Notas iniciais
Pois é... finalmente o destino do Eduard, crianças... Não sei o que aconteceu enquanto eu escrevia esse capítulo, sério. Ele simplesmente ganhou vida e ficou essa... coisa. Sério. É só isso o que eu tenho a dizer. Gomen por ser uma péssima autora que não sabe lidar com postagens regulares ToT

– Devagar... Assim dói... – pediu em voz baixa, cobrindo a boca com uma mão para abafar seus gemidos, enquanto sentia o corpo todo chacoalhar contra o colchão de Ivan.

– Mas você tá gostando... Olha como tá duro e esse negócio já tá escorrendo...

O rosto já avermelhado de Toris adquiriu um tom mais forte por causa da vergonha. Como ele dizia algo assim com aquela cara tão inocente?

– N... Ngh... Não assim... Ah! – apertou os braços do maior, instintivamente, porque sentiu um choquinho elétrico atravessar seu corpo. – Assim vai me machucar... E-eu não vou conseguir andar direito amanhã... Por favor... Devagar...!

O russo acabou acatando seu pedido, diminuindo o ritmo com o qual o penetrava. A dor foi amainando, dando lugar ao prazer que começou a se espalhar pelo corpo do menor, amortecendo seus sentidos. Toris mordeu o próprio pulso tentando não fazer barulho, mesmo que soubesse que não havia ninguém por perto para ouvi-los naquele andar. Tinha vergonha de ouvir sua própria voz tão entregue. Seu braço foi logo foi afastado e substituído pela boca de Ivan, num beijo lento e bastante longo. A falta de ar foi opressiva quando se separaram, como se mãos gigantes prensassem seus pulmões pela frente e por trás. Com os olhos semicerrados, o lituano percebeu que o loiro o encarava de volta, enquanto invadia seu corpo. Na verdade, a palavra mais adequada seria admirava.

– Hn... Ahn! Ahn! Aaah...!

Ele encontrou sua próstata e sorriu de leve ao ouvir a resposta. A cada contato, o lituano apertava mais os lençóis e contraía os dedos dos pés, com as pernas suspensas sobre os ombros largos de Ivan. Toris enfiou os dedos nos cabelos acinzentados do outro rapaz e o puxou para que seus lábios se encontrassem novamente, forçando sua coluna numa curva fechada para alcançá-lo. Provocou a língua dele com a sua, mas parou assim que Ivan alcançou seu membro melado de pré-gozo, ocasionando um arrepio que lhe subiu pela espinha. Sentiu-o rir fraquinho contra sua boca.

O loiro desceu as pernas alheias de seus ombros e segurou firme pelas costas do menor, fazendo-o sentar em seu colo, voltando aos beijos. Toris sabia que ele se excitava mais com aquela posição — o que lhe surpreendeu ao perceber este fato, já que aquela não era uma posição de dominação. Ao contrário, exigia que o moreno controlasse o ritmo. E ele odiava admitir, mas também preferia assim. Colocou uma mão no meio do peito de Ivan para fazê-lo se recostar contra as almofadas de sua própria cama e, agachado no colo dele, começou a mover o quadril, em ritmo não muito rápido, não muito lento, mas o bastante para precisar continuar a engolir seus gemidos cada vez mais vergonhosos. Masturbou a si mesmo, ciente de que cada movimento seu era absorvido com avidez pelo olhar do eslavo. Era mesmo embaraçoso, mas o excitava.

Talvez estivesse frio nalgum lugar naquele quarto, mas nenhum dos dois o perceberia em meio ao calor que sentiam, em meio àquela sensação indescritível que a fricção de suas peles lhes causava. Se viajasse no tempo até o passado, nunca conseguiria convencer a si mesmo de que chegaria o dia em que acharia gostosa a sensação dos dedos de Ivan acariciando seu peito, seus mamilos; nunca se imaginou deixando de tão bom grado que ele fizesse sua camisa (que a agonia de ir logo aos “finalmentes” o impediu de tirar mais cedo) escorregar pelos braços. Nunca acreditaria que um dia seguraria o rosto de Ivan, para colar os lábios nos dele, por conta própria, pelo simples fato de que beijá-lo deixou de ter uma sensação ruim. Afastaram os lábios, então se olharam. A cada descida de Toris, Ivan ofegava baixinho pela boca molhada, vermelha e inchada dos beijos; parecia sentir muito aquilo. O lituano nem imaginava a sensação de tomar alguém, mas pela expressão no rosto de Ivan, parecia bom. Passou os dedos pelos lábios dele, então o beijou rápido.

