Dotyanutsya do Tebya
12 Parte XI: Sadalīti
Notas iniciais
Dali aos próximos quatro dias, o estoniano apenas piorou. A febre continuou, o corte no pé inflamou mais do que antes, a frequência dos espasmos aumentou e, a cada instante, ele ficava com um aspecto mais doentio. A princípio, delirava com Vorkuta quando a febre estava muito alta, até mesmo quando dormia, mas gradualmente foi se calando, à medida que seu maxilar endurecia mais frequentemente naquele sorriso terrível. Raivis permaneceu ao lado dele, mas apenas podia tentar forçá-lo a comer, trocar suas roupas quando já estavam suadas ou sujas. Trocar as ataduras era uma batalha homérica, porque, se o mínimo de perturbação no ambiente já o fazia entrar crise, tentar tocá-lo fazia que com os espasmos aumentassem tanto que uma vez quase quebrara a mão ao dar um soco na parede involuntariamente.
Ivan havia conseguido mais um pouco de penicilina, mas era tão pouca que acabou em dois tempos, então a inflamação piorou, de modo que o arroxeado do pé subiu até o joelho e havia começado a exalar um odor fétido, que atravessava as ataduras. Os esforços, principalmente de Raivis, não mudavam o quadro de Eduard, mas o lituano sabia que o menor não queria aceitar o destino iminente e sentar sem fazer nada além de observar até que o corpo do estoniano não aguentasse mais e parasse.
– O que eu faço, Eduard? O que eu faço pra que você melhore? – o pequeno perguntou num dos dias de agonia, com a voz embargada, enquanto tentavam segurar os braços do outro rapaz, para que ele não se machucasse ao convulsionar como fazia naquele instante. – O que eu faço pra acabar com isso? Ele não tá respirando direito, Toris...
O estoniano apertava os olhos e linhas de lágrimas brilhavam nos cílios claros dele, enquanto ele lutava para puxar o ar, mas não conseguia, mesmo que Raivis tentasse ajudar massageando seu peito. Era bem mais difícil saber que ele passava por tudo aquilo consciente na maior parte das vezes. Não havia o que fazer, mas o moreno não tinha um coração frio para dizer isso. Em meio ao desespero, teve uma ideia que considerou bastante idiota, mas era a única coisa que podia fazer, mesmo que fosse ser mais humilhado, no fim — se é que podia. E as probabilidades de dar certo eram mínimas, mas iria tentar, pensou quando Eduard finalmente se acalmou.
– Eu vou tentar uma coisa... Reza pra que dê certo. – levantou-se do banquinho em que estivera sentado e saiu do sótão ignorando um protesto no menor.
Fez o café para Ivan, Natalia e Yekaterina e arrumou a mesa tão rápido quanto nunca na vida, saindo para a varanda logo em seguida. Sentou-se nos degraus da escada, observando o céu, o qual emanava uma luz laranjada que mudava gradualmente para o azul escuro à medida que se subia o olhar. Venha logo, por favor... Ficou esperando o russo, ensaiando o que iria dizer para ele e para a outra pessoa envolvida no plano. Se pudesse, invadiria a sala de jantar naquele instante mesmo, mas sabia que não deveria irritar Ivan.
Ouviu a voz de Eduard em sua mente dizendo: "eu vi que não estamos construindo nada pra nós mesmos". Era verdade, não era? Porque obviamente eles haviam de tomar sucos, café, leite, com uma variedade do que comer, enquanto quem plantava e preparava a refeição comia pão amanhecido e duro, quando sobrava. Porque obviamente quem arrumava suas camas confortáveis havia de dormir em colchões cheios de caroços ou colchões tão finos que pareciam mantas. Porque obviamente quem era obrigado a ser a base do sistema havia de dar a vida para que o mesmo permanecesse de pé. Porque obviamente você havia de aceitar ter sua honra destruída e se desfazer do próprio orgulho para sequer ter permissão de viver. Era uma lógica tão óbvia. Toris sentiu tanta ira. Como podia ter se esquecido disso em algum momento? Como pudera deixar de sentir raiva daquilo todos os dias em troca de umas carícias ordinárias?
