Dotyanutsya do Tebya
5 Parte IV: Aš nesuprantu
Notas iniciais
Os próximos golpes o fizeram morder a língua, sentindo dor sobre dor, que se misturavam e viraram uma massa confusa dentro de sua mente. Nunca deixava de descobrir que havia um tipo de dor que nunca sentira antes e, naquela vez, não foi diferente. Ivan deu pisões muito fortes nos pés de Toris, o que o fez ver estrelas sob a venda. Teve certeza de que alguns ossos também se quebraram ali. Nem notou quando tudo acabou porque a dor não cessou. A venda, que havia trazido o medo da expectativa e canalizado para a dor toda a atenção que dispersaria com a visão, potencializando-a, foi tirada de seus olhos, fazendo com que a pouca claridade os atingisse e cegasse brevemente. Devagar, baixou a vista para as mãos. Não conseguia ver sua pele debaixo do sangue e nem se atreveu a tentar ver ou mexer os pés. Quando olhou Ivan, viu as costas largas dele, enquanto depositava a chibata ensanguentada sobre a bancada do outro lado da sala.
A porta pareceu tão atraente, no alto da escada, mas eram muitos degraus e as forças haviam abandonado os membros do lituano. Aliás, imaginou que se tentasse fugir novamente, ele iria matá-lo de vez. Ivan virou e Toris se encolheu. Ele segurava um vidro com um pó branco e seus anos de experiência na cozinha haviam lhe ensinado a discernir aquilo imediatamente. Cloreto de sódio.
– Incrível como uma coisa tão simples e comum pode fazer um estrago tão grande, não é? – ele fitou o que segurava, talvez até com admiração. – Sal pode até curar essas feridas mais rápido, mas eu sei que você nunca vai esquecer a sensação.
– Sr. Ivan... eu juro... Eu juro... que nunca mais... vou tentar fugir... Eu juro... eu juro... eu juro... Eu fui mau... Fui ingrato... mas, por favor... me perdoe... Não faço mais... isso...
– Quem me garante que não é mentira? – o russo abraçou o recipiente e Toris podia jurar que ele estava amuado. – Você disse isso na última vez. E na outra vez...
– Acredite... por favor... – as lágrimas de verdade vieram quando esfregou a testa no chão frio. Não havia o que dizer. Realmente já havia feito aquele juramento e o quebrado algumas vezes. Mas naquela vez falava a sério, porque estava cansado daquelas punições. Era doloroso demais. Até o momento, não havia sido nem metade da última vez e se ele iria castigá-lo "direito" agora... Só de imaginar a dor que ainda estava por vir, sinceramente preferia ceder de uma vez. – Eu não... aguento... mais.
Para sua surpresa, o pote foi depositado no chão com um "toc" seco. Toris virou o rosto meio encoberto pelos cabelos que pregavam nos caminhos de lágrimas e de saliva que escorriam pelo seu queixo. Viu Ivan com um olhar ponderativo, antes de dizer:
– Nunca mais me conteste. Nunca mais tente me deixar.
– Eu não... vou... Prometo.
Então o russo, sem aviso, içou seu corpo nos braços e o lituano não conseguiu conter um pequeno ganido ao ter uma sensação como a de várias espadas trespassando seu peito e costas, fazendo todo o ar escapar dos pulmões. Os pés, que pendiam moles em seus tornozelos, pareciam querer se desprender do corpo a cada passo que o loiro deu rumo às escadas, pelos corredores, subindo o outro lance de degraus em direção ao quarto dos bálticos.
Quase não tinha mais consciência quando ele invadiu o quarto, fazendo os outros dois acordarem assustados. Porém, ainda ouviu, quando foi depositado sobre a cama que dividiam, Ivan pedindo um pano, bacias com água, um balde ou algo assim. Enquanto sua consciência oscilava, ainda conseguiu ver o maior retirando as luvas, então o estoniano e o letão voltaram ao quarto, parando brevemente ao finalmente verem suas mãos e seus pés, mas logo se aproximaram e puseram o que fora pedido ao lado dos pés de Ivan, em silêncio. Ele ainda pediu mais alguma coisa, mas Toris não ouviu. O russo então pegou sua mão esquerda, com o balde sob ela, no chão, e jogou água sobre as feridas na palma, tirando o excesso de sangue. O lituano deu um gemido tímido, puxando a mão em reflexo, ganhando um pouco de consciência.
