Dotyanutsya do Tebya
3 Capítulo III: Miręs Ruta
Notas iniciais
— Limpa isso direito e não deixa arranhões na madeira, tá ouvindo?
— S-sim, estou limpando. – Toris murmurou, raspando cera de vela da mesa de cabeceira ao lado da cama de Natalia. Estava nervoso pelo simples fato de estar ali no quarto dela, tão próximo à cama. Conteve o impulso de tocar o colchão, censurando-se. Parecia um pervertido nojento. – Ehh... Natalia? – chamou-a quando ela estava dando as costas para sair.
— Que é? – ela se virou, olhando como se não acreditasse que ele falava seu nome.
— Você está bem? – perguntou, timidamente, sem notar o olhar dela. Precisou de toda a sua coragem para perguntar aquilo, pois se sentia invadindo a privacidade dela, então não conseguiu olhar diretamente para seu rosto.
— Por que você tá perguntando isso?
— É que hoje de manhã... quando eu fui lavar a roupa... os seus lençóis estavam sujos de sangue... e eu pensei...
— Não é da sua conta. Faça o seu trabalho e só. – ela falou devagar. – Aliás, por que você não arranca a cera com as unhas? Assim com certeza, a madeira vai ficar intacta.
— É sério?
— Claro que é. Você é burro? – ela bufou. – Escuta. Eu vou descer. Se você fizer qualquer palhaçada aqui, especialmente na minha cama, você vai ganhar uns buracos a mais no seu corpo. – e saiu pisando duro.
Toris se arrependeu de ter perguntado. Ah... droga... ela é uma garota. Garotas... sangram... É óbvio. Toris, seu burro! Amaldiçoou-se por bons vinte minutos, enquanto quase beijava o chão, limpando a cera que também escorrera para lá.
Foi um trabalho difícil porque a cera havia pregado firmemente na madeira. Toris realmente obedeceu à moça, tentando raspar a cera com as próprias unhas, que começaram a sangrar por baixo.
— Se derreter, vai sair mais fácil.
Sobressaltou-se com a voz repentina. Virou-se repentinamente, apenas para encontrar o russo parado no vão da porta aberta. Sequer ouvira os passos dele se aproximando.
— D-derreter...? – murmurou, vendo-o se aproximar.
O outro assentiu brevemente, enquanto se aproximava para se abaixar ao seu lado, ofegando de leve. Então ele deliberadamente abriu a porta da mesa de cabeceira e tirou de dentro um acendedor, pegando a espátula abandonada no chão ao lado do joelho do lituano. Toris abriu a boca, mas não emitiu som algum, enquanto observava o rapaz a sua frente esquentar a ponta a lâmina na chama azulada. Toris precisou engolir a inveja de ser íntimo a ponto de saber onde Natalia guardava as coisas no próprio quarto. Odiou-o por isso.
— O qu...? – atropelou-se, ao ver que, para sua surpresa, o próprio Ivan começou a tirar cera do chão. – Não precisa, Sr. Ivan...
— Tudo bem. – ele disse, os olhos daquela estranha cor violeta fixos no chão.
Não tentou convencê-lo a parar. Não por estar aproveitando o fato de ter alguém fazendo seu trabalho, mas por que tinha medo de contrariá-lo e por que estava entretido demais com outros pensamentos. Eles podiam não ser irmãos de sangue, mas não deixavam de ser irmãos, então seria mesmo possível que houvesse algo ali? Provavelmente se houvesse algo entre eles, Natalia não guardaria para si. Isso era um pouco reconfortante, mas não descartava a possibilidade de que um dia, no futuro, algo pudesse acontecer.
Toris observou o rosto estranhamente corado do homem a sua frente. Estes pensamentos abriram margem para que o lituano se perguntasse com quantos outros ele poderia haver feito o que fazia com Toris. Eduard e Raivis também...? Com os outros da casa? O simples pensamento fez algo revirar em seu estômago. Mas, não, achava que não. Pelo menos, não com os dois bálticos. Convivia próximo a eles e eles não eram dissimulados, então imaginava que aquilo os afetaria de tal maneira que não haveria possibilidade não notar.
