora certa. Seu plano era brilhante, e apenas Snape saberia sobre ele, porque Voldemort tinha confiança absoluta de sua lealdade. Ele estava, obviamente, cego.

—Desculpe, Mestre – Belatriz fez uma enorme reverência ao lado de Voldemort, ela teve a decência de parecer culpada pelo atraso – Eu estava ocupada e não vi o tempo passar, vou entender se quiser me torturar mais tarde.

—Todos aqui sabem que torturar você seria presenteá-la por seu atraso, Bela – Snape rosnou.

Não era mentira em absoluto, e Voldemort fez alguma força para não deixar um sorrisinho escapar. Pelo estado das roupas de Belatriz, ele sabia perfeitamente onde ela estivera, o cabelo estava desgrenhado, as roupas sujas de sangue e ela ainda tinha aquele olhar, aquele olhar de satisfação que ele conhecia perfeitamente, não era bonito e Voldemort se perguntou se ele exibia o mesmo olhar depois de uma tortura. Ele imaginou que sim, porque de alguma forma causar dor lhe fazia bem.

Assim que Belatriz sentou-se, a reunião foi iniciada, Voldemort distribuiu “pequenas” atribuições a cada um dos comensais. Mas na verdade, só havia uma pessoa a quem ele daria uma atribuição realmente importante, claro, não ali, na frente de todos. Depois de atribuir missões que tinham como objetivo distrair tanto a ordem quanto os comensais, Voldemort dispensou a todos, com exceção de Severo. Belatriz saiu arrastando os pés e murmurando qualquer coisa mal-educada enquanto os irmãos Lestrange trocavam um olhar divertido por cima de sua cabeça.

Voldemort permanecera sentado à cabeceira da mesa. Snape permanecera sentado a seu lado direito. Um silêncio tenso reinou na sala depois que o último comensal passou pela porta. Com um aceno de varinha Voldemort trancou a porta. Snape pensou que seria morto. Afinal... só porque ele pensava que Nagini não contaria nada a Voldemort, não significava que ele não contaria.

—Eu tenho um plano para acabar com Harry Potter – o lorde disse finalmente. As mãos estavam cruzadas sobre a mesa, ele as encarava sem vê-las realmente.

Snape não piscou, não hesitou, não mostrou surpresa. Ele apenas concordou: “É claro, Mi Lorde”. Voldemort também não demonstrava qualquer emoção, nem mesmo a excitação que mostrara em planos anteriores. A falta de animação fez Severo duvidar das verdadeiras razões do plano, talvez Voldemort quisesse testá-lo.

—Quero que traga Potter até mim. – o Lorde sibilou – Está na hora de por fim a isso, acredito que não será difícil convencê-lo a vir...

Talvez fosse a última chance para Voldemort triunfar.

—Claro, Lorde – Snape falou calmamente – É um ótimo plano – e realmente seria, realmente funcionaria, se Snape não estivesse ao lado da ordem.

—Eu não terminei de explicar, Severo.

—Claro, Mi lorde – Severo anuiu respeitosamente.

O plano era simples, ele dependia basicamente de Severo para dar certo. Esse, claro, era o único ponto fraco do plano. Voldemort não conseguia enxergar desta forma. Severo era sua garantia de vitória, não havia “se”, não havia outra opção.

Eu poderia dizer que Severo titubeou, que se sentiu mal por enganar Voldemort, que pensou em permanecer ao lado dele; mas qualquer uma destas coisas seria mentira. Ele não teve dúvida sobre o que fazer durante tempo algum, contar a Dumbledore, traçar um plano e ajudar na execução. Aquele tipo de ditadura preconceituosa tinha que parar. Severo sentia-se envergonhado por um dia ter acreditado naquele discurso, ele não sabia se alguém realmente acreditava naquele discurso.

Severo teve que ficar, sim ele teve. Não queria despertar suspeitas em ninguém. Belatriz seria a primeira. Ela sempre seria a primeira nesse aspecto. Voldemort não acreditaria, mas Snape deveria ficar de qualquer forma.