– Sua punição já acabou. Agora eu vou cuidar de você. – disse, suavemente.
E assim segurou sua mão outra vez, limpando com a água da bacia. Depois passou algo de cheiro forte de antisséptico que Eduard havia trazido e aquilo ardeu até os ossos, fazendo duas pequenas lágrimas escaparem dos olhos do lituano. Com certeza, ardera menos do que o sal arderia, apenas isso o consolou e o fez aceitar melhor aquilo. Levantou os olhos marejados para o russo, enquanto ele repetia o processo na outra mão e as enfaixava. Não entendia, não entendia mais nada do que estava acontecendo, pensou, fechando os olhos, cansado.
Enquanto isso, Ivan prosseguia com os curativos, que não estavam ficando perfeitos, porém serviriam. Ele apalpou seus pés e mais lágrimas se perderam nos cabelos do rapaz deitado, junto a gemidos de dor estrangulados, especialmente quando ele segurou firmemente e colocou os ossos de volta ao lugar com puxões. Toris se lembrava de quase ter gritado, perguntando-se por que não desmaiava de vez. Bem, pelo menos, não havia nada quebrado ali, aparentemente.
Por fim, o loiro cautelosamente abriu a camisa manchada com o sangue das próprias mãos do moreno. Havia um grande hematoma roxo-azulado atravessando o meio do branco leitoso da pele do tórax do mais novo.
– Consegue sentar, Toris?
– Não... – sussurrou após tentar e falhar.
O russo mordeu o lábio inferior, então sentou ao lado do lituano que nem teve força para se encolher. Apenas deixou que ele colasse o peito no seu e encaixasse os braços por baixo dos seus para que o levantasse. Toris apenas conseguiu gemer num fiapinho de voz:
– Hn... Sr. Ivan... doi...
– Doi quando você respira?
– Um pouco.
– Só um pouco?
– É...
– Você vai sentir um pouco mais de dor, mas vai passar.
– Não, pode me deixar assim...
Mas ele já apalpava seu peito e toda a dor voltou. Chega, não queria mais. Gostaria que ele lhe deixasse onde e como estava. Ivan, porém, continuou a apalpar o tórax, descendo para o abdômen e indo para as costas.
– Tá... hm... um pouco ruim... Não chora, Toris.
– Tá... doendo.
– Eu sei.
Ele então pegou uma das ataduras e enfaixou o peito marcado do rapaz. Não muito apertado, não muito frouxo, mas o suficiente para que o moreno não tivesse a sensação de que seu interior iria se desmontar a qualquer momento.
– Não tem o que fazer pelas suas costelas, só esperar que elas se consertem. – ele deitou Toris novamente contra os travesseiros. – Já vai acabar.
Então cuidou da mordida que já estava muito inchada e vermelha. Embora o lituano houvesse sido tratado, a dor ainda era lancinante por todo o seu corpo. Arrependia-se incomensuravelmente de ter tido aquela ideia estúpida de fugir. Enquanto o russo mexia nas roupas que Toris havia deixado no armário por não ter onde levar, o mais novo cogitava mesmo pedir que lhe fizesse ficar desacordado. Mas, ao invés deste pedido, uma pergunta surgiu em seu lugar quando Ivan começou a ajudá-lo a vestir roupas mais leves.
– Sr. Ivan... como... você sabe... o que fazer... com os... machucados?
– Hm... – ele sequer pestanejou para a pergunta, ao começar a puxar as calças ensanguentadas do lituano. – Eu passei anos e anos sozinho, mas sozinho mesmo, sendo atacado pelas costas por estranhos aleatórios e ou mesmo por pessoas em quem eu confiava. Qualquer um aprende a se cuidar, se não tem ninguém pra cuidar de você. – ele estava estranhamente frio enquanto falava; “cansado” seria a melhor descrição.
