Dotyanutsya do Tebya

14 Parte XIII: Mees, kes müüs maailma


Notas iniciais
Enton... creanças... ........ Cá estou eu, ressuscitando pela trecentésima vez neste Nyah vital. Sinto muito, sinto muito, sinto muito *senta em dogeza* D: Acho que não tem muita desculpa pra mim, né? Eu sou problemática mesmo. Tava me esforçando pra acabar o capítulo mesmo no meio de umas crises em que eu fui pro fundo do poço algumas vezes (esse tipo de coisa, eu não falo nem pros meus amigos, mas preciso explicar pra vocês, né?). Nesse meio tempo, fiz até uma cirurgia. Se serve de consolo pra vocês, nesses últimos meses, senti muita dor e muitos níveis dela, tanto psicológica quando fisicamente. Ainda tô cheia de pontos e eu não podia abaixar a cabeça, nem segurar o computador pra eles não estourarem e não ter hemorragias. Apesar disso, eu tô aqui. Prometi que ia acabar a fic, né? Prometi e vou cumprir enquanto tiver alguém pra ler G_G Creiam na tia Julie. Ela tarda, mas não falha...! *pausa awkward* *tiro* *pigarro* Beeeeeeeeeeem, agradecimentos especiais à Stereo Hearts e à Nena Lorac, que me acharam no facebook. Só o fato de vocês falarem comigo me ajudou a ter mais coragem pra continuar, porque metade do tempo eu acho que eu só escrevo porcaria, mas quando eu vejo que tem gente que gosta das minhas palavras, eu fico motivada a continuar. É sacanagem deixar a história pela metade enquanto tem gente lendo, né? Muito obrigada, vocês duas. E muito obrigada a você que ainda está aqui. É, você mesmo que está lendo essa mensagem agora. Pra quem torceu por mim com relação ao vestibular, muito obrigada também. Eu passei nos cursos e nas instituições que queria. Yey /o/ (Só que a minha mãe não me deixou ir pra Santa Catarina e chora chora chora. Sério, ninguém tem noção de como eu quero ir embora desse estado ;-; e mais um motivo pra tia Julie cair no poço da deprimência. Ver teu sonho acenando por trás de grades, poder até tocar, mas não poder vivê-lo é muito duro.) Enfim (1), se alguém olhou a fic de umas semanas pra cá, reparou que ela foi toda revisada até aqui e eu consertei um ou noventa e quatro mil erros de digitação haha G_G Eu queria mudar coisas, mas achei melhor não fazer isso, porque nem todo mundo vai querer ler do começo pra ver isso. Bem, se quiserem reler... Sintam-se à vontade ^^’ Como eu só ajeitei os erros de digitação e palavras repetidas, não vai influenciar na história até aqui. Foi só uma urgência insana dessa autora doida, porque ela é gramar Nazi :v ou não. Ah, eu percebi, me envergonho e me desculpo por escrever errado o nome da Ucrânia. Erraram nomes na moral (que nem o do Toris que era pra ser Tolys lol ou do Ivan que era pra ser Braginsky /aqui no Nyah msm tá errado :v), então eu pensei que era Yakaterina, mas é Yekaterina mimimi. Sim, mim disléxica. E eu sou tão burrona que não sabia pular linha por isso usava aqueles *** e -x-... Burrona. Isso tudo foi consertado na revisão. Enfim (2), vocês são manjonas e endenderiam sozinhas, mas só pra constar, os diálogos entre colchetes estão em qualquer outra língua que não seja russo, nesse e no próximo capítulo. Enfim (3), eis o próximo capítulo. Estás de sobreaviso de que é sobre o Eduard no gulag, então o que o Toris vai decidir sobre a Natalia e o Ivan vai ficar pra outra ocasião. Sinto muito qualquer coisa de ruim nele. Tem cookie de chocolate pra quem ainda me amar.

Tentar encontrar gravetos bons depois de uma nevasca era uma tarefa quase impossível. Gravetos, pois os pedaços de madeira bons eram levados para os soviéticos. A única opção era pegar os pequenos pedaços de lenha molhados e esperá-los secar — o que significava que Eduard provavelmente passaria uma noite congelante junto aos outros em sua cabana. Havia saído de Moscou no começo da primavera e demorara praticamente um mês até chegar, porque o trem fazia muitas paradas para novos prisioneiros entrarem. Já era abril quando chegara, mas a camada de neve era ridiculamente alta, girando em torno dos 17ºC negativos, como se fosse inverno. Agora, no início de junho, o período chuvoso dava indícios de que chegaria com força brevemente, porém a neve permanecia ali.

O rapaz pegou mais dois gravetos do chão e decidiu que já havia recolhido o suficiente para voltar; foi quando ouviu uma discussão. Ou melhor, era a voz desesperada e suplicante de uma garota que falava em alguma língua diferente somada às vozes zombeteiras de vários homens, aparentemente, agentes soviéticos.

Eduard correu por entre as árvores, até avistar um grupo de pessoas próximas ao prédio do governo soviético. Não havia se dado conta de como se aproximara tanto daquela área enquanto procurava lenha. Os homens eram de fato soldados da KNVD, que puxavam o casaco de uma mocinha, cujos cabelos eram de um acobreado pálido, enquanto riam e a xingavam de coisas terríveis. Ela era do seu grupo, mas nunca a ouvira falar antes. O estoniano observou a cena, hesitando um pouco, mas acabou largando os gavetos no chão e saiu correndo para tentar impedir que eles continuassem a mexer com ela. Geralmente passava direto por muitas coisas, mas não conseguia evitar de se incomodar e, às vezes, a revolta era maior que sua razão, como naquele momento.

Discutiu com eles, que, a princípio, ficaram estupefatos com a ousadia daquele "fascistazinho imundo"; depois eles acharam engraçado. Porém, quando perceberam como Eduard falava a sério, irritaram-se e começaram a lhe bater. Um dos guardas estapeou-o, outro cuspiu em seu rosto, antes de bater com a coronha do rifle em suas costelas, fazendo-o vergar o corpo para frente. Dor e ódio queimaram no peito do rapaz, mas foi obrigado a engolir tudo em seco. Reagir seria pior.