Não viu quando uma mão muito alva alcançou seu pescoço e arrebentou a correntinha na qual usava um pequeno crucifixo, presente de Feliks de quando ele o convencera a se converter ao catolicismo. Dormia com ele e tirava ao acordar quando não dormia com Ivan — não pelas lembranças do polonês, mas porque acreditava em Deus e sua fé era uma das poucas coisas que lhe dava forças para lidar com a culpa pelo que se tornara e pelo medo do quão baixo ainda podia descer. Naquele dia, porém, havia se esquecido de tirar. Toris apenas ofegou, colocando a mão no próprio pescoço arranhado pela corrente, enquanto o russo largava o crucifixo pela cama. Não valia a pena retrucar, então apenas deixou que Ivan o deitasse outra vez e continuasse a invadi-lo. Continuou a mover o corpo contra o dele, até que sentiu aquela mais que familiar sensação do líquido morno dentro de seu corpo e do seu expelido sobre a própria barriga, junto ao torpor do primeiro orgasmo daquela noite.

A madrugada já ia bastante alta, contudo, o gás durou até a manhã, quando Ivan deslizou para fora pela última vez para deitar de costas, parecendo satisfeito e sonolento. Toris virou de bruços ao lado dele, sentindo o corpo se tornar pesado, mortificado e latejante; desejando mais que tudo poder dormir, mas já era hora de ir trabalhar. Permaneceu alguns instantes sem mexer nenhum de seus músculos em cãibras, tentando criar coragem para levantar; até que sentiu a mão dele afastando o cabelo de seu rosto e depois parando em seu ombro, para acariciar sua bochecha com o polegar. Ele estava tão próximo que quase parecia que ele o abraçava. Levantou os olhos e encontrou os olhos dele, sobre belas olheiras arroxeadas. Imaginou como não estaria seu próprio rosto. Apesar da “esplêndida” visão que deveria estar tendo, o russo sorrir de leve, cansado. Um arrepio estranho percorreu a pele do báltico, então acabou por desviar o olhar e bocejou em disfarce.

– Você também quer dormir? – o russo murmurou, soando mais infantil que o normal por causa do cansaço.

– Hm... Não dormimos nada, sr. Ivan... Eu tô com sono... Mas está na hora de ir trabalhar... Eu tenho que ir. – disse, mas não se moveu.

– Fica aqui. Eu também tenho que trabalhar, mas dá pra ficar mais um pouco.

Toris se esforçou para manter a própria consciência. Sabia que se fechasse os olhos, provavelmente os abriria apenas depois de horas. Sentiu muito remorso ao imaginar o que os outros diriam se soubessem que estava ali, deitado na cama confortável de Ivan, enquanto, àquela hora, todos já deveriam estar trabalhando depois de dormir em camas ignomínia. Se soubessem que era a meretriz barata do russo... será que deixariam Toris escapar vivo?

– Preciso ir... – fez menção de levantar, mas foi detido por uma mão em suas costas.

– Fica.

O lituano suspirou. Não era um pedido. Ele sempre tinha que fazer isso... Sempre tinha que estragar tudo... Encostou o peito no colchão novamente e continuou se esforçando para não fechar seus olhos. Permaneceu assim por uns instantes, até que Ivan perguntou:

– O Eduard chega hoje, não é? – ele ainda murmurava.

– É... É hoje sim... – disse o lituano, com um suspiro e a voz arrastada de cansaço.

– Acho que ele deve voltar bem chateado...

Toris riu mentalmente. Chateado...

O "um mês" de Ivan não contou com uma semana de ida e uma semana de volta — pelo menos, ele ainda teve a "sorte" de ser mandando para o campo de Vorkuta, que ficava na parte da Sibéria mais próxima a Moscou. Também não garantiu que a sentença do estoniano não fosse aumentar por alguma insubordinação dele no gulag. E conhecendo Eduard, era para tomar aquilo por certo. No fim, ele estava voltando após quase sete meses.

– Depois de dois meses chegou uma carta, mas ela não dizia coisas muito coerentes, porque estava um pouco riscada e manchada em várias partes, mas imagino que ele tenha sofrido muito... – e que deva odiar você mais ainda por tê-lo mandado para lá.