Não conhecia tão bem a história do russo, mas até onde sabia, era uma história trágica de frio, solidão e sangue. Ele já havia contado que quando era mais jovem e não tinha muita noção da própria força, um inglês e um francês sempre fizeram o que podiam para se aproveitar de Ivan. Sem falar no americano que era seu maior inimigo; um capitalista traidor, segundo o russo, com quem permanecia em uma clara tensão constante. Sabia que o maior desejo de Ivan, com relação ao seu trabalho era “acabar com a raça” do referido rapaz. Isso por que até bem pouco tempo os quatro formavam uma aliança. Ainda havia seus chefes, todos sanguinários e tiranos, que o haviam feito passar por situações terríveis na vida. Toris mal sabia sobre eles, sobre a mãe ou sobre Natalia e muitas outras coisas, mas o pouco que sabia o fizeram se consternar um pouco. Era nisso que pensava, quando notou que Ivan puxava as cobertas por cima de seu corpo.
– Você não vai trabalhar até que eu permita. – ele anunciou enquanto se dirigia à porta.
– O-okay... Ah... hm... – Toris juntou um pouco mais de coragem para perguntar algo que estava lhe coçando por dentro. – Sr. Ivan... Ahn... Posso perguntar... eh, posso perguntar... por que... por que... você fez isso?
– O quê? – ele inclinou levemente a cabeça para o lado.
– Cuidou... de mim.
Ivan parou e o olhou brevemente, então olhou para o teto e suspirou.
– Hm... Você disse que tinha entendido e que não iria mais me desobedecer. E, também, você cuidou de mim naquela vez... – deu de ombros. – É isso. Descanse, Toris. Poka.
Então ele partiu deixando o lituano bem mais confuso que antes. De fato, nunca entenderia a (falta de) lógica que havia dentro da cabeça de Ivan. Também, nem se interessava em entender, no momento, principalmente por que tudo doía e era nisso que pensava. Suas mãos começaram a suar e arder sob as ataduras e tinha vontade de arrancá-las de vez; sem falar no aperto que sentia no peito.
– Toris!
Raivis entrou de repente, junto a Eduard, então se jogou com ímpeto na cama e o impacto ribombou em seu corpo, fazendo doer a já dolorida caixa torácica dele.
– Ai, ai, ai...
– Cuidado, Raivis. – o estoniano repreendeu o menor, que baixou a cabeça.
– Desculpa.
– Tudo bem... Só... tenha cuidado... mesmo. – o lituano deu seu melhor para conseguir sorrir para o letão.
– Olha, eu te trouxe remédio pra dor e pra inflamação... Na verdade, eu trouxe logo um daqueles que faz você apagar rapidinho. – fez menção de estender o vidrinho para ele, mas pensou melhor. – Hm, bem... com essas mãos assim, você não vai conseguir... – então entregou o copo a Raivis e ajudou o lituano a tomar os comprimidos. O mais novo o ajudou com a água.
E pensar que Ivan nunca tivera ninguém para fazer isso por ele...
– Obrigado. Não sei o que eu faria sem vocês...
– Bem, era o que você queria descobrir, não? – Eduard disse, sentando ao lado do namorado (amante ou o que quer que fosse). – Você tentou fugir.
– Ah... – gaguejou, encarando o outro báltico. Imaginou que ele fosse estar no mínimo indignado, mas não estava. Parecia bem normal, na realidade. – Bem, sim.
– Por que você não nos contou? – Raivis murmurou, chateado. – Nós também queremos ir embora.
– Raivis, o Toris já tentou fugir antes. Eu também. Na verdade, todo mundo aqui já tentou. Você sabe, você já viu o que acontece. Dessa vez, o Toris tá até inteiro... Quando nós tentamos nas outras vezes, acabamos muito pior. Muito mesmo. Você não ia querer acabar assim. – Eduard deu um sorriso complacente ao rapaz mais velho, então olhou para seu braço do qual havia tirado o gesso recentemente.
– Eu sabia... que minhas chances de fugir... eram praticamente nulas... e que ele ia acabar comigo... de verdade, dessa vez... Se eu não tivesse... implorado como eu fiz... quem sabe... se eu ainda teria... meus dentes... Ou se meus pés... não estariam... esmigalhados agora... – falar era difícil, doloroso e trabalhoso, mas precisava explicar. Tudo o que menos precisava era que eles se chateassem consigo. – Eu não queria... que vocês se machucassem.... Olha... ele quebrou... minhas costelas. – puxou a camisa pela barra esfregando as costas das mãos enfaixadas, mas mal se sentiu afundando nos travesseiro. Sua vista estava ficando embaçada.
– Não se esforça, Toris. – Eduard pôs as mãos nos ombros do letão e apertou de leve. – Deixa pra acusar ele do que quiser depois, Raivis. Ele não tá em condições nem de se defender agora... – o mais alto deu outro sorrisinho para o mais velho. – Bem, pelo menos você vai ficar um tempo de folga.
– É, sim... Mas eu... eu... daria tudo agora... pra não estar... sentindo... essa dor terrível... por todo... o meu corpo... – disse, antes de desmaiar por causa do remédio.
Toris ficou de molho por um mês. Como estava acostumado a trabalhar o dia todo, ao fim deste período, já sentia seus músculos se atrofiando. Por este motivo, estava com certa disposição para voltar a trabalhar quando recebeu permissão, principalmente porque pensava que finalmente veria Natalia. Ledo engano seu, como sempre. Enquanto descia as escadas, ouviu a voz de Yekaterina proveniente do hall de entrada, dizendo que iria sair com a mamis nova e, pelas roupas que usavam, iriam demorar. Então ele apenas observou pela janela quando elas faziam o caminho até os portões. Suspirou e voltou a varrer o carpete do corredor do térreo por alguns minutos até que Ivan o abordou, sobressaltando-o de modo que quase derrubou a vassoura.
– Você está bem? – ele perguntou.
– Ah... S-sim. Estou, sim.
O russo pegou suas mãos e o lituano acabou deixando a vassoura escorregar de verdade, caindo com estrondo, mas Ivan não se importou. Apenas olhou aquelas mãos que pareciam tão pequenas nas suas e já não tinham mais quase resquícios das cicatrizes do último castigo. Pelo menos não nas palmas. Incrível como esta parte do corpo se recupera rápido e de um modo que quase não se veem marcas; ao contrário da alma.
– E seus pés?
– T-também estão bem e já faz um tempo... – olhou em volta para ver se ninguém estava vindo. Seria complicado ter de explicar por que estava de mãos dadas com Ivan no meio do corredor.
– E suas costelas?
– Hã? Ah... Eh... Também. Eu nem sinto mais nada – riu sem graça.
A verdade era que elas que ainda doíam bastante, mas tinha impressão de que pelo menos disto não se recuperaria completamente nunca mais.
– Que bom. – Ivan sorriu e então também olhou o corredor. – Você viu a Natalia?
– Ah... – o coração deu uma batida dolorosa. – Ela e a Srta. Yekaterina saíram agora há pouco. Acho que vão demorar a voltar.
Ele pareceu feliz.
– Certo. Venha ao meu quarto, da?
– A-Agora?
– Sim. Venha.
Toris o seguiu. Não era preciso pensar muito para saber o que ele queria; até já esperava e havia se preparado mentalmente para isso. Agora, de verdade, entendia aqueles homens que o haviam entregado quando fugira. De que adiantava defender uma dignidade que não existia mais? Se cooperasse, não se iria se machucar muito... Por isso, seguiu-o de cabeça baixa, abraçando o próprio tórax, rezando para que o tempo desse um salto, mas isso nunca aconteceria.
Mal fechou a porta, quando o russo o tomou nos braços, beijando-o e abrindo os botões de sua camisa. Às vezes, Toris não sabia se era melhor ou pior quando havia esses períodos de “folga” para seu corpo, pois apesar de ser calmo na maior parte das vezes, após tais períodos, Ivan ficava meio eufórico demais. Sentiu suas roupas serem puxadas com violência e forçou sua voz a permanecer na garganta. Não pense. É, não pense, já vai acabar, foi seu mantra para conseguir manter o controle e não sofrer tanto quando o russo o carregou até a cama.
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