– Mas você deve ser um virgenzinho pra não entender os sinais que uma puta imunda como essa manda. – um terceiro guarda puxou os cabelos ondulados da moça, cujo sangue escorria pelo lado do rosto, provindo de um corte acima da têmpora. – Essas porcas são todas um bando de putas. É só pra isso que elas servem... Pra abrir as pernas.

Ela chorava enquanto eles tiravam suas roupas aos puxões. Instintivamente, Eduard avançou em direção a ela, na tentativa genuína e impensada de protegê-la, mas a única coisa que conseguiu foi outra coronhada, nas costas, dessa vez.

– Você é virgem, porca? – um dos guardas perguntou a ela e se impacientou quando a resposta não veio. – Não vai falar?

Ela recebeu um tapa que fez o rosto virar.

– [Não entendo o que dizem.] – ela murmurou, e Eduard reconheceu a língua.

Um pouco relutante, ele interpretou a pergunta num finlandês ruim, mas ela entendeu e fez que sim com a cabeça, encarando o chão. Era visível que estava lutando para não chorar. Os homens riram.

– Você fala a língua dela. Ótimo. Diga que ela vai virar mulher agora, fascista de merda. Diga.

– Vá se fod... – começou o estoniano, irritado.

A coronha da arma encontrou seu rosto e alguém o empurrou por trás, fazendo-o cair de quatro na neve, desajeitadamente. As botas dos soldados soviéticos o acertaram por todo o corpo, enquanto a moça pedia para que parassem, em meio a gritinhos angustiados.

– Você tem sorte de ainda estar vivo. – algum deles cuspiu as palavras, entre um chute e outro. – Montes de bosta como vocês deveriam ser exterminados de uma vez por todas da face da Terra. E eu tô muito disposto a começar a limpeza agora.

O som de uma arma sendo engatilhada soou como uma armadilha de urso sendo armada. Uma armadilha que estava prestes a se fechar no pescoço do estoniano. Sentiu suas mãos tremerem contra a neve. Já havia visto aquela cena um milhão de vezes. Já havia visto um milhão de pessoas morrerem assim. Sua respiração começou a falhar.

– Não, espera. Já que ele se acha heroizinho... – um pé nas suas costas fez força, como se tentasse esmagar seus pulmões, expulsando todo o ar deles. – que tal colocá-lo no lugar dela? Quer ficar no lugar dela? Hein, lixo?

Os chutes cessaram e outro pé se meteu por baixo do peito de Eduard, forçando-o a virar de frente para o céu tão claro que parecia capaz de cegá-lo, assim como a neve ao redor. Todo o seu corpo doía. Suas mãos, que já não estavam em bom estado devido ao trabalho forçado, foram tão pisoteadas que não paravam de latejar e arder. Olhou para os soviéticos. Eles haviam lhe feito uma pergunta, não? Não conseguiu entender. Ou talvez, não houvesse conseguido aceitar aquelas palavras.

– C-como? – perguntou com a voz fraca e arrastada.

– Quer ficar no lugar dessa vagabunda? Você tem essa opção. – o soldado riu, puxando-o para que ficasse de pé. – Que tal? Buraco por buraco, não importa onde a gente vai enfiar. Você ainda deve até dar mais caldo que essa cachorra aqui. – ele bateu com o cano da arma na barriga dela.

Pareciam falar sério. Eduard encarou a moça. Ela obviamente não entendia o que diziam, por isso olhava para o estoniano com expectativa e medo, enquanto abraçava o próprio abdômen, os lábios trêmulos. Insistiram na pergunta, dando-lhe um tapa para pontuar. Nem conseguiu pensar duas vezes antes de baixar a cabeça e fazer que não.

– Então o que está esperando?

Sentiu um cano de metal gelado contra sua têmpora.

– [Eles... disseram que você vai virar mulher hoje...] – murmurou, sem acreditar que conseguiria ficar de pé por mais tempo.

O pânico dominou a expressão sofrida dela. E eles pareceram satisfeitos com isso, enquanto começavam a tirar o vestido da camponesa, que se encolheu no lugar. Embora fizesse frio, Eduard sentiu um calor estranho descer por sua espinha. Quis sair correndo, mas o medo provocado por aquelas armas o deixava congelado onde estava.

– Pode ser o primeiro, fascista. Pode fazer as “honras”. Haha. Diga a ela pra deixar você duro.

Eduard olhou para o homem, incrédulo, mas a expressão dele garantia que não havia o que contestar. Não. Não queria fazer isso. Não queria ser como eles. Não queria. Olhou para a arma apontada para o seu rosto. Por que isso tem que estar acontecendo? Não... O que eu esperava vindo aqui? Eu achava mesmo que iriam parar? Que burrice a minha...

– ANDA! – alguém atirou no chão.

A bala se enterrou na neve, a centímetros do sapato gasto de Eduard. Ambos os prisioneiros tremeram com o sobressalto. O rapaz até mesmo sentiu seu coração bater mais forte contra as costelas por causa do susto. Engoliu em seco, tentando controlar suas mãos, que haviam voltado a tremer. Eu pedi por isso, não foi? Eu tinha que me meter...

– [Sinto muito. Sinto muito mesmo, moça...] – ele murmurou para ela, enquanto abaixava as próprias calças com uma mão e tentava pegar a mão dela com a outra, mas ela a puxou para si. – [Eu juro que não queria que precisasse ser assim... Não queria, mas temos que fazer isso ou vão matar a nós dois.] – pegou a mão dela a força. – [Eu não posso morrer.] – e a colocou entre suas pernas. – [Eu não posso morrer aqui. Você tem que me tocar...]

– [Não...] – ela tentou puxar a mão oura vez, mas Eduard segurou firme.

Outro tiro no chão e Eduard a fez esfregar seu membro, esforçando-se para conseguir ficar excitado. Não pense, não pense, não pense em nada, repetia para si mesmo. Não pense... porque a verdade era que era uma sensação asquerosa que queria se infiltrar em seu peito.

– Ela é muito baixinha... Como eu vou fazer isso assim, de pé?

– Você tem todo esse chão pra jogar a vadia, idiota... – um dos guardas debochou.