– Sei que as construções não são um bom lugar. – Ivan sorriu fraquinho, de olhos fechados, em meio a todo o seu sono. – Eu era pobre e camponês, lembra? Trabalhei por muitos anos lavrando a terra com a Yekaterina nos kolkhozy. Passamos fome, frio e os guardas podem ser bem maus quando querem. Parecia que nada nunca ia melhorar. Mas nós sobrevivemos e estamos aqui. Ele só passou um pouco mais de cinco meses no campo propriamente dito e ainda tem um lugar pra onde voltar, comida garantida, uma cama o esperando... Muito diferente dos outros como nós que passamos anos e anos sem a mínima perspectiva do que seria dali pra frente. Ele tem que aprender a valorizar isso.

Valorizar o que tem... Valorizar uma prisão? Era uma lógica torta. Não estava certo. Nada estava certo desde o começo e o lituano não sabia nem mesmo precisar onde exatamente era esse tal começo. Mas o que podia dizer? Ivan nunca iria entender. Se ele pudesse mudar... Se ele pudesse se tornar alguém melhor... Toris quase começou a cochilar enquanto pensava isso, porém a voz de Ivan o trouxe de volta outra vez.

– Por que vocês não entendem que é tudo pro bem de todos? Que tudo o que eu faço é por que quero que todos nós sejamos felizes... juntos... – ele se esforçava para manter as pálpebras abertas enquanto, por outro lado, o sono de Toris já estava indo embora com aquela. Essa é boa...

– Como pode ser pro nosso bem? – o lituano respirou fundo, tomando coragem para prosseguir e se aproximou dele para que ele acordasse e o ouvisse. – Esses castigos são muito exagerados, senhor Ivan... Por exemplo, mandar o Eduard para as minas na Sibéria... Tudo por causa da vodca, não foi? Foi um acidente e ele foi mandado paras as minas... Como um criminoso... – Toris franziu a testa para ele, indignado, enquanto se apoiava nos cotovelos.

– Não falo disso... É sobre o fato de que vocês não entendem... Não entendem e eu já expliquei mais de mil vezes... Eu quero acabar com o frio de todo mundo...

Toris não respondeu. Não era justo, não era certo, não fazia sentido. Se ele ouvisse, talvez pudesse realmente construir esse lugar melhor de que tanto falava... Mesmo relutante, havia começado a cogitar acreditar nele, acreditar que ele tinha boas intenções; mas atos como este contra Eduard e muitos outros dificultavam tudo. E conversar com ele também podia ser bem difícil quando se tratava de assuntos mais profundos. Pensou em mil coisas para dizer, mas acabou não conseguindo, então apenas observou-o até que as pálpebras dele se fecharam de uma vez. E Toris ficou pensando no quanto de sofrimento e neve manchada de sangue aqueles olhos cor de violeta já não haveriam visto... Quanta solidão ele já não haveria enfrentado.

De certa forma, eu entendo... A dor, a solidão e o medo são enlouquecedores... Por isso ele tinha essa obsessão com pessoas por perto e felicidade? Isso tudo deveria ter mexido mesmo com a sanidade de Ivan. Será que ainda havia volta? Você é como um quebra-cabeça difícil de montar... Tenho que encaixar pecinha por pecinha... então talvez no dia em que ele estiver pronto, eu consiga alcançar você e fazer você entender que não é bem assim... Querer que todos sejam felizes deste modo... Isso é impossível... Entenda isso. Ninguém é feliz, se não tiver liberdade.

Ele começou a ressonar de leve, então o lituano puxou o cobertor mais para cima do tórax despido dele e exalou o ar com força. Ivan havia parado de usar camisa quando estava com Toris, já que não havia mais motivos para esconder as marcas nas costas. Ainda assim, o lituano evitava olhar porque odiava vê-las e lembrar que era a outra de alguém. E, aliás, acabou nunca ouvindo a explicação sobre elas. O russo nunca tocou no assunto e Toris nunca mais perguntou, pois já havia entendido. E era muito óbvio mesmo, explicava muitas coisas, como o fato de que sempre se encontravam escondidos, como se o russo estivesse fugindo de alguém, e de que ele o procurava sem falta quando Natália não estava em casa. Sendo como era, o que o impediria de arrastar Toris para o quarto na frente de todos? Naquele dia, tiveram a primeira noite no quarto de Ivan, justamente quando Natália vinha passando muito mal e não conseguia colocar os pés fora do quarto havia dias. Era bem óbvio mesmo. Mas, bem, não queria mais saber. Esticou-se por cima do maior para pegar seu crucifixo, depois sentou com esforço e começou a se vestir. Acho que o meu corpo não vai durar muito se ele continuar a fazer isso comigo desse jeito..., pensou, angustiado. Se bem... eu deixo... De fato, não se lembrava de ter tentado pará-lo em nenhum momento. Também era sua culpa.

Lembrou que Yekaterina havia lhe pedido para lavar a varanda e tratou de ir de uma vez, antes que Ivan acordasse. Ultimamente a carga extra de trabalho herdada temporariamente de Eduard ajudava a lhe impedir de ficar alimentando caraminholas na própria cabeça. Não pensar era uma benção, às vezes. Antes de ir cumprir sua tarefa, porém, precisava se lavar, então rumou para o quarto que dividia com os outros dois, para pegar suas coisas. O cômodo estava vazio porque Raivis deveria estar fazendo seu trabalho. Pobre dele, pensou. Aqueles dias estavam sendo terríveis para a saúde física e mental do menor, pois se esforçava até seus limites no trabalho. Toris esperava que tudo melhorasse quando Eduard voltasse; era o que pensava enquanto seguia para o banheiro. Suspirou, ao tirar suas roupas antes de abrir o registro para que a água fria da bica caísse, então começou a lavar o suor e tudo o mais de sua pele.

Sentiu ardência quando lavou entre as nádegas, então notou como fazia tempo que não sentia isso, porque fazia tempo que não resistia mais ou que ele fora bruto demais pela última vez. Não conseguia parar de pensar sobre como ninguém iria entender o que fazia, porque nem ele mesmo entendia, muito menos aceitava. Era tão errado e arriscado. Tinha muito medo de perder o pouco que ainda tinha por ser conivente com aquilo. Não podia mais se esconder atrás da máscara de vítima, colocando toda a responsabilidade sobre Ivan. Não havia provocado, mas agora aceitava. Confiava na amizade de Raivis e Eduard, mas para tudo há limites, e se deixar levar como estava fazendo, uma traição como aquela... era difícil de engolir. Fechou o registro e colocou suas roupas depois de se enxugar. Precisava fazer algo por sua situação. E logo.

Rumou para o quarto para guardar suas coisas, ainda com os pensamentos aflitos, mas eles pararam imediatamente à porta quando Toris viu que havia uma comoção ali. Ao se aproximar mais, constatou que Eduard estava lá, cercado pelo outro báltico, mais os eslavos e os orientais. Havia uma atadura suja de terra e sangue desde seu pé até abaixo do joelho. Ele agarrava a própria coxa como se sentisse dor, enquanto Raivis estava de pé em frente a ele, com uma expressão mortificada no rosto, por não saber o que fazer, enquanto ele falava, com bastante dificuldade:

– ... pior que o inferno... – o estoniano, grunhia entredentes, sentado na cama; seu maxilar parecia duro. – Imagina o que é ver seres humanos chafurdando na merda... Como se nós fossemos porcos... Era merda, neve e carvão pra todo lado naquela maldita Sibéria. Vocês acham que isso aqui é ruim? Em Vorkuta, trabalhávamos até desmaiar de exaustão, então os malditos vinham e chutavam nossas cabeças pra que nós voltássemos ao trabalho. E se você não é forte, não produz. Se não produz, não come. E era uma merda de um pãozinho duro ou uma ração imunda, que a gente comia com as mãos sujas de carvão e nem se importava porque a fome doía... Eu vi crianças... crianças morrendo de fome. Além disso, as pessoas morriam de umas doenças estranhas ou então esses bastardos se irritavam e atiravam na cabeças das pessoas. De grávidas, de crianças, de velhos. E sabe o que eles faziam depois? Riam! Eles riam! Isso quando eles não estupravam as mulheres em qualquer lugar. Você tinha que ver e baixar a cabeça, senão eles o castigavam também. E qualquer coisa era motivo pra te espancarem; eles o torturavam até você desejar nunca ter nascido. Eu desejei morrer vários dias, mas minha vontade maior era matar todos os soviéticos malditos. Sabe o que é imaginar matar alguém dos modos mais insanos possíveis? Sabe o que é ser empurrado aos limites mais... mais... extremos da sua sanidade? Eu tive que lutar muito pra manter a minha... Mas às vezes eu só queria desistir e deixar acabarem comigo, como muitos faziam... – o estoniano apertou o peito, como se aquelas lembranças fossem tão dolorosas que o faziam sentir dor física. Seu maxilar travou mais.