O Lorde se manteve conversando com Snape, explicando alguns detalhes sobre o plano, até não ter mais nada para falar. Ele mandou que Severo se retirasse e foi para o próprio quarto. Mas ele estava inquieto, por algum motivo... por algum motivo mesmo quando Snape lhe obedecia, quando baixava a cabeça, ele tinha essa sensação de falta de controle. Mandou chamar Macnair, ele lhe entregou um dos prisioneiros na sala de reunião. Ele não tinha planejado nenhuma tortura, mas precisava fazer alguém implorar, precisava fazer alguém lhe obedecer.

O homem era jovem, não tão jovem quanto Draco, mas sua mãe lhe esperara em casa acordada na noite em que não voltara. Ela chamou a polícia, mas eles não acharam seu bebê, e mesmo que todos dissessem que Henry provavelmente estava morto, ela tinha esperança. Henry não.

Ele foi jogado naquela sala terrível por um velho ainda mais terrível. Lá dentro havia um monstro. O monstro bateu nele, cortou sua pele, arranco suas roupas. Ele ria enquanto Henry implorava pra que parasse. Henry jamais havia sido tocado dessa forma, mas Voldemort o tocou. Ele tocava-o de um jeito que não queria. Henry não queria! Ele chorava, tentava fugir, implorava, mas o homem continuava.

Voldemort sentia o poder fluir pra si a cada lágrima, a cada grito. Ele ria, sentindo-se no controle outra vez, fazendo com Henry muitas das coisas que haviam feito com ele quando era criança. As coisas que havia aprendido quando era criança. Sentindo-se no ápice do poder, ele gozou, sorrindo ao ver o homem, que pra ele não tinha um nome, cair no chão, sangrando, chorando, destruído. O homem então virou o rosto, olhando para ele com raiva, um olhar de puro ódio vinha dos olhos inchados e vermelhos, do rosto marcado por lágrimas. Voldemort deu dois passos pra trás, lembrando de si mesmo. Pequeno, olhando com raiva para Anthony, mas ele nunca deixava que o homem visse. Se Anthony visse... Ele deu mais dois passos, antes de sair apressado da sala. Trancou a porta por precaução. Achou Severo, tentava parecer calmo enquanto falava com ele, mas suas mãos tremiam. Severo viu. Tinha de ter visto, elas tremiam muito. Sem acreditar em como havia perdido o controle mandou que levasse Henry de volta ao calabouço. Severo fez uma reverência e obedeceu. Ele tinha notado as mãos do homem tremendo.

Severo entrou na sala de reuniões. Henry estava atirado no chão, chorando agarrado ao trapo que fora sua roupa. Severo não estava surpreso, ele já esperava que o homem estivesse muito machucado. Quando se aproximou Henry começou a se arrastar pra longe. Isso também não surpreendeu Severo. Ele segurou o homem nos braços, pedindo que se acalmasse. Severo envolveu o corpo tremulo com sua longa capa negra.

—Aquele monstro não mandou você aqui para me matar? – perguntou Henry com um pouco de medo, embora estivesse ali, Severo era gentil e agradável.

—Não – ele pegou Henry no colo, felizmente o homem era pequeno – Ele mandou que te levasse de volta ao calabouço. – Severo não deu nenhuma explicação, ele não era bom consolando as pessoas; mas não levou Henry para o calabouço, ele levou-o para seu quarto.

Henry se assustou ao saber ver que Severo o levara para o quarto. Mas o homem deixou-o na cama, onde Henry deitou-se. Ele não conseguiu manter-se sentado. Severo lhe entregou um frasco com um líquido vermelho brilhante.

—Beba – ele disse, Severo queria poder consolá-lo de alguma forma – Vai aliviar a dor.

Henry bebeu, ele acreditou que a poção iria lhe fazer melhorar. Ela fez. Instantaneamente. Henry ficou bem surpreso, embora já tivesse notado que aquelas não eram pessoas comuns, que eram... mágicos. Talvez aquilo fosse algum tipo de pesadelo maluco.

—Qual seu nome? – perguntou ao homem carrancudo que estava sendo tão gentil.

—Severo Snape – o lábio de Severo levantou um pouco, vendo que apesar de não sentir dor Henry continuava atirado em sua cama. Ele deixaria o jovem descansar mais um pouco enquanto preparava o chá do Lorde.