O estoniano suspirou e fez a garota deitar, embora ela relutasse. Ele repetia que não havia saída e que ela precisava cooperar e sentia-se péssimo com isso. E sentiu-se pior ainda quando entrou no corpo dela, quando ela começou a chorar e apertar seus braços com aparentemente toda a força que tinha — que não era muita. Nem conseguia sofrer com o frio que queimava suas mãos e castigava seus joelhos mesmo por cima das calças. Era um pesadelo; e nem imaginava como podia ser pior para ela, deitava sobre a neve sem nada que a protegesse do frio. Será que ela sequer ainda o sentia?

Tentava não a machucar muito, mas sabia que mesmo que não machucasse fisicamente, o coração dela nunca seria o mesmo. Embora também houvesse tentado não olhar, ainda viu o corpo dela, de uma brancura doentia. As costelas eram visíveis, junto a alguns hematomas, e ela mal tinha seios, talvez por causa da desnutrição, talvez por ser jovem demais. A garota parecia ter a mesma idade que Raivis. Não conseguiu evitar imaginá-lo no lugar dela, se ele estivesse ali no gulag. Seu estômago se contraiu dolorosamente de nojo.

Quando trocaram de lugar com o estoniano, empurraram-no de volta ao chão, para sair do caminho, mas o mandaram permanecer ali. Por entre as figuras dos soviéticos que a cercavam, ela encarou Eduard por uns instantes sem dizer nada, sem nem sequer se mover. Seu olhar era morto demais para demonstrar qualquer emoção, apesar das lágrimas que escorriam pelas bochechas ossudas. Ela apenas fechou os olhos e virou o rosto num movimento débil, então Eduard os viu levantá-la para que a penetrassem, de pé, no meio da floresta; e a verdadeira tormenta da nórdica começou. O estoniano ainda fechou os olhos e enterrou o rosto nos braços, mas não havia como se impedir de ouvir. A garota engolia soluços e gemidos de dor, sob os risos dos soviéticos. Longe do que imaginara em suas fantasias com Raivis, sexo parecia nojento. Tão nojento que não tinha certeza de que ainda iria conseguir pensar sobre isso no futuro.

Por que faziam questão de que ficasse ali? Queria ir embora de uma vez. Queria sumir dali. Queria que acabasse logo, e não conseguia nem imaginar o quanto ela desejava o mesmo. Entretanto, concomitantemente, tinha pena dela e temia o que viria quando aquilo acabasse de fato. Será que a matariam? O que seria pior? Viver ou morrer ali? Já nem sabia mais. No fim, se existisse a opção, desejaria dormir e nunca mais acordar se ainda tivesse de permanecer naquele inferno.

– Essa vagabunda me arranhou... Se fizer de novo, vou usar tuas tripas pra te pendurar numa árvore, filha de uma puta! – um dos guardas esbravejou e logo em seguida houve o estalo de um tapa e um ganido da moça. – Diga isso a ela! – ele deu outra coronhada nas costas de Eduard, quase fazendo-o cair de cara no chão. – Diga exatamente isso.

– [Não faça mais isso...] – tossiu contra a neve. – [Ele tá dizendo pra você não fazer isso outra vez. Senão... senão vão matar você.]

Pela reação dela, o homem percebeu que Eduard não havia interpretado literalmente suas palavras e ficou irritado.

– Diga exatamente o que eu falei!

– [Vão... Vão enforcar você e p-pendurar numa árvore com as suas tripas...]

Ela só conseguiu chorar mais. E Eduard precisou traduzir o que eles diziam. Palavras que nunca sonhara dizer a ninguém, nem mesmo a quem mais odiasse, muito menos na língua que aprendera com um amigo havia muito tempo, antes do inferno trazido por Ivan começar; assim como viu o que nunca imaginaria ver ninguém passar. A crueldade humana não tem limites. Não, a crueldade soviética não tem limites. Como eu queria dar a vocês uma morte lenta e dolorosa... Como eu queria vê-los ardendo no inferno..., pensou quando jogaram a garota na neve, vendo o corpo dela tremer violentamente. Então eles se afastaram rindo, depois de alguns chutes e cusparadas em ambos.

Tentou ajudá-la, mas ela apenas deu um tapa em sua mão e se arrastou para longe, para vestir as roupas de volta; e Eduard também não conseguiu evitar ver os caminhos vermelhos e esbranquiçados, que escorriam pelas coxas dela e pingavam, manchando a neve, antes de desviar o olhar para os próprios joelhos. Enquanto permanecia parado onde estava, no chão, atônito, viu-a se afastar, andando estranho até sumir por entre as árvores. A única coisa que pôde fazer foi levantar-se, num desalento só, antes de começar a pôr um pé ante o outro para voltar à minúscula cabana que dividia com dezenas de outras pessoas, com quem nunca, nunca, nunca poderia falar sobre o que havia acabado de acontecer.

Já a garota nunca voltou para lá.

– Você demorou muito! Onde está a lenha, Edua...? – começou uma das mulheres quando o rapaz entrou no alojamento, mas parou ao ver hematomas e o sangue escorrendo pelo nariz dele. – Ah... Os soviéticos pegaram você?

– Eu só consegui recolher gravetos, mas acabei deixando na floresta. Perdão. – murmurou com a voz rouca e trêmula.

– Deixa que eu vou buscar. Pode ficar aqui. – ela sorriu de leve, compadecida. Seu nome era Elena, uma ucraniana poucos anos mais velha que o estoniano. Era estudante de filosofia e havia sido presa por contravenção.

– Não. Eu pego. Perdão. – Eduard nem mesmo conseguia encará-la. – Perdão mesmo.

– Não precisa se desculpar tanto... – ela murmurou, constrangida.

Mas ele não ouvia.

Seguiu para a área onde minutos antes estivera e encontrou os gravetos espalhados pela neve ali próximo, exatamente no local em que os largara. Voltou, sentindo o vazio se acumulando em seu peito. Após entregar a lenha, ele, Elena e mais algumas pessoas que estavam acordadas espalharam-na pela cabana para que secassem mais rápido. E então um agente socou a porta para que os outros acordassem e saíssem para o trabalho daquele dia. Eduard seguiu, meio no piloto automático. E, no fim das contas, não conseguiu se concentrar direito, o que lhe rendeu mais uns socos do sentinela, mas não se importava. Ele não ia conseguir deixá-lo mais abalado do que já estava. Quando finalmente as doze horas de trabalho se esgotaram, foram mandados de volta sob o sol que nunca se punha naquela época do ano. Porém, no meio do caminho, foram interceptados por um guarda.