Os eslavos e orientais começaram a discutir, indignados, numa algazarra terrível. No instante em que Toris pensou em lhes dizer para ficarem calmos antes que alguém fosse checar o motivo daquele barulho, viu as mãos Eduard se esticarem para alcançar a roupa de Raivis, na altura da barriga. Ele o puxou para se apoiar, parecendo muito fraco e zonzo. Apenas então, o lituano viu como suas mãos estavam completamente escondidas por faixas tão imundas quanto a que estava em sua perna. Toris sentiu raiva daquela vida injusta e maldita que tinham. Ouviu Raivis pedindo para que todos fossem embora para que Eduard fosse tratado. Não conseguiu se mover, porque seu corpo estava congelado, quase em estado de choque.

– Me perdoa, Eduard. A culpa foi toda minha e eu deixei você ir no meu lugar... Eu deveria... – começou o letão, quando a última pessoa saiu, deixando os três sozinhos.

Eduard levantou olhos cansados para fitar o garoto de pé. Havia marcas no rosto dele, a única parte visível do seu corpo dele, que estava coberto pelas roupas esfarrapadas e imundas do que parecia terra, carvão, sangue e outras coisas que Toris não podia identificar. O rosto dele estava magro e abatido, o lituano pôde ver mesmo por cima de toda a sujeira. Havia um corte inflamado na bochecha. Mas o pior eram os olhos mesmo; nunca imaginaria que algum dia veria um olhar tão desolado e sem vida em Eduard. Ele voltou a falar com a voz rasgada e presa pelo maxilar endurecido.

– Não me arrependo de ter ido... porque eu me sentiria pior sabendo que você passou por todo esse inferno sozinho... E ir pra lá até me ajudou a ver melhor as coisas. Isso tudo é ridículo. Todo o tempo eu ficava pensando e pensando sobre a finalidade dessa coisa toda. A que esse socialismo vai nos levar...? Esse Braginski disse que coletivizar seria melhor pra todos, mas até agora ele é o único que tem tudo e manda e desmanda em nós! É justo? Não vejo nada de positivo em prosseguir com isso. Até quando vai ser assim?

– Mas a questão é que são etapas... – Toris ponderou, baixinho, sem pensar no que estava dizendo. – Não temos nada... Então não tem como dividirmos com todos... Precisamos construir o que dividir...

– Não temos nada...? – ele levou uma mão ao queixo, que começava a tremer.

– Não fala, Eduard... Não se esforça... – Raivis tentou pará-lo, mas ele não ouviu.

– Você tá defendendo esse inferno, Toris? Está defendendo o fato de estarmos sendo obrigados a acreditar que somos o que não somos? Hn... – ele apertou o osso mais forte, fazendo o letão virar o rosto, irrequieto. – Eu nem me lembro mais da minha própria língua! Nem me lembro como era a Estônia antes disso tudo! Eu não me lembro do que se pode chamar de vida. Isso é certo? O que justifica isso? Eu estive lá fora. E muito além do “fora de casa”. Eu vi que não estamos construindo nada pra nós mesmos, mas sim pro patrimônio dele. Essa aqui não é a nossa casa. É a casa dele! Você acredita mesmo que ele vai dividir algo com a gente? Só estamos sendo usados. Todos nós. Toris... onde você está com a cabeça pra tentar justificar isso?!

– Bem, o jeito que a coisa é feita não tá certo... Mas a ideia toda não é tão ruim... – sinceramente não sabia o que dizia; não sabia mais no que acreditar. – Olha... eu só quero... poder dormir à noite... sem ter que achar que eu não tenho motivo pra acordar... Eu quero... não achar que esse é pior lugar do mundo, pra não enlouquecer...

Eduard lhe franziu a testa, um pouco surpreso com aquela resposta.

– Não seja covarde. Tentar ignorar o problema ou ser conivente não faz com que ele suma... Hgh...

Entretanto, antes que pudesse dizer mais qualquer coisa, pareceu entrar numa crise de dor, a qual ele tentou enfrentar dentro de si, fechando os olhos, trancando o maxilar e enfiando as pontas dos dedos de uma mão no próprio joelho, como se quisesse arrancar a perna com a própria mão, enquanto a outra apertava o próprio peito.