—Eu me chamo Henry Willians – ele disse, estava mais animado, já não parecia o fundo do poço. Tudo que recebeu como resposta foi um “ah” desinteressado, aquilo o fez sorrir – Olha... Por que ao invés de ajudar às pessoas que não tem magia, vocês as machucam?

—Não é isso – Severo falou calmo, ele sentou-se na cama, olhando Henry, pronto para dar uma longa explicação. Voldemort, maldito fosse, que esperasse a poção pra dormir. – O mundo bruxo está em guerra. – Henry arregalou os olhos fazendo com que Severo sorrisse mais uma vez. – Sim, bem de baixo do seu nariz... é meio surpreendente, não é? O nosso lado é a favor de uma ditadura...

—Uma ditatura pra acabar com os trouxas?

—Basicamente, mas nem todos pesam assim – Severo suspirou – Alguns acham que vocês devem ser mantidos sob controle para o seu próprio bem e...

—E você? O que você pensa? – Henry perguntou sentando-se com as pernas esticadas a cama.

—Eu penso – Severo sorriu – que você não deve saber demais.

Henry entendeu o recado. Pare de me interromper, só vou dizer o que eu quero. Isso não significa que ele iria escutar.

—E aquela coisa? O que ela quer?

Aquela coisa era Lorde Voldemort, e Severo esperava que ele jamais descobrisse que alguém usava “aquela coisa” para se referir a ele.

—Aquela coisa é o chefão – Severo disse – Mas, sinceramente, não tenho ideia do que ele quer. Ele odeia trouxas... mas... mas não sei se essa é a motivação. Ele é meio complicado – Severo suspirou, não podia acreditar que estava falando assim com um completo desconhecido.

—Acho que ele ficou com medo de mim – Henry soltou pensativo, ele esperava que fosse verdade e o homem nunca mais tocasse nele – Talvez seja por isso que...

—O que disse? – Severo olhava-o assustado. Como assim ficou com medo?

—Ele ficou com medo... depois de ter feito todas aquelas coisas... bom... ele saiu correndo. Eu nem sei o que eu fiz – Henry parou de falar, Snape respirava ruidosamente, parecia nervoso.

Severo estava nervoso. Assim que conseguiu assimilar aquilo, saiu correndo de dentro do quarto. Respirando ruidosamente, com as faces coradas. Enquanto corria, ele bateu de frente com Rasbatan, que vinha pelo corredor, grato por ser ele e não Belatriz, Severo pediu que fosse até seu quarto e cuidasse do prisioneiro, explicando que cuidar, era cuidar bem. Então voltou a correr.

Quando entrou em seu quarto, ele fechou e trancou a porta atrás de si, transtornado. Nagini tentou falar com ele, mas Voldemort não assimilava nada. Ele entrou no banheiro as pressas, trancando-se, arrancando a roupa do corpo. Ligou o chuveiro, a água fria escorrendo, fazendo-o tremer com frio. Sujo! Sujo. Estava sujo. Com os olhos arregalados ele esfregava os braços, as pernas, tudo, mas a sujeira não saía. Esfregava-se, tremia freneticamente, mas continuava sujo.

Quando Severo chegou à porta, quem abriu foi Nagini, ela apontou para o banheiro. Estava trancado. Severo bateu, parou, tentou escutar. Não havia nada além do barulho do chuveiro. Então ele forçou, e forçou, até arrancar a porta das dobradiças. Voldemort ainda estava de baixou da água, sentado com os joelhos encostados no peito enquanto as mãos esfregavam qualquer pedaço de pele que pudesse alcançar. A pele pálida e frágil estava avermelhada, esfolada, sangrava em alguns pontos. Snape foi até ele, abaixou-se ao seu lado, mas Voldemort não parecia ter visto. Ele continuava a esfregar-se, trêmulo. Severo segurou suas mãos.

—Não... – ele murmurou tentando puxá-las de volta, ele não olhava para Snape, não falava com Snape – Me deixe em paz! – choramingou puxando as mãos.

Snape soltou-as. Voldemort enfiou a cabeça entre o peito e os joelhos, abraçando as pernas. Severo suspirou, ele puxou Voldemort de dentro d’água, ele empurrava Snape como uma criança enquanto era carregado até a cama. Ele deixou o homem trêmulo sobre a cama e foi até o armário buscar uma toalha. Voldemort estava de novo encolhido em si mesmo quando Severo enrolou a toalha em seu corpo. O Lorde das Trevas a puxou automaticamente.