De qualquer modo, por que Ivan precisava forçar alguém? Olhando-o de perto, tinha de admitir. Ele era bonito, não era? Um pouquinho acima do peso, mas fazia parte de seu charme. Ainda havia a beleza da pele marmórea, dos traços finos e distintos das feições dele. Ivan parecia perfeitamente calculado para agradar a visão, mesmo que não fosse o homem mais bonito da face da Terra. Não era sem graça e magricela como Toris. Sendo assim, certamente não era difícil conseguir alguém que estivesse disposto a fazer o que ele queria.
A própria belarussa o escolhia. Ela que era... simplesmente Natalia — tão especial e perfeita. Então por que Ivan não se contentaria com ela? Que homem não se consideraria sortudo por ter a atenção dela? Natalia... Quase riu. Por que ele mesmo ousara se apaixonar por ela? Por que sonhava tanto? Era simplesmente um coitado que nem mesmo conseguia se defender e ficar de pé sozinho. Sempre precisou de alguém em quem se escorar, como quando estava com Feliks. Patético.
Por que diabos seu coração não tomava jeito? Primeiro, Feliks, que nem ao menos se importara ... Mm. Ivan o levara embora e ainda rira. Agora, Natalia, que nem queria saber se ele estava vivo... Natalia, que quebrara seus dedos por pura diversão uma vez. Ainda por cima, sua memória seletiva apagava estas lembranças como um mecanismo de defesa estúpido.
— Pronto. – o russo tirou Toris de seus devaneios com o som de sua voz.
A vista turva do lituano entrou em foco, então viu que Ivan lhe estendia a espátula e o recipiente que usava para juntar a cera. Permaneceram encarando-se por uns instantes, então Toris estendeu a mão para pegar o que lhe era entregue.
— Ah... er... Perdão. Era meu trabalho... Mas obrigado por... – seus dedos resvalaram nos de Ivan, então percebeu algo estranho. – Hm... er... c-com licença.
Ivan o observou, sem entender o que Toris fazia quando levou as costas de uma das mãos à testa dele.
— Você está com febre.
— Febre? – ele pôs a mão na própria testa devagar, surpreso.
— É. E está bem alta. Vá deitar... – disse sem pensar duas vezes. – Eu... eu vou lhe levar remédio.
O russo assentiu, levantando-se, ainda parecendo surpreso, então deixou escapar um gemido. Era a segunda vez, não era? Que estranho...
Toris demorou um pouco procurando o bendito remédio. Quando chegou ao quarto do russo com uma bandeja contendo um comprimido de antitérmico e um copo com água, encontrou-o deitado de bruços, com o rosto voltado para a parede oposta, como se houvesse chegado e simplesmente se jogado na cama de qualquer jeito. Esta visão fez um pequeno vinco surgir na testa do lituano.
— Sr. Ivan. O-o remédio...
Engraçado como quase nunca conseguia não gaguejar na presença dele. Odiava isso. Bem, não era o que importava naquele instante. Ivan virou o rosto, ofegando mais visivelmente, e parecendo mais corado que antes; inclusive, tinha o olhar desfocado. Algo dentro de Toris disse: é um castigo. Deixe-o... Deixe-o sofrer, seu bobo... Ele merece..., mas preferiu ignorar esse algo.
— Consegue se levantar? – aproximou-se da cama.
Ivan assentiu e, com dificuldade, sentou-se. Sem dizer mais nada, Toris lhe estendeu os remédios e o copo. Enquanto o observava virar o copo d’água, pensou brevemente que apenas em uma ocasião destas poderia se aproximar dele sem medo. Só assim sabia que ele não podia machucá-lo.
— Spasiba.
Como na outra vez que recebera um agradecimento, Toris nem soube como reagir.
— De nada... – murmurou quando o russo pôs o copo de volta na bandeja. – Hm... você deveria colocar umas roupas mais leves e descansar. Qual será o motivo dessa febre? Será que é um resfriado? Sua garganta dói?
Ele apenas negou com a cabeça, devagar.
— Então eu não faço ideia. Acho que seria melhor chamar um méd...
— Eu já lhe disse pra não se meter no que não é da sua conta. – Natalia entrou no quarto naquele momento e rosnou, com uma expressão estranha no rosto.
Toris a olhou por apenas uns segundos antes de fitar o chão. Quase perguntou por que não chamariam um médico, se Ivan parecia mal de verdade. Porém, era apenas um subordinado, não podia se intrometer nos assuntos deles.
— Eu cuidarei dele a partir de agora. Saia.
— Sim, senhorita. – o lituano assentiu, então se retirou o mais rápido que pôde, olhando de relance para o rapaz sentado na cama.