Uma das piores sensações do mundo é ver alguém que se ama sofrer e não poder fazer nada. Viu Raivis segurar o rosto de Eduard e repetir baixinho "calma, calma, vai passar", já que não havia o que fazer. Demorou cerca de dez minutos até que o estoniano se acalmasse, mas continuou com o rosto vermelho e a respiração ofegante por mais algum tempo até que ela se acalmasse também.

– Vamos... Vamos tomar banho. Depois nós vamos cuidar desse pé e das suas mãos.

Raivis tentou ajudá-lo a levantar, mas ele se negou.

– Eu tô usando essa roupa praticamente desde que cheguei lá e não tomo banho há umas três semanas... Melhor você não me tocar... – ele soou irritado, humilhado e envergonhado ao mesmo tempo.

– Não deixavam vocês tomarem banho? E o que aconteceu com as suas roupas?

– Os guardas não nos deixavam pegar lenha pra que nós pudermos queimar e nos aquecer. Um dia, estava muito frio, muito mesmo, abaixo de zero, ia começar uma nevasca e eles disseram que, se estávamos com frio, deveríamos queimar o que tínhamos pra nos aquecer... As pessoas já estavam lá há tantos anos e nem conseguiam raciocinar direito. Acharam uma boa ideia, então pegaram tudo o que viram pela frente pra queimar. Minha mala foi no meio. Fora que eu não conseguia me lavar porque tivemos que tirar carvão com a mão nas minas por alguns dias... Elas estão completamente cortadas e as minhas unhas caíram todas... Eu não conseguia tomar banho...

O letão fez uma careta de aflição.

– Eles não davam instrumentos pra vocês? – a voz de Toris finalmente voltou, porém falha.

– Foi castigo porque tentaram acertar um guarda com uma picareta.

O menor exalou o ar devagar e disse:

– V-vamos tomar banho... Vou ajudar você. Não me importo se você não toma banho há semanas. Não se preocupa com mais nada. Vem.

Eduard assentiu e fez um esforço imenso para se levantar. Ele foi pulando, sendo apoiado por Raivis. Mas mesmo sem colocar o pé no chão, ele ainda parecia sentir uma dor lancinante, que quase o fazia chorar.

O estoniano estava com febre e ela não baixou depois do banho. Ele insistiu que não queria dormir no quarto dos bálticos, que não podia ficar com eles, então os outros dois tiveram de levar um arremedo de colchão para o sótão para que ele pudesse ficar lá, o único cômodo desocupado além do porão, que era o lugar mais temido e odiado da casa. O mais alto praticamente desmaiou assim que Toris colocou uma manta sobre sua “nova cama". Nem parecia a pessoa que estivera tagarelando mais cedo. O lituano se perguntou se ele tinha medo de que aquela febre fosse causada por alguma doença contagiosa que pudesse haver adquirido no gulag ou se podia ter desenvolvido algum tipo de fobia por passar tanto tempo com pessoas estranhas, porque ele nem mesmo aceitou ajuda no banho. Mas ele podia simplesmente querer um tempo para si mesmo, o que era perfeitamente compreensível.

Mais tarde, quando tentaram tirar as ataduras molhadas (que, no fim das contas, eram pedaços de roupas rasgadas) após o banho, a dor fez o estoniano tentar afastar as mãos que o tocavam e isso desencadeou mais dor e espasmos estranhos pelo corpo, ao se mover tão desesperadamente. Após a terceira tentativa de retirar, Raivis começou a entrar em pânico e isso apenas piorou tudo, então Toris resolveu que era melhor esperar um pouco e deixar as ataduras improvisadas como estavam.

A questão foi que se passaram quatro dias em que a febre não cessava. Ele permaneceu com dores tanto na perna, quanto no peito e, aos poucos, seu maxilar foi travando mais, enquanto os músculos da face entraram em espasmos. Ele permanecia lucido pela maior parte do tempo, porém havia momentos em que começava a perder consciência e dava um sorriso assustador e maníaco, o qual fazia Raivis cobrir os olhos e chorar baixinho num canto qualquer do sótão. Somado a isso, saliva escorria o tempo todo pela boca, ele tinha dificuldade em comer, então os espasmos pelo corpo foram ficando mais fortes e ele se contorcia tanto que o corpo todo vergava para trás, como se ele tentasse fazer a forma da letra U. Finalmente conseguiram desenfaixar a perna pela manhã do quarto dia. Apenas então viram como a pele estava inchada e apresentava um tom arroxeado forte ao redor de um corte muito feio no pé.

– Tá infeccionado... – Raivis murmurou com a voz falha e desesperada, enquanto Eduard respirava asperamente, com o olhar desfocado no nada, e emitia uns sonzinhos estrangulados, enquanto saliva escorria por seu queixo, depois de mais uma crise de espasmos.

– Ele precisa de um médico. – Toris esfregou a própria testa, angustiado. – Vou avisar ao sr. Ivan...

O letão olhou para o outro em pânico.

– Toris... e se... e se quiserem mandá-lo embora porque ele não serve mais?

O mais velho o olhou da porta, surpreso.

– Não farão isso... Não podem fazer isso...

Tinha certeza de que não podiam tomar uma medida dessas. Era uma vida. Nenhum dos castigos de Ivan havia ameaçado suas vidas seriamente até ali. Eles não seriam capazes... Tinha certeza, por isso seguiu para o seu destino. Com um pouco de persuasão, o lituano conseguiu trazer Ivan e seu chefe, que estava ali porque o russo não dava mais conta de terminar o trabalho fora de casa, então acabava terminando tudo por ali. Ambos chegaram e avaliaram a situação (após Toris implorar para que falassem baixo e fossem sutis), um tanto quanto afastados, até que o chefe do russo disse:

– Bem... não façam alarde sobre isso. – olhava para o báltico, que havia acabado de desmaiar sobre o colchão. – Ivan, você pode dar um jeito nisso.

– Um jeito? – Toris repetiu, mirando-o e se esforçando para não parecer insolente. – Eduard precisa de um médico, senhor. Ele tem um corte infeccionado no pé. Está com febre e morrendo de dor.

– Basta abrir, tirar o pus, enfiar um remédio e costurar. Uma hora ele vai ficar bom. – o chefe puxou um charuto no bolso e o admirou. – Tem penicilina em algum lugar por aí.

Toris viu Raivis, indignado, tomar fôlego para falar, mas se pôs na frente dele bem a tempo e se voltou ao russo parado próximo ao superior. Ele ainda encarava o outro sobre o colchão, com um vinco leve entre as sobrancelhas.

– Senhor Ivan, por favor, ele precisa de um médico. – disse a ele, baixo, olhando-o firmemente. – Ele já passou dias assim... Se essa infecção se espalhar... Por favor... Ajude-o.

– Não posso fazer nada. – o loiro não tirou os olhos de Eduard, enquanto o chefe acendia o charuto e o posicionada entre os dentes do lado direito, com ares de despreocupação no rosto.

– Acabe de uma vez com isso. Você ainda tem muito a fazer. Estão com sorte que não o jogamos logo em uma vala...

– Pegue o álcool. – Ivan finalmente olhou para Tori, parecendo estranhamente sério. – Traga uma faca grande da cozinha e uma daquelas agulhas grossas com linha...

O outro soviético pareceu satisfeito, então saiu do sótão, provavelmente para voltar ao trabalho naquele dia frio de outono.

– Faca da cozinha...?

O estômago de Toris afundou. O que iriam fazer a Eduard? Aquilo era condená-lo novamente, mas a um caminho sem volta para conhecer Deus. Como percebeu que Raivis estava mais interessado em entrar em estado de choque, aproximou-se mais de Ivan, o bastante para que apenas ele o ouvisse.

– Por favor. Senhor Ivan... – pôs a mão no braço do maior e o olhou em súplica, enquanto sussurrava. – Assim ele não vai melhorar... Por favor, permita que nós o levemos ao hospital... Eu faço o que você quiser... Qualquer coisa... É só dizer...

Ivan o olhou brevemente de soslaio, um tanto quanto inexpressivo, então voltou a atenção para Eduard.

– Ninguém de fora pode saber. Vá pegar o álcool, a agulha e a faca. Vá, Toris.

O báltico relutou mentalmente em aceitar aquilo e se forçou a engoliu sua decepção. Era de se esperar mesmo, não? Os soviéticos não eram humanos, independentemente de Ivan às vezes parecer diferente... Ele era farinha do mesmo saco que pessoas como seu chefe. Obedeceu àquela ordem, sentindo o peito latejar. Trouxe o que lhe fora exigido e sentiu seu coração morrer um pouco ao chegar e ver Raivis implorando ao outro que deixasse Eduard ser devidamente tratado. Estava sentado no chão, parecendo tão frágil e em sofrimento, mas Ivan estava mais interessado na penicilina que o rapaz de cabelos castanhos havia ido buscar. Como Ivan não se comovia? Ao contrário, estava começando a se irritar. Era possível notar pelo sorriso estranho que ameaçava surgir em seus lábios.

– Diga a ele, Toris. Diga a ele que ninguém pode saber. Diga a ele que tem que ser assim.

– Raivis...

Não precisou continuar porque o menor já havia entendido. Ele abaixou a cabeça, com o rosto vermelho, talvez por tentar segurar o desespero, o sofrimento, as lágrimas. A única ação que restou a Toris foi sentar de outro lado de Eduard. E ele acordou imediatamente, assim que Ivan jogou álcool no corte.

– O-o que você vai f-f-fazer? – ele gaguejou por entre os lábios ressecados, mirando Ivan, desesperado. O corpo todo começou a tremer e ter espasmos. O que acontecia quando ele acordava de repente. Ele estava sensível à luz, aos sons, a tudo; e ser acordado daquele modo foi muito agressivo aos seus sentidos.

– É pra você ficar bom... Você vai ficar bem... – Raivis apertou a mão dele e sorriu, mas uma lágrima escorreu por seu rosto, caindo na bochecha de Eduard.

Mal o menor terminou de falar e Ivan inseriu a faca na ferida para tirar a secreção acumulada em seu interior. O sofrimento foi tão excruciante que ele não conseguia externar porque o corpo parecia estar travando após os espasmos, enquanto tinha a lâmina de metal sendo cravada na pele. Era tão grande e palpável que o lituano sentiu os próprios olhos arderem e o mínimo que pôde fazer foi aguentar a mão sendo esmagada na dele, assim como Raivis aguentava do outro lado. Ivan agarrou o pé que tentava se afastar na lâmina de metal para que ele ficasse quieto, enquanto o letão chorava baixinho, repetindo "calma, já vai acabar, já vai passar, Eduard... shhh, shhh" e acariciava seu rosto. Imaginou a culpa que ele sentia enquanto era obrigado ficar quieto diante daquilo. Isso é uma casa de loucos... Já ultrapassa todos os limites... Pra não deixar que as pessoas de fora descubram o quanto nós sofremos, vocês nos fazem sofrer mais e mesmo que custe nossas vidas. O que impedia de ser Raivis ali, uma criança? Ou Toris?

Quando terminou, Ivan simplesmente foi embora, deixando Raivis e Toris para limpar o sangue e tentar acalmar, ou pelo menos evitar que um Eduard que convulsionava se machucasse mais ainda.

Notas finais
Tootlus significa "tetorno" em estoniano. Pobre Eduard, hein? A treta maligna has been planted and exploded, mas never ends aqui, né? Falando em terminar, esse capítulo marca o início do fim dessa fic T-T E eu fico muito triste ao pensar nisso. Tipo, não vai acabar no próximo, nem no outro, mas faltam poucos capítulos. Desde que eu recomecei a postar, foi um piscar de olhos até aqui, então daqui pro fim... Bem, vai ser na velocidade da luz T-T Essa aqui é minha one and only fanfiction porque não acho que eu vá conseguir escrever outra que tenha me dado tanta... liberdade (?) quanto essa, porque nessa eu tava botando tudo o que eu queria. E também não acho que vá conseguir fazer uma do mesmo tamanho ou maior que essa e com essas pontes com história que eu amo fazer... ): Mas enfim, bora ser feliz enquanto durar... ;-; As notas foram colocadas num post no tumblr porque ficaram imensas. Eu criei uma conta só pra isso (agora que a fic tá acabando, imbecil?); ia postar no meu tumblr mesmo, mas tem muita gente que me segue que não deve ver esse trem xD Aqui o endereço: http://priviet-da.tumblr.com/post/96059127421/notas-xi Só uma curiosidade antes disso: o nome e o sobrenome do Toris aparentemente foram traduzidos errado por quem quer que seja que traduziu haha. Eles não existem na Lituânia. O certo seria Tolys Laurinaitis xD TOLYS SADHIUDAHSIUSDAH’ O bichinho já era gay o bastante do jeito que tava xD Enfim... desculpa a demora. Obrigada pela paciência. Obrigada pelos comentários. Até a próxima. Tia Julie daisuki vocês ♥♥♥