Dotyanutsya do Tebya
8 Parte VII: Я сошла с ума — Ya Soshla S Uma
Notas iniciais
Mais uma vez, Ivan começou a passar longos períodos fora de casa por causa do trabalho. Estava tendo problemas com algum americano de outro bairro e alguns europeus do mesmo em que moravam. Seus aliados mais representativos — um norte-coreano excêntrico de um bairro próximo, um cubano de gênio fortíssimo de um bairro distante e um mandarim baixinho da rua de baixo — andavam mais preocupados com seus conflitos pessoais para se preocupar com a ideologia que defendiam.
Toris, por sua vez, não conseguia esquecer as palavras de Eduard, e isto o fez voltar a si e tentar analisar tudo o que estava acontecendo em sua vida e seu “relacionamento” com o russo... Por dias, nas raras ocasiões em que Ivan parava em casa, o lituano fugia como o Diabo foge da cruz, porque queria pensar sobre tudo de um modo menos tendencioso e este modo menos tendencioso culminava em ver Ivan o mínimo possível e evitar os argumentos revolucionários de Eduard.
Porém, fatalmente, uma hora ou outra encontrou Ivan; e esta foi uma noite “animada” no sótão. Sentiu ódio de si mesmo ao notar como um ou dois toques mais gentis que o habitual o faziam automaticamente ceder mais fácil, apoiar-se no pescoço dele, gemer sem muito pudor e nem mesmo conseguia conter tais gemidos. Sentiu que já chegara ao fundo do poço. Era um masoquista completo.
Ainda assim, ainda havia aquela parte dentro dele que gostaria de sair, respirar outros ares, viver como um ser humano normal, sem precisar ter medo o tempo todo de fazer algo que merecesse punição. Gostaria de voltar a ser livre, trabalhar para si, ter sua casa, suas próprias coisas, poder amar e decidir quando, onde e principalmente com quem passaria a noite. Mas as correntes de Ivan não permitiam. “Seja bom comigo, me obedeça e você será recompensado”, era a política dele. Que tipo de ideologia era essa? Que tipo de relacionamento pode haver sob um sistema desses?
Era este tipo de confusão que passava por sua mente enquanto a claridade da manhã entrava por uma das janelinhas e vinha atacar seus olhos. Enterrou o rosto no travesseiro, encolhendo-se contra o chão forrado, de bruços sobre ele. Precisava levantar, mas incomumente não conseguiu porque não tinha vontade. Esfregou de leve o próprio rosto cuja pele estava irritada e ardendo. Virou a cabeça, se arrastando no ato, e observou Ivan dormindo. Era possível ver pequenos fios curtíssimos e claríssimos, quase brancos, da barba dele brilhando com a luz.
– Hnnn... Como eu vou esconder isso? – murmurou para si mesmo, esforçando-se para virar de costas, ainda esfregando o rosto. – E... isso... – viu inúmeras marcas escuras no próprio peito e imaginou que havia algumas no pescoço também.
Reunindo certa coragem, afastou o lençol que os cobria e sentou, para vestir suas roupas. Já estava de meias, então vestiu a cueca, a camisa, mas então não encontrou suas calças. Procurou desesperadamente até encontrá-las entre os cobertores, sob o corpo do russo. Coçou a cabeça, pensando se realmente deveria puxá-las porque não sabia o que ele faria se acordasse. Será que ele tinha mais gás para...? Suspirou. Bem, ou isso, ou eu volto ao quarto sem calças...
– Ai, ai, ai... – puxou a roupa devagar. – Sr. Ivan... eu preciso das minhas calças... por favor...
Após alguns puxões, ele saiu de cima, virando-se de costas para o lituano e resmungando algo incompreensível, ainda dormindo. O menor respirou aliviado, mas então reparou que a peça de roupa estava realmente amassada; e nem quis imaginar pelo que havia passado durante a noite, enquanto eles trocavam fluidos sobre ela. O pensamento lhe provocou uma leve careta, ao deitar para colocá-las. Nesse instante, olhou de relance para o russo, que permanecia de costas, então viu algo que chamou sua atenção.
Já estavam na primavera, então Ivan usava uma camisa mais leve que as das estações frias. A camisa era um pouco transparente e era possível ver pouco nitidamente algo que se assemelhava a cortes nas costas dele. Ou talvez fosse sua impressão. Imaginou se isso tinha algo a ver com o fato de que desde um tempo atrás ele não tirava mais a camisa quando passavam a noite juntos. Será? Sentou-se, após abotoar as calças e, delicadamente, levantou a camisa pela barra. Levantou-a bem devagar, até que, entre as escápulas, enfim viu o que ele aparentemente tanto tentava esconder. Eis que havia letras marcadas ali naquelas costas muito alvas, escritas com a própria pele hipertrofiada em linhas perfeitas. As cicatrizes formavam um nome e isto horrorizou ao rapaz por mil motivos ao mesmo tempo. Era “Наталя” (Natalia) em um cirílico de precisão cirúrgica. Sentiu como se levasse um tapa bem dado no rosto.
Até Toris que, em sua própria opinião, era lerdo, entendeu imediatamente o que aquilo significava. Ela o marcou como se fosse dela. E se ela escreveu o nome todo com aquela calma e destreza foi porque ele consentiu. Ele aceitava que era dela. Toris abaixou a camisa dele novamente, levantando-se para sair o mais silenciosamente possível. Mais uma mágoa em sua lista infindável... Saiu dali com a cabeça pesada, numa torrente de pensamentos que não faziam sentido e o pior de tudo era que não conseguia discernir o motivo daquela agitação em seu peito.
Não que não imaginasse. Depois de Natalia haver lhe jogado chá quente daquele modo por estar sentado onde estava e depois de haver visto e ouvido uma ou outra coisa ao longo do tempo, sabia de tudo. Apenas precisava de uma prova cabal para tornar tudo fato irrevogável; ou melhor, para parar de fingir para si mesmo que não tinha consciência do que se passava naquela casa. Então ali estava seu fato, visível para quem quisesse ver e literalmente palpável para quer quisesse tocar.
Algum tempo depois, enquanto Toris servia o café na sala de jantar, um tanto quanto aéreo, Natalia entrou e sentou-se, de cenho fechado como sempre. O lituano não se atrevia a falar com ela desde o incidente do chá, mais por que estava chateado, que qualquer outra coisa. Aquilo não fora justo, não fora humano e ela nem sequer pediu desculpas. Não que esperasse isso de qualquer modo...
Na verdade, pensou, lembrando-se das costas de Ivan, enquanto servia chá para a bielorrussa em uma bela xícara de porcelana ornada de flores vermelhas, até consigo compreender a raiva dela, porque ela o ama e ele aceita, então querendo ou não... eu sou o intruso. Mesmo que eu não signifique nada e que eu não tenha entrado na história por que quis, eu entendo que ela pense que eu tô me metendo no que não devo. Suspirou. É uma raiva justificada.
– Você é idiota? – ela bufou, batendo no braço de Toris, que quase derrubou o bule. – Olha o chá! Você tá derramando, estúpido!
– Ah! – levantou o recipiente imediatamente, corando pelo que fizera. – Perdão, Natalia... Eu sinto muito.
– Limpe isso de uma vez, imprestável! – ela sibilou.
– S-sim. – ele fez uma pequena reverência antes de sair para buscar um pano.
Não dava uma dentro mesmo? Fez seu trajeto, recriminando-se, até voltar e começar a limpar o chá da superfície da mesa. Natalia não disse mais nada até que Ivan chegou, emanando felicidade e desejando "dobroye utro".
– Por que um sorriso tão grande logo de manhã, brat? – Natalia perguntou mal-humorada, olhando-o de soslaio, enquanto ele sentava.
– Ah... Nenhum motivo. – respondeu o russo e Toris realmente não se lembrava de vê-lo feliz assim fazia tempo. – Mas também não tenho motivo para não sorrir.
– Hn... – ela fez, então pareceu lembrar-se de algo. – Ah... você não dormiu no seu quarto ontem, não foi? Onde você estava?
– Saí. – ele respondeu casualmente, enquanto servia-se de kasha, e Toris sentiu seus ombros tensos quando pôs o pano em uma das bandejas e foi para o lado de Ivan, servir-lhe o chá.
– No meio da madrugada?
– Eu tinha algo a fazer.
– E o que é algo?
E a discussão prosseguiu até Toris perceber que não deveria estar ali e pedir licença para se retirar, levando as bandejas consigo. Os dois discutiam como um casal e, parando para pensar, não era a primeira vez. O rapaz se sentiu tão bobo por nunca ter conseguido aceitar aquilo. Estava entre eles, como joguete de um e capacho da outra e, no fim, os dois estavam juntos e Toris não significava nada mesmo. Que droga de vida. Acabou percebendo que estava de certo modo achando que um dia teria um lugar como indivíduo naquela casa. Que o russo pararia de subjugá-lo. Que Natalia um dia o enxergaria.
Que engraçado, Toris... Você é tão bobo.
– Sr. Ivan... por que você faz isso comigo? Eu não gosto, então pare, por favor... Hm, não... Eu gostaria que você parasse. Não... hm. – Toris empertigou-se e franziu a testa. – Pare de fazer essas coisas comigo, sr. Ivan, eu não gos... Ele vai voltar a me bater se eu falar assim... Ai... – o lituano enterrou o rosto nas mãos, sentado no chão atrás de uns arbustos em frente à casa. – E agora? Eu não quero mais que isso continue... O que eu faço, Dieve?
– Você tá falando sozinho, Toris?
Levantou o rosto, sobressaltado, e viu Ivan debruçado sobre o balaústre da varanda, praticamente ao seu lado. Será que ele ouviu algo? Ai, meu Senhor. Mas ele ainda mantinha no rosto o sorriso que trazia pela manhã. Parecia feliz mesmo. Apenas o fato de vê-lo doía e queria poder acabar com essa autocomiseração, mas parecia estar de mãos atadas.
– Ah... haha... é, um pouco...
Qual foi a pergunta mesmo? Espere... Não, não venha... não venha!, pensou quando Ivan desceu e contornou a escadinha para se ajoelhar a sua frente. Ali era o pior lugar possível, qualquer um que saísse da casa ou viesse pela lateral podia ver.
O rapaz de cabelos castanhos mal percebeu que encolhia o corpo contra a parede. Entretanto, ao contrário do que supunha, o outro simplesmente lhe estendeu um ramalhetezinho modesto de flores amarelas tão modestas quanto o próprio. Estava amarrado com uma fitinha branca e outra vermelha.
– Você fez aniversário mês passado, não foi?
Mas... hein?
– Aniversário...? Ah... É... dia 16...
– Eu ouvi o Eduard e o Raivis falando sobre isso ontem e eles disseram que não lhe deram nada... Então eu quis dar algo a você, mas eu nunca dei presente de aniversário. Não sabia o que dar...
– Ah... – pegou o pequeno ramalhete que lhe era estendido, sem saber direito o que pensar. – Eh... obrigado, Sr. Ivan.
– Você não gostou? – ele começou a ficar desapontado.
O menor olhou para as flores, então olhou para o rapaz, atônito.
– Não, é lindo... Eu... agradeço mesmo. – aproximou a flor do peito. – Acho que ninguém teria essa ideia de fazer um ramalhetezinho com arruda... porque dizem que a flor de arruda é tão sem graça. – observou-as por um instante, então levantou seus olhos verdes para Ivan. – Mas... eu gosto. É a flor do meu país, então eu realmente fico feliz. Obrigado.
– Você pode me agradecer na sua língua?
Ele realmente não cansava de ser surpreendente.
– Ah... ačiū, ponas Ivan.
– Feliz aniversário atrasado, Toris.
Esta simples frase desencadeou uma série de sensações estranhas dentro do moreno. Engraçado ser justamente o kolkhoz a primeira pessoa a lhe desejar feliz aniversário em anos.
– Spasiba... – agradeceu novamente, mas na língua dele. – Hm... Quando... quando é o seu? – o que faria com tal informação, não saberia dizer, porém simplesmente não queria deixar que o silêncio caísse.
– Não lembro... – Ivan pensou um pouco, então deu de ombros. – Mas acho que meus pais celebravam em dezembro, próximo ao ano novo do calendário gregoriano. Deve ser por aí. Dia 30 ou 31, talvez.
– Você... sabe quantos anos tem?
Ele fez que não com a cabeça. Não sabia que dia era seu aniversário, nem mesmo sabia a própria idade. O lituano sentia que era pouca coisa mais novo que ele, mas apenas podia tentar chutar isso. Os pais dele... Lembrava-se de ter ouvido algo sobre eles terem sido brutalmente assassinados na frente do próprio Ivan quando era pequeno. Isso explicava muita coisa sobre aquela personalidade distorcida. Foi capaz de sentir pena dele.
– Sinto muito pelos seus pais. – murmurou, um pouco enternecido.
– Tudo bem. Já faz tempo. Eu nem me lembro direito de nada. – ele sorriu mais uma vez.
– Você não sentia falta quando era criança? Não era por isso que queria ter uma casa com muita gente?
Ele sorriu novamente, colocando as mãos nos joelhos dobrados de Toris.
– Também não lembro direito, mas tenho uma vaga memória de dizer isso a você... Há muito tempo. Antes de você vir viver aqui... não foi?
– Sim. Você disse. Você disse que só poderíamos ser amigos quando você fosse forte. Você era uma criança de olhos tristes, por mais que você sorrisse, Sr. Ivan.
E até hoje ainda é.
O russo o olhou inexpressivo, então parou com o olhar nas flores amarelas que Toris tinha entre as mãos. O menor seguiu o olhar do loiro, então viu a mão muito branca tocar uma das suas e virar a palma para cima, sobre a sua própria palma. E sua mão parecia tão pequena na dele.
– Sumiram. – Ivan pegou a outra que ainda segurava as flores. – As marcas sumiram.
– Sim... sumiram. – o lituano assentiu levemente, abrindo e fechando a mão livre, ainda sobre a palma da mão do loiro. – Eu disse que não era sério, então esqueça isso.
De súbito, algo lhe veio à mente. Espera... estavam conversando? De verdade? Nunca imaginou que chegaria o dia em que teria algum diálogo com Ivan. E... Oh! Será que podia... Será que podia ter a ousadia de perguntar sobre as marcas nas costas dele?
– Ah... perdão, Sr. Ivan... mas, eu gostaria de lhe perguntar algo.
– Hm... Pergunte. – ele estranhou, mas permitiu.
– Hoje de manhã eu vi as marcas nas suas costas... as marcas que formam o nome da Natalia. Perdão pela intromissão, mas o que significa isso?
Toris ponderou se iria se arrepender de ter feito a pergunta, mas o russo apenas o fitou com a testa levemente vincada. Tentou ler algo na expressão dele, porém ela nada lhe disse. Assim como ele, que manteve os lábios fechados por vários segundos, tantos que o lituano desistiu e pensou em mudar de assunto, embora não soubesse mais o que dizer. Então o russo tomou fôlego para falar, porém foram interrompidos por uma voz feminina que veio de dentro da casa.
– Brat!
Ivan levantou imediatamente. E Toris não pôde evitar pensar que ele parecia um cão que fareja alguma ameaça no ar.
– Depois conversamos. – então partiu pela lateral da casa.
Toris nem teve tempo de ficar confuso. Em poucos segundos, Natalia irrompeu pela porta, olhado para os lados até avistar Toris atrás do arbusto. Então ela franziu o nariz para ele e perguntou, rispidamente:
– Viu meu irmão?
– Ah... eh... não. Não o vi.
Ela bufou, então marchou para dentro novamente. E Toris preferiu não perguntar ao seu coração o que sentiu nos últimos minutos, ao ver Ivan, ao ver Natalia. Preferiu acreditar que não sentira nada. Bateu a parte de trás da cabeça na parede, apertando os talos das flores entre seus dedos, inconscientemente. Fechou os olhos e tentou pensar apenas no sol morno da primavera batendo em seu rosto e na neve que derretia por todos os lados. Apenas nisso.
Mais tarde, quando já havia se cansado tentar evitar os pensamentos que não queria ter, tentava se concentrar na lavagem dos balaústres da varanda. Não que fosse um trabalho que realmente pudesse lhe distrair, mas ajudava um pouco. Um pouco mesmo. Então, foi surpreendido por um Raivis que chegou correndo e balançando as mãos, sussurrando numa vozinha esganiçada:
– Toris! Toris! Toris! Ai, eu tô muito morto! Tô ferrado! Muito!
– Nossa. O que houve? – Toris franziu a testa para ele, deixando o pano em cima do belo mármore de Carrara sobre os referidos balaústres.
– Ai... Você ouviu um barulhão agora há pouco? – ele sussurrou embora não houvesse ninguém por perto para ouvir.
– Sim. – o moreno respondeu apreensivo. – Aquilo foi você? E o que é esse sangue na sua mão?
– Vem aqui, por favor.
Receoso, Toris seguiu o pequeno loiro porta adentro. E, ao chegarem ao escritório de Ivan, entendeu perfeitamente bem o porquê de ele estar torcendo as mãos nervosamente e de fazer uma expressão tão sofrida como a que fazia. A única reação do lituano foi levar a mão à boca, em choque.
– Ai, Dieve. Ai, Dieve... Santo Dieve... – lamentou-se com a voz abafada, antes de levar a mão à testa, levantando a própria franja. – Como você conseguiu virar o armário de bebidas, Raivis?!
– Eu t-tava tentando limpar, mas aquela escada grande que fica lá em baixo é pesada e dá trabalho trazer pra cá pra cima, aí resolvi subir nas prateleiras e quando eu vi, virou tudo... – ele estava trêmulo de medo do que o aguardava à frente.
– Ai, Raivis... Pelo visto, tá tudo quebrado... – constatou, embora não desse para ver nada além de uns poucos cacos de vidro fora da área sob a estante.
– E agora? – o menor choramingou, colocando as mãos na cabeça, desesperado.
– Vamos levantar e ver se alguma coisa restou... – Toris sugeriu. – Mas isso é muito pesado. Nós dois não vamos conseguir sozinhos.
Encararam-se uns instantes, como que numa concordância mútua sobre o fato de que precisavam chamar Eduard, que era o mais inteligente entre os três. Então esperavam, obviamente, que ele fosse reagir calmamente e viesse com alguma saída genial. Porém, o que realmente ocorreu foi: o mesmo quase teve uma síncope ao ver aquela tragédia.
– Que diabos você fez, Raivis? – ele gemeu. – Você podia até ter destruído o resto da casa... mas as vodcas? Braginski vai te matar!
– E-eu seeei! – ganiu o letão em voz chorosa. – O que eu faço?
– Simples. Vamos deixar assim mesmo e fingir que não sabemos de nada... – Eduard deu de ombros.
– Enlouqueceu?
Toris não acreditou que ele estava dizendo aquilo. Por Deus, ele estava perdendo a noção da realidade. Era a única explicação.
– Pelo menos, assim dá pra pensar que caiu só ou algo do tipo. Se a gente limpar, ele vai ter certeza absoluta de que alguém mexeu nessas bebidas. – foi a explicação lógica dele. – Se ele descobrir quem foi, vai trucidar a pessoa, quer nós arrumemos ou não. Então melhor deixar assim porque tiramos um pouco da suspeita de nós três.
– Ai. Isso não vai dar certo... – Raivis cobriu o rosto com as mãos.
– Vamos embora log... O que houve com a sua mão?
O mais novo olhou para as mãos assim que o ouviu. Havia sangue escorrendo de um corte no indicador.
– Ah, é... Acho que me cortei tentando aparar as garrafas... – ele franziu o cenho.
– Vamos cuidar disso então. Vamos sair daqui.
Eduard empurrou os dois para fora e assim eles se deixaram levar.
Depois de enrolar uma pequena atadura no dedo do letão, voltaram às suas respectivas atividades, temerosos pelo que viria a seguir. Apesar de não serem tão parecidos, havia um acordo mútuo e não-verbal entre os três, garantindo que um estaria lá pelo outro. Pelo menos em assuntos como esses. Enquanto isso, Toris não conseguia tirar os olhos do relógio, rezando mentalmente para que os ponteiros andassem para trás. O que obviamente não aconteceu. Então em algumas horas, Ivan chegou, e demorou pouco menos de cinco minutos ;no andar superior antes que se ouvisse um grito dele. E então todos que moravam naquela casa foram reunidos na sala.
– É uma pergunta simples: quem quebrou minhas vodcas? – inquiriu o russo em voz calma, mas todos podiam sentir a aura ameaçadora.
Houve um breve silêncio, até que Yekaterina o quebrou, perguntando genuinamente surpresa:
– De que você está falando, dorogoi?
– Alguém derrubou minha estante de bebidas. Quero saber quem foi.
– Eu trabalho lá fora o tempo todo, nem entro no seu escritório, Vanya. – defendeu-se a ucraniana.
– Eu menos – resmungou um armênio que trabalhava principalmente no campo e também nas rondas, sendo seguido por outros que fizeram a mesma afirmação.
– Brat... – Natália começou, virando-se para os bálticos, que congelaram onde estavam. – Eu vi esses três saindo de lá hoje à tarde. E pareciam suspeitos.
– A-ah... Claro que nós entramos lá. – Toris se apressou em rebater. – Nós trabalhamos na casa, limpando e tudo o mais. Aqui dentro. Mas não sabemos de nada.
– Vocês nem mesmo ouviram cair? – ela estreitou os olhos. – Um armário grande daquele e um milhão de garrafas se espatifando... Vocês três moucos não ouviram? Suspeito... Hm... Você, anãozinho, por que está escondendo as mãos?
Raivis, que estava completamente aéreo encarando o chão, ficou azul quando a moça o surpreendeu. Então começou a gaguejar:
– N-não estou e-escondendo as m-mãos, Srta. N-Natalia...
– Se não está, por que não as mostra?
– P-porque não tenho n-nada a mostrar.
– Mostre de uma vez, kakashka! Ou eu te faço mostrar...
– Fui eu. – Eduard explodiu, segurando o braço de Raivis e puxando sua mão para mostrar o curativo. – Ele se cortou tentando me ajudar, mas fui eu quem derrubou o armário, tá bom? Eu derrubei e disse a eles para ajudarem me encobrindo. Foi isso. Pronto. Sinto muito.
– Sente muito... Não sobrou uma garrafa inteira. – enquanto falava, Ivan sorria com os olhos tão pequenos que pareciam fendas.
– Foi um acidente! – Eduard alterou um pouco a voz sem perceber. – Eu já disse que sinto muito.
O estoniano, de frente para ele, parecia respirar mais forte de tanta raiva que entava reprimir. Entretanto, um sorriso daqueles de Ivan ameaçava mais que toda a raiva alheia, de quem quer que fosse.
– Não seja insolente. – Natália interferiu. – Como ousa responder ao meu brat?
– São só bebidas. – Raivis acabou intervindo também, com sua vozinha trêmula. – Por que tanta tempestade em copo d'água? Por isso o chamam de bêbado o tempo todo! Parece que isso é a única coisa que existe no mun...
Todos olharam para ele, enquanto Eduard tapava a boca do mais novo, puxando-o para si na intenção de impedi-lo de estragar tudo mais ainda. Ivan, por sua vez, apenas suspirou.
– Estão precisando de mão de obra nos gulags, sabia, Raivis? – comentou como se não fosse nada, ainda sorrindo.
– Ele fala sem pensar, Sr. Ivan. Por favor, perdoe a insolência. Se alguém tiver de receber castigo, que seja eu, porque minha falta foi maior. Além de quebrar suas garrafas, eu menti e induzi os dois a mentir também... Isso é terrível.
Raivis tentou se soltar, mas Eduard o segurava firmemente contra o próprio corpo, ainda o impedindo de falar. Toris, caladinho em seu lugar, pensou que só muito amor justificaria ele estar se sacrificando no lugar de Raivis, porque sabia como Eduard podia ser egoísta ou indiferente na maior parte das vezes. Não apenas isso, mas ele estava falando de um modo submisso, pedindo "por favor" a Ivan, a pessoa a quem mais odiava no mundo. Algo que se outra pessoa lhe contasse, não acreditaria.
– É, bem, é verdade... O que você fez foi realmente pior, embora não diminua a insolência desse aqui – o russo puxou e torceu a orelha de Raivis, que gemeu abafado contra a mão do estoniano e começou a lagrimar, fazendo a aflição se agitar dentro de Toris.
– Ele se arrepende, não é, Raivis? Ele vai se esforçar para não fazer de novo. – acabou falando, enquanto se aproximava um pouco dos dois.
Eduard de uma forma muito óbvia forçou o menor assentir com a cabeça.
– Certo então. – Ivan soltou o lóbulo vermelho do letão e se afastou. – Eduard, prepare suas coisas, porque amanhã bem cedo você pegará o primeiro trem para as construções.
E foi o que aconteceu.
O que se seguiu foi uma noite tensa, cheia de Raivis pedindo desculpas e de Eduard, com uma expressão um pouco irritada, um pouco resignada, dizendo que estava tudo bem e que ele mesmo provocara aquilo. No outro dia, antes mesmo de o sol haver nascido, o estoniano partiu para só Deus sabe onde, com uma mala tão pequena que provavelmente apenas cabiam uma ou duas mudas de roupa.
E passou-se um mês em que Ivan não parecia ter tido remorso algum, como sempre. Raivis, por outro lado, parecia que não aguentaria se o castigo alheio fosse de mais de 30 dias. Ele andava sempre com um vinco entre as sobrancelhas e torcendo as mãos quando não estava trabalhando. Toris tentava conversar com ele, tentava convencê-lo de que Eduard era forte e que aquilo não seria nada para ele. Que ele voltaria e tudo seria como antes e um dia ele nem se lembraria dessa experiência, por pior que soasse nas cartas esporádicas que ele enviava. Mal Toris sabia como estava redondamente enganado.
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