—O que houve? – Snape perguntou com um sussurro. Voldemort não respondia, não olhava pra ele. Talvez... talvez se aparatasse com ele, se o levasse para Dumbledore... mas alguém podia ver. Era melhor seguir com o plano. Era mais seguro, seria muito fácil derrotar Voldemort em uma situação como aquela.

Ele tocou o rosto branco e arranhado, mas Voldemort não estava ali. Ele tremia agarrado à toalha choramingado alguma coisa. Severo não sabia o que fazer para acalmar Voldemort, para trazê-lo de volta. Porque essa era a única alterativa, ele colocou os braços em volta dele, apertando-o, apertando-o. O corpo de Voldemort começou a tremer mais e mais, tremer mais. Voldemort respirava, aspirava o cheiro de Severo. Ele estava tão perto, de um jeito que não era ruim. Voldemort sentia o calor dos braços de Severo envolta de si, apertou o rosto contra o peito de Severo, sentindo seu cheiro. Soluçou. Os olhos lacrimejaram. Soluçou. Levou as mãos à camisa que Snape usava e apertou-a, chorando. Severo apertou-o ainda mais, tentando acalmá-lo.

—Quero que o mate. – Voldemort falou enquanto soluçava – Quero que mate aquele homem.

—Tudo bem – Severo falou, sem nenhuma intenção de obedecer. Ele fez menção de soltar Voldemort, mas ele puxou-o.

—Fique parado. – ele ordenou, então afundou o rosto ainda mais no peito de Severo. Ele não havia lhe obedecido, não ficou parado, as mãos passeavam calmamente por suas costas, mas essa era uma desobediência bem-vinda.

Severo continuou assim até Voldemort adormecer. A mão continuava fechada em sua camisa. Snape hesitou antes de resolver ficar. Rasbatan que se virasse com Henry. Voldemort não havia bebido a poção do sono, ele esperava que não tivesse nenhum pesadelo, mas se tivesse, Severo estaria ali. Ele também esperava que Rasbatan fosse bom com Henry, não queria ver o jovem machucado outra vez.

Rasbatan estava sendo legal com Henry. Um pouco. Ele fez piadinhas horrendas sobre o que acabara de acontecer com Henry, mas lhe perguntou gentilmente se estava com dor. Deu cantadas de mal gosto, mas quando notou o tecido que envolvia Henry manchado, esquentou a água do banho para ele, xingando Snape por não tê-lo feito.

Rasbatan também continuou a explicação de Snape sobre a guerra do mundo bruxo, além de mais alguns fatos históricos. Quando Henry perguntou a opinião de Rasbatan sobre os trouxas, ele respondeu que eram mais fracos, não sabiam cuidar de si próprios... criaturas desprovidas de inteligência. Henry não via isso porque era trouxa!

—Quer dizer que tudo o que aconteceu comigo foi para o meu próprio bem? – perguntou sarcástico, se aquele cara realmente pensava assim, não devia passar de um idiota.

—Não é isso! – Rasbatan corrigiu – Eu não aprovo esse hábito...

—Hábito! Hábito?! – Henry levantou, incapaz de conter a raiva – Acha que isso pode ser chamado de hábito?! Você é louco! – só podia ser louco – Como pode chamar um estupro de hábito?! Como pode dizer que humanos não são inteligentes quando fazemos sem magia aquilo que fazem com? Você acha que é melhor que eu – Henry apontou acusatoriamente, cutucando-o no peito – Não é!

Rasbatan abriu a boca para responder ao discurso do outro, mas o estomago de Henry rugiu. Henry ficou mais vermelho que seus cabelos ruivos. A tensão evaporou.

—Está com fome? – Rasbatan perguntou sorrindo, terminando com a discussão antes que as coisas ficassem muito sérias – O que quer comer?

—Humpf! – o outro bufou – Me dê algo tipicamente bruxo, ao contrário de você, eu gosto de conhecer culturas diferentes e aceitá-las.

No caminho para a cozinha Rasbatan se perguntava se Henry não tinha razão. O quê ele sabia sobre os trouxas? Nunca tinha se interessado em estudar sobre eles. Do modo como Henry dizia, parecia que ele era um ignorante. E se estivesse sendo?

Enquanto Rasbatan ponderava sobre o que acreditara por uma vida inteira, Severo xingava a si mesmo. Voldemort estava entre seus braços. Ele estava encolhido e quieto, dormindo. Voldemort não havia tomado sua poção, nem a presença de Severo impediu os pesadelos, na verdade eles vieram em uma intensidade maior. Ele murmurava em seu sono. Severo o apertava mais forte, não queria entender o que Voldemort estava dizendo, não queria ouvir aquelas coisas. Ele apertou o abraço um pouco mais. Desesperado em seu pesadelo, Voldemort choramingou e empurrou Severo. Snape já não sabia o que fazer, aliás, ele dificilmente soube durante algum momento.

—Acorde... – pediu em sussurros enquanto apertava-lhe os ombros com força – É só um pesadelo.

Voldemort abriu os olhos ainda tentando se livrar de Severo, ele estava confuso e também envergonhado por Snape estar ali.

—Acalme-se! – ele pediu – Sou eu quem está aqui.

—Severo... – Voldemort murmurou, as mãos de Severo apertavam seus ombros de um jeito gostoso, de um jeito que... Voldemort não sabia explicar. Suas próprias mãos estavam caídas ao lado do corpo, não sabia o que fazer com elas.

—Sou eu quem está aqui – ele repetiu – Você não tem que se preocupar, eu sempre estarei ao seu lado. Eu cuidarei de você. Você sabe que tem minha total fidelidade, não sabe?

Alguns segundos passaram em silêncio até que Voldemort respondesse – Eu sei – ele murmurou, e suas mãos foram vagarosamente até a cintura de Snape, onde se enlaçaram, tudo muito lentamente, quase sem encostar em Severo, com a insegurança de quem nunca tinha recebido um abraço.

—Vai ficar tudo bem – Severo mentiu mais uma vez.

Voldemort acreditou nele. Com os braços suavemente colocados em torno da cintura de Severo, ele adormeceu. Não teve mais pesadelos nesta noite. Quando acordou, Severo já não estava lá, e se não fossem as marcas de arranhões em seus braços pensaria que tudo fora um sonho. Ele tocou os próprios braços, traçando o caminho de cada arranhão. Há muito tempo ele não fazia algo assim.

—Ele gosta muito de você – Nagini sibilou rastejando sobre Voldemort até repousar a cabeça enorme sobre o peito dele – Ele ficou muito preocupado... quando viu você... se tivesse visto o modo como ele te olhava dormir...

Ele estremeceu com a ideia, e não porque ela lhe causava prazer. – Pare com as insinuações, Nagini! – ele ordenou.

Nagini sibilou irritada, ela se afastou, mas mesmo assim não parou de falar – Não são insinuações – ela murmurou irritada – Está na cara que...

—Nagini! – ele chamou fazendo-a calar-se – Severo permanecerá fiel a mim enquanto eu tiver poder. Eu estou ciente que não tenho mais nada a oferecer. – Voldemort se encolheu abraçando a si mesmo – Mas desde que ele coloque os braços em torno de mim daquela forma... eu não me importo. Não me importo que seja mentira. – ele murmurou – Se ele me tocar daquele jeito – Voldemort apertou a si mesmo – se ele... eu não me importo que não seja de verdade... Contanto que Severo continue aqui, está tudo bem...

—Você também gosta bastante dele – Sibilou Nagini.

Voldemort apenas a olhou, sem responder. Manteve-se calado não por achar que a pergunta era absurda, mas porque não tinha uma resposta. Gostava de Severo? Não tinha a mínima ideia.

—Humanos são criaturas complicadas – Nagini murmurou, enrolando-se sobre si mesma

—Sim – Voldemort estremeceu – complicados... – o sol batia na janela, já era tarde. Ele se embolou um pouco mais na cama. Não queria acordar, não conseguia dormir.

Severo havia saído do quarto de Voldemort extremamente irritado, não com Voldemort, mas consigo mesmo. Voldemort devia lhe despertar ódio, nojo... Qualquer coisa que não fosse a maldita vontade de ajudá-lo, de pegá-lo no colo e mimá-lo. Ele abriu a porta do quarto furiosamente , batendo-a. Por sorte, nem Rasbatan, nem Henry estavam ali. Severo sentou-se na cama, bagunçou os cabelos, levantou. Não conseguia ficar parado. Andou de um lado para o outro. Nervoso, irritado. Por que tinha que dar uma de bonzinho logo agora? Logo com Voldemort?!