– Eduard von Bock, um passo adiante. Davai!

Houve um instante de silêncio antes que Eduard reunisse sua coragem e se manifestasse. Boa coisa não era. Mas o que podia fazer? Correr? Esconder-se? Ha ha. Engoliu em seco.

– Venha. – foi conduzido pelo guarda, sem delongas.

Eduard moveu os pés mecanicamente, lançando um olhar de relance para o grupo apreensivo o qual estava deixando para trás. Viu Elena observando-o de testa franzida, enquanto outros encaravam o chão. Era como se achassem que nunca mais o veriam. Será que estavam certos? Fazer o que o obrigaram a fazer mais cedo já não havia sido castigo o bastante? Se bem que se pretendessem matá-lo, seu sangue já estaria tingindo a neve de carmim àquela altura. O que esses malditos soviéticos queriam agora?

– Aonde vamos? – perguntou, baixo.

– Cale sua boca.

Obedeceu, irritado, e continuou seguindo o homem pela escuridão da noite tardia da Sibéria. Tinha curiosidade com relação a seu destino, mas, do fundo do coração, não queria saber de que se tratava. Qual não foi sua surpresa ao adentrarem o prédio onde os militares da NKVD se instalavam. Prosseguiram até uma salinha iluminada apenas por uma lâmpada fraca e amarelada pendurada em um fio antigo e torto. O interior do aposento era mobiliado por uma mesa e duas cadeiras, e não havia uma janela sequer. No chão, havia marcas escuras de algo que Eduard preferiu não saber de que se tratava. Um homem robusto ocupava um dos assentos.

– Sente-se. – disse o guarda o qual acompanhava.

– Eu não...

– Sente!

Eduard obedeceu de uma vez, reprimindo aquela vontade assassina de atentar contra todos eles. Reprimiu, afinal, o que quer que fizesse, voltaria pior. Respirou fundo, silenciosamente, cerrando os punhos para aliviar sua ansiedade.

– Ora. – disse o homem sentado. Pelo uniforme, ele era um militar de patente superior. – Von Bock... – ele disse levantando os olhos do documento que examinava. – Vamos direto ao assunto. Quantos idiomas você fala?

Queriam usá-lo como intérprete? Era isso?

– Só falo russo. – mentiu, sem alterar a expressão séria que mantinha. – Falo finlandês muito mal... Quase não entendo nada...

– Você é... estoniano... – ele disse lendo a primeira página do documento. – Tem 17 anos... dos quais você viveu a maior parte na Estônia, então deve falar estoniano muito bem. Você não tem descendência russa, mas é bastante fluente no idioma, como posso observar. Além disso, já foi visto conversando em finlandês e letão. Isso são quatro idiomas. Você não parece burro, então já percebeu o que queremos de você. Além de traduzir, você só terá que trazer uma ou outra informação que ouvir aqui ou ali. Nada de mais. Facilite a vida de todos e diga que vai cooperar, então vamos poder ir pros nossos cantos de uma vez, felizes e satisfeitos...

– Não vou traduzir, nem interpretar pra vocês. Sonhem... Ugh... – foi interrompido por um cotovelo em sua nuca. Viu tudo branco por alguns instantes.

O oficial levantou e contornou a mesa, a passos lentos, perigosos. Sem dizer nada, fez um gesto com a cabeça, indicando o um canto escuro, do outro lado da sala, ao rapaz que trouxera Eduard até ali. Ele prontamente se afastou do campo de visão do estoniano.

– Pode me torturar se quiser, a resposta ainda vai ser não! – exclamou, enquanto observava o cadete trazer um carrinho em que um grande recipiente jazia imundo na parte mais alta. Então ele acedeu um fogareiro logo abaixo do mesmo.

Eu não vou prejudicar ninguém outra vez pra safar meu couro... Mas o russo agarrou um punhado de cabelo de Eduard e o fez bater a testa no tampo da mesa, rápido a ponto de ele nem conseguir se esquivar. O golpe o deixou tão tonto, que acabou não levantando, até ter os cabelos novamente agarrados pelo homem, o qual aproximou a boca de seu ouvido e sibilou, com seu hálito fétido exalando:

– Escuta, não estamos pedindo um favor. Ou você faz, ou vai sair dessa sala se arrastando, porque eu vou escaldar seus pés. E nós vamos procurá-lo novamente, e se a resposta continuar a ser negativa, você não vai poder trabalhar com mãos esmigalhadas. Eu mesmo vou me certificar de moer seus dedinhos de um por um. Sem trabalhar, você não comer. Sem comida, morre de fome. E se alguém se atrever a ajudar, você e essa pessoa irão sofrer as consequências... Ainda quer negar? – ele o socou na boca, antes de soltar o cabelo que segurava, e a próxima coisa que o rapaz notou foi seu rosto colidindo com a mesa outra vez.

– Prefiro morrer. – sentiu o gosto do sangue nos dentes e riu, mas ainda não estava pronto para levantar a cabeça, porque ela girava. O que estava fazendo? De onde vinha toda essa resistência? Sabia que eles não blefavam. Onde eu espero chegar com isso? Tô assinando minha sentença de morte. Não, mas... Lembrou-se dos rostos dos outros trabalhadores. Eu não posso... São pessoas inocentes... Cerrou os punhos sobre suas coxas.

– Que persistência... Não vai ter ninguém pra sentir sua falta lá fora? Por isso você não tem medo? – o oficial começou a desabotoar e dobrar as mangas. – Não vai haver ninguém pra chorar por você? Ou é blefe da sua parte, porquinho?

– Eu não sou como vocês. Não sou... – murmurou o rapaz, encarando o tampo escuro e arranhado a sua frente. Um dos molares superiores parecia mole em sua gengiva.

