Dotyanutsya do Tebya
13 Parte XII: Привет. Я Икар. Я падаю вниз — Priviet. Ya Ikar, Ya Padayu Vniz
Notas iniciais
Deitado de bruços na própria cama, Ivan pensava sobre algumas coisas que já vinham incomodando seu status quo mental havia algum tempo. Por que as pessoas não podiam entrar em um consenso sobre o que era certo e o que era errado? Por que o que era bom para uns, era ruim para os outros? Isso é tão confuso. As pessoas são tão confusas. Como eu vou saber o que é certo de verdade? Se uns tinham visões tão diferentes das visões alheias, alguém deveria estar errado. Se alguém estava errado... este alguém poderia ser Natalia. Ou seu chefe. Ou Yekaterina. Ou Toris. Como saber? Como saber em quais palavras deveria confiar?
Em sua última conversa com a irmã mais velha, ela havia dito que deveria se colocar no lugar dos outros. A questão era que, se o fizesse, uma mesma coisa parecia errada ou certa ao mesmo tempo, dependendo da pessoa de quem se colocasse no lugar. Quem garantia que não era Yekaterina a errada? Ele é um ser humano. Não merece isso..., ela havia dito no outro dia em que conversaram, quando mencionara Eduard. Bem, Ivan não achava que merecia ter sido castigado como fora por ouvir Toris, mas seu chefe pensava que merecia. De outro modo, não o haveria castigado. E Toris, que havia implorado tanto para que salvasse seu amigo, não lhe dava sinais de que havia feito o certo. Havia mesmo, então?
Era tão complicado de entender.
– Às vezes não recebemos recompensa por fazer a coisa certa, querido... E às vezes nós sofremos retaliação mesmo quando fazemos a coisa certa... Faz parte da vida.
– Então como eu vou saber o que é certo?
– Vanya, na vida existe algo chamado “bem comum”. É impossível que todas as pessoas envolvidas numa determinada situação estejam felizes, mas é preciso tomar decisões que prejudiquem os menos favorecidos o mínimo possível. Sabe, querido, as pessoas sofreriam muito menos se todos percebessem que seus direitos vão até onde começam os direitos dos outros... Assim, todos seriam tão felizes quanto se é possível ser, de um modo melhor distribuído. Mas o que acontece é que hoje em dia... não, na verdade sempre foi assim, uns são muito felizes em cima do sofrimento alheio...
Ivan ouvia as palavras da irmã em um silêncio sério. Estranhamente aquilo fazia sentido. E o fazia pensar em Toris...
– Sabe, dorogoi... Há mais uma coisa que eu queria lhe dizer. – a voz da ucraniana o tirou do turbilhão que se formava em sua mente e a fez encarar a moça sentada ao seu lado na cama. – Eu entendi o que acontece entre você e a Natalia... Se você me dissesse que gosta dela, eu não me intrometeria... Mas você mesmo me disse que não gosta... Então essa relação de vocês não é saudável e só vai fazer com que os dois se machuquem no futuro. Mais do que já se machucaram até hoje...
– A Natalia não se machuca, siestra. Ela me machuca...
Yekaterina suspirou, coçando a própria testa.
– Ela também se machuca, Vanya. Mas é no coração. Assim como você também se machuca quando machuca aquele rapaz... Então pense bem, Vanya... Pense se isso deve continuar, meu amor... Você acha certo?
Certo...? Podia dizer à Natalia que não queria mais? Valeria a pena correr o risco de estar errado? Valeria o risco de que ela cumprisse suas ameaças? Sentou na cama, ainda sem muita certeza de que devia ser assim. Podia estar errado, mas parecia tão certo que pensou valer o risco. Era o meio da noite e Ivan saiu de seu quarto, rumando pelo corredor, sem fazer um mínimo som, até chegar ao quarto de Natalia. Bateu na porta algumas vezes até que ela abriu. Seu cabelo comprido estava um pouco bagunçado, enquanto sua pele estava mais pálida que o habitual. Olheiras indicavam que ainda não estava recuperada da doença a qual Ivan não havia tido o mais remoto interesse em saber de que se tratava. Realmente não podia se importar menos.
– Ora, mas que surpresa você por aqui por conta própria, brat. – ela sorriu. – Entre.
Ivan engoliu em seco, discretamente, então deu alguns passos para dentro daquele quarto infernal que conhecia tão bem, mesmo com a luz fraca do abajur sobre a mesinha de cabeceira. Nem sabia quando passara a odiar estar tão perto dela.