– Toris? O que faz aqui?
O lituano se sobressaltou, mas levantou, encarando o chão, porque não queria ver o rosto do russo. Sentia tanta decepção e ódio de tudo, que tinha medo do que ainda podia sentir ao olhá-lo.
– Eu... gostaria de pedir que me leve ao seu chefe. – disse o mais firmemente possível.
– O que você quer com ele? – Ivan pôs as mãos nos bolsos e se inclinou para ver o rosto de Toris, mas ele apenas baixou mais o queixo.
– Não vou sentar e assistir meu amigo morrer, senhor Ivan. Se é seu chefe quem não permite que o tratem, vou tentar fazer um acordo com ele.
O loiro pareceu achar aquilo levemente engraçado.
– Acho difícil você ter algo a dizer que interesse a ele pra que façam um acordo. – ele riu.
Toris se empertigou, juntando os cacos de dignidade que ainda pensava ter.
– Vou tentar.
– O que você tem a negociar?
– Aquele crucifixo que você não queria que eu usasse é de ouro. Não é grande coisa, mas é melhor que nada. – Toris hesitou um pouco porque tinha vergonha de prosseguir, mas o que podia fazer? O que era seu orgulho perto da vida de um amigo? – E também... Eu posso fazer o que ele quiser que eu faça. Não importa o que seja. Nem que eu tenha que oferecer meu corpo.
O riso na voz do loiro havia morrido quando perguntou:
– O que você disse?
– É-é só o que eu tenho... É a única coisa pra que eu sirvo, não é? Se ele aceitar, se isso salvar a vida do Eduard, eu não me importo em ter que deitar com ele... quantas vezes ele quiser... – Toris declarou, tentando manter a voz firme, enquanto ainda fitava o chão.
– Isso não vai acontecer. – o riso que reapareceu na voz do loiro era diferente agora. Ele havia odiado a ideia. Era possível ouvir no tom de voz dele.
– Sei que ele pode achar nojento por eu ser homem. Mas pelo menos acho que isso eu sei fazer... Você gosta das coisas que eu faço, não é? Então se você disser a ele... Se você me ajudar a convencê-lo... Eduard pode se recuperar...
– Você não vai dormir com ninguém. Eu não permito. Volte lá pra dentro. – ele começou a descer a escadinha, mas Toris correu e ficou no caminho.
– Por favor, senhor Ivan... – colocou as mãos nos braços dele, desesperado. – Não posso deixar que o Eduard morra... Nós não temos dinheiro, não temos bens, não temos nada a dar em troca da permissão, então, por favor, ajude. Por favor... Não feche os olhos pra isso... Ele é um ser humano. Não merece isso...
Já nem tinha mais palavras para implorar. Sabia que ele não se importava, mas não iria desistir. Ivan suspirou, olhando para o horizonte, que agora já estava azul claro.
– Levem-no.
No fundo, Toris não tinha confiança sobre conseguir convencê-lo. Aquilo o surpreendeu.
– S... Senhor Ivan... ? É verdade?
– Vocês vão me meter em problemas... mas levem de uma vez. Não digam nada sobre como ele ficou assim quando estiverem lá fora. Se vocês falarem, vai ser um problema maior pra todos nós. Vou mandar um dos guardas ir junto...
– O-obrigado... – ainda conseguiu sorrir afinal, quando se virou para entrar.
– E mais uma coisa: não quero você repetindo isso, Toris. Ninguém mais vai tocar você. – declarou o russo, sério.
O lituano preferiu não fazer nada além de assentir com a cabeça. Não importava, nada importava. Havia conseguido afinal!
– Então vá...
Ivan se virou e andou pelo caminho que levava à saída para falar com um dos guardas, mas isso Toris não viu porque estava correndo de volta ao sótão.
O alívio, após voltarem do hospital, era tenso. Aquilo era algo, mas não era garantia de que ele seria salvo. Muitos dias se passaram sem que Eduard fosse devidamente tratado. O estado dele era obviamente crítico. Talvez fosse um grande guerreiro, pelo simples fato de ainda ter aguentado tudo aquilo, mas o lituano não queria pensar nisso. Não queria. Olhou para Raivis enquanto cruzavam a porta da casa. Não queria admitir, mas o vazio que pairava sobre eles se assemelhava ao vazio de um luto, porque aquele momento era o de estarem cuidando de Eduard. Porque não o veriam em breve, nem mesmo teriam notícias em breve, então ele podia até já estar morto àquela hora. E quando iriam saber? Talvez Raivis estivesse pensando nisso naquele momento. O vinco entre as sobrancelhas dele parecia mais fundo, e ele não tinha mais aquele eterno ar infantil. Toris apenas notou naquele momento. Ele não parecia mais ter quinze anos.
– Eu vou... vou lavar os banheiros... – murmurou o mais novo num tom de voz tão estranho. Fez Toris começar a questionar a sanidade dele.
– Se você quiser, pode ir lá pro quatro, dormir um pouco. Eu cubro você...
– Não vou conseguir dormir. Melhor eu ir fazer algo. Aliás, o chefe do senhor Ivan e a senhorita Natália já brigaram comigo porque eu não vinha fazendo meu trabalho direito. Melhor eu ir... Não posso mais deixar tudo nas suas costas. Você tem trabalhado por mim e pelo Eduard... É, eu vou... vou indo.
E com isso, Raivis subiu as escadas, enquanto Toris o acompanhava com os olhos. Bem, era melhor que ele tentasse ocupar a mente então. Não que realmente fosse possível, mas ficar sem fazer nada era pior. O moreno suspirou, então também subiu para deixar seu casaco no quarto antes de descer para limpar a cozinha, a primeira tarefa do seu dia, o qual estava começando tarde. E o trabalho o desgastou mais que o normal, como vinha acontecendo nos últimos tempos. Era tudo tão cansativo. Naquela noite, deitou tarde como sempre. Não se lembrava de haver estado tão exausto assim em tempos. Como podia haver tanto trabalho a se fazer todos os dias? Também... 15 pessoas numa só casa... E agora apenas duas pessoas para realizar todo o trabalho ali dentro...
Raivis chegou algum tempo depois, quando Toris estava começando a cair no sono, e se jogou ao seu lado, no escuro. O cheiro de água sanitária invadiu as narinas do lituano. Ele havia limpado toda a enorme cozinha antes de deitar, sozinho, recusando sua ajuda. Permaneceram em silêncio, ambos plenamente acordados, até que ele perguntou baixinho e embargado:
– Você acha que ele vai voltar?
Toris não quis responder. Queria ser otimista, realmente queria, mas as perspectivas não eram muito favoráveis.
– Vão fazer o possível pra que ele volte...
– Então você acha que não... Se ele não voltar, eu juro que boto fogo nessa casa com o Braginski dentro... Eu juro. – o menor enterrou o rosto contra o travesseiro e Toris apenas pôde entender aquela reação, embora tivesse sentido uma dor no peito ao ouvir aquilo.
– Eduard vai voltar... – sussurrou para ele, com a voz gentil. – Deus não vai deixar... que acabe assim pra ele. Eu tenho certeza.
– Deus? – o letão deu um risinho triste. – Acho que nós somos mesmo tudo isso de ruim que os soviéticos dizem... um lixo imundo. Então Deus não gosta de nós.
– Não diga isso. Deus sabe nossos limites e não nos dá mais do que podemos aguentar. Nós temos que ser fortes, Raivis. Um dia, esse sofrimento vai acabar...
A vozinha infantil dele tremia demais quando ele retrucou:
– Quando estivermos em um buraco, com eles jogando terra nas nossas cabeças? Esse Deus não nos vê como gente. Ele não dá a minha pra nenhum de nós! Ele deve ser soviético e deve estar lá, rindo da sua cara, da minha, da do Eduard, enquanto pisoteia as nossas vidas. Deve estar rindo da cara de todos nós lá de cima! Ele deve rir toda vez que algum de nós chora. Você deve mesmo ser idiota pra acreditar... Não... nem você acredita nesse seu Deus, Toris. Você soa hipócrita dizendo isso quando já tentou se matar... Não sei nem por que eu ainda me importo em ouvir você. – soluçou antes de virar de costas para o mais velho.
O lituano ainda quis dizer algo, mas estava em choque demais para conseguir proferir algo. Foram palavras fortes, dolorosas. Como rebater aquilo? Os segundos passaram e passaram, constrangedores, até que o momento para falar já não existia mais; então resolveu parar de pensar nisso, mas não havia nada de bom em sua mente para substituir tais pensamentos. O que ele dissera fazia sentido, mas não era verdade. Acreditava em Deus, mas havia momentos na vida em que o desespero era mais forte e ameaçava esmagá-lo e Toris só queria parar de sentir isso.
Mas Deus sabe nossos limites, sabe. Eu posso aguentar... Eu posso aguentar... Todos nós podemos. Encarou o teto escuro. Podemos? Será que Deus os odiava mesmo? Não, não odiava. Tinha certeza de que no fim seriam compensados por tudo o que sofriam. No fim, haveria um lugar bonito e nada para machucá-los, onde poderiam ser felizes. Sentiu suas lágrimas escorrendo pelas têmporas. Eu sei que existe... Por favor, tem que existir. Tem que existir algo que justifique essa vida, porque eu não sei mais... não sei mais o que faço pra me convencer... Não quero mais desistir...
Quando acordou no outro dia, Raivis já havia saído. Isso fez um vazio se infiltrar em seu peito. Por um lado, foi bom ele não estar ali, pois não saberia o que dizer ao encará-lo. Estava chateado afinal. Mas assim, sentia que ele estava ainda mais irritado do que pensava. Levantou-se de uma vez e foi para a cozinha, sem ter muita certeza de que gostaria de encontrá-lo, mas não havia alternativa. Precisava trabalhar. E ele realmente estava lá, esquentando a água para a infusão do chá. Na verdade, ele estava debruçado contra o balcão, com o rosto escondido entre as mãos, esperando a água ferver. Toris disse um "bom dia" baixinho e abriu o armário para pegar uma panela. Raivis levantou o rosto um pouco desnorteado ao ouvir sua voz, então focalizou o lituano e consertou sua postura.
– B-Bom dia. – ele gaguejou parecendo bastante constrangido. – Hm... Toris... Eu queria pedir perdão. Você sabe que eu sempre falo sem pensar. E eu ando tão irritado... Tudo me dá tanta raiva esses dias, então ontem eu acabei descontando em você... Você não merecia ouvir nada daquilo, quando só o que você faz é querer ajudar...
– Tudo bem. Eu entendo. – Toris sorriu o mais simpático possível (o que não foi muito, dado o fato de que parecia haver algo em seu peito corroendo seus sentimentos bons). – Você tá estressado... Não se preocupa.
Resolveu fazer algo do outro lado da cozinha porque o silêncio que caiu foi constrangedor. Realmente, o lituano não guardava mágoa de Raivis em particular, porque o menor tinha o direito de sentir o que quer que fosse, e não havia nenhum "mas" com relação a isso. Apenas estava deprimido. Não queria conversar. O que ouvira, mesmo que houvesse sido dito no ímpeto da raiva, havia aberto uma ferida grande em algum lugar dentro dele. Mesmo que Raivis estivesse mal, havia um limite até onde alguém pode passar por cima dos próprios sentimentos para consolar outra pessoa. Toris era humano, apenas. E um bem perdido e confuso, diga-se de passagem. Terminou o que fazia depressa e saiu da cozinha para o quintal, para lavar a montanha de roupas sujas que estava lhe esperando. Sem pensar muito, começou pelas de Ivan, depois de Natália, de Yekaterina e posteriormente as dos outros sete, as quais estavam praticamente inutilizáveis do trabalho nas plantações. Por último, lavou as suas e as dos outros dois bálticos.
Era vergonhoso, mas antes de todo o problema com Eduard, Ivan o livrara de alguns trabalhos, sem que ninguém percebesse. Na época, havia até começado a se acostumar com isso. Olhou para os dedos vermelhos e engelhados, mas ainda assim cuja pele era grossa de tanto criar bolhas. Agora não havia como livrá-lo de nada sem que percebessem, então estava trabalhando por dois ou por três, dependendo do dia. Não que ainda fosse aceitar benefícios de Ivan. Precisava parar com tudo isso.
Pôs novamente as mãos na massa. Aquela pilha parecia que nunca iria acabar, mas alguma hora acabou, então o moreno subiu para trocar sua camisa encharcada. Entretanto, esbarrou com Ivan no caminho. Qual não foi sua surpresa quando viu que havia uma faixa enrolada no pescoço dele e outras na testa, cobrindo até o olho direito. Ao perceber alguém em seu caminho, ele levantou o olho livre, mas apenas entrou no escritório e bateu a porta, sem dizer nada. Toris ficou parado no meio do corredor, atônito. Não... Não podia ter nada a ver com Eduard...? Podia?
Os minutos passavam devagar enquanto Yekaterina encarava o teto escuro do próprio quarto. Podia se virar de lado, podia tirar o travesseiro, podia fazer o que fosse, mas qualquer posição era desconfortável. Não conseguia dormir. Não conseguia lidar com o que havia ouvido mais cedo naquele domingo, por mais que tentasse entender. Não, não havia nada a ser entendido. Era insanidade demais. O que andava acontecendo naquela casa debaixo de seu nariz por todo esse tempo? Primeiro Ivan, que forçava um rapaz a dormir com ele alegando estar apaixonado, depois isso...?
O médico saiu do quarto de Natalia onde a examinava, acompanhado de uma mocinha de vestido florido e cabelos castanhos presos num coque baixo. Ambos tinham semblantes bastante sérios, ao encarar a ucraniana parada no meio do corredor.
– Srta. Braginskaya... – ele começou gravemente. – Bem... receio lhe dizer, minha cara, que sua irmã... perdeu o bebê. Ela sofreu um aborto espontâneo.
A ucraniana arregalou os olhos de surpresa, olhando do homem à pequena garota a sua frente. Por um momento, achou que havia ouvido errado. Aquilo não fazia sentido.
– B-bebê?
O médico franziu a testa.
– O filho que ela esperava. – respondeu. – Também receio lhe informar que o útero dela está comprometido a ponto de que ela provavelmente nunca chegue a completar nenhuma gravidez... Ela mesma me disse que isso já aconteceu outras vezes...
... Gravidez... gravidez... e já havia se repetido outras vezes... Ivan era o pai... obviamente. E tudo acontecia contra a vontade dele. “Ela... dizia que era assim que se fazia. Que quando a gente gosta de alguém, a pessoa tem que ser nossa mesmo que diga que não quer”. Ele mesmo lhe dissera isso algum dia. Por que não percebera antes? Por isso ele achava que forçando aquele rapaz resolveria o problema de seu amor não correspondido... Provavelmente por isso ele achava que obrigando todos a viveram naquela casa resolveria seu problema de solidão. Toda aquela obsessão de Natalia, que parecia inocente aos olhos ocupados de Yekaterina, havia culminado naquilo.
– Como eu pude deixar que acabasse assim?
Resolveu falar com Ivan sobre isso imediatamente, mesmo que fosse o meio da noite. Não podia deixar que aquilo se arrastasse. Era o que pensava, mas a conversa não foi como o planejado. Encontrou-o com faixas no rosto e no pescoço. E quando lhe perguntara o motivo, sua resposta foi:
– Hm... Desobedeci meu chefe. Ele me puniu por isso.
– O que você fez pra ser punido, querido?
Ivan a olhou brevemente antes de continuar.
– Deixei que levassem um dos bálticos ao hospital, aquele que foi pro gulag. Ele cortou o pé e estava infeccionando. Meu chefe acha perigoso deixar que saibam quando as pessoas se machucam aqui, por isso não deixamos que ele fosse. Mas... – o olhar de seu irmão ficou um pouco desfocado enquanto ele parecia se lembrar de algo, entretanto logo voltou ao normal. – eu deixei. E ele não gostou. Mas ele deixou o médico vir ver a Natalia hoje... Você acha que eu errei, siestra, em deixar que levassem o Eduard? Agora podem descobrir que as pessoas se machucam aqui. Podem levar todos embora...
– Querido isto não está certo... O que você sentiria se estivesse no lugar dele? Se você estivesse machucado e alguém deixasse você sofrer... mesmo que esse alguém tivesse a oportunidade de ajudá-lo?
– Como faziam com a gente no kolkhoz?
Yekaterina fez menção de falar, então pensou direito. Era exatamente como faziam nos kolkhozy. Cobriu o rosto com as mãos e suspirou, antes de sentar ao lado de Ivan, na cama dele. Não podia culpá-lo por ser assim, podia? Parecia que tudo conspirava...
– Dorogoi... Nós já passamos por muitas coisas ruins na vida. Não faça essas coisas aos outros, Vanya. Ouça o que as pessoas dizem. Aquele rapaz precisava de ajuda... Eu sei que seu chefe disse que era errado, mas, se ele morresse, os amigos dele iriam sofrer. Ele mesmo estava sofrendo. Você acha isso justo?
– Mas nós devemos ficar juntos... Eles não entendem...
– Vanya, de que adianta ficarmos juntos se nem todos estão felizes? Não tem diferença para o que a Natalia faz com você. É, eu sei de tudo... – ela completou quando recebeu um olhar surpreso. Nunca iria poder falar do tal bebê. Ele não entenderia. Assim como Natalia não havia entendido. Eles eram duas crianças.
– Ela disse que me ama, então tem que ser assim...
– Está errado, querido. Tudo está errado!
Toris e Raivis ficaram alguns dias sem saber o que se passava com Eduard, como era de praxe na casa de Ivan. Precisavam dizer aos outros que ele estava se recuperando, sem dizer que ele havia parado no hospital. Nesse meio tempo, Toris apenas observou enquanto Raivis se desesperava de um modo relativamente contido. Surpreendeu-se consigo mesmo porque não tentou mais consolá-lo. Depois da última vez, preferiu ficar quieto e não se meter mais. Até que o pequeno finalmente obteve permissão para visitar o outro rapaz e, quando ele voltou, o lituano desistiu de sua nova política de se distanciar e pensou seriamente que deveria ter ido no lugar dele.
Chegando ao quarto, já tarde da noite, Raivis chorava tanto, mas tanto, que partia o coração do mais velho e o fazia se sentir tão impotente e estúpido por apenas ficar ali parado, sentado na cama que os três dividiam, encarando-o. De algum modo, até imaginava o que ele diria e não queria ouvir. Começou a sentir desespero, mas não quis demonstrar, nem apressar o letão para que falasse de uma vez. Se ele precisava chorar, que chorasse. Engoliu o próprio choro porque alguém precisava manter o controle.
– E-ele... e-ele... tinha tétano. E ele... tá muito... muito mal, Toris. – o mais novo gaguejou com a voz embargada. – Disseram que ele ainda tava mal no hospital porque o remédio que estão dando é muito forte, mas ele tava tão... tão fraquinho... Quando eu entrei lá, ele nem parecia mais vivo... Se não fosse por aquele sorriso horrível...