– Então morra aqui dentro desta sala, onde ninguém vai saber como foi seu fim. Morra acreditando que vale a pena se sacrificar por quem trocaria tua vida por um pedaço de pão mofado. Pode tentar morrer como um herói, mas você vai chorar, mijar nas calças, implorar pra que eu faça o teu coração parar de vez como todos os outros fazem, no fim. Se é essa a sua escolha... – o oficial riu enquanto tirava o chapeuzinho e desabotoava os primeiros botões da farda.

A calmaria apenas não se assentou no aposento em decorrência dos sons que escapavam de dentro do recipiente metálico sobre o carrinho. Eduard nem precisou olhar para saber o que aquela chama aquecia, pois ouviu o borbulhar inconfundível de óleo fervendo. Ah, deveria doer, mas nem imaginava o quanto. Já havia se queimado com óleo na cozinha de Braginski algumas vezes e doía muito, mas ter os membros mergulhados no óleo atingiria outros níveis de dor, imaginou. O coração de Eduard batia dolorosamente no peito. Manter-se firme em sua posição e morrer? Tornar-se traidor e viver? Para onde quer que cogitasse correr, não parecia uma boa saída. Suspirou, levantando a cabeça.

Raivis... Eu não quero ser um traidor...

– Vou poupar seus pezinhos para daqui a pouco...

O comandante assentiu para o outro, que empurrou Eduard contra a mesa e puxou sua camisa em direção ao pescoço, segurando-o firmemente onde estava. O estoniano mal teve tempo de pensar, antes de sentir o líquido viscoso escaldar suas costas e pingar em suas coxas por cima da calça. Mal percebeu que havia gritado ou que eles riam. A única coisa que percebia era a sensação pungente em sua pele, como se ela estivesse sendo retalhada e arrancada para que mil agulhas atravessassem sua carne exposta de uma vez, dilacerando tudo pelo caminho. Parem... parem... E a sensação se repetiu até parecer que a dor trespassava seu corpo. Eu tô sufocando... Até parecer que nunca iria embora. Me matem...

Após alguns minutos em que aquilo se repetiu, seu rosto começou a escorregar nas próprias lágrimas sobre o tampo da mesa. Em algum lugar, em meio ao torpor que embaralhava seus pensamentos coerentes, Eduard ouviu uma voz dizendo:

– Tire os sapatos.

A dor era tão forte que nenhum músculo quis se mover. Não queria mais passar por aquilo. Mas havia pessoas inocentes envolvidas. Sentimentos. Vidas. Por meio da visão embaçada, encarou o óleo ao seu lado. As bolhas estouravam malignamente com um som seco que o fazia estremecer. O que aconteceria dali em diante? Sabia que suas costas estavam em frangalhos. No mínimo, teria algumas queimaduras de terceiro grau. Talvez até quarto, se o fizessem ficar com os pés emersos no óleo por muito tempo. Seria obrigado a voltar andando na neve. Chegaria com os pés destroçados. Nunca os trataria. E o resto seria como o comandante dissera. Na próxima vez, seriam suas mãos. Daí não poderia trabalhar. Isso se não pegasse uma infecção antes. E então, independentemente de pegar a rota mais curta da infecção ou a mais longa sem infecção...

– Rápido! Antes que eu mergulhe a sua cara nessa bacia!

E então, independentemente de pegar a rota mais curta da infecção ou a mais longa sem infecção, morreria. E o que seria de Raivis, que o estava esperando? O que seria dele naquela casa com aquela sua falta de noção ao abrir a boca? Toris não tinha a mínima obrigação de cuidar dele; ele mesmo mal sabia se cuidar. Nenhum dos dois sabia. Mas não queria. Não queria estar do lado deles. Não queria ser um traidor. Não queria nada disso... O oficial mais jovem se aproximou e puxou a perna de Eduard, arrancando seu sapato antes mesmo que o estoniano entendesse o que estava acontecendo. No furor de sua agitação e desespero, o loiro tentou pará-lo, aos empurrões, até que uma cotovelada no rosto o derrubou da cadeira, de costas sobre suas recém-adquiridas queimaduras. A dor o paralisou por uns instantes, o bastante para que o guarda conseguisse aproximar seu pé do calor do óleo. Isso o fez despertar e puxar a perna, mas não conseguiu evitar que a panturrilha encostasse na beira do recipiente de óleo. Dor, dor, dor, atrás de dor.

– Eu aceito! Eu aceito! – gritou, abraçando as próprias pernas. – Eu...! Eu vou traduzir e trazer informações! Todas as informações que eu conseguir! E fazer o que quiserem. Eu vou... – enterrou o rosto nos joelhos, fazendo a ardência nas costas se espalhar com o movimento súbito.

Que covarde imundo...

– Pode parar, cadete. – o comandante sorriu. – Muito bem, jovem. É a decisão mais sensata. Você vai ser compensado com uma refeição reforçada todos os...

– Eu não quero nada de vocês, soviéticos malditos! – gritou com a voz abafada.

Não preciso de recompensa por ser um traidor...

Assim, Eduard começou a coletar informações e repassar para os soviéticos. Entretanto, apenas repassava as informações mais triviais possíveis, que não acarretassem em castigos tão severos aos envolvidos, ao passo que se esforçava para não ser descoberto pelos outros trabalhadores. Eventualmente, era chamado para alguns serviços de tradução e interpretação no prédio da NKVD. Era fácil deixar isto em segredo, já que geralmente as pessoas com quem todos trabalhavam diariamente não eram as mesmas de seus alojamentos ou sequer eram as mesmas do dia anterior (era a forma de os soviéticos tentarem evitar agrupamentos que pudessem ocasionar motins). Ainda assim, Eduard temia ser descoberto, então, caso alguém o visse, inventar justificativas para entrar naquele lugar tornou-se seu "passatempo" nas horas vagas, antes de cair num sono cheio de culpa à noite.

Eduard realmente acreditou que em algum momento iria se acostumar e parar de se sentir mal, afinal, não era exatamente sua culpa. Afinal, não tinha escolha. Afinal, não podia bater de frente com os soviéticos, ser morto e abandonar Raivis no mundo. Realmente acreditou que podia lidar com isso, mas às vezes era um pensamento insuportável. Mal tinha coragem de olhar as pessoas no rosto.

