Dotyanutsya do Tebya
10 Parte IX: Nasz koniec
Notas iniciais
Feliks e Toris enfrentaram e venceram todos os adversários da grade sem muito esforço e, por último, teriam de enfrentar um ao outro. Toris tinha a ligeira impressão de que assim que ouviram seus nomes, tudo fora arranjado para ficarem em grupos diferentes de modo que se enfrentariam apenas na final, caso vencessem todos os oponentes até lá.
– Se assim desejares, conceder-te-ei o obséquio de permitir que me derrubes, Toris... Que pensas tu? – o loiro deu um fungado esnobe, enquanto aguardavam ao lado da arquibancada.
– Não ignoro que tua força sobrepuje a minha. Não ignora a minha honra. – o outro respondeu olhando estoicamente para a arena.
– Honra... – Feliks riu. – Ora, pois. Em tal caso, que prevaleça o mais hábil cavaleiro.
– Que prevaleça o mais hábil.
Apertaram suas mãos no mesmo instante em que anunciaram seus nomes sob uma ovação ensurdecedora por parte dos espectadores. Os dois adentraram a arena com orgulhos e assertividades idênticos; então cada um seguiu para um lado e subiu em seu respectivo cavalo, com o auxílio dos escudeiros para pôr toda a armadura. Toris fitou Feliks, ao seu extremo oposto, antes de colocarem seus elmos, e ele sorriu. Sorriu torto. Bandoleiro... Balançou a cabeça para ele. Não se intimidaria por nada, mesmo que as estatísticas não fossem favoráveis. Sabia que podia e este pensamento bastava para que empertigasse o tronco e erguesse a cabeça. Quando estava tudo pronto, cada um tomou sua posição ao lado da barra que dividia a arena ao meio.
Uma das coisas que tornavam Feliks um exímio cavaleiro era o fato de que ele não tinha estilo. Ou melhor, seu estilo era imprevisível e ele parecia ler a intenção do oponente, então conseguia mudar de tática no meio do golpe. Toris concentrou toda a sua atenção na mão dele, mentalizando não vou perder, não vou perder. Eu consigo..., até que a corneta soou. Feliks ainda o provocou, fazendo com a mão que segurava a rédea um gesto como se o convidasse a atacar primeiro. Fez que não com a cabeça, em reprovação e viu o torso dele se inclinar para trás enquanto ele ria. Isso tudo em três segundos.
O loiro bateu nos flancos do cavalo para que ele corresse, exatamente no instante em que seu oponente fez o mesmo. Foram um de encontro ao outro e Toris, focado como estava, conseguiu se esquivar, aproveitando para investir a lança contra o peito de Feliks. Ela o acertou no ombro direito, fragmentando-se em milhares de farpas de madeira, que voaram por todos os lados. Feliks se desequilibrou, mas não caiu. Quando Toris virou seu cavalo, viu o outro rapaz tirando o capacete e o olhando com surpresa, quando a primeira bandeirola branca foi fincada, indicando o primeiro ponto do moreno. Toris levantou a viseira e sorriu para ele, antes de voltar para sua posição inicial, mais confiante do que estava no início.
A plateia os observava, excitada e vibrante. Entretanto, para os dois, apenas existiam um ao outro, naquele momento. As ocasiões em que se enfrentavam eram únicas para ambos, talvez puramente pelo enfrentamento, por saberem que apenas um podia derrotar ao outro naquelas regiões, ou podia ser algo mais. Nunca saberia definir. A questão era que estavam na arena, preparando-se para a segunda rodada. E o moreno sabia o quanto o outro detestava não vencer de primeira e agora estaria mil vezes mais motivado. Podia lidar com isso. Segurou sua nova lança com mais firmeza e então, ao ressoar da corneta, chicoteou as rédeas do cavalo e se pôs a correr contra seu companheiro de cavalaria. Mas ele veio implacável e, por mais que tenha conseguido se desviar novamente quando a ponta da lança veio em direção ao seu ombro direito, Feliks rapidamente mudou a direção da mesma e ela, de algum modo, o acertou quase no meio do peito com um ímpeto tal que o arremessou de cima do cavalo.
O impacto da lança e a queda foram tão violentos que Toris ainda demorou uns instantes para entender direito a situação. Ao sentar no chão, zonzo, viu uma mossa em sua armadura e era até possível enxergar a malha de ferro que usava por baixo através de uma rachadura que fora aberta. Quando se levantou com a ajuda de seus escudeiros, viu Feliks sendo aplaudido pela multidão enquanto o brasão de Toris era coberto na parede. Fazia algum tempo que não enfrentava uma derrota; Feliks era o único que o vencia no que quer que fosse e, por mais que o amasse, odiava quando isso acontecia.
Começou a sair da arena, ainda decepcionado e irritado ao mesmo tempo, principalmente por que detestava a consolação que estava recebendo dos cavaleiros e escudeiros. Não precisava de consolação, precisava ter vencido. Entretanto, parou no meio do caminho, ao olhar em direção ao senhor daquele reino. Ao lado dele, havia uma pequena garota de cabelos loiros olhando para Feliks com um pouco de indiferença. Toris não pôde evitar se encantar por ela, porque era a coisa mais graciosa que já vira na vida.
– Toris, que há de ti? Atraíste-te pela rapariga? – Feliks o alcançou alguns instantes depois.
Balançou a cabeça para espantar aqueles pensamentos.
– Não seja tolo... – murmurou, tentando disfarçar o nervosismo que começara a sentir.
– Não há de que te envergonhares, Toris. – riu o menor, colocando o braço sobre o ombro do outro quando voltaram a andar. – É uma bela donzela. Não te punge. À noite, durante o festim, poderás harmonizar-te com ela.
– Como és capaz de dizê-lo? – perguntou um pouco sentido, olhado para os lados e se certificando de que ninguém podia ouvir. – Não me dás valor?
– Ora, Toris, tens liberdade para estar e te regozijar com quem quiseres... pois é meu leito que eleges como preterido ao fim e ao cabo. – respondeu Feliks, sorrindo prepotente.
– Pois não guardo em meu coração anseios sobre mais ninguém. – murmurou o moreno, ainda mais chateado com o descaso e a arrogância dele.
– Deverias fazer uso da liberdade, a qual não é infindável. No entanto, exulto tua crença neste adágio. Tens minha palavra de que uma recompensa generosa o aguarda no mais tardar da noite. – seu amante sorriu, sugestivo.
Passaram mais duas noites naquele reino, até o evento findar. Toris venceu Feliks no duelo de espada, porém o loiro venceu nas justas e tornou-se o campeão do torneio. Seus cavaleiros venceram em quase todas as outras modalidades e levaram boa parte do prêmio para casa, junto com a admiração de mais um povo que conheceu a lenda viva que Feliks e Toris representavam.
Ainda houve muito chão por onde percorreram, muitas terras que tomaram a mando de seu rei e algumas que tomaram pelo simples prazer de saber que podiam fazê-lo. Por mais que não fosse da natureza de Toris, acabou se deixando levar pela sensação do poder e pela ganância, talvez. Quando percebeu, ele e Feliks já haviam tomado uma parte das terras do homem do Império Turco-Otomano, do austríaco de um feudo próximo, do russo de outro império. Tentaram até mesmo dominar as terras da família Arlovski (constituídas pelos terrenos do rei e do marquês de Arlovski) e até conseguiram tomá-las, mas Ivan, que já estava ficando forte, lutou e foi bem-sucedido na tarefa de recuperá-las.
Foi assim que conquistaram muitos inimigos fortes no centro do que hoje é conhecido como Europa. Então, obviamente, como acontece com todos que ganham poder na História, chegou um tempo em que Feliks e Toris não conseguiram acompanhar o fortalecimento dos oponentes antigos, somados aos novos. O turco-otomano, que conquistou o atual Oriente Médio, o norte da África e começou a invadir o sudeste da Europa, estava cada vez mais próximo às terras polaco-lituanas. O austríaco estava em negociações com uma húngara muito forte, que outrora simpatizara com Toris quando ainda eram crianças, mas ela não parecia mais se lembrar disto quando se enfrentavam. Havia o germânico de Brandenburgo, que começara a atacar pelo noroeste, próximo ao terreno do ducado da Prússia, de onde Gilbert Beilschmidt, mesmo fraco e sob o domínio do polaco e do báltico, o apoiava.
Os conflitos foram se tornando cada vez mais constantes, vindos de todos os lados, superando a capacidade de os dois se defenderem, e ambos foram ficando cada vez mais acuados, sem conseguir manter seus territórios, nem seus cavaleiros. Chegou um tempo em que malmente conseguiam manter a si mesmos; e nem o relacionamento que tinham escapou àquela tensão. Foi assim que conheceram o gosto amargo do medo o qual haviam infligido a tantas e tantas pessoas durante o tempo em que estiveram juntos.
Os cadáveres se amontoavam por todos os lados. Toris já nem sabia distinguir a quem pertencia o sangue cujo odor lhe invadia as fossas nasais — se germânico, báltico, polaco ou livoniano. Do alto do cavalo, olhou em volta, esperando que todos tivessem um destino digno, qualquer que fosse, quem quer que fossem, até mesmo aqueles os quais abatera com sua própria espada. Eram mortes justas numa guerra justa, pensava. Podia e devia estar nela, em nome do rei — aquele que havia sido escolhido por Deus para governar aquela região. Sentiu o príncipe herdeiro da Livonia tremendo às suas costas enquanto segurava as laterais de sua armadura.
– Raivis, certo? – murmurou para a criança, levantando a viseira para tentar vê-lo, mas a mobilidade que a armadura lhe proporcionava era tão pouca e o garoto era tão pequeno que não conseguiu. – Fecha teus olhos e acalma-te... Acalma-te. Tudo há de entrar nos conformes.
Mas nem mesmo Toris sabia se devia confiar tanto em suas palavras. Tenha fé...
– Rendei-vos por fim? – perguntou um homem muito branco, de cabelos acinzentados, íris vermelhas e um sorriso de chacota nos lábios. – Rendei-vos e prostrai-vos ante o condutor da extraordinária Ordem Teutônica, eu, o estupendo Gilbert Beilschmidt! Dou-vos minha palavra de que sequer um de vós perecerá em sofrimento... demasiado. – ele deu uma risada estranha.
Carecemos de subterfúgios... pensou o báltico. Eis nossa perdição. Entretanto... se momentos de desespero demandam medidas desesperadas... Exalou o ar com força e ergueu sua espada alto, virando-se para seus homens, sem pensar duas vezes.
– Cavaleiros, em nome do rei da Polônia e grão-duque da Lituânia, ordeno: batei em retirada!
Imediatamente, Toris começou a cavalgar para longe dos teutônicos, o pequeno garoto agarrado à sua cintura com força. Nem os polacos, livonianos, germânicos, nem mesmo seus próprios homens entenderam a lógica daquela ordem, porém, como era seu dever, os cavaleiros da Lituânia seguiram seu líder de qualquer modo. Feliks, por sua vez, nem mesmo virou o olhar na direção dele, enquanto partia.
– Que será de nós? – perguntou um dos cavaleiros remanescentes, com uma expressão de quem tentava parecer mais corajoso do que era.
– Permanecei onde estais. – ordenou o loiro, sem se mover.
– Mas...
– Obedecei... todos.
Continuou de queixo erguido, encarando o boquiaberto germânico, que parecia nunca haver visto algo parecido na vida.
– Diabos... Desertou? Apanhem-no prontamente! – ordenou aos seus cavaleiros. – Ora, pois! Esta é a suposta União Polaco-Lituana? AHAHAHAHAHA! Que pilhéria! Fazerdes-me rir! Vê! Abandona-te, teu companheiro! Meus subordinados logo o aniquilarão. Amaina tua espada. Logo estarás em companhia de teu covarde amigo.
Feliks ainda o encarou por algum tempo, o bastante para que ele ficasse desconfiado, mas este sentimento deu lugar ao desconforto de não entender o que acontecia ali. De fato, ninguém compreendia, por isso todos mantinham a cautela antes de fazer um movimento sequer. O loiro então embainhou a espada para descer do cavalo, tirou o capacete e jogou-o no chão, enquanto caminhava até ficar em frente ao cavalo do albino. Ficou encarando o germânico, que o encarou de volta, ainda mais confuso sobre o que se passava pela cabeça do menor, mas também desceu do cavalo quando ele voltou a desembainhar a espada.
– Que intentas?
– Caso pereçamos, hemos de perecer em luta. – anunciou com toda a sua determinação. – Caso percamos, hemos de perder honrados e vós tereis de nos derribar a todos.
– Se tens ciência de que hão de perder, eis que não há propósito em lutar um segundo mais. Rendei-vos, repito; pois que há de honra em bravura sem propósito? – ele riu outra vez.
– Lutar pelo rei é meu propósito. Lutar contra o avanço dos teutônicos é meu propósito. É nisso que deposito minha bravura. Render-me-ei jamais.
– Ora, prostra-te de vez e te concederei minha benevolência: a passagem sem dor ao reino dos mortos. – ele dizia com indolência. – Não te atrai o pensamento?
– Falas em demasia. Pois, lavai esta terra com meu sangue de uma vez, se assim for teu desejo... – Feliks ponderou sobre a situação. Mudou de tática. – Não. Deixai meus homens regressarem em segurança e te entrego minha vida.
– Ora, não lutariam até a morte? – Gilbert deu um risinho irônico.
– Tu mesmo disseste que não há propósito em lutar uma batalha perdida. Pois então extinga minha existência, mas deixa que meus cavaleiros regressem sãos.
– Não estás em posição de exigir nada...
– Não exijo.
– Pedes então?
Feliks não respondeu, porque seu orgulho não admitiria isto.
– Pois bem. Teus cavaleiros retornarão em segurança. Agora, ajoelha.
Feliks sabia que ele nunca cumpriria a palavra. Prisioneiros de guerra são prisioneiros afinal, mas não faria diferença de qualquer modo.
– Se insistes... – Feliks largou a espada e se ajoelhou.
– Ahaha. Quanta falácia... Todavia, admiras-me. És subserviente, afinal. Desejo-te boa passagem, junto a teu confrade, tolo. Abschied...
Ele cantava vitória, enquanto levantava a espada pronto para abater Feliks, mas não contava com o surgimento, por entre seus soldados, de um cavaleiro que, embora trajasse o mesmo casaco, colocou um punhal em seu pescoço.
– És chegado a boa hora. – Feliks sorriu torto e se levantou.
– Pois não fugiste? – Gilbert perguntou atônito, ao ver Toris ali.
– Este é um campo de batalha. – o moreno falou. – Mesmo em primazia, uma incúria é fatal. Acaso, esqueceste-te dos preceitos dos paladinos ao ter teus olhos enceguecidos pela usura?
– Que há disto? Dissimulaste a deserção? – o albino agarrou o a mão que segurava o punhal em sua jugular, mas isso apenas fez com que Toris pressionasse a ponta afiada contra sua pele; então o germânico se dirigiu aos seus cavaleiros. – Agi, homens!
Entretanto, todos os chefes estavam subjugados às espadas dos cavaleiros da Lituânia.
– Jamais te descuides da retaguarda. Jamais menosprezes sequer um homem por mais desgraçada seja sua conjuntura. Pois agora, prostrai-vos, Cavaleiros Teutônicos, aos Cavaleiros da União Polaco-Lituana!
Toris encarava o punhal enferrujado como fazia frequentemente quando sentia a nostalgia lhe doer no coração. Exalou o ar com força para então levantar a cabeça e olhar o quarto em volta. Escuro como estava, não era impossível ver nada além dos contornos dos pouquíssimos móveis dali. Preferia não acender o fogo da lamparina porque não queria ver a miséria que sintetizava a casa que dividia com Feliks — a qual refletia seu destino junto ao outro. Gradativamente, seus exércitos foram diminuindo até se extinguirem, seus cavaleiros foram morrendo, desertando ou se rebelando e isto os obrigou a sedentarizar-se, lutando apenas para que conseguissem sobreviver.
Desde que nascera até antes de se juntar a Feliks, o lituano sofria ataques dos vizinhos (tanto que este fora o motivo por que se juntaram para começar), estava acostumado ao medo, mas nunca havia entrado em uma época de trevas como esta. Depois de conhecer a glória de ser temido e respeitado, era inconcebivelmente mais difícil aceitar e aguentar tudo aquilo. Imaginava agora mais ou menos como se sentira aquele Gilbert da Prússia, quando sua Ordem Teutônica sucumbira na batalha contra Toris e Feliks. Ele nunca conseguira se levantar também. Agora, o cavaleiro da Horda de Ouro, o Turco-Otomano e aquele homem do Império Russo estavam desforrando suas invasões e dominando muito além das terras que os dois lhes tiraram.
O que vai faremos, meu Deus? O que será de nós dois daqui em diante?
Sentiu seu estômago doer mais que de costume porque não comia havia quase três dias. Então, deixando o punhal na gaveta do armário enrolada em um lenço, foi até a cozinha, acendeu o fogão a lenha e esquentou um resto de sopa que sobrara de outro dia. Sempre guardava os restos com bastante afinco, pois não sabia quando seria a próxima refeição. Ainda havia Feliks também, mas tinha tanta fome que nem conseguia mais raciocinar direito. Apenas Deus sabia quando e se ele voltaria para casa. Podia comer, não podia? Podia, podia, sim. Era justo. Conteve um soluço seco ao levar até a mesa o prato com a sopinha rala; e ainda teve a sorte de achar no armário um pedaço de pão velho que nem cobria a palma de sua mão. Porém, antes que pudesse sentar, ouviu batidas na porta, e seus sentidos se aguçaram. Pegou de cima da mesa a espada que o acompanhava a todos os lados. Andou devagar, cauteloso, até a porta.
– Toris, abre essa droga agora, faz o favor!
– Feliks?
O moreno soltou a espada imediatamente e correu para destrancar a porta.
– Finalmente você apareceu! – exclamou, batendo a porta depois de puxá-lo para dentro. – Foram três dias! Onde v...? Minha nossa, Feliks, de novo não. – gemeu quando ele foi caindo e precisou ser amparado para não chegar ao chão.
Toris o carregou como pôde até o quarto e o colocou sobre a cama. Ele tinha neve, sujeira, cortes, arranhões e sangue por todo o corpo e cabelos, e ofegava fortemente. Parecia mal, mas sobreviveria. Foi o que pensou ao correr para aquecer a água para o banho dele. As preocupações que tinham já bastavam, porém ele parecia se esforçar para tornar tudo pior. Ai, Feliks, por que você é tão imprudente? Como se houvesse sido chamado, ele apareceu na porta do quarto de banho, um pouco cabisbaixo, escorando-se no batente. Era tão estranho vê-lo assim porque ele geralmente era... extravagante e barulhento. Vivo. O loiro deveria ter apanhado bastante, sem contar a fome e tudo o mais.
– Fique lá... Eu levo até você...
– Não é uma briguinha de nada que vai tirar meu brilho...
E lá estava ele tentando ser mais bravo e forte do que realmente era na atual conjuntura. Toris desistiu de brigar e deu a ele um sorrisinho resignado, estendendo a mão para que ele se apoiasse e ajudando-o a tirar sua túnica e sua calça rotas para pendurá-las num gancho atrás porta. Feliks entrou na banheira e Toris ajudou-o a se lavar direito e a voltar para a cama. Logo, ele estava asseado, com roupas limpas e sendo tratado pelo moreno com restos de remédios e ataduras que ainda tinham. E as feridas eram mais evidentes assim, sem a camada de sujeira que as camuflava. Havia um corte bem feio no lado esquerdo do abdômen.
– Isso está muito feio, Feliks... Quem fez isso?
– Era tanta gente... Nem consegui ver. Não que isso importe, né? – ele fungou, apertando a ponte do nariz.
– Veja... Está acabando... – disse o lituano, mostrando o frasco do remédio quase vazio quando pegou um novo pedaço de gaze para limpar o corte. – Não temos mais dinheiro nem pra remédios. Então, por favor, não saia e não brigue mais. Se você se ferir gravemente, não teremos condições pra lhe tratar.
– Que saco, Toris. – ele fez uma careta quando sentiu o remédio penetrar o corte. – Tipo, essa porcaria já tá doendo horrores. Não preciso de você me torrando a paciência, tá?
– Falo isso porque estou preocupado. Nós dois não somos mais fortes como éramos há algum tempo! Não podemos nos dar ao luxo de achar que nada de mal pode acontecer, porque pode. E se esse corte piorar? Como nós faremos? – o maior exclamou, em desespero.
O banho restaurou o humor de Feliks, então ele voltou com seus comentários de sempre.
– E eu vou sentar meu lindo traseirinho o dia todo esperando que a comida caia do céu como mágica, assim? – ele estalou os dedos diante do nariz de Toris. – Fale por você, queridinho, mas eu dou conta do meu serviço.
– Não fale como se eu ficasse esperando as coisas caírem do céu. – o lituano nem o olhava mais enquanto cobria o ferimento com um pedaço de gaze, apertando para estancar o sangramento que havia começado e quase tendo as mãos puxadas pelo loiro em reflexo por causa da dor. – Eu também saio pra tentar conseguir algo, se você não lembra. O problema é que não se resolve nada se atirando na fogueira como você faz. Não seja displicente. A vida toda nós mexemos com gente complicada, Feliks. Agora eles são mais fortes que nós. Por que você não entende?
– Sério. Você totalmente vai ficar igual a um mamão murcho por causa desses ADPs. Essa conversa tá me dando enxaqueca. – ele tentou se levantar, mas caiu sentado na cama.
– Tá vendo? Tá vendo, Feliks...? Você não tá bem. – o lituano segurou a mão dele. – Ai, Senhor, o que nós vamos fazer?
– Para de chilicar por nada, Toris. – ele bufou. – Se as coisas já estão tão tensas, não piora tudo nessa sua cabecinha. Eu tô cansado. É só isso.
As sobrancelhas dele, desenhadas num formato naturalmente dramático, se curvaram ainda mais quando ele franziu a testa. Mas então a expressão dele voltou ao normal depois de uns instantes.
– Tudo vai melhorar. – deu dois tapinhas no rosto do maior e, mesmo que sorrisse, ele parecia bastante fraco.
Toris balançou a cabeça negativamente, quase sem chão.
– É verdade, coisa fofa do Feliks. Para de dar piti à toa. – ele riu de leve. – Besta...
– À toa?
Porém, antes que Toris pudesse terminar de retrucar, ouviu o estômago de seu amante roncar, então ele fez uma careta. Imaginou se ele havia comido algo nesse meio tempo em que estivera fora. Fitaram-se por um tempo.
– Espera um pouco... – levantou-se e foi até a cozinha, para esquentar a sopa outra vez.
Desta vez, ele esperou mesmo e, quando voltou, Feliks observava as próprias unhas, sentado contra os travesseiros em sua camisola branca. De fato, ele parecia uma garota. Toris riu para si mesmo, aproximando-se para lhe entregar o prato e um copo de cerâmica lascada com um pouco de água em uma bandejinha de madeira deteriorada pelo tempo. Feliks ainda franziu o nariz para a comida, mas o lituano ignorou e serviu a si mesmo de um pouco de água de uma jarra que ficava sobre a mesinha de canto. Bebeu e deitou ao lado do polonês, ignorando a dor em seu estômago. Toris chegou a cochilar, por isso não sentiu quando o loiro levantou e colocou a bandeja sobre a penteadeira, saindo do quarto em seguida, mas acordou a tempo de senti-lo lhe jogar uma bolsinha de couro. Soube o que era pelo retinir de metal quando a bolsinha atingiu seu braço. Apalpou e sentiu algumas moedas lá dentro. Era mais do que o próprio Toris havia conseguido uma ou duas semanas antes, quando se aventurara a sair de casa pela última vez.
– Feliks... – virou-se e encarou as costas dele, enquanto ele se ajeitava sob as cobertas. Abraçou-o meio desajeitado por causa de suas posições, mas ele não correspondeu.
De modo geral, a situação ia de ruim a péssimo. Às vezes brigavam muito pelos motivos mais variados, às vezes ele lhe dizia coisas horríveis, talvez por estresse; porque quando Toris saía, raramente conseguia algo significativo, quando não apenas dava de caras com algum inimigo e apanhava até não poder mais, se não conseguisse fugir. Então voltava para casa e às vezes Feliks não parecia se importar, mas Toris havia aprendido a detectar que a indiferença era a forma que ele tinha para enfrentar e se defender do que lhe magoava. Ele preferia fingir para não sofrer. Ou pelo menos era em que o lituano gostava de crer que fosse verdade.
Entretanto, nos dias mais tristes e solitários, os pensamentos negativos afloravam e a única coisa que queria era perguntar a ele se ainda o amava, se não estavam juntos apenas em decorrência do costume. Mas tinha medo da resposta. Acreditava que ele ainda sentia algo porque ainda estava ali. E era apenas isso que o fazia seguir em frente.
Mas tudo ficou mais claro dentro de alguns dias, depois que o próprio Toris saiu para vender os últimos objetos de valor que sobraram de seu grão-ducado. Conseguiu alguns trocados, alguma comida, algumas roupas “novas”, alguns cortes e hematomas e uma insônia porque a perspectiva de futuro se tornava cada vez mais negra. Ficou na sala, pensando, bebendo uma xícara de um chá horrível, que tinha gosto de água com capim; e chegou à conclusão de que teria que começar a enfrentar os inimigos de frente como Feliks fazia, ou nunca mais precisaria se preocupar com o futuro já que ele lhe seria extirpado, como acontecera ao cavaleiro da Horda de Ouro e muitos outros que Toris conhecera em sua vida. A noite já ia alta e havia apenas escuridão nas brechas das cortinas puídas da sala. Um barulho do lado de fora chamou a atenção de Toris e ele não pensou duas vezes antes de largar a xícara e pegar sua espada.
Tinha um pressentimento terrível. Engoliu em seco. Começou a rezar em sua mente, enquanto se aproximava da entrada; mas mal chegou ao meio da sala e a porta foi arrombada, deixando que os flocos de neve invadissem o aposento pelo vão da porta onde a silhueta de um homem alto se desenhava contra o céu da noite. Era o homem do Império Russo. Toris nunca se esqueceria dele, nem por antes, quando invadiram as terras dele e das irmãs e ele os expulsara, nem por aquele momento, o qual mudaria tudo em sua vida. Ele carregava um facão e uma pequena foice e sem palavra alguma, venceu sua espada. Ouvindo o som da luta, Feliks veio correndo aos tropeços, segurando a lateral do tronco com uma mão, sobre sua ferida, e a espada com a outra.
– Feliks, vá embora... – Toris não se virou para olhar, porque um deslize podia ser fatal ali. Permaneceu se defendendo e tentando atacar. – Vá embora!
– Cale-se, Toris.
Ele correu para cima dos dois, mas foi vencido em dois tempos, provavelmente porque ainda não havia se recuperado da última vez que havia apanhado. Toris ainda se esforçou para se manter lutando e atacar na brecha que Ivan abriu para derrubar Feliks, mas ela se fechou rápido demais. Esforçou-se, esforçou-se, esforçou-se, porém ele era bem mais ágil com suas “armas”; bem mais ágil que uma espada já defasada naquela época. Quando o moreno caiu, esperou que aqueles fossem os últimos instantes de sua vida. Nunca imaginou que Braginski apenas chutaria sua espada para longe. Levantou a cabeça para olhá-lo e vê-lo sorrir de leve, feliz com sua vitória.
– Você parece forte. Vou levá-lo. – e o maior puxou seu braço.
Desesperou-se. Tentou se desvencilhar dele, mas ele era muito mais forte, de fato. Olhou para o loiro, que ainda estava no chão. Seu coração falhou uma batida. Ele não podia estar...? Não, ele se mexia. Mas será que ele estava muito ferido? Ou simplesmente havia desistido? Feliks era inegavelmente mais forte que Toris, então se ele não reagia, havia algo muito errado.
– Feliks! Feliks! Levante-se!
Toris gritava enquanto era puxado por Ivan para fora da casa que dividia com o polonês. Este estava caído no chão, de bruços, e nem mesmo se movia. E o lituano não sabia se ficava mais preocupado com o motivo por que ele não levantava ou com o fato de que nunca descobriria, já que estava sendo levado embora, certamente, para sempre. Sabia que não eram mais fortes e que as coisas não eram mais exatamente as mesmas entre os dois, mas queria acreditar e queria lutar, queria que Feliks lutasse também. Pelo amor que sabia que ainda tinham, precisavam lutar.
– Levante!
Então, o loiro finalmente ergueu a cabeça. Parecia zonzo, a princípio, em seguida Toris imaginou ter visto algo como decepção, nos olhos dele. Mas ele finalmente o focalizou... e riu. Simplesmente riu na sua cara.
– Toris... Toris, você totalmente tinha que ver sua cara agora. Tá, tipo, muito engraçada. – e riu mais ainda, apoiando o queixo nas mãos e balançando os pés.
– Você vai me deixar ir assim? – inquiriu, batalhando contra a mágoa que surgia em seu peito. Sabia que Feliks era um tanto despreocupado, mas não imaginava que chegava àquela altura. Sentiu-se enganado e traído. Era como se todo o tempo que passaram juntos não significasse nada.
Ele deu de ombros, resignado. E deu um sorrisinho mais resignado ainda.
– Esqueça-o. Ele não se importa com você. – ouviu Ivan dizer sem se virar.
– Não é verdade... FELIKS! Venha me ajudar!
Mas o outro rolou sobre as costas no chão, ainda vendo-o partir e seus gritos foram morrendo na distância, junto com seu coração, a cada passo que dava. Bragiski não ouvia e não parecia ter a mínima ideia do que fazia com o lituano, enquanto praticamente o arrastava pela neve até seu casarão.
– O que quer comigo? Por que você não me matou de vez? – gritou para ser ouvido contra o barulho do vento, que fazia o cabelo chicotear em seu rosto.
– Por que eu os mataria? – ele pareceu achar a ideia comicamente absurda.
– Nós invadimos seu território e o da sua irmã. Também tentamos levar a Natália embora quando éramos mais novos... – Toris respondeu, com os dentes batendo. – Não foi por isso que você veio atrás de nós?
– Não. Eu já recuperei nossas terras. Você vai me pagar pela insolência de ter nos atacado trabalhando pra mim, então eu perdoo o que vocês fizeram. – ele respondeu, como se fosse um argumento óbvio, sempre olhando para frente.
– E o Feliks?
– Você me parece mais forte. Eu sei o que você fez com os cavaleiros teutônicos da Prússia... E agora também. Seu amigo praticamente caiu sozinho, mas você tentou e caiu batalhando, embora eu tenha ouvido que nenhum dos dois consegue mais lutar.
Nem de longe era forte como Feliks, mas se era nisso que Ivan Braginski acreditava, não o desmentiria. Não tinha ideia de qual seria seu destino de verdade dali em diante, mas qualquer que fosse, imaginava que não seria bom e queria poupar Feliks daquilo.
– É... Eu sou mais forte que ele. Mas você não tem o direito...
– Você não tinha o direito de invadir meu território e o de minha irmã. Nem tinha o direito de querer levar a Natália.
Toris sentiu raiva daquilo tudo e resolveu não deixar barato. Naquele momento, estava fraco demais para continuar a lutar. Ele podia levá-lo aonde fosse, porém rebelar-se-ia e fugiria na primeira oportunidade. Se ela não chegasse, criaria uma, afinal, não havia decidido enfrentar os inimigos de frente como Feliks fazia? Pelo pouco de orgulho que ainda tinha, jurou a si mesmo que não ficaria na casa daquele homem. E foi a este juramento que se agarrou no começo de sua vida no Império Russo, bem no começo de sua história com Ivan. Toris realmente se libertou depois de algum tempo, mas foi logo trazido de volta, junto a outras pessoas. O que realmente aconteceria no futuro, você, leitor, já conhece. Não podia ter sido mais diferente do planejado.
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