E Toris não soube se deveria se sentir aliviado por sua pressuposição ser falsa ou se deveria continuar a sentir aquela opressão no peito pelo medo de que ela poderia se tornar verdadeira a qualquer momento.
– E... e... e... amputaram a perna dele. – ele chorou mais ainda, cobrindo o rosto com as mãos. – Eu deveria ter ido no lugar dele. E agora, ele perdeu a perna e tá quase morrendo porque EU derrubei umas vodcas estúpidas! Vodcas!! Por quê, Toris? Por que isso teve que acontecer?
O lituano se levantou e abraçou o outro báltico, sentindo as mãozinhas molhadas de lágrimas agarrando as costas de sua camisa, enquanto ele enfiava a cabeça no seu peito.
– Eu não sei por que teve que acontecer, Raivis. Mas ele escolheu ir no seu lugar sabendo dos riscos, porque ele queria que fosse assim. Porque ele queria te poupar disso. Porque ele te ama...
– Mas não é justo... Não é justo! Eu não quero mais viver assim! Não quero mais! Quero ir embora desse inferno! – o loiro falou contra o seu peito, que já estava molhado das lágrimas dele.
– Raivis, cuidado... Podem te ouvir. – Toris sussurrou, olhando para a porta fechada.
– Que se dane! Que venham e me matem! Eu não me importo! – ele afastou o rosto vermelho e triste para encarar o maior.
– Não é assim. Por favor, não fique assim. Eduard foi no seu lugar pra proteger você. Não desperdice o esforço dele. Ele ainda tá vivo e vai lutar, então lute com ele. Lute por ele. No fim, tudo vai ficar bem... – Toris se esforçou para sorrir, mas apenas conseguiu que Raivis se afastasse completamente com suas palavras.
– Não quero ouvir isso. Toda vez você diz essas coisas, mas nada melhora! Nada dá certo! Cada vez piora mais e mais, cada vez nós sofremos mais e mais! Você tá mesmo do lado do Braginski? Você concorda com ele e com todas as monstruosidades que ele faz, Toris?!
Nunca o havia visto perder o controle antes, nem mesmo quando seus pais foram mortos pelo exército de Beilschmidt. E agora já era a segunda vez. Talvez tudo aquilo acumulado fosse demais para ele, após anos e anos.
– Não. É claro que não...
– Então vamos fugir. Desse jeito, isso não vai ter fim!
– Você quer sair daqui assim? E o Eduard?
– Nós o buscaremos no hospital e depois fugimos.
– Os homens do senhor Ivan irão atrás de nós e nos pegarão antes mesmo que consigamos chegar ao hospital. Mesmo que nós conseguíssemos fugir, iriamos morrer de fome e frio na rua. – Toris exalou o ar com força. – Não, Raivis. Não dá. Desse jeito não. Fica calmo e pensa direito. Pensa no Eduard. Eu sei que ele é o que mais quer ir embora, mas o que vai ser dele fora daqui assim nesse momento? Ele tem que voltar e se recuperar. Agora as coisas estão muito mais complicadas.
– Não aguento mais... – ele nem ouvia enquanto deixava escapar uns soluços contidos; Raivis era desespero puro e cru naquele momento.
– Eu sei. Eu também não. Mas olha o que aconteceu comigo na última vez... Vamos ser racionais, tá bom? Por favor. Deixa o Eduard voltar e nós vamos pensar no que fazer. Juntos. Seja forte por ele, tá bom? – sorriu de leve.
Raivis o olhou ainda com os olhos azuis úmidos, parecendo que ainda tinha muito a chorar, mas assim mesmo assentiu. Toris lhe deu um sorriso maior, enquanto afagava seus cabelos. Foi então que percebeu que, embora sorrisse, morria o embrião do perdão que foi fecundado em seu coração quando Ivan permitira levar Eduard ao hospital. No fim das contas, ele havia sido responsável por aquilo tudo e não tivera a mínima intenção de consertar nada, senão quando correra o risco de perder a hegemonia sobre seu brinquedinho. Não conseguiu pensar mais nada de bom sobre ele e passou a dormir de costas quando estavam juntos. Se ele percebeu, nunca soube. Mas não se importava.
Três semanas depois da internação de Eduard, receberam a notícia de que ele tivera alta. Raivis ficou aflito para ir de uma vez assim que a mensagem chegou, mas Toris lembrou-lhe de que precisavam pedir permissão.
– Deixa que eu falo, Raivis. Você só baixa a cabeça e fica perto de mim.
O menor assentiu, então Toris bateu na porta do escritório de Ivan, que foi quem a abriu.
– Toris?
O lituano baixou o rosto imediatamente, sem deixar de notar que o chefe dele estava sentado atrás da escrivaninha, imerso em pilhas e pilhas de documentos.
– Perdão pela interrupção, senhores, mas Eduard recebeu alta hoje e nós pedimos permissão para ir buscá-lo. – disse, encarando os próprios pés.
– Quem é Eduard? – perguntou o chefe de Ivan, desinteressado, sem levantar os olhos dos papeis que revirava.
– Eduard von Bock. – replicou o russo. – O outro báltico.
– O da perna?
– Sim.
– Certo... – o chefe de Ivan se levantou e abriu a janela, gritando para alguém lá embaixo: – Hey, vocês. Acompanhem os dois bálticos até o hospital. Eles vão buscar o outro. – então ele voltou a se sentar e revirar os documentos. – Sumam daqui.
– Obrigado. Com licença. – Toris colocou as mãos nos ombros de Raivis e o conduziu pelo corredor, sem levantar a cabeça uma vez sequer. Por isso, acabou não vendo o olhar de Ivan sobre si. Ele parecia ligeiramente decepcionado.
Completamente alheios a isto, seguiram para fora da casa, para a rua, até a estação. E nisso foi boa parte de suas economias, pois precisaram pagas as passagens dos homens, que carregavam rifles e assustaram aos passageiros do trem. A única coisa que puderam fazer foi se encolher nos próprios assentos, esperando que aquele trem corresse rápido e chegassem de uma vez ao destino. Após descerem, ainda passaram em uma loja antes de seguirem para o hospital. Então os dois se dirigiram ao quarto de Eduard, entrando com um dos guardas.
– O médico já fez os últimos exames. Eu já posso ir. – Eduard falou, sentado na cama com o lençol cobrindo a perna inteira e a amputada. Ele observava as próprias mãos cujas unhas já estavam crescendo novamente.
– É... Fomos avisados. – Toris lhe dirigiu um sorriso.
O maior os encarava com um olhar estranho e ligeiramente vago. Então seus olhos desceram para os objetos que Raivis segurava e o pouco de cor que havia em suas bochechas sumiu.
– Nós compramos pra você, Eduard... – timidamente, ele estendeu um par de muletas velhas e gastas.
O estoniano suspirou silenciosamente, e Toris nem imaginou como aquilo deveria ser difícil. Mesmo que ele pudesse superar e aprender a lidar com isso, não era algo que seria desfeito ou que voltaria ao normal com o tempo. Não era algo que podia ser ignorado e escondido. Ele teria que ficar para o resto da vida apoiado naqueles pedaços velhos de madeira. Era um motivo para sentir ódio dos soviéticos todos os dias. Olhou para Raivis que ainda segurava as muletas, com um brilho úmido dos olhos, até que Eduard relutantemente as pegou.
– Quer ajuda? – Raivis se adiantou um pouco.
– Não precisa. – ele colocou as pontas no chão, na mesma direção, então içou o corpo, se ajeitando de qualquer modo sobre elas. – Obrigado, mas não precisa. Eu vou ficar bem. Não quero ajuda.
E com isso, ele deu os primeiros e infelizes passos com o presente a cobrar dado pelos soviéticos — suas novas pernas.
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