Abriu mais uma carta de fora do gulag. Estava em estoniano. Pedia ao destinatário que tentasse contar aos alemães sobre as acusações e prisões injustas. Era de uma mãe com dois filhos pequenos, cujo pai também havia sido mandado para um campo. Hesitou um pouco antes de passar cola, fechá-la e colocar na caixa das correspondências livres da censura, com o coração latejando na própria mão, tal era a consciência e o medo do que fazia.

– Ah... Você. – um oficial se aproximou ao avistar Eduard e, sem aviso, bateu com o cassetete no alto das costas do rapaz. – Pode começar a revisar essas cartas, engraçadinho. Não é a você que cabe escolher o que pode ou não ser dito e você sabe muito bem o que não pode sair deste gulag. Você é só um cachorro que deve fazer o que nós mandamos!

– Não estou entendendo. Senhor. – Eduard levou a mão abaixo da nuca, onde sentia a dor do golpe. – Estou fazendo exatamente o que fui orientado a...

– Suas cartas foram revisadas, palhaço. Você deixa passar muita coisa! Acha que estamos brincando? – o homem cuspiu as palavras sobre o estoniano, fazendo-o se encolher.

Antes que Eduard percebesse, estava apanhando novamente. E muito. Acabou se desequilibrando da cadeira e esticou as mãos para tentar se segurar na mesa, mas ele aproveitou para agarrar seu braço e torcê-lo para trás, antes de chutá-lo quando já estava no chão. O estoniano gritou com a dor excruciante e repentina, que tomou conta de seu braço antes de se concentrar em um ponto próximo ao ombro, com um estalo. Sentiu os olhos marejarem com o latejar insuportável naquela área. Conhecia aquela sensação muito bem graças a Ivan. Ele quebrou meu braço, quebrou meu braço... E suas costas ainda nem estavam plenamente recuperadas das queimaduras.

– Levanta, escória. – o guarda chutou o rapaz até que sentasse novamente, aos tropeços. – Volta ao trabalho. E pode separar e traduzir direito essa merda! Na próxima vez não vai ser só o braço que eu vou arrebentar! – ele bateu com o cassetete com força no rosto de Eduard antes de sair.

Os outros tradutores sequer levantaram a cabeça, nem mesmo um estoniano que também era do alojamento do báltico. Eles tinham medo de alguma represália por tirarem os olhos do trabalho um mero instante. Borbulhando de ódio e mágoa reprimidos, somados à dor no braço que fazia sua consciência tremular, Eduard ajeitou os óculos tortos e colocou de volta as cartas previamente liberadas, reabrindo-as para, criteriosamente, riscar o que não podia ser lido e colocar as cartas muito subversivas no devido lugar. Sentia uma raiva tão grande que naquela vez não se importou em cumprir seu trabalho.

O braço de Eduard foi precariamente imobilizado com talas improvisadas presas por pedaços de roupas rasgadas, e o rapaz não teve alternativa senão se virar com isso. Dois dias depois, quando já havia há muito desistido de encontrar uma posição menos desconfortável para dormir na cama precária (um cobertor sobre um amontoado de palha seca), ele se sentou e resolveu esperar até a hora do trabalho começar. Estava extremamente cansado pela privação de sono imposta pelo desconforto do local onde dormia, pelos horários de trabalho absurdos e pela depressão. Sentia que seu raciocínio, sua coordenação motora, sua lucidez não eram mais os mesmos, mas não podia fazer nada quanto a isso, apenas esperar que pudesse voltar ao normal quando voltasse a Moscou. Se voltasse a Moscou.

Naquele dia, como em todos os outros, acordar era como entrar em um pesadelo, ao invés de sair dele. Às vezes não sabia se era pior conseguir dormir ou não. Se era pior ter um pouco de esperança e então acordar naquela desgraça eterna. Naquele dia, teve um breve sonho. Lembrava-se de estar sonhando com ele e ele sorria, falando sobre irem morar juntos, próximo a Toris, quando o pesadelo soviético acabasse. Então poderiam ser felizes e toda essa miséria ficaria para trás, como uma lembrança que deveria ser morta, enterrada e nunca mais tocada. O simples fato de ver o rosto borrado dele no próprio sonho lhe causava um desconforto no peito. Quase uma vontade de chorar, mas já estava tão seco que não conseguiria mesmo que forçasse. Será que um dia iria conseguir vê-lo outra vez? Sentia tanta saudade em algum lugar em seu peito anestesiado.

Fungou ruidosamente por causa da coriza que fazia seu nariz irritado e dolorido escorrer, percebendo uma coceira estranha na gengiva. Passando a língua por ela, percebeu que havia um... Não, não pode ser... Cuspiu um dente solto na própria mão. Não havia um pedaço de raiz para contar a história. Junto aos fios brancos que começaram a surgir em seus cabelos agora muito compridos e as dores nas articulações, que já começavam a fazê-lo andar encurvado e arrastando os pés, o estoniano tinha certeza de que deveria parecer ter mais que o dobro de sua idade. Este pensamento foi interrompido quando um guarda soviético espancou a porta para avisar que estava na hora de levantar. O rapaz observou enquanto os outros se moviam morosamente, preparando-se para sair. Não que houvesse muito a preparar mesmo. Foi para a fila da ração e ficou lá esperando sua vez, junto a Elena que o alcançara no meio do caminho. Mas ainda pensava em seu sonho.

– Você tá resfriado? – ela perguntou de repente.

– Hm? – fez ao perceber que a moça falava consigo. – Ah... Não... Acho que é só coriza porque tá mais frio que o normal hoje...

– Sim... Está frio mesmo. – ela esfregou os braços, olhando em volta. – Verão na Sibéria. Que piada... Aqui pode ser um inferno, mas nunca esquenta de verdade. Às vezes eu queria ser uma judia na Alemanha. Pelo menos você sabe que vai morrer ao invés de apodrecer pela eternidade, aqui... Mas podia ser pior, né? Hoje podia ser dia de banho nessa porcaria...

Ser mandado para a morte certa nos campos de Hitler era melhor do que não ter certeza do próprio destino nos campos de Stalin? Eduard particularmente não concordava, mas preferiu ficar quieto porque estava cansado demais para discutir naquele dia. Sobre os banhos, a ideia de atirarem água congelante em seu corpo nu naquele frio desgraçado nunca era atraente. Ficar sujo demais como estava também não era atraente. Mas não importava, de verdade. Não se importava com nada daquilo. Ao invés de dizer qualquer um destes pensamentos, o estoniano apenas comentou:

– Você acordou irritada demais hoje.

– Sim... Desculpa. E eu nem sei por que... TPM não é, já que eu não tenho isso faz anos desde que eu cheguei aqui. Deve ser o frio...

Mas a voz dela foi abafada por uma confusão que começou ali por perto. Vários homens se engalfinhavam e gritavam palavras incompreensíveis, enquanto as pessoas mais próximas corriam, se atropelando, para ficarem o mais longe possível daquilo. Nenhum dos guardas deu um mínimo indício de que pretendia pará-los, assim como os outros condenados do gulag não pareciam minimamente dispostos a tal. Talvez por causa da violência e/ou pelo tamanho dos envolvidos. Eles eram bem mais altos que a maior parte das pessoas ali. Em algum lugar do cérebro do estoniano, houve um impulso de puxar Elena para longe dali, mas antes mesmo que pudesse executá-lo, uma cabeça foi arremessada ao chão, o sangue se espalhando ao seu redor enquanto ela aterrissava.

Elena gritou e enterrou o rosto no braço do rapaz, cuja única reação foi deixar seu maxilar pender de leve, em choque demais para qualquer outra atitude. A comoção foi imensa. Muitas pessoas gritaram apavoradas. As mais próximas do grupo apanharam até desmaiar para se calarem. Foi quando os agentes finalmente se moveram e dispersaram a multidão. Os perpetradores foram levados embora, deixando apenas um corpo e sua cabeça decepada jogados na lama, próximo ao prédio onde a ração era servida.

Uma terrível ânsia de vômito apertou a boca do estômago do loiro quando se deu conta do que havia acabado de acontecer ali. Que inferno, que inferno doente... Ouviu a ucraniana soluçar e, ao olhar para baixo, viu que a havia abraçado.

– Não aguento mais isso... – ela gemeu contra o seu peito. – Não quero mais...

O loiro preferiu não abrir a boca porque sabia que não seriam palavras a sair da mesma.

– Treta. Muita treta. – Kalju, o outro espião de seu alojamento, se aproximou rindo de leve, enquanto balançava as mãos.

Eduard respirou fundo algumas vezes antes de dizer:

– Você tem sangue de barata, sua aberração? Por que está rindo?

– Pimenta nos olhos dos outros é refresco. Não sendo comigo, qualquer coisa é lucro. Ha ha ha! – rapaz ruivo riu, olhando para a cabeça de cabelos e barbas desgrenhadas, cujo rosto estava virado para o chão. – [E olha que isso é até uma desculpa pra você se dar bem, né, espertalhão?!] – ele completou em sua língua natal, indicando Elena com o queixo.

– [Melhor você calar a boca.]

– Todo nervosinho você, hein? Mas, enfim, vai andando que um monte de gente saiu da fila. – o rapaz apontou para frente.

A ucraniana finalmente soltou Eduard, cuidadosamente evitando olhar para o lado onde o corpo estava. Ela fungou mais uma vez, então encarou Kalju, mas não disse nada.

– Você realmente tem humor pra comer depois disso? – o loiro perguntou baixo.

Suas mãos tremiam levemente.

– Claro, ué. Não fui eu quem morreu e eu tô varado de fome. Fora que não é a compaixão pela morte alheia que vai me manter de pé pra eu poder trabalhar.

Elena suspirou, contrariada.

– Acho que eu vou... vou na frente... – ela começou a se afastar, mas o rapaz ao seu lado não a deixou.

– Entendo que você não queira comer, mas é como ele disse. Você precisa de força pra trabalhar. – enquanto ele dizia isso, alguns prisioneiros começaram a remover o cadáver a mando dos soviéticos. Elena o encarou por alguns instantes, então assentiu.

– Não que vá fazer muita diferença saber, mas por que diabos eles fizeram isso?

– Pelo que eu ouvi, outro dia uns desses caras mexeram com a mulher de outro cara e hoje ele e os amigos vieram tirar satisfações. Foi isso. – Kalju respondeu, coçando a cabeça displicentemente.

– É aquele tipo de casamento? – a ucraniana perguntou baixinho.

Kalju fez que sim com a cabeça, fungando ruidosamente e cuspindo no chão.

– Quer dizer que nem isso significa nada? – ela deu uma pequena risadinha que soou um pouco histérica.

– De que vocês estão falando? – Eduard inquiriu genuinamente confuso, finalmente se interessando minimamente em saber de algo por ali.

– A vida é naturalmente mais difícil pras mulheres e aqui dentro não é diferente. – Elena respondeu, em um tom de voz melancólico, encarando o chão. – Algumas de nós temos a sorte... ou melhor, menos azar... de cair em alojamentos com pessoas mais civilizadas, mas algumas não.

– E elas caem em alojamentos com criminosos de verdade, como esses caras. Não “criminosos” como nós. – Kalju interveio, os empurrando de leve para acompanharem a fila, que havia começado a andar.

– Exato. Aqui dentro acontece muito estupro cometido pelos próprios presos, então elas se casam pra se proteger dos outros homens. Quer dizer, se você tem que se submeter a alguém que não ama, melhor que seja a só um que a um grupo, não é? – a ucraniana deu de ombros, infeliz e constrangida.

– Mas mesmo sendo casada, essa mulher ainda foi estuprada e o marido veio tirar satisfações junto aos amigos dele. Aqui, entre os presidiários, se você for do mesmo grupo, uma mão lava a outra, entende?

– E quem era esse cara que morreu? – o outro estoniano perguntou observando o sangue que ainda manchava a neve enlameada.

– Nem ideia. Mas presta atenção na fila antes que alguém fure, quatro-olhos abestado.

Pouco menos de uma semana depois, enquanto saía de seu alojamento para trabalhar junto aos outros, Eduard notou um grupo de pessoas amontoadas perto do local do incidente com a finlandesa, que, pelo que ouvira, havia conseguido se infiltrar em outro alojamento. O rapaz preferia não passar por ali, por se lembrar bem demais daquele dia. Odiava a sensação de culpa e constrangimento que tinha ao estar ali. Somado à sua vontade de passar por ali o mais rápido possível, ele não se interessava particularmente pelas multidões. Geralmente eles se amontavam assim perto de pilhas de cadáveres dos assassinados, doentes, suicidas e coisas do gênero. Por estes motivos, ele não se deu ao trabalho de olhar; porém, sem que ele tivesse a intenção, seus olhos vagaram pela comoção. Foi quando viu aquilo. Com algum trabalho, alguns homens tentavam desamarrar o que parecia ser um corpo pendurado em um dos galhos mais baixos da árvore.

O loiro não precisou olhar duas vezes para saber quem era. Aquele corpo magricela, da mesma estatura de Raivis, os cabelos ondulados de uma cor de cobre apagada. Levou as mãos à boca, sentindo-se perder o chão, tanto que seu cérebro ignorou os impulsos de dor no braço quebrado. Não que não houvesse visto centenas de mortos nos dois meses em que estivera na Sibéria. Não que não houvesse presenciado centenas de assassinatos e suicídios. Não que não imaginasse quais daqueles cadáveres havia adquirido tal condição por sua culpa. Mas aquela era uma ocasião nova. Tinha a consciência de que havia participado daquilo.

– Era conhecida sua? – Elena perguntou ao ver sua reação.

Ele não conseguiu falar; seu queixo tremia e sua voz estava presa. O loiro sentia dor sufocada no peito, na garganta, nos olhos, mas ela não conseguia ser externada. Queria gritar, mas não tinha voz. Era como se fosse explodir. Encolheu-se, apertando os olhos e puxando o próprio cabelo, sujo, duro, seco. Assim como se sentia por dentro. Alguns dos outros integrantes do grupo o viram assentir levemente, em meio àquele acesso. A moça, Elena, assumiu uma expressão de complacência, então afagou suas costas, antes de abraçar a própria barriga, mas não disse nada. Ela apenas permaneceu andando ao seu lado e, assim como os outros, deixou-o em paz para curtir sua dor. Não faziam isso por não se importarem, mas por entenderem que algumas dores pertenciam apenas aos seus donos e eles precisavam senti-las sozinhos e completamente.

Notas finais
A “dogeza” de que falei nas notas iniciais, é um modo de sentar que demonstra humildade, subserviência e respeito. É basicamente sentar sobre os calcanhares. Mees, kes müüs maailma = o homem que vendeu o mundo. [É uma música de um dos caras mais fantásticos do mundo da música, o David Bowie. A letra da música não tem nada a ver com esse capítulo, mas o título descreve bem como o Eduard se sente com relação às atitudes dele.~] Davai = depressa Notas: NKVD = Narodnyy komissariat vnutrennikh diel ou comissariado popular para assuntos internos. Em suma, era o ministério do interior da Rússia. Eles cuidavam de todos os órgãos públicos como a polícia, os bombeiros, assim como cuidavam de fronteiras e do serviço secreto soviético. Eles administravam os gulags na época em que eles funcionavam. O gulag era basicamente um campo de correção/trabalhos forçados/concentração soviético. Eles mandavam pra lá os prisioneiros comuns, prisioneiros políticos e muitas vezes mandavam as famílias dos prisioneiros. Nem sempre eles ficavam juntos. Eles acabavam indo pra campos diferentes e podiam acabar nunca mais de vendo. A grande maioria dos prisioneiros era constituída por bálticos, mas tinha bastante finlandeses, poloneses e ucranianos e alguns franceses e alemães. Uma boa citação acerca dos gulags: “Os Gulags existiram por toda a União Soviética, mas os maiores campos se localizavam nas mais extremas regiões geográficas e climáticas do país, do norte Ártico ao leste da Sibéria e o sul da Ásia Central. Os prisioneiros eram atribuídos a uma variedade de atividades econômicas, mas seu trabalho era tipicamente inábil, manual e economicamente ineficiente. A combinação da violência endêmica, clima extremo, trabalho árduo e rações alimentícias insipientes levava à taxas de morte extremamente altas nos campos. Enquanto o número de gulags tenha sido radicalmente diminuído posteriormente à morte de Stalin em 1953, campos de trabalhos forçados continuaram existir na União Soviética até a era de Gorbachev”. (Tradução minha. Fonte: http://gulaghistory.org/nps/onlineexhibit/stalin/) Eu li um livrinho que dizia que os soviéticos chamavam os prisioneiros dos gulags de fascistas e eu meio que não entendi o motivo, já que os fascistas eram os nazistas, os italianos, os japoneses e todos os coligados ao Eixo. Quer dizer, o pessoal da União Soviética era obrigado a ser o que quer que a Rússia fosse, né? Então no caso, eles eram Aliados por livre e espontânea pressão. Sendo assim, por que os eslavos, finlandeses e etc, eram chamados desse modo?, eu me questionei enquanto lia o livro. Irrequieta (oi?), eu perguntei ao meu professor de história moderna e ele disse que era por que quem era contrário à política soviética era chamado de fascista. Como os prisioneiros dos gulags eram “subversivos” aos olhos do governo soviético por não concordarem com a política do Partido Comunista, eles eram relacionados ao Eixo, logo, eram fascistas... Interessante, né? õ.o Essa história dos estupros e casamentos acontecia mesmo. As cartas também eram censuradas assim. Nem todos os prisioneiros eram legais, então a vida das pessoas boas era ferrada duas vezes: pelos soviéticos e pelos prisioneiros ruins, assassinos e ladrões ): Acabou. Quer dizer, as notas acabaram. O arquivo foi pro beleléu de novo. Só tô com os rascunhos de daqui pro fim da fic. Mãããns, o próximo capítulo tá 90% pronto e o próximo depois dele tá 50%. Oremos pra não haver contratempos e pros meus pontos não abrirem ou infeccionarem :v Porque aí eu morro e aí a fic fica sem fim. Credo ): Atéééé, pessoas. Perdão pelo hiatus. Não vou dizer que o próximo capítulo vem logo porque vocês vão ter todos os motivos do mundo pra não crer. Acho que essas promessas atraem mal agouro. Minha autora de fanfics favorita disse isso e estamos aqui, nove fucking anos depois sem post algum ;-; Enfim, atéééé! Perdão mais uma vez. Comente ♥