– Que milagre o traz aqui? Sentiu saudades? Quer brincar? – ela sentou na cama e fez sinal para que ele a acompanhasse, mas Ivan apenas se aproximou o máximo possível sem que entrasse na zona de alcance dos braços dela.
– Natalia... – disse sem delongas, encarando-a de cima. – Já basta disso tudo. Eu não gosto de você e não quero mais deitar com você.
O semblante divertido dela logo mudou para um possesso.
– Você só pode estar brincando. – ela murmurou imóvel, mas ao perceber que o irmão adotivo continuava impassível, levantou-se. – Por que você está dizendo uma idiotice dessas? Isso é coisa da Yekaterina? Ou daquele pedik? Ele andou se metendo com você? Ou foi você quem não conseguiu manter as patinhas longe dele? Eu avisei, brat...
Ivan tinha o mais ínfimo mínimo de prudência para saber que era melhor não envolver ninguém naquilo. Natalia era capaz do inimaginável com o mínimo deslize que cometesse.
– Ninguém além de mim tem nada a ver com a minha decisão. Só não concordo mais com isso. Eu não amo você, então não tem por que continuarmos com isso.
– Você disse que iria se casar comigo.
– Você me obrigou.
– Quem andou colocando essas coisas na sua cabeça? – ela deu alguns passos para longe, nervosa. – Pare com essa tolice! Não importa se você acha que não me ama. Você só está confuso, mas eu vou fazer com que você perceba seus sentimentos...
– Natalia... eu odeio tocar você. Odeio quando você me beija. Odeio ter que seguir o que você me diz pra fazer. Odeio estar perto de você. E ninguém colocou isso na minha cabeça, entenda de uma vez.
O rosto da bielorrussa estava adquirindo um tom escarlate de raiva, mas o choque era tão grande que ela apenas conseguiu começar a gaguejar até recuperar sua voz:
– Você perdeu a noção! – Natalia voltou a se aproximar, com um olhar maníaco no rosto. – Eu sei que é culpa do pedik... Ele o enfeitiçou. O que ele faz pra você, brat? Você dorme com ele? Ele chupa você melhor que eu?
– Já disse que nem ele, nem ninguém tem qualquer coisa a ver com isso. Eu não tenho nada com ele. E eu não vim pedir sua opinião, nem permissão. Estou avisando que acabou, Natalia. – Ivan virou de costas e pôs a mão na maçaneta, mas Natalia passou por baixo de seu braço e conseguiu ficar em frente à porta, sem deixá-lo passar.
– Só acaba quando eu digo que acaba. – ela estreitou os olhos perigosamente para o russo.
– Eu não tenho medo de você.
Ivan sabia que tinha, mas precisava mentir. Precisava dizer aquilo. Precisava acreditar.
– Pois devia ter.
– Mas não tenho. E eu não quero você encostando o dedo em ninguém que considere culpado. Ou vai se ver comigo, siestra.
Ivan a tirou do caminho e saiu do quarto, batendo a porta bem a tempo de ouvir o som de algo se espatifando contra a mesma. Logo em seguida, ouviu o som de pancadas abafadas e tecido se rasgando. Ao contrário do que pensou, não houve gritos e Natalia não veio correndo atrás, fazendo ameaças a Deus e ao mundo. Melhor assim, Ivan pensou. Então ali, parado no corredor escuro, percebeu como se sentiu livre e feliz, quase tão feliz quanto na primeira vez em que Toris correspondera a um beijo seu. Ela era só uma garota. Por que havia passado tantos e tantos anos tendo medo dela mesmo?
Quando chegaram à casa de Ivan, Eduard insistiu em voltar ao sótão, mesmo com a insistência de Toris para que ele não subisse os dois lances de escada para não se esforçar demais; principalmente porque ainda estava sob o efeito de alguns remédios. Como ele n’ão lhe deu ouvidos, o lituano resignou-se a ajudá-lo a se instalar novamente, e não entendeu nada do que estava acontecendo quando Raivis deu uma desculpa qualquer e partiu antes mesmo de entrarem na casa. Imaginou que o estoniano ficaria decepcionado ao acordar do coma de sedativo no qual entrou assim que deitou no colchão imprestável.
