Dotyanutsya do Tebya
15 Parte XIV: Kui elu on lihtsalt nali, miks ei ole ma naerdes?
Notas iniciais
– Vocês não vão acreditar nisso! – o homem que foi pegar lenha, numa manhã qualquer, voltou correndo malmente cinco minutos após haver deixado o alojamento.
Rostos tornados apáticos pelo tempo de encarceramento se viraram para ele, desinteressadamente, mas isso não diminuiu o ânimo dele, que sorria ao anunciar:
– Um dos guardas foi morto!
– Morto?! – exclamaram algumas pessoas surpresas.
– Como? Por quem?
– É o que os soviéticos querem saber. Eles estão fulos da vida! Querendo ou não, é uma vitória pro nosso lado. Se um foi morto, outros também podem ser!
Houve um pequeno furor próximo ao rapaz que contava a história. Eduard observava de longe enquanto colocava seus sapatos esburacados. Conseguiu sentir o movimento moribundo de algo que lembra ânimo em seu peito ao ouvir aquilo. De fato, era uma pequena vitória, mesmo que fosse apenas um arranhão na superfície da armadura soviética. Eles não eram intocáveis, muito mentos invencíveis. Eles poderiam cair, mesmo que fosse aos poucos. Eduard surpreendeu-se. Não sabia que ainda havia algo de esperança seu peito para queimar e o manter vivo. Ficou até um pouco sem fôlego de emoção.
Mas deveria saber que a felicidade naquele mundo durava pouco. Assim que foram divididos os grupos daquele dia, Eduard e o Kalju foram levados ao prédio da NKVD junto aos outros espiões. Todos foram colocados em uma sala e esperaram até que o comandante chegou, exalando um cheiro de charuto e ira profunda. Eduard engoliu em seco, silenciosamente.
– Vocês todos sabem por que estão aqui! Dois dias! Nada mais que dois dias! Eu quero o nome do responsável por isso! Ou os nomes dos responsáveis! Se não receber um nome, todos vocês serão punidos até chorarem sangue! Dois malditos dias, estão ouvindo?! Tirem essas escórias do prédio! – ele gritou tudo de uma vez e se retirou, deixando para trás o gosto do medo na boca dos estômagos das pessoas ali paradas como estátuas.
Logo em seguida, todos foram distribuídos em grupos para trabalhar, como de costume. O estoniano passou a achar sem sentido e estúpida a sutil esperança que via nos rostos dos outros. Ignorância é uma benção, pensou. No fim, o trabalho daquele dia pareceu duas vezes mais cansativo. E isso pesou tanto nos ombros do rapaz que, ao chegar no alojamento, apenas despencou no seu canto e se encolheu, desejando que todos se calassem e fossem dormir de vez, para que pudesse tentar dormir também. Mas eles estavam animados e tagarelavam como nunca, desde que Eduard havia chegado ali. Nem mesmo pensar em Raivis ajudou a distraí-lo de sua irritação.
– Mesmo que seja um passo pequeno, um passo é um passo.
– Agora eles sabem que estamos vivos.
– Eles podem ter armas, mas nós temos o desejo de viver... Nós temos que ir pra cima e acabar com todos eles...
Eduard se esforçava para não prestar muita atenção ao que diziam. E, embora irritado, até já começava a se distrair com pensamentos sobre o garoto que deixara em Moscou, mas acabou sendo pescado de volta para a realidade. Estas palavras despertaram um alvoroço tal que se sentiu compelido a ouvir. E eles começaram a se empolgar demais. De início, era inocente (e até cômico), mas começou a tomar ares de motim. O estoniano começou a temer as proporções que aquilo tomaria. Eles estavam se deixando levar pelo desespero e queriam até atacar a base da NKVD sem sequer um plano formal.
– Não sejam tolos. – viu-se repreendendo-os, amargamente, do seu canto. – Vocês acham que é fácil assim? Eles têm armas. E nós? O máximo que temos são gravetos de madeira da grossura dos nossos mindinhos.
– Nós estamos planejando algo aqui. Quer calar a boca, inútil? – um dos revoltosos retorquiu em um tom de voz grosseiro, olhando-o com desdém.
– Ah, que belo plano! Partir pra cima e gritar como homens das cavernas? Vão bater no peito e grita “uga buga” também? – ironizou o báltico, sentado contra a parede. – No máximo, eles vão rir antes de abrir fogo contra vocês todos e vai ser o Domingo Sangrento todo outra vez.
– Grande ideia ouvir o cara que só senta a bunda e encara o nada o tempo todo.
– Gente... – Elena quis intervir, mas nem mesmo Eduard prestou atenção.
– Olha, se você quer se matar, se mata só, mas não ponha ideias na cabeça de quem está desesperado e quer um pezinho pra explodir. Se quer atacar, ataca, mas pelo menos formula um plano decente antes.
– E o que eu tô fazendo?
– Incitando um motim. Você tem sorte de ser idiota o bastante pra não ser uma ameaça pra eles, mas se começar a fazer barulho demais... – um arremedo de riso escapou pelos lábios rachados e cortados do estoniano.
– Do que você tá falando?
– Eles têm espiões, gênio! – Eduard quase revirou os olhos.
– Espiões? – a voz do homem tremeu um pouco quando ele repetiu a palavra.
Kalju que, até o momento estivera alheio à discussão enquanto cuidadosamente enfaixava a mão com um farrapo sujo, interveio antes que Eduard pudesse abrir a boca.
– É claro que têm. Os soviéticos são vivos. Você tem que pensar como eles, se quer atacar. Assim como lá fora tá acontecendo uma guerra, você tem que encarar isso aqui como um campo de batalha. E o que governa um campo de batalha é a estratégia, imbecil. O que há de mais lógico numa guerra? Espiões!