Podia jurar que... Não. Toris não entendeu, então preferiu achar que havia sido sua imaginação, pois, afinal, não era compatível com a realidade ver um olhar de desespero no rosto de Ivan Braginski, como um pedido mudo que dizia “por favor, não vá”. Toris não assimilava a ideia de que um ser como ele sequer soubesse o que significava desespero, tristeza, dor. Bem, era o que imaginava... Suspirou quando a porta foi batida atrás de si, engolindo o misto contraditório de sentimentos que tinha — inveja e, bem lá no fundo, preocupação; porque sua maldita compaixão nunca falhava em estar ali. Ver Ivan vulnerável lhe causou uma sensação estranha, porque pela primeira vez ele pareceu humano.
No fim, era melhor simplesmente deixar de pensar mesmo.
Nos dias que se sucederam, Ivan basicamente não saiu do quarto. Natalia era a única que entrava. Nem mesmo Yekaterina se aproximava de lá. Durante o período em que o russo estivera doente, nenhum médico o visitara mesmo — a irmã não permitira. Por vários dias, ninguém soube se ele estava melhor, pior ou se estava na mesma. Todos acreditavam que não podia estar pior, senão já haveriam ouvido alguma notícia. Aliás, aquele era o demônio em pessoa, então nada lhe abalaria de verdade, era o que diziam.
O fato foi que a ausência de Ivan fez com que a casa respirasse aliviada por um tempo, mas este tempo não durou para sempre. Mais dia, menos dia, Ivan estava de volta. Ninguém na casa imaginaria que Toris provavelmente fora o que mais sofrera com a volta dele, pois ele havia sentido sua falta até demais. Tolhido de qualquer chance de evitar ou lutar, o lituano apenas se resignava a tentar resistir, perder, ser mais humilhado, continuar a fazer suas tarefas, tentar sorrir para os outros como se nada acontecesse, e se odiar por ter sentido algum tipo de piedade quando ele estivera doente. Como vira humanidade em Ivan? Que piada.
Certa vez, enquanto limpava o parapeito da janela do escritório vazio do russo, viu de relance algo do lado de fora que o fez dar uma segunda olhada, de testa franzida. Eram Eduard e Raivis, no costumeiro escuro precoce de uma tarde de outono. O mais novo estava sentado na grama, encostado na parede. O outro estava a sua frente, ajoelhado. Eles conversavam e riam. Nada de muito anormal, não fosse a proximidade excessiva entre ambos, então Toris viu o estoniano aproximar-se e... roubar um beijo rápido do menor. Não conseguiu desviar o olhar de tão estupefato que ficou. C-como assim? Para sua surpresa, Raivis riu e olhou em volta, antes de pôr as mãos no rosto de Eduard e colar os lábios nos dele, demoradamente desta vez.
Foi um choque, de verdade, porque nunca esperaria aquilo deles. Não que considerasse errado eles se envolverem. Apenas achou... inesperado. Ainda por cima, Raivis era uma criança... Hm, bem, com quantos anos eu me juntei ao Feliks mesmo? Er, e... nós éramos um casal bem mais inusitado, eu acho... Eu já sou estranho, mas o Feliks era estranho por nós dois juntos, na verdade. E eu ainda ia na corda das loucuras dele... Com um rubor de constrangimento na face, espantou para fora de sua memória a imagem de um polonês loirinho de saias compridas levantadas, abrindo suas pernas e dizendo coisas obscenas, enquanto o fazia seu. Uma das muitas coisas vergonhosas a que se submetera com ele também.
Enfim, o fato foi que Toris até tentou negar para si mesmo, mas não havia muita escapatória da consciência do fato de que essa estranheza significava. Era inveja. Afinal, o que viu entre Raivis e Eduard parecia uma flor que desabrocha no meio de um campo de guerra. Uma vida, algo belo que nasce entre os cadáveres podres e toda a destruição e desolação. E Toris era um dos cadáveres destruídos e desolados.
A partir daquele dia, o choque se transformou em acanhamento toda vez que estava junto a eles, pois, por mais que fossem discretos e tentassem esconder que havia algo ali, o lituano sempre pegava um olhar, um roçar de mãos, um sorrisinho bobo e tinha que fingir que não via nada. Como não percebera antes? Isso era... tinha que admitir, muito triste de se presenciar. Gradativamente e sem que notasse, Toris começou a se afastar deles. Queria dar espaço aos dois, mas acima de tudo, queria fugir do sofrimento de ter uma verdade terrível esfregada na sua cara.