Nos dias posteriores, percebeu que seria o único a cuidar do maior, porque o letão sempre inventava algo do tipo "alguém tem que trabalhar por ele", "estou cansado agora", "acho que ele precisa descansar, então é melhor eu não ir". O remorso falando — a culpa que não queria deixá-lo se encontrar com o outro rapaz, olhá-lo nos olhos para não pensar: a causa disso tudo sou eu. Mas não podia ser assim. Eduard não se sacrificara para que o relacionamento que tinham acabasse deste modo, o lituano tinha mais que certeza. Por este motivo, resolveu fazer Raivis confrontar seu medo. É... isso não pode continuar assim... Era o que pensava enquanto terminava de preparar o jantar do estoniano, porém foi interrompido por passos na direção do corredor e, ao olhar, viu Ivan por ali.
– Olá. – ele cumprimentou.
Não o havia visto o dia inteiro, mas deveria saber que seu dia não acabaria em paz.
– Senhor Ivan... Deseja algo? – perguntou o lituano, numa voz tão calma que impressionou a si mesmo, porque seu coração dava saltos em seu peito, mas sentia-se frio. Duas reações tão antitéticas.
– Ver você.
O báltico não respondeu imediatamente. “Ver”, né? Óbvio, Toris. E ele lá quer outra coisa com você?
– Tudo ficou mais complicado desde que o Eduard se instalou no sótão... – o maior comentou, preenchendo aquela lacuna deixada pelo silêncio, mesmo que o moreno soubesse que ele nunca se incomodava com isso. Estranho...
– Ele precisa de um ambiente tranquilo... Sinto muito pelo inconveniente. – respondeu sem nunca levantar o rosto para o russo. Precisava terminar aquela sopa, precisava.
– Tudo bem. Vá ao meu quarto, no horário de sempre.
O lituano assentiu, antes de responder. Percebeu que estava inexplicavelmente consciente do cheiro irritante das cebolas que descascava. Deveria ser tão atraente deitar com alguém cujas mãos exalavam aquele odor agradabilíssimo. Só que não. Por que ele tinha aquela obsessão absurda com Toris? Nunca entenderia.
– Eu estarei lá.
– Certo. Ah... Toris?
– ... Sim, senhor?
– Acho... que eu ainda não tô pronto pra abrir mão de você... Olha pra mim.
O lituano parou de picar as cebolas quando ouviu aquelas palavras e aquele pedido, somados aos passos os quais se aproximavam. Não me peça isso. Não vou conseguir. Não se aproxime... Mas Ivan, sem esperar que ele o obedecesse, segurou seu queixo, virou seu rosto e o beijou, de um modo que fez suas pernas tremerem quase imediatamente. Todo o ar contido nos pulmões do menor foi embora em segundos, quando foi empurrado contra o balcão. Se alguém entrar agora e vir isso... Teve medo de que ele mandasse toda a prudência “para as cucuias” e o tomasse ali mesmo, tamanho era o ímpeto do beijo e dos braços que o envolveram. Ele parecia feliz demais.
Puxou o ar com força repetidamente quando ele o soltou, ambos com os lábios vermelhos e brilhando de saliva. Passou-se uma fração de segundo em que Toris se forçou a encará-lo, imóvel, até que ele partiu, sem mais nem menos. Que raios foi isso?. perguntou-se, enquanto se recompunha, antes de virar para colocar as cebolas na panela onde o caldo já fervia. Deu uma olhada de esguelha para a porta, para então começar a cortar beterrabas furiosamente. Não tô preparado pra abrir mão de você? Que piada ruim. Mas era isso o que tudo e todos eram naquela casa: uma piada ruim.
– Maldito... – sussurrou.
– Quanta fúria...
Uma voz feminina quase fez com que Toris decepasse o próprio dedo no susto. Ao virar-se, ele viu a figura pequena da bielorrussa contra o vão da porta, de braços cruzados. Ela estava séria como sempre, enquanto o encarava de longe. Algo no ar fez um arrepio subir por sua espinha, e nem soube o motivo.
– Natalia?
Ela se aproximou, em silêncio, e se recostou contra o balcão, ao lado do lituano, próximo ao local onde Ivan estivera poucos instantes antes. A loira o fitou por um tempo, como se o avaliasse. Observou seu rosto, seu corpo, parou nas mãos, então subiu para os lábios e finalmente parou nos olhos. Foi apenas aí que Toris teve consciência de que estava vermelho até não poder mais. Nunca havia sido perscrutado assim na vida por olhos tão julgadores. A não ser quando se tornara parceiro de Feliks, mas essa era outra história. O que Natalia queria? Por que não falava de uma vez? Enquanto colocava as beterrabas dentro da panela de pressão e a tampava, ficou pensando se deveria dizer algo. O silêncio com ela era diferente de quando estava com Ivan. Era tenso.
– Então... – inclinou-se na direção do rapaz... e por fim soltou a bomba: – Diga... Qual é a sensação de ser a vadia que roubou o homem de outra pessoa? Está feliz e satisfeito consigo mesmo?
– D-d-de que você tá falando...? – Toris começou a lavar a tábua e a faca nervosamente, enquanto tentava não gaguejar.
– Não se faça de idiota – a loira fechou o cenho completamente, se inclinando mais ainda, invadindo o espaço vital do rapaz. – porque você entendeu muito bem.
– Não estou me fazendo de idiota. Só não faço ideia do que você fala...
– Ivan disse que não me quer mais. – Natalia o cortou, batendo no balcão com força. – E mesmo que ele tenha jurado que não foi por sua causa, eu tinha certeza de que tinha sido. Então eu pego vocês quase se comendo aqui na cozinha... E não foi por sua causa?
– N-n-não... O-ouça... – o lituano não conseguiu mais encarar a garota ao seu lado; deveria ter imaginado que o dia em que seria confrontado com aquilo chegaria... deveria ter imaginado. Respirou fundo. – Eu... eu não tenho nada a ver... Eu nem sabia que ele tinha rejeitado você... A verdade é que não tenho por que querer que ele deixe você, já que eu nunca quis ter nada com ele, pra começar...
– Pois eu não acredito em nada do que sai dessa sua boca, pedik. Por que você não para de atrapalhar a minha vida de uma vez? Por que você não morre?
Engraçado que se ouvisse aquelas palavras meses antes, provavelmente sofreria tanto que nem conseguia imaginar, mas isso apenas veio para confirmar que não sentia mais o mesmo por ela. Não era agradável ouvir tais palavras sendo proferidas por ninguém, principalmente pela pessoa que fora quem mais amara algum dia de sua vida, mas sinceramente não fazia muita diferença naquele momento. Não doía mais.
– Sabe... Você pode até não acreditar, mas eu nunca tentaria roubar alguém que é importante pra você... E eu nunca quis que ele fizesse nada do que faz comigo... Principalmente porque, quando isso tudo começou, eu era apaixonado por você...
... Ah... eu falei... E foi... tão fácil... Antes eu nunca teria coragem de dizer isso... Nunca. Mas agora... não fez diferença...
– Você era... apaixonado por mim? – ela franziu o nariz, surpresa.
O lituano assentiu brevemente, sem dizer nada. Estava corando.
– Mas... agora você gosta dele?
– Hã... n-não...
– Você parecia estar gostando do beijo agora há pouco.
– A-ah... você viu mesmo aquilo...
– Vi. E você ainda vem me dizer que não gosta...
Não... isso é impossível. Não sinto nada por aquele russo horrível! Isso não passa de um erro! Quando eu reajo, é porque eu sou homem. É puramente... físico. Toris virou de costas para o balcão, assim como a moça ao seu lado.
– C-chegou um momento em que lutar passou a ser tão cansativo que eu preferi deixar estar... Mas de verdade... eu odeio isso... Odeio...
– Há quanto tempo isso acontece? – a pergunta escapou por entre os dentes cerrados da moça.
– Nossa... Faz... tempo. Tempo demais...
– Escuta... Se você tivesse oportunidade, acabaria com essa situação? – ela inclinou a cabeça, ainda com aquele semblante de quem julga. Era constrangedor, na verdade.
– Hã? – o moreno foi pego de surpresa pela pergunta. – Ah... Claro... Claro que sim... Acabaria... Como eu posso aceitar ser do homem que quase matou meus amigos... e a mim mesmo...?
Para sua surpresa, Natalia sorriu de leve.
– Bem... Que tal se apaixonar por mim de novo? Eu garanto que ele não vai tentar tirá-lo de mim, se você me escolher...
Nunca, nem em um milhão de anos imaginaria estar tendo uma conversa com Natalia Arlovskaya, muito menos imaginaria (mesmo em seus devaneios mais loucos) que um dia ela estaria sugerindo algo daquela natureza. Devia estar sonhando.
– Natalia, eu não entendo aonde você quer chegar com isso tudo...
– É simples. – ela esfregou a mão no rosto, impaciente. – Se ele não me ama e não quer ficar comigo por isso, não é justo que fique com quem não o ama também só por que ele quer...
Havia alguma lógica nisso. Mas ainda não parecia certo que precisasse recorrer àquelas medidas tão... extremas? Não. Não estava certo.
– Mas eu não sinto mais... o mesmo por você... Não sinto mais o que sentia antes...
– Não importa. Vá até o porão à meia-noite... Juro que você vai voltar a me amar... Acho que deve fazer algum tempo desde a última vez em que você esteve com alguma garota, não? – a bielorrussa o puxou para seus braços, roçando o corpo pequeno e macio no dele, enquanto acariciava sua bochecha quente com o polegar. – Você não sente falta? Eu sei que sente... Olha como o seu coração tá acelerado... – ela riu, encostado a cabeça no peito do rapaz.
– P-por que o porão? – ele murmurou, se esforçando para não engolir em seco.
Então essa é a sensação do corpo de uma mulher?
– Bem... você prefere ir ao meu quarto? – Natalia deu um sorriso sugestivo, encostando o queixo no peito dele. – Se você souber ficar bem quietinho... por mim tudo bem... Mas eu sinceramente duvido que você consiga...
– F-ficar quietinho? – Toris desviou a vista, incomodado com toda aquela proximidade, mas não sabia como afastá-la. Um fora numa noite já deveria ser o bastante para o ego de uma garota.
Não podia negar que mataria para ouvir tudo aquilo um tempo atrás, mas agora era diferente. Quando lembrava que até meia hora antes nem existia para ela, chegava a ficar um pouco revoltado com tudo aquilo.
– Você é mesmo inocente assim? – ela riu, enrolando dois dedos de cada mão nas pontas dos cabelos castanhos do rapaz em quem estava apoiada. – Ou... você não quer? Estou aqui oferecendo uma chance de você se livrar dele e você reluta tanto. Quer dizer que você diz que não gosta, mas no fim você adora ser a vadiazinha do Ivan, é isso? – ela puxou seu cabelo de um modo realmente doloroso.
– A-ai... N-não... Não...
– Então sem mais choro. – ela o soltou, fazendo com que a cabeça dele voltasse para trás de repente. – Não me deixe esperando... – a loira sorriu e ficou na ponta dos pés para dar um pequeno beijo nos lábios do rapaz antes de virar para sair.
Toris a observou até desaparecer pela porta, sentindo formigamentos no couro cabeludo de onde ela puxara seus cabelos e também onde seu corpo encostara no dela. Em que estava se metendo? Não podia fazer isso. Não é mentira que eu nunca quis que nada daquilo acontecesse com o senhor Ivan... mas não quero estar com Natalia sem gostar mais dela... De novo... isso me faz sentir um traidor...
Terminou o jantar do outro báltico e levou para ele, com a cabeça cheia.
Eduard estava dormindo quando chegou ao quarto. Podia ter deixado o jantar sobre uma cadeira próxima ao colchão, para que ele comesse quando acordasse, mas estaria frio e ruim, sem contar que ele não comia havia muitas horas. Tocou o braço dele de leve, chamando seu nome baixinho. Isso fez com que o loiro sussurrasse algo ao despertar. Ele parecia estar implorando ou algo assim, antes de abrir os olhos e escrutinar em volta até se situar. Toris não comentou nada; apenas sorriu e lhe mostrou o prato, que fumegava levemente. O estoniano suspirou e sentou com um pouco de dificuldade para começar a comer, enquanto o mais velho sentava ao lado dele para esperar até que terminasse a refeição.
Nesse meio tempo, começou a pensar nos irmãos eslavos. Será que era uma ideia tão ruim tentar voltar a se apaixonar por Natalia? Lembrava-se da fúria no rosto de Ivan quando sugerira dormir com o chefe dele para salvar Eduard... Ele não ficaria nada feliz em saber sobre aquilo. Mas o moreno não podia negar que tinha curiosidade em saber o que era tocar o corpo de uma mulher... como era ser envolvido pela carne de alguém ao invés de ser quem envolvia os outros... Em que diabos estava pensando...?
– ... ris? Toris?!
– Ah...! D-desculpa... Eduard... – sobressaltou-se com a voz do amigo.
– Em que você tanto pensa? O tempo todo você ficou com esse olhar perdido aí... – o estoniano lhe entregou o prato, enquanto massageava o maxilar com a mão livre.
– Ah... nada em especial. Você sabe... Os problemas, como sempre, surgem das fontes mais inesperadas... – o moreno deu um sorrisinho resignado enquanto se levantava com o prato na mão. – Você está sentindo dor?
– Um pouco. Mas o médico disse que é normal... Os efeitos do tétano demoram a sumir... – Eduard deu de ombros de leve. – Eu ainda tenho esses espasmos idiotas às vezes...
– Você parece bem conformado com tudo isso agora... – Toris comentou.
Eduard balançou a cabeça.
– Não estou conformado... Só aprendi e ainda tô aprendendo muitas coisas nesses últimos tempos. Não se chega a lugar nenhum agindo na raiva, no desespero ou sendo apático. Você tem que saber equilibrar... – ele se recostou contra a parede. – Tá certo que eu voltei meio... tenso. Mas foram dias infernais demais... Eu precisava de um tempo pra deixar meus pensamentos se acalmarem.
– Você... cresceu.
Ele realmente parecia mais maduro por dentro e por fora. Até o olhar estava mais grave que antes. O estoniano sorriu de leve ao ouvir isso, mas então resmungou:
– A verdade é que eu tô de saco cheio de não fazer nada e ficar encarando esse teto o dia todo... Todos os meus músculos doem de ócio...
– Mas você tem que aguentar... – o lituano o repreendeu. – Já foi uma luta conseguir levar você pro hospital uma vez... Se os pontos abrirem ou infeccionarem... Bem, não sei o que vamos fazer... Aguenta mais um pouco. Isso não é nada depois do que você passou.
Eduard o encarou com uma expressão estranha, antes de encarar o chão por alguns instantes. Então seu olhar subiu outra vez e ele deu outro sorriso de leve.
– Não tem jeito mesmo... – ele deu de ombros mais uma vez e suspirou. – Escuta... Hm... Obrigado por... eh... tudo o que você fez por mim e pelo Raivis. Eu não me lembro nem da metade do que acontecia por aqui, mas eu sei que você segurou muito a barra por nós. Você é o melhor amigo que alguém poderia ter.
De fato... ele havia crescido.
– Nossa... – Toris parou um instante, atônito, mas sorriu de verdade como não fazia havia tempos. – Eu realmente não esperava isso...
– Ah... – o estoniano pigarreou, visivelmente constrangido ou envergonhado pelas próprias palavras. – Falando no Raivis... você acha que ele vai vir me ver algum dia?
O lituano mordeu o lábio inferior.
– Sabe... ele se sente muito mal por tudo isso. Ele tá se culpando muito.
Eduard balançou a cabeça, então deitou completamente.
– É a cara desse idiota. – resmungou.
– Bem... posso apagar a luz?
– Pode. Obrigado de novo.
– De nada, Eduard... Boa noite.
E, com isso, Toris voltou à cozinha para lavar o prato e em seguida foi para o quarto onde dormia apenas com Raivis agora. Entrou no aposento pensando em Natalia, mas foi interceptado pelo letão antes mesmo de perceber onde se encontrava.
– Como ele tá? – Raivis fez sua pergunta-sagrada-de-toda-noite, como fazia sempre que Toris entrava, seja para dormir ou para trocar de roupa antes de ir passar a noite com Ivan ou dormindo sentado ao lado de Eduard.
Após um suspiro e apesar das palavras, sua voz era gentil quando redarguiu:
– Por que você mesmo não vai checar? Realmente pretende evitá-lo pra sempre?
Percebeu que o mais novo empalideceu imediatamente ante aquela ideia.
– N-não estou e-evitando n-ninguém. – ele murmurou, nervosamente, separando sua roupa usada para lavar no outro dia, enquanto Toris sentava na cama.
– Sei que deve ser bem difícil pra você, Raivis. Mas é mais difícil pra ele. Ainda assim, você vai deixá-lo enfrentar tudo isso sozinho?
– Você não entende, Toris, como é difícil olhar pra ele assim e pensar que é tudo minha culpa? – a expressão no rosto dele era triste, cheia de remorso. – Pensar que eu deveria estar no lugar dele, mas não estou e nada do que eu fizer pode consertar isso...?
– Eu sei que você não quer meus conselhos e corro o risco de levar mais patadas como na outra vez... Mas... eu não posso aceitar que acabe assim... Será que ele pensa isso? – o lituano fez um gesto para que ele sentasse ao seu lado. – Será que ele iria conseguir pensar isso, sendo que ele mesmo trocou de lugar com você pra que você não tivesse que passar por algo assim?
Raivis sentou e abraçou os próprios joelhos, pensativo. O lituano deu um daqueles seus pequenos sorrisos com ares maternais e pôs a mão sobre a cabeça do menor.
– Anda, Raivis. Vai lá falar com ele. Eduard precisa disso. Ele já ficou tempo demais sozinho em Vorkuta, no hospital e aqui depois que voltou. Eu tenho cuidado dele, mas não é a mesma coisa. Ele não deve se sentir à vontade pra falar e estar comigo, como se sentiria com você. Vá lá. Eu prometo que não vou perturbar vocês. Os dois vão ter a noite toda pra se resolver e quem sabe... pra outras coisas. – o lituano deu uma pequena risadinha, principalmente quando os olhos dele se arregalaram com sua última colocação.
– Toris, você... sabe?
O mais velho sorriu mais uma vez, mas apenas deu de ombros e disse:
– De quê? Eu não sei de nada.
– Ah... – o loiro enrubesceu um pouco e encarou o chão. – Agora eu lembrei que outro dia você disse que ele me amava...
– Achei que você já tinha percebido que eu sabia... Vocês são meio óbvios. Principalmente depois dessa história toda... Mas não há de que se envergonhar. Vá logo.
– É... bem... acho... que eu tenho que ir... Obrigado pela força.
O letão respirou fundo, então levantou rosto e sorriu fraquinho, ainda corado, antes de se pôr de pé. Ele saiu correndo em meio à sua inquietação, mas parou ao se lembrar de onde estava. Suspirou, quase mortificado com o próprio medo e ansiedade, prosseguindo a passos lentos pelo caminho — corredor, escada, corredor, escada, sótão. Parou à porta. Respirou entrecortado, sentindo arrepios de receio descerem pela espinha. Bateu.
– E-Eduard. Sou eu. Vou entrar.
Esperou resposta, mas ela não veio. Ainda assim, abriu a porta. Era possível ver o contorno do estoniano, deitado sobre o colchão velho, iluminado pela luz tênue que entrava pela claraboia. Ele se virou, enquanto colocava os óculos e Raivis acendeu a luz de um candeeiro a óleo pendurado próximo à porta. Quando o pavio foi aceso, os dois bálticos se encararam, em meio às sombras que tremulavam nas paredes e nos objetos.
– Er... Oi. Eduard.
– Oi.
Um silêncio constrangido pairou. Raivis perguntou-se brevemente o que fazia ali, porque sua presença parecia tão inconveniente. Tão errada. Mas se já estava ali, iria até o fim. Endireitou sua postura retraída e se aproximou, até sentar na ponta do colchão.
– Acho que precisamos conversar. – anunciou, se esforçando para olhá-lo.
Eduard ainda tinha aquela aparência abatida, olheiras roxas, bochechas fundas. Grande parte dos machucados em seu rosto havia cicatrizado, formando pequenas marcas brancas por toda parte. Apesar de toda a judiação que sua pele ainda carregava, ele tinha um olhar incomparavelmente mais vivo que a última vez em que o vira, quando ele recebera alta no hospital. Segurou o impulso de tocá-lo, porque tinha medo de ser rechaçado. Mas então o menor descobriu como era um medo vão quando ele perguntou:
– Por que demorou tanto?
Ofegou de alívio, permitindo-se tocar aquele rosto. Deu um pequeno sorriso pesaroso, como se pedisse desculpas. Lágrimas ameaçavam transbordar de seus olhos.
– Eu tinha medo.
– Medo? De me ver? De sentir pena? De não conseguir aguentar junto a mim? – o mais velho deitou a cabeça no colchão, fixando o olhar no peito do menor.
– Não. Medo de que você me odiasse, de que me culpasse. Eu sei que a culpa foi minha, mas ouvir você dizer isso... seria... – Raivis olhou para a abertura no teto, sem querer continuar aquela frase.
– Eu escolhi isso.
– Foi o que o Toris me disse mil vezes, mas ainda assim... Acho que nada vai tirar esse sentimento de dentro de mim. – o letão suspirou, engolindo o choro com força. – Eu também tinha medo do que ia sentir ao ver você e ficar sozinho com você. Eu tinha medo de achar que não podia ficar ao seu lado. Entende? Eu não tinha medo de não conseguir. Tinha medo de ter medo...
Eduard riu fraquinho contra o lençol.
– Agora você acha que pode?
– Se você me quiser, eu fico.
– E por que eu não iria querer? Não sei se você percebeu, mas eu teria dado minha vida por você. E ainda daria mesmo agora. Loll.
Raivis sorriu, mesmo que houvesse compreendido que ele o chamara de idiota em sua língua.
– Fico feliz em saber que você tá mais calmo... Você chegou aqui com os nervos em frangalhos... – sua mão pousou na cabeça do outro, acariciando os cabelos os quais, apesar de quebrados, já estavam mais macios e limpos, exceto por uma caspa insistente que ele havia adquirido.
– É... Agora eu já tô bem melhor... Devo ter assustado você. Sinto muito por isso. – o estoniano virou e, com algum esforço, apoiou-se com os braços para sentar, mantendo o lençol puído cobrindo suas pernas cuidadosamente.
– Depois do que você passou, eu não iria esperar que você voltasse como foi... É só... é que... – o mais novo baixou o rosto, sem saber quais palavras usar.
– A culpa. Olha, eu realmente não culpo você por nada. Se eu tiver que odiar alguém, esse “alguém” são os soviéticos. Juro que espero não ver o Braginski por agora, porque senão enfio minha muleta na goela dele... – Eduard ainda conseguiu fazer piada.
– Melhor você não fazer nada do tipo... Você não vai querer voltar pra lá, né...?
Eduard estremeceu e o mais novo percebeu como não deveria ter dito aquilo. Como eu sou burro... Mesmo que ele parecesse relativamente bem agora, obviamente aquelas lembranças não sumiriam tão facilmente. Talvez nunca sumissem. Era algo tão delicado... E Raivis nem sabia se futuramente era melhor perguntar a ele ou esperar que ele mesmo quisesse falar sobre Vorkuta. Principalmente depois daquela reação... Não queria deixá-lo desconfortável, mas não queria que ele achasse que não podia confiar em Raivis, que ele era muito criança e não aguentaria ouvir. Ou que ele não queria ouvir. Mas não sabia até onde podia cutucar.
– Hoje mais cedo, eu falei com o Toris... – Eduard murmurou com um riso frustrado enquanto segurava a própria mão que teimava em contrair sozinha. – e achava que eu já tinha superado mais do que eu realmente superei... Que merda.
– Eduard... acho... que não dá pra esperar que você supere assim... – e sozinho... – Acho que conversar ajuda, então... se você quiser conversar comigo... Se você quiser me contar algo, pode contar. Eu vou ouvir o que quer que seja que você tenha a dizer... – mergulhou os dedos no cabelo dele outra vez.
Era tão bom tocá-lo. Sentir o calor dele. Sentir que estava vivo. Vê-lo fechar os olhos, mesmo que fosse pouco tempo. O letão quis tanto abraçá-lo, beijá-lo e dizer que tudo ficaria bem. Nunca imaginou que um dia pensaria isso com relação a ele, porque a lógica era que Eduard fosse a pessoa mais forte ali, que ele iria protegê-lo. Como eu sou estúpido... Inútil... Ridículo... Olha só o que eu fiz... Esforçou-se para que estes pensamentos não transparecessem em seu rosto.
– Você ouviria mesmo?
– C-claro que sim... Pode me contar qualquer coisa, Eduard!
O estoniano pensou um pouco, então prosseguiu:
– Não quis dizer na frente do Toris, mas... eu fiz umas coisas horríveis. Eu não pretendia contar pra ninguém, mas acho que não consigo lidar com isso sozinho.
Raivis sentiu frio na espinha. O que aqueles malditos haviam feito com ele...?
– Diga. O que houve?
– É pior que horrível – ele repetiu, visivelmente se esforçando para manter a calma. – E eu me odeio por isso, por mais que eu saiba que não foi totalmente minha culpa.
– O que houve?
– Teve um dia em que eu vi uns guardas mexerem com uma moça do meu grupo. Eles começaram a querer tirar a roupa dela. Sabe, há coisas que você aceita calado, de cabeça baixa, mas há outras que não dá. E eu tive que ir e me meter. Eu tive que ir tentar bancar o herói... e isso custou muito caro...
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