Com um grito ele atirou a primeira coisa que viu na parede. Um frasco de poção do sono, um frasco que deveria ter sido entregue a Voldemort na noite anterior. Aquilo fez Severo sentir-se ainda pior. Não pelos pesadelos, afinal, ele estava lá para amparar ao Lorde das Trevas. Por mais que não quisesse admitir, acariciar ao Lorde tinha lhe feito sentir... tinha lhe feito bem. Devia ser seu egoísmo, saber que era só a ele que o Lorde tratava assim lhe acariciava o ego. Mais um objeto voa contra a parede, depois outro, outro, mais outro. Severo quebra tudo que há para quebrar, empurra a mesa para longe, ela bate contra a parede, os livros sobre ela espalham no chão, os frascos se quebram. As lágrimas lhe embaçam a visão, as mãos tremem, o corpo treme. Ele soluça. Agarra uma cadeira próxima e a joga. Ela bate contra vidro, que imediatamente se espatifa, e cai no chão. Severo também desaba, sentindo os joelhos fracos, suas mãos se cortam nos cacos de vidro dos frascos de poção espalhados, o vermelho de seu sangue se mistura com outras cores: verde, rosa, azul. O chão é todo uma mistura colorida, os caquinhos de vidro refletem a luz da lâmpada e brilham. Há pessoas que nascem sem direito a felicidade.

Com ou sem felicidade, a vida continua. Há coisas a serem feitas. Ele começa por suas mãos, fechando os ferimentos. Não é um idiota dado a sentimentalismos. Deve ser a idade. Começa a reverter às coisas, consertar moveis e frascos. Algumas poções terão que ser refeitas, outras tantas conseguiu salvar. A poção do sono está entre as salvas, Severo respira aliviado. Com tudo no lugar ele sai do quarto. Há dois lugares em que Henry pode estar: as masmorras e o quarto de Rasbatan. Ele vai até as masmorras, torcendo para que Rasbatan não tivesse feito Henry de bichinho de estimação. O ruivinho não está lá. Severo suspira, sabendo que terá que negociar com Rasbatan.

Ele invade o quarto do outro. Henry está dormindo na cama de Rasbatan... ele parece uma criança inocente. Rasbatan também pensa assim, por isso o olha tão carinhosamente da poltrona em que está sentado.

—Eu tenho que levá-lo, Lestrange – Severo disse, tentando soar o menos ríspido possível.

—O deixe dormir aqui essa noite – Rasbatan levantou, ainda olhando Henry com um sorriso – As masmorras são frias.

Severo olhou para baixo e fez que não com a cabeça. Rasbatan entendeu. Henry não dormiria nem em seu quarto nem nas masmorras. Voldemort mandara matá-lo.

—Por Merlin, Severo! – Rasbatan sentou ao lado de Henry na cama, tentando proteger o anjinho do olhar de Severo – Por favor! Eu posso tirar ele daqui... Escondido! O Lorde não precisa saber... Severo! Por Merlin!

—Lamento, Rasbatan. – Severo suspirou. Ele lamentava ter que enganar Rasbatan desse jeito. Lembrava-se de como se sentira quando Lilian morreu. Embora duvidasse que a dor de Rasbatan chegasse a um décimo da sua, lamentava que o homem tivesse que passar por isso. Ainda mais quando Henry continuaria vivo e protegido. – Ordens são ordens – disse. Foi até o corpo adormecido de Henry e o pegou no colo.

Rasbatan estendeu as mãos em direção ao homem, depois as deixou cair ao lado do corpo. Olhou para baixo, apertando as mãos no lençol com força, até os nós dos dedos ficarem esbranquiçados – Eu... Severo... e se... – ele tentava formular algo para dizer. Qualquer coisa que mantivesse Henry ali. – Não ha nada que eu possa fazer? Veja isso como uma troca de favores... Eu não contarei a ninguém em troca de você não contar – Rasbatan encarou Severo com um pouco de esperança – Posso ficar lhe devendo... quando precisar de mim... te dou minha palavra...

—Realmente sinto muito, Rasbatan – Severo suspirou, Henry continuava imóvel em seu colo – Você pode arranjar outro homem. Há outros trouxas por aí, tenho certeza que algum deles lhe agradará. – disse, em uma imitação bastante próxima das palavras que ouvira de Voldemort há alguns anos atrás. Sabia que estava sendo cruel.

Rasbatan assentiu e voltou a olhar para baixo. Por um momento pensou em atacar Severo, mas não seria racional atacar um amigo de tanto tempo por causa deum trouxa que conhecera a menos de 24 horas. Ele viu Severo se virar e sair pela porta sem fazer qualquer movimento para impedir. Quando Severo voltasse, Henry estaria morto. Ele queria gritar. Imagens dele correndo e fugindo com Henry nos braços passavam por sua mente. Nenhuma delas era real. Ele apertou a colcha e trincou os dentes. Não havia nada que pudesse fazer, não sobreviveria a um dia sendo caçado por Voldemort e pela Ordem da Fênix. Mas... fora tão bom conversar com Henry. Eles haviam discutido sobre vários assuntos. Henry prestara atenção em tudo que Rasbatan dissera e contra argumentara inteligentemente. Era o trouxa mais inteligente que Rasbatan já vira... não, era o homem mais inteligente. Henry era tão fascinante... Não podia deixá-lo morrer! Ele foi até o corredor, Severo não estava mais lá. Ele andou pelo esconderijo, mas é claro que Severo não estava mais lá. Ele voltou a seu quarto, furioso. Severo havia levado Henry para sempre, e ele não havia feito nada para impedir! Estava tão furioso que deitou em sua cama, abraçando a si mesmo, sentindo no travesseiro o cheiro que Henry deixara.

Quando Severo voltou, Henry não estava morto. Ele estava seguro e muito bem em uma cabaninha protegida por todas as magias possíveis e muito bem escondida. A situação lhe havia sido explicada pelo próprio Dumbledore. Henry entendera, embora odiasse fazer sua mãe sofrer, o melhor era manter-se vivo. Sua mãe sofreria agora, mas quando visse que ele estava bem, tudo ficaria bem.

Rasbatan não sabia que Henry ainda estava vivo, e para ele, até olhar para Severo era difícil. Ele ainda esperaria dez dias. Procuraria por outros trouxas e bruxos com quem pudesse conversar esperando que dor diminuísse, mas não aconteceu. Ele pensou muito, muito mesmo, antes de procurar Dumbledore.

—Ele me disse que haviam muitos trouxas por aí – ele murmurou choroso – Que acharia outro... mas essa dor... essa dor não passa...

Em frente à Rasbatan, com a neve caindo ao redor de ambos no meio daquela montanha gelada, Dumbledore sentia-se em um dejá vu. Felizmente, desta vez o final não era realmente trágico. Rasbatan oferecia seus serviços como espião. Ele queria vingança, Dumbledore estava certo de que Rasbatan não o estava enganando. Aquela situação lhe lembrava de Severo. Embora Dumbledore não fosse cego, ele sentia que a vingança de Severo havia sido esquecida... não... esquecida não era bem a palavra. Severo, de fato lembrava-se muito bem de sua vingança... mas Dumbledore via, que graças a Merlin!, Severo a encarava com mais dor do que prazer.

Rasbatan iria se esquecer de sua vingança muito mais rapidamente. Dumbledore sorriu para ele, dizendo que não precisava de espião, mas caso Rasbatan quisesse, poderia ficar em um chalé até o fim da guerra, um chalé onde teria uma surpresa agradável. É claro, uma vez que aceitasse, não poderia mais sair de lá. Desta vez ele nem pesou as vantagens e desvantagens. Não se sentia bem desde que deixara o outro homem morrer. Que outra pessoa iria rebater seus argumentos tão eloquentemente? Ou responder a suas piadas maldosas sem estar realmente ofendido? Ele e Henry poderiam ter se tornado melhores amigos.

—Está tudo bem. – ele disse sem emoção. Isolar-se parecia uma boa ideia. Ele nem mesmo estava interessado em saber qual seria a “boa surpresa”, apenas culpava-se pela morte do sangue-ruim inteligente e seguia Dumbledore para onde ele lhe conduzia.

Eles pararam a alguns metros de um amistoso chalé ao pé de uma cachoeira, cercado de árvores enormes por todos os lados. Dumbledore ressaltou que caso Rasbatan aceitasse teria que viver ali sem magia até o final da guerra. O homem lhe entregou a varinha e deu um passo para frente. Ele pode sentir a mudança do ar a sua volta, olhou pararás e viu Dumbledore exatamente no mesmo lugar. Alvo lhe deu um sorriso e o encorajou a seguir em frente com um gesto de mãos. Assim Rasbatan fez.

Ele seguiu em frente, desanimado com a ideia de passar um tempo ali sozinho. Mas agora não havia mais volta, o Lorde já devia ter percebido o que acontecera. Talvez o próprio Severo tivesse lhe contado como Rasbatan implorara pela vida de Henry, e nesse caso era bom estar ali, se não havia uma probabilidade de não estar em lugar nenhum. Ou em um buraco no chão... coberto de terra... Rasbatan estremeceu todo ao pensar nisso. Ele parou em frente à porta e olhou mais uma vez ao redor. O lugar era lindo... cheio de árvores enormes, havia flores coloridas espalhadas pela volta da casa e, claro, a linda cachoeira, o barulho era tão agradável... Mas Rasbatan não podia ver a beleza no momento. Ele só conseguia pensar em Henry enquanto entrava na casa.

—Henry?!

Rasbatan deixou a boca abrir involuntariamente. Estava surpreso por o garoto ruivo no sofá. De olhos fechados, mas bem vivo.

—Henry! – ele disse, agora mais alto.

Henry, que até então aproveitava para descansar em paz, deu um salto, o livro que tinha sobre o peito caiu no chão e por alguns segundos aquele foi o único som que se ouviu, o som seco do livro contra o chão. Henry e Rasbatan se encaravam, até que o primeiro produziu um ruído, algo como um “ahn”, mas não disse nada mais.

—Achei que você tinha morrido! – Rasbatan deu alguns passos, checando se não havia se enganado. Não, era Henry tinha certeza – Eu vi quando Severo levou você e...

—Bem... – Henry interrompeu. Ele tinha certeza que Rasbatan podia chegar à resposta sem muito esforço, o homem não era burro, apenas ignorante em alguns pontos, e Henry não pode deixar de suspirar. Mas ele tinha suas próprias perguntas. Haviam lhe dito que ficaria sozinho ali até que fosse seguro, então como Rasbatan havia chegado até ali? Com certeza não havia invadido, e também não parecia um prisioneiro. – O que está fazendo aqui? – Henry perguntou, e embora Rasbatan lhe fizesse uma careta, a pergunta havia sido muito educada.

—Desisti de ser Comensal porque achei que tivesse morrido – ele cruzou os braços e deu mais alguns passos para frente – Não posso acreditar! ... Quer dizer... estou feliz que você esteja bem...

—Você sabe que esse local é antimagia? – era isso que o velhinho simpático havia lhe dito, e se realmente fosse como ele pensava... aquela seria uma experiência muito divertida.

Rasbatan assentiu. Sim aquilo seria de fato muito divertido. Mais divertido para Henry do que para Rasbatan, é bem verdade, mas este já estava bem contente em se livrar da culpa que o perseguia e em poder conversar mais com aquele ser que não tinha magia e mesmo assim era tão inteligente.

—Quando acha que poderemos sair daqui? – Henry perguntou, embora as coisas fossem ser muito menos monótonas do que inicialmente imaginara.

—Se Severo realmente está do lado da ordem... logo – Rasbatan suspirou, movendo a cabeça de um lado para o outro. Ele não conseguia acreditar. Logo Severo! – Voldemort confia muito em Severo. É a única pessoa em quem ele realmente confia – Rasbatan dizia sem focar ponto algum, ele tentava imaginar Voldemort sem Severo andando ao redor ou vice e versa, mas não conseguia – não sei o que vai acontecer quando Severo o trair... não consigo nem imaginar o choque que isso vai ser. Um plano muito esperto de Dumbledore, mas bastante cruel.

—Voldemort é cruel.

—Sim – Rasbatan suspirou e assentiu – ele é.