– Mas isso é só uma suposição, não? – o revoltado havia perdido toda a pose e o ar prepotente agora.
Ninguém respondeu. Eduard entendeu muito bem o que o outro estoniano pretendeu com aquela história. Ele achou que daria com a língua nos dentes e entregaria a situação de ambos aos outros. Mas Eduard nunca faria isso. Por nada.
– Enfim... Acho que nós...
Mas ninguém mais teve ânimo para seguir com os planos revolucionários. De repente, Eduard se sentiu tão mal e sufocado ali que precisou sair. Iria enlouquecer como eles em breve. Sentia isso. Esfregou as mãos sujas no rosto. Inferno de merda. Ouviu passos de alguém que saía do alojamento e constatou que era Kalju. Ele o olhou com fúria nos olhos.
– [Perdeu a cabeça de vez, seu retardado?!]
– [Eu não ia contar nada.]
– [Mas olha a merda que você plantou na cabeça deles! Agora eles vão encasquetar com essa história de espiões!]
– [Preferia que eu deixasse que eles morressem em massa num ataque infantil aos soviéticos?]
– [Já disse: antes eles do que eu.]
Eduard observou o perfil do outro. Não saberia chutar a idade dele, mas ele seria um rapaz bonito sem toda a sujeira e se pudesse tomar banho, cortar os cabelos e comer. Era entre loiro e ruivo (tendendo mais ao ruivo), de feições finas, o nariz era um pouco alto e comprido demais, mas nada que comprometesse muito sua aparência. Também era magro e curvado demais, mas Eduard sentia que era culpa do trabalho forçado. Nem quis imaginar como devia estar então. Kalju, porém, era frio, calculista e dissimulado demais até para o próprio loiro, que sabia não ser nenhum santo. Kalju era demais mesmo. Era isso o que o tornava feio. Embora pensasse ver um ar triste e culpado no rosto dele quando parecia pensar que ninguém o olhava.
Sim. No fim, nem tudo era preto no branco. Nem todos os pecadores são completamente culpados por seus pecados e era isso que não o deixava odiar Kalju. Os soviéticos os encostavam contra a parede sob a mira de seus fuzis.
Eduard apenas balançou a cabeça, sem querer crer no que ouvia. Entretanto, no fim, todos deveriam ser assim mesmo. Ele que era bobo e se importava demais, mesmo após decidir que deixaria de se importar. Bateu o pé no chão irritado, como um animal, porém antes que qualquer um dos dois pudesse voltar a falar, um homem saiu de dentro da cabana, olhando em volta e fez um pequeno “ah!” ao vê-los parados próximos à lateral do alojamento.
– Vocês parecem jovens sensatos em meio a toda essa loucura.
– Desespero não leva ninguém a nada. – Kalju respondeu depressa e convicto. – De vez em quando, alguém precisa colocar algum senso na cabeça das pessoas ou vai acontecer de novo o que aconteceu quando eles resolveram queimar as coisas de todo mundo naquela nevasca. Mas agora seria pior. Todos iriam morrer e isso seria uma tragédia...
Hipócrita..., pensou o loiro, com um suspiro mudo.
– De fato – o homem concordou. – E a melhor coisa que você fez – continuou olhando para Eduard. – foi impedi-los de fazer o que pretendiam. Realmente seria um massacre...
– Se bem que eu até entendo a reação deles... É o desespero...
– É sim. Mas com a cabeça fria como a de gente como vocês, acho que podemos realmente pensar em um modo de acabar com isso.
Eduard levantou o olhar do chão, para encarar o homem.
– De que você está falando? – perguntou, de testa franzida. Tinha um mau pressentimento quanto àquela conversa.
O homem olhou em volta antes de falar em voz baixa.
– Há um grupo do qual eu faço parte. Nós pretendemos fazer algo por nossa situação. Somos os responsáveis pelo que aconteceu ao guarda. Foi nosso primeiro grito de resistência. Vocês são o tipo de pessoa de que precisamos. A propósito, me chamo Jarosław Pasternak.
– Pärn. Kalju Pärn. – o outro estoniano apertou a mão do homem que, pelo nome, era polonês, e continuou ao perceber que o outro rapaz não dizia nada. – Esse é Eduard von Bock.
Estava mais preocupado com o fato de que aquele homem havia acabado de assinar sua sentença de morte. Kalju não pensaria duas vezes em dedurá-lo. Que irresponsável revelar uma informação como aquela sem sequer se certificar de que poderia confiar nos dois. Que homem burro... Idiota... A verdade era que sentia seu coração doer.
– Que houve? – o polonês perguntou ao ver seu semblante preocupado.
– Eu... – o rapaz hesitou. – só tava aqui pensando que não é só dentro dessa cabana que há gente se colocando em risco por causa do desespero...
Kalju suspirou ao ouvir aquele comentário, enquanto o homem deu um sorriso triste e complacente, antes de dizer:
– Nem todos podem ser salvos...
De fato. Nem todos seriam salvos.
Naquela noite mesmo, foram apresentados ao grupo, o qual consistia em mais sete homens. Ninguém ficou feliz com os novatos, por causa da desconfiança para com estranhos, mas Kalju era mestre na arte da lábia e, em pouco tempo, estava maquinando junto a eles. Eduard tentou não ser muito óbvio, mas não estava nem um pouco disposto a dissimular e servir de Judas. Sabia que aqueles homens estavam com as horas de vida contadas e não havia nada a fazer com relação a isso. E, uma vez que nada fizesse, seria um cúmplice. Não queria sorrir e fingir para eles, mas não queria morrer. Não queria. Santo dilema.
– [Você é um manezão, Eduard. Um manezão.]
– [E você é pior que uma cobra.]
– [Eu tenho amor à minha vida.] – o ruivo dizia enquanto se dirigiam ao quartel soviético. – [Se nós nos calarmos, os malditos vão castigar a todos. Eu amo muito meu couro pra querer apanhar de graça quando os céus me mandaram a faca, o queijo, o pão e ainda veio uma manteiguinha, presunto e mortadela de brinde. Fora que você diz isso, mas nem contestou vir aqui delatar todo mundo, seu hipócrita.]
Era verdade. Não havia o que refutar. Eduard não tinha mais energia para discutir, até porque sabia que era inevitável. Se aquele homem não houvesse se revelado na frente de Kalju, talvez a história fosse diferente. Mas conhecendo o outro báltico, a discussão seria em vão. E, bem no fundo, havia aquela parte de si que admitia não aguentar mais os castigos. As feridas de uma surra nem cicatrizavam antes da próxima...
– [Anotou os nomes deles direito?] – Kalju perguntou quando estavam bastante próximos ao prédio.
– [E você acha que eu sei escrever finlandês e lituano direito? Muito menos polonês.]
– [Sei lá.] – ele riu. – [Só espero que dê pra entender.]
– [Eles que se virem...]
Kalju respondeu com um olhar entre severo e um “nem brinca”, antes de chegarem ao prédio soviético. A conversa com o comandante durou pouco tempo. Ele pareceu muito satisfeito com a lista contendo os oito nomes dos rebeldes. Chegou até oferecer comida aos dois estonianos. Eduard não aceitou e Kalju ficou com a sua parte (depois de chamá-lo de “manezão” outra vez). Voltaram em silêncio, e o mais novo teve a impressão de ver algo de triste nos olhos do outro, por mais que ele sorrisse de leve enquanto fitava o chão cheio de lama, mas não quis pensar no assunto. Não quis sentir mais ódio por toda aquela hipocrisia. Será que seu letão entenderia suas atitudes se ouvisse sobre tudo aquilo?
Na outra manhã, enquanto estavam enfileirados antes da distribuição do trabalho daquele dia, um dos agentes soviéticos veio com seu semblante sério, postura rígida, e parou próximo ao grupo de Eduard. Algumas pessoas o olharam com desinteresse. A maior parte não se importou em levantar a cabeça. Não importava. Nada importava.
– Jarosław Pasternak, adiante. – ele anunciou.
O homem do grupo de Eduard e Kalju olhou em volta assustado antes de dar um passo à frente. Desta vez, todos observaram a cena com fisionomias confusas, mas o estoniano, que sabia o que viria a seguir, virou o rosto para o outro lado. Entretanto, sem querer, não deixou de captar o olhar desesperado que o homem lançou em sua direção. Ele também sabia que seu destino se encerraria ali. E, como não podia ser diferente, nenhuma palavra foi dita, nenhum alvoroço foi feito, nenhuma explicação foi dada. O único som que se ouviu em seguida foi o estouro do disparo de uma arma e a vida do homem cessou como se não significasse nada.
– Esse – o agente fez uma pausa. – é um dos seus heróis que matou um dos meus camaradas. Ainda querem brincar de motim, brinquem. Mas saibam que vai ter uma bala esperando pra atravessar a cabeça oca de quem se atrever, fascistas imundos.
Ele se retirou, deixando um grupo de prisioneiros atônitos para trás, mas imediatamente o outro agente gritou:
– Vão trabalhar de uma vez, imprestáveis!
Todos seguiram em frente, arrastando os pés, após saberem seus destinos pelo dia. Eduard lamentou estar certo. Lamentou a inocente, porém estúpida fé no próximo que aquele homem tinha. Lamentou que os trabalhadores houvessem criado esperanças em vão. A queda foi dolorosa. Quem ainda tinha lágrimas a derramar, chorou silenciosamente. Parecia que muitos haviam morrido por dentro junto ao senhor Pasternak. O loiro fez questão de cuidadosamente não olhar para Kalju, porque não sabia o que seria capaz de fazer ou sentir. Porque, no fim, não era mesmo muito melhor que ele e odiaria ver um espelho no momento.
Não imaginava que ainda podia sentir-se pior do que antes, mas o báltico percebeu que podia. Dentro de sua cabeça, dentro de seu peito, havia uma massa terrível e putrefeita de vazio, raiva e desesperança quando sentou no seu canto no alojamento. Será que conseguiria dormir? Apesar do cansaço, não sentia sono necessariamente. Sua mente estava ligada. Exausta e doendo, porém, ligada. Viu muitas pessoas sentadas ou deitadas assim também, com um semblante morto. Mortos em vida. Ou vivos na morte. Nem sabia mais se havia diferença.
Olhou para as próprias mãos. A visão era tão feia que quase riu de histeria. Havia calos e feridas nos mais variados estágios e hematomas nas mais variadas cores. Suas unhas mandavam lembranças e a camada mais externa da pele estava rachada e se soltando. Sentou-se sobre elas para tentar aquecê-las um pouco e então virou o rosto. Havia um homem à sua extrema esquerda. Ele gemia, enquanto sangue escorria pelo canto da boca. Estava doente e não era o único, mas era um dos piores. Havia três dias que não saíam da cabana por causa da neve maldita que caía na maldita Sibéria. E quando sequer parava? Não, mas naqueles dias estava pior e os soviéticos acharam melhor suspender o trabalho; não por pensarem na segurança dos trabalhadores, mas por que os mesmos precisavam de vigilância e eles não queriam sair em meio à nevasca.
Um suspiro entrecortado escapou pelo nariz de Eduard. O lugar fedia. E deveria feder muito mesmo porque seu nariz já estava tão embotado que nem mesmo sentia mais seu próprio fedor, nem o fedor dos outros. E não tomavam banho havia semanas. Mesmo assim, sentia o cheiro fétido e insuportável do lugar. Ah, claro, os baldes em que depositavam suas fezes e sua urina estavam ali, cheios, e não havia onde jogá-las — o que sempre acontecia durante as nevascas. O loiro começou a coçar a testa e desceu até a sobrancelha. Sentiu um pequeno carocinho e o puxou. Um piolho magro veio esperneando debilmente — sua última ação antes de morrer esmagado sob as unhas que ainda restavam nos dedos do báltico.
Outro suspiro entrecortado foi camuflado pela tosse cheia de secreção do homem do outro lado. Eduard olhou para ele, sentindo uma pressão estranha nos olhos. Entre um acesso de tosse e outro, ele gemia e murmurava coisas sem sentido. As pessoas que antes tentavam ajudar, já haviam se conformado com o fato de que não havia nada a fazer. Os olhos esverdeados de Eduard se embaçaram.
– [Não chora, irmãozinho.]
Uma vozinha aguda e frágil veio do outro lado, fazendo com que o rapaz virasse o rosto devagar, trêmulo por causa dos músculos enrijecidos. Do colo de uma mulher abatida, uma pequena garota lituana sorriu debilmente, exibindo uma boca sem alguns dentes. Eduard lembrava que até algumas semanas antes, ela tinha cabelos loiros cor de palha como os do próprio rapaz, mas eles eram compridos e frisado. Agora havia apenas alguns poucos tufos quebrados para contar a história. A criança agarrou a frente do vestido da mãe com o pouco de força que tinha e tossiu antes de dizer:
– [Os alemães vão vir salvar a gente, irmãozinho, então não chora.] – os olhos dela ainda brilhavam por cima de olheiras negras. – [Nós vamos ficar bem. Diga a ele, mamãe. Vamos todos ficar bem...]
As lágrimas escorreram de verdade pelo rosto do rapaz, enquanto ele tentava não soluçar, ao ver a mãe aguentar bravamente e assentir, de queixo trêmulo. Tentou sorrir para a garota, mas não lembrava mais como se fazia isso. No fim, seu sorriso pareceu um esgar de dor. A menina deu um arremedo de risadinha e tossiu mais.
– [Eu vou cantar pra você dormir, irmãozinho. Eu só sei essa, mas é bonita. Então vou cantar pra você...] – e assim o fez.
Čiūčia liūlia dukrytėla
Durma, filinha
Mano mylimoji
minha querida
Kiek jau kartų per dienelį
quantas vezes por dia, eu já a botei para dormir?
Tavį pakilojau
Eu já a carreguei?
Pakilojau panešiojau
Eu já a carreguei e segurei.
Patalėlį klojau
E a pus no berço
Čiūčia liūlia dukrytėla
Durma, minha filinha
Mano mylimoji
minha querida
Auk didutė būk greitutė
Cresça depressa
Mano dukrytėla
Minha filinha
Čiūčia liūlia dukrytėla...
Durma, filinha...
Ela mesma dormiu sem terminar a música. Eduard encostou a cabeça na parede, retirando os óculos sujos, arranhados e embaçados, apertando o dorso molhado de seu nariz. Não queria mais ouvir nada do que se passava ali dentro. Não queria mais ouvir os choros, nem lamentos, nem gemidos, nem tosses. Não queria mais. Não aguentava mais ouvir o som da morte.
Quando acordou de manhã, a nevasca havia passado. Poderiam enfim sair. Levantou-se, sentindo os músculos enrijecidos em protesto, querendo que ele continuasse sentado como estava, mas seu estômago ainda ousava protestar também, mesmo após todo esse tempo de fome forçada. Sem querer, seu olhar vagou para o lado esquerdo. Por lá, viu o homem da noite anterior exatamente no mesmo lugar onde estivera antes. Um trapo escuro cobria o seu rosto. Do lado direito, a mãe e a filha estavam deitadas no chão, de mãos dadas. Mas uma respirava e a outra não.
Preferiu ir logo para a fila do café, ao invés de presenciar enquanto os mortos eram descartados numa pilha, despidos, para serem incinerados. Encontrou Elena pelo meio do caminho, mas não queria conversar; assim como ela também não parecia muito disposta a tal. Nem sabia com que espírito iria voltar a Moscou. Se é que ainda havia algum espírito em seu peito. Queria voltar para Raivis, mas sinceramente não sabia o que ainda havia de bom dentro de seu coração para oferecer a ele. Sentia-se tão estragado, quebrado, morto. Tão despedaçado que talvez fosse melhor não voltar, se era para ser assim.
A raiva, a frustração, a sensação de injustiça, de estar perdido e, acima de tudo, o desespero o acuaram contra a parede de modo que sabia que estava perdido para sempre. Nunca mais seria um quinto do que era antes. Em algum momento tornou-se um bicho podre e sem alma. Nada daquilo era sua culpa. Principalmente os doentes e os que os soviéticos matavam por quaisquer quer fossem os motivos. De tanto passar por pilhas de corpos e pensar em quantos e quais daqueles estavam ali por sua culpa, começou a se obrigar a pensar em outras coisas. Precisou se obrigar, com todas as forças a aceitar aquilo como normal e parte da vida. Ou melhor, um mal necessário. Um meio para se chegar ao fim, que era sobreviver.
Todo esse debate diário de sentimentos cansavam Eduard e colocavam sua humanidade para dormir. Paulatinamente, sua consciência e sua culpa começaram a ser nulificadas até perceber que parava de se importar com quantas pessoas mandava para o abatedouro ao colocar as cartas no monte das subversivas. Perguntava-se mesmo se alguém teria a mesma consideração que tinha antes. Quantas pessoas apanhariam tanto e teriam até mesmo as costas queimadas e o braço quebrado antes de desistir? Para quantos a vida alheia não valia menos que um pão mofado, de fato? Dane-se. Danem-se tudo e todos. Eu só... eu só preciso voltar inteiro pro Raivis.
De algum modo, Eduard sobreviveu. E, quando percebeu, apenas três dias o separavam de sua liberdade. Apenas 70 horas aproximadamente e estaria no trem de volta para Moscou. Este pensamento fez um arremedo tosco de alento formigar em seu peito enquanto escavava a mina de carvão com as mãos. Nem se importava com a dor nos dedos sem unhas e no braço, que nunca mais fora o mesmo depois que o agente o quebrara, meses antes. Este ânimo, entretanto, como era de se esperar, não durou muito. Após o fim do trabalho, quando o estoniano voltava ao alojamento, viu Elena escondida atrás de uma conífera altíssima; ela fazia um gesto para que se aproximasse dela. O loiro franziu a testa levemente, mas se aproximou discretamente da ucraniana.
Mal abriu a boca para expressar seu estranhamento, quando ela disse:
– Eduard... hoje de manhã ouviram uma conversa sua com um guarda...
– Conversa? – perguntou genuinamente confuso.
Além de sua memória estar ruim devido à má alimentação e a toda violência que sofria, o trabalho era tão cansativo que os dias pareciam infinitos e, pela noite, acabava já nem se lembrando do que havia acontecido de manhã.
– Ouviram você falando sobre traduções e sobre você entregar gente dos nossos aos soviéticos. Eu não... consigo crer nisso. É verdade? – ela murmurou, quase implorando para que ele desmentisse tudo imediatamente. – Você é um traidor...?
O estoniano encarou Elena por alguns instantes, sentindo um suor frio descer por sua espinha. Não é possível... Logo agora? Não, eu tenho que mentir... Eles não vão me pegar por nada... Eu não nadei tanto pra morrer na praia... Abriu a boca pronto para rir e dizer que aquilo era besteira, que nunca faria algo assim. Porém o que saiu foi:
– Eu não tive escolha.
O rosto da moça perdeu a cor. Os olhos perderam a esperança. Foi uma decepção tão palpável que fez um pouco da sensibilidade adormecida dentro do loiro se revirar em seu sono talvez nem tão profundo assim. Ele suspirou olhando em volta, para as pessoas que não davam a mínima para o que pudesse estar fazendo ali quase escondido atrás da árvore, porque nem sequer sabiam mais o que faziam. Não passavam de mortos-vivos. Existências tão miseravelmente insignificantes. Os guardas não faziam questão de saber. Até por que, se ele fugisse, morreria congelado e faminto mesmo antes de chegar às cercas. Suspirou novamente.
– Eu sei que o que eu fiz não tem nome. – respondeu voltando a olhar a moça a sua frente, dando mais um suspiro cansado. – Aceito o seu ódio e o ódio de todos porque eu mereço, mas não posso morrer aqui. Tenho que voltar pra Moscou. Eu preciso voltar pra Moscou. É isso que me move. É por isso que eu ainda tô vivo...
– Você mandou vidas inocentes pro fuzilamento, Eduard! Meu Deus. O que pode ser mais importante que isso? Do que ser íntegro...? Qual é a diferença entre você e os soviéticos? – a mágoa escorria em cada palavra que Elena dizia. – Você é uma farsa. Todas as conversas que tivemos... toda a sua inteligência... toda a sua raiva... Era tudo mentira?
O loiro fitou o chão. De fato, ela nunca entenderia se lhe dissesse que seu motivo era "a pessoa que eu amo". Mas Raivis era tudo. Raivis era o seu mundo. O resto era resto. Havia traído todos os seus ideais por ele. E o faria novamente, se necessário fosse.
– Eu tô agindo como o tipo de gente que eu mais odeio: gente covarde. Acredite que até eu conseguir parar de ouvir meus sentimentos, eu me odiava a cada minuto que eu passava acordado. Não vou me justificar, porque o que eu fiz não tem justificativa. Meu motivo não é salvar minha pele simplesmente por medo da morte. Mas também não tenho um motivo nobre. É um motivo que você não vai entender. Pode me odiar, se quiser. Não é que eu não me importe. Eu só não tenho argumentos plausíveis pra me defender... Eu não mereço ser defendido.
– Não posso odiar você... – ela encarava o chão, fazendo os cabelos secos e despenteados encobrirem seu rosto. – Mas também não posso dizer que perdoo.
Eduard expulsou o ar pelo nariz, num pequeno riso condescendente e exasperado ao mesmo tempo. Já suspeitava que ela tinha algum sentimento por si, apenas procurava ignorar porque não faria bem algum dizer que sabia.
– Antes disso tudo, eu odiaria qualquer traidor. – ele falou baixo, olhando por cima do ombro e percebendo que os últimos trabalhadores passavam. – Até eles queimarem as minhas costas com óleo fervendo, eu achava que aceitaria morrer, se isso significasse não ser imundo como eles. Mas quando eles me torturaram, eu fiz toda uma projeção do meu futuro e ela acabava mesmo em morte. E a minha morte culminaria em... Sabe, eu vim pra cá no lugar de outra pessoa, porque eu queria protegê-la, e essa pessoa nunca se perdoaria se acontecesse algo comigo. Provavelmente ela não vai conseguir viver sem mim lá fora e muito menos vai conseguir conviver com a culpa. Eu preciso voltar pra essa pessoa. Eu preciso proteger essa pessoa a todo custo, mesmo que o preço a pagar seja a minha alma. – despejou de uma vez, sem conseguir se refrear.
– Eduard...
– Eu sei... Eu sei. É ridículo e é egoísta, mas... eu preciso voltar a Moscou.
– Eu não sabia que homens tinham tanta capacidade de amar... – a ucraniana murmurou para o chão, com um risinho amargo. – Essa... pessoa deve ser muito amada mesmo.
– Hã? Ah... – Eduard perguntou, mas então começou a corar. – Sim, eu... amo muito... – nunca havia admitido isso em voz alta. Nem para si mesmo, nem para Raivis.
E foi uma sensação péssima. Eu posso morrer e nunca disse a ele que o amo...
– Então, se esconde. Rápido ou eles vão matar você.
– Eles...? – Eduard balançou a cabeça, voltando à realidade.
– O pessoal da nossa cabana quer pegá-lo e você não vai escapar vivo. Vai embora! – ela o puxou de leve para trás da árvore onde se escondia. – Eles... pegaram o Kalju também. Eduard, ele foi espancado até a morte. Arrancaram a língua dele. Em vida! Ele demorou a morrer e ficou lá no chão, agonizando, enquanto as pessoas só olhavam ou cuspiam nele...
Imagens do rapaz ensanguentado e desfigurado no meio da neve pulularam em sua mente. Sangrando até seu corpo não aguentar e parar. A mão do estoniano cobriu a própria boca. Não que gostasse do outro rapaz, mas o compreendia. Estavam no mesmo barco. E, acima de tudo, podia estar no lugar dele agora. Sentiu ânsias de vômito.
– Elena, eles podem matar você por ter me contado...
– Tudo bem. Não tenho pra quem voltar mesmo. Não tenho nada lá fora. – ela deu de ombros e um sorriso triste surgiu nos lábios finos e descorados dela enquanto fitava o chão.
Eduard apertou o dorso do nariz. Essa culpa era a última que iria querer carregar na vida. A maior parte de seus cadáveres não possuía rostos em sua mente. Não soube o que pensar, nem o que fazer, de tão atônito.
– Não pensa muito, Eduard. Vai logo. Você precisa ir agora. Eu também já vou voltar. Não é 100% certo de que vão me descobrir...
– Se eu pudesse, levaria você... – soltou, sem pensar.
– Não diga isso. Ou eu vou achar que isso significa mais do que realmente significa... – ela deu outro sorriso triste, enquanto encarava a neve aos seus pés.
– Eu...
– Sério. Não diga nada. Eu não quero ouvir. Estou indo. – ela respirou fundo e finalmente o olhou nos olhos. – Não deixe que as vidas dessas pessoas tenham sido sacrificadas em vão. Não deixe que o peguem. Volta pra essa pessoa que você ama e não sai mais do lado dela. E... você tem potencial pra ser grande. Faça algo com esse potencial. Algo bom.
A moça de cabelos negros lhe deu as costas e andou rapidamente até desaparecer de seu campo de visão. Potencial? Que potencial? O rapaz então suspirou e pôs-se a correr em direção à base soviética, para fazer a única coisa que salvaria sua miserável vidinha. Ao chegar lá, pediu aos sentinelas que lhe permitissem falar com os superiores. Com um pouco de relutância, permitiram. Eduard pediu para que lhe deixassem ficar ali até que pudesse ir embora. Prometeu que trabalharia dia e noite, o máximo que pudesse, se lhe dessem abrigo. E foi o que fez.
Três dias depois, Eduard lutava contra o cansaço com todas as suas forças. Esfregou os olhos ressecados e ardidos, ajeitando-se na cadeira desconfortável do quartel. Nenhuma posição fazia suas nádegas doerem menos após todo esse tempo sentado, mas precisava aguentar. Só mais um pouco, só mais um pouco... Deixou um bocejo trêmulo escapar por sua garganta seca, enquanto colocava mais uma carta na pilha das censuradas. Apenas então notou que, pela abertura gradeada no alto da parede, os primeiros raios de sol se esgueiravam para dentro do quarto. Finalmente estaria livre. Ofegou de expectativa. Então ouviu passos às suas costas e abriu mais uma carta apressadamente, para demonstrar que estava trabalhando.
– Von Bock.
Virou-se com o coração martelando freneticamente contra as próprias costelas. Tinha medo de ouvir que não sairia naquele dia. Tinha medo de inventarem alguma desculpa absurda para aumentarem sua pena. As palavras que vieram, no entanto, foram:
– Pegue suas coisas.
E o mundo começou a girar mais devagar...
– E-eu não tenho nada. – disse sua voz rouca, que quase ficou presa na garganta.
– Então, vamos. Você está liberado.
Liberado... liberado... liberado...
A palavra ecoou em seus ouvidos. Eduard sentiu toda a fraqueza se abater sobre seu corpo, fazendo-o parecer pesar meia tonelada. Ou seria a emoção que ricocheteava como o elástico de um estilingue após ser esticado e solto? Esforçou-se para levantar e sentiu suas pernas bambas após mais de 70 horas sentado. Sentiu a cabeça girando. Andou trôpego atrás do guarda mal-humorado, escorando-se pela parede, até sair do prédio e encontrar mais pessoas num grupo escoltado por dois oficiais armados. Juntou-se a eles, então foi conduzido até uma parte distante do gulag. A lembrança tênue daquele caminho veio à sua consciência. Era de fato o mesmo por onde viera ao chegar ali. Seus lábios rachados tremiam.
Pelo caminho, mais pessoas se juntaram ao grupo. Em algum momento, porém, um murmúrio chamou sua atenção, o que fez o rapaz, inconscientemente, virar a cabeça para olhar, pois pensou ter ouvido seu nome.
– Eu disse que ele não tinha fugido. Ninguém escapa de um gulag! É ele ali mesmo! O von Bock! Vamos acabar com ele!
Eram algumas das pessoas de seu alojamento. Assim que o viram, pegaram o que havia pelo chão e começaram a correr em sua direção. Eduard, com o raciocínio prejudicado pelo cansaço, levou uns instantes para reagir, mas percebeu seu erro e começou a correr o mais rápido que suas pernas permitiram. Em meio a sua agonia, acabou tropeçando. O estoniano até levantou surpreendentemente rápido considerando-se seu estado, mas mal deu cinco passos e já havia sido alcançado. Foi derrubado no chão antes mesmo que pudesse perceber. Sua reação imediata foi se encolher e proteger a cabeça dos chutes que vieram de todos os lados. Sentiu pedras e pedaços de madeira também e então soube que era o seu fim. Nadar e morrer na praia. Nadar e morrer na praia. Agora não tem mais jeito... Acabou, o pensamento vagou em algum lugar obscuro de sua mente. Algum lugar que não estava sendo tomado pela consciência da dor. Eles sovaram seus pés, pernas, abdômen, braços, mãos. Queriam mesmo acertar a cabeça e provavelmente estourá-la como uma pinhata. As forças do rapaz já estavam quase cedendo completamente quando um disparo de arma ribombou no ar fazendo com que a algazarra cessasse.
– Fora, seus animais, ou o próximo tiro vai espalhar miolos pelo chão.
Todos se afastaram alguns passos, a contragosto.
– Anda, molenga. Levanta de uma vez antes que eu acabe com o seu sofrimento. – a bota do homem empurrou suas costas.
A verdade era que Eduard não achava que conseguiria levantar nunca mais, mas não havia alternativa, então juntou o resto de suas forças para se pôr de pé. Quando olhou em volta, viu seus agressores lhe encarando ameaçadoramente a certa distância, como animais atrás de grades invisíveis. Não podiam fazer nada. O loiro baixou a cabeça e seguiu o grupo, segurando seu braço que doía demais. Percebeu que seus óculos estavam muito tortos e também que a sola dos sapatos, que já não estavam muito bons antes, haviam descolado depois de vários pisões –– o lado direito saiu completamente após alguns passos. Andou assim mesmo, mais preocupado com a dor no braço e no abdômen. Sangue escorria de sua boca, de um chute que levara.
Cuspiu um pouco de sangue no chão, ignorando os olhares dos outros do grupo. Percebeu que o local onde as plaquetas dos óculos encostavam ardia e, ao retirá-los, notou ali estava machucado. Aproveitou para tentar ajeitar as pernas que entortaram mais do que antes. Não prestou atenção no caminho. Apenas sentiu um pinicar no calcanhar. Quando Eduard parou para olhar, viu o que parecia ser um prego enferrujado cravado ali, mas o guarda não lhe deu oportunidade de retirar, então andou mancando e inevitavelmente acabou enfiando o prego mais fundo na própria carne.
Quando finalmente chegaram ao destino, o estoniano avistou pessoas em filas e próximos aos portões, havia soviéticos com pranchetas chamando alguns nomes para que as pessoas entrassem em caminhões. Apenas então Eduard pôde puxar o prego do pé, fazendo um pouco de sangue escorrer para fora do corte.
Apesar de não haver pessoas o suficiente na fila para justificar a demora, apenas foi chamado duas horas depois. E ouvir seu nome para em seguida atravessar os portões em direção ao caminhão foi como nascer de novo. Eduard quis rir, quis chorar, mas a única reação que conseguiu ter for se engasgar com o misto de emoções. Não importava o quão quebrado pudesse estar. Estava livre. Estava voltando. Estava voltando para Raivis. E isso, ninguém mais lhe tiraria.
O estoniano cambaleou para dentro do vagão já lotado, esbarrando nas pessoas que estavam dentro do mesmo. Foi empurrado, até chegar à parede dos fundos. Encostou-se a ela e escorregou até sentar no chão. A fome já fazia parte do seu ser, mas ainda conseguia sentir a exaustão dos últimos três dias sem dormir. Agora a área do corte latejava. Apertou o próprio tornozelo, sibilando de dor e virando o pé para olhar a sola. O pouco de pele que era possível ver debaixo da sujeira estava rosado e havia sangue seco no ferimento. Olhou em volta, inconscientemente, como se procurasse algo que o ajudasse, mas obviamente não havia nada. Não havia sequer vida ali dentro. Era como olhar um conjunto de espelhos. Viu seu reflexo nos rostos cansados, imundos e desolados. Pareciam ter deixado suas almas no gulag.
O tronco do estoniano cedeu para trás, escorregando mais ainda contra o metal frio que os cercava. Não conseguiu obrigar seu corpo a continuar ereto, não tinha forças. Fechou os olhos, vendo as imagens de pessoas sendo fuziladas pela NKVD e de seus companheiros de alojamento correndo atrás de si com paus e pedras. E eles não estavam errados em persegui-lo. Nem mesmo sentia que merecia estar vivo. Esfregou o rosto e sentiu calor sob seus dedos, mas antes que sequer pudesse pensar sobre isso, seu mundo enegreceu.
– Pensei que você tinha morrido, garoto. – ouviu a voz de uma mulher bem velha ao abrir seus olhos, com a sensação de que havia dormido por horas. Porém, ainda se sentia cansado. O latejar na sola do pé havia piorado. Ao olhar, percebeu que estava inchado e vermelho. Infeccionou..., pensou, devagar. Olhou em volta novamente, tonto, até focalizar uma mulher ao seu lado. Mesmo estando de óculos, sua vista estava embaçada.
– É uma ferida feia essa no seu pé, hein? O que houve?
– [Prego. Pisei num prego...] – murmurou, fechando os olhos, sentindo a garganta seca, mas os abriu assim que ela falou novamente.
– Como?
Não havia falado a língua dela... Mas que língua era aquela? Não conseguiu identificar, apesar de entender. Em que língua havia falado com ela? Não lembrava. Estava com fome, sede e tinha vertigem. Após um latejo forte, suas mãos fizeram menção de voar para o próprio tornozelo. Grunhiu abafado, tentando apertar a perna, angustiado, mas, de tão súbito, seu movimento fez sua cabeça girar, antes de apagar outra vez.
Eduard recobrou a consciência tão lentamente que nem mesmo se moveu. Ouvia uma discussão exaltada e apenas depois de um tempo conseguiu discernir as palavras por cima do som da locomotiva que já estava em movimento.
– Esse garoto não vai durar nem dois dias! Dura, se for azarado de ficar agonizando por todo esse tempo, mas ele não chega vivo a Moscou. – rosnava a voz de um homem. – Disso, eu tenho certeza!
– Não seja egoísta. Você também vai morrer um dia e, se Deus quiser, que seja logo, mas não é por isso que vamos negar dividir a comida. Também não vamos matar o garoto de fome...! – dizia uma mulher, num tom não menos irritado.
– Ele acordou. – anunciou uma terceira voz, que soava mais próxima.
Alguns olhos se viraram para o rapaz e antes que mais qualquer coisa pudesse acontecer, alguém lhe estendeu uma caneca velha e amassada, cheia de água suja.
– Você precisa beber água.
Não conseguiu focalizar direito a pessoa, nem mesmo dizer nada. Apenas estendeu as mãos trêmulas instintivamente para pegar o recipiente e virou de uma vez em sua boca, antes que o conteúdo derramasse. Embora suja, a água o fez recuperar um pouco da lucidez e, graças a isso, percebeu que seu pé latejava mais forte e com cada pulso, vinha uma dor que o rasgava por dentro. Encolheu-se. E também percebeu que havia algo estranho. Olhou para o pé e viu tecidos sujos e rasgados enrolados em volta do tornozelo e que desciam cobrindo seu calcanhar.
– Vocês...? – grunhiu.
– Não fale. Coma. – era a voz da mulher irritada, mas ela agora soava gentil.
Eduard olhou para ela. Olhou em volta. Viu pessoas como as que encontrava todos os dias naquele inferno. Todos, sem uma exceção sequer, pareciam famintos, estavam machucados de alguma forma. Embora fosse visível o alívio de estarem voltando, era impossível negar os traços do sofrimento ao qual haviam sido submetidos. Tinha certeza absoluta de que havia dedurado pessoas como aquelas. Era justo ser salvo por eles? Agora, pensando com calma, sem o filtro do desespero, perguntava-se como havia sido capaz de usar as justificativas que usara para não se sentir culpado. Agora, pensava que nunca iria poder se perdoar.
– Ele... – disse com a voz rouca, em uma crise de consciência, olhando para o homem careca próximo à mulher que lhe falara antes. – Ele tem razão. Eu não mereço mesmo...
– Está vendo. Ele não quer...!
– Besteira. Coma de uma vez, garoto. Seu corpo está fraco, por isso você precisa se ajudar. Assim que comer um pouco, vai se sentir melhor.
– Eu sou... ruim. Eu não... mereço.
Vocês estariam me jogando pra fora desse vagão se soubessem...
– Não importa. Ninguém quer saber o motivo por que você diz isso.
A pessoa ao seu lado, um rapaz talvez pouca coisa mais novo que o estoniano lhe estendeu um balde velho, silenciosamente.
– Nós não vamos julgar você. Só Deus é quem pode. – a mulher sorriu fraca e tristemente, mas era um sorriso de quem daria ao próximo até a força que não tinha.
Lembrou Toris.
Eduard respirou fundo. Eu devo? Eu posso? Com a mão trêmula, pegou um pequeno punhado da papa no fundo do mesmo e pôs na boca. Seu estomago imediatamente doeu ao despertar, mas, em seguida, exigiu furiosamente que não parasse. O estoniano pegou mais um punhado e devorou imediatamente. Não se importou em como poderia ser vergonhoso lamber a mão como lambia após raspar o fundo do recipiente. Estava faminto como nunca antes. Seu estomago não parou de reclamar, mas não havia mais nada para fazê-lo se calar. A única coisa que poderia distrai-lo era a dor no pé.
– Como você se chama? – perguntaram enquanto encarava o balde vazio.
– Hm... Eduard...
Seguiu-se uma série de apresentações, mas Eduard não ouviu e mal percebeu quando dormiu outra vez. Na próxima vez em que acordou, sentia-se melhor por estar livre do cansaço, mas o ferimento estava mais sensível. O rapaz comeu e bebeu água quando os guardas trouxeram, ouviu as conversas alheias, tentou exorcizar aquele sentimento ruim que estava instalado em seu peito. Pois, de que adiantava ter lutado para sobreviver, se fosse se culpar eternamente por tudo? Não podia voltar assim para Raivis. Com certeza, faria com que ele se sentisse pior.
– Que bom que você melhorou. – disse uma das mulheres. – Pensamos que você estava assim por causa da febre, mas era só cansaço afinal.
– Febre? – murmurou.
– Sim, você está com febre. Está baixa, mas é febre, com certeza. Mas mesmo que continue assim, você vai poder se tratar em Moscou.
Tocou o próprio rosto e o sentiu quente. Claro... esse corte infeccionou... Claro que eu tenho febre... Agora... me tratar em Moscou. Que piada. Mas apenas redarguiu um:
– Espero que sim...
– Quer cortar o cabelo? Você não quer voltar pra casa com essa juba, não é? – alguém sorriu balançando uma navalha entre os dedos.
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