Não que não ficasse feliz por eles. Pelo contrário, grande parte de si achava aquilo lindo, porque eles eram seus amigos e pareciam felizes; porém, havia inegavelmente aquela parte egoísta (porém humana) que achava tudo tão injusto, porque, como eles, queria ter alguém para ajudar a aplacar aquela dor. Queria parar de receber apenas o frio de Natalia e a humilhação de Ivan. Queria alguém que fosse sentir sua falta se não estivesse ali, que o considerasse especial, porém a perspectiva de que isso acontecesse era nula. A visão de como, apesar dos pesares, do inferno que era a vida naquela casa, os outros dois bálticos pareciam tão felizes unicamente por terem um ao outro, só cravava e girava uma faca no peito do lituano, e se odiava por ser assim tão baixo e egoísta.
No fim das contas, as duas únicas coisas que tinha na vida eram, talvez, um lugar nas lembranças de Feliks, às quais ele recorreria quando quisesse rir do rapaz a quem tomava vestido de mulher, e agora o posto de brinquedo do russo. Mesmo que nunca houvesse apanhado quando Ivan o tinha, só o fato de ter seu corpo usado sem seu consentimento por um homem por quem sentia ódio era pior que apanhar. Isso o estava deixando psicologicamente abalado, mas não podia nem se queixar, nem fazer nada, a não ser prosseguir, porque não havia ninguém para sequer ouvir. Imaginou-se até contando tudo aos outros dois. Eduard iria ficar possesso, dizer que não deveria deixar aquilo acontecer, porém quando Toris perguntasse o que deveria fazer, ele não saberia responder. Raivis, por sua vez, ficaria chocado e inventaria alguma saída inviável.
No ápice do desespero, Toris resolveu fugir. Juntou algumas de suas coisas em uma trouxa, numa manhã, escondeu debaixo da cama e passou o dia como se nada do tipo se passasse por sua mente. Pensou em contar aos outros, porém imaginou que eles fossem querer ir junto e não podia permitir isso. Se tentassem e falhassem (o que certamente aconteceria), Toris não queria ver os amigos sendo castigados, pois as punições mais severas de Ivan eram reservadas para estes casos. Fugas e traições. O lituano sabia bem disso, pensou tocando o próprio peito por cima do avental. Ali havia cicatrizes demais de castigos anteriores.
Com muito medo e um peso na consciência, esgueirou-se para fora do quarto com suas coisas, no meio da noite, o mais silenciosamente possível para que os outros dois não acordassem, e rumou pelos corredores escuros como breu. Como era de se esperar, não havia ninguém à vista, mas em momento algum o rapaz se sentiu em paz. Sabia que só se sentiria assim se conseguisse ir para longe dos muros. Bem longe.
Do lado de fora, a mesma calmaria reinava, o que o deixou apreensivo. Tentou ir pelas sombras em direção à floresta, depois pularia o muro, e era isso. O caminho seria longo, porém era menos arriscado. Foi o que pensou, mas nem chegou a ir longe quando foi encontrado pela luz da lanterna de um dos bastardos soviéticos traidores, que compunham o séquito de Ivan. Toris ainda tentou correr e se esconder entre as árvores, porém o homem soltou a coleira do cão que levava durante as rondas, e ele correu desabaladamente em sua direção. A única atitude que foi capaz de tomar foi se jogar no chão e proteger a cabeça. O animal abocanhou seu braço com firmeza, enterrando os caninos e furando o tecido junto com a pele. A dor foi o de menos quando aquele homem e mais outro se aproximaram, pondo-o de pé.
— O que temos aqui? Um fugitivo? – havia um sorriso na voz do rapaz que chegou primeiro e pegou sua “grande” bagagem como se fosse um troféu.
— Alguém vai se ferrar hoje. – riu o segundo, também feliz.
— Por favor, não me entreguem. – mesmo que não adiantasse, Toris tentou argumentar. – Eu sei que vocês também não aguentam mais isso. Ninguém aguenta. Nós todos estamos no mesmo barco. Deveríamos proteger uns aos outros, e não nos vender...
O homem olhou para o outro, então olharam para Toris. Em meio à escuridão, pôde distinguir malmente uma expressão de escárnio nas feições deles.
— Guarda seu folego, cara. Vai precisar quando o Braginski for lidar com você. – algum deles fungou em desdém. – Azar o seu por ser tonto e não saber que o melhor é baixar a cabeça e dizer "sim, senhor".
— D-deixa eu voltar pro meu quarto, então... – Toris se esforçava para não tremer enquanto falava, sem sucesso. – Se vocês me levarem de volta, e-ele vai me matar...
— Deveria ter pensado nisso antes. – rosnou o outro, agarrando seu braço bom e o arrastando de volta para a casa, enquanto primeiro apontava um rifle para o meio das costas do lituano.
Àquela altura, Toris pensava que correr e levar um tiro não era o pior cenário, se ao menos o tiro não fosse apenas para imobilizá-lo. Conhecia bem demais o lado zangado de Ivan e preferia nunca mais ter de encará-lo. Bem, sabia que aquele era seu fim mais provável desde o começo mesmo. Sabia que aquele fatídico momento chegaria logo, pensou, quando foi jogado de joelhos no meio da sala, junto às suas coisas, enquanto um deles foi chamar Ivan. Olhou o grande relógio de bronze ornado sobre o console da lareira. Passava das três da madrugada. Ele provavelmente estava acordado resolvendo alguma pendência de seu trabalho. Segurou a respiração quando ouviu os passos do russo enquanto descia as escadas.
— Este aqui, senhor. – dizia o capanga.
— Toris? – a voz dele soou entre chateada e surpresa ao vê-lo.
— Aqui estão os pertences dele e tudo, senhor. – disse o segundo homem, chutando a trouxa de Toris para frente. – Ele até tentou barganhar, o safado...
— Certo. Bom trabalho. – Ivan assentiu para os homens, enquanto soava frio. – Mas, ah, o que é isso no braço dele?
— Ele corria, senhor, então o cão o atacou para que não o perdêssemos.
Ivan deu um muxoxo.
— Na próxima vez, tenham mais cuidado.
— Sim, senhor. – pela voz, o homem não pareceu crer no que ouvia. Devia ser estranho pensar que Ivan se importava. Bem, talvez ele quisesse ter o prazer de saber que todas as cicatrizes que magoavam a pele do rapaz ali subjugado haviam sido obra sua.
— Por ora, levem-no para o porão.
O corpo do lituano começou a tremer. Ele levantou a cabeça e viu que Ivan nem o olhava. O russo estava possesso por dentro, por mais que não demonstrasse. Sentia isso. Naquele momento, nada o salvaria das mãos grandes e fortes que agarraram seus braços, por cima da mordida do cão, e o arrastaram para o porão. Toris sentiu a ferida, mas aquilo seria de longe o menor sofrimento de sua noite.
Ivan desceu em seguida, sem a menor pressa, dispensou os algozes, trancou a porta e, sem mais nenhuma palavra, virou para uma bancada do lado esquerdo da sala, tirando de dentro de um compartimento encoberto por uma portinhola algo que Toris não conseguiu ver de onde estava. Então virou de volta e, pela primeira vez, encarou o báltico no meio do porão frio e cheio de lembranças ruins.
— Quer dizer que você quer voltar a ser rebelde como era quando chegou aqui e me abandonar? – Ivan perguntou com toda a raiva condensada em um sorriso que não chegava aos olhos, enquanto se aproximava e colocava uma mão espalmada no meio do peito do lituano, antes de agarrar o colarinho e puxar.
— N-não, eu só... eu só... Por favor... – balbuciou, desesperado, cerrando os punhos inquietos, tentando conter o impulso de afastar aquelas mãos a tapas. A única coisa que sabia muito bem era que o que viria a seguir seria a mais pura e bruta dor.
— “Eu só...” o quê? – o russo ainda sorria, quase complacente. – Diga, Toris.
— Perdão. Não faço outra vez... Eu juro.
E estava muito tentado a cumprir porque não tinha o mínimo de chance de obter êxito nessas fugas. Onde raios estivera com a cabeça quando inventara de fugir sem nem mesmo pensar em um plano? Embora, acreditasse que mesmo que tivesse arquitetado um, nada escaparia aos olhos dos vigias. Precisava admitir que o pensamento de seu captor parecia atraente agora: valia mais a pena ser obediente. O sofrimento era até menor. Chegaria o dia em que não sentiria mais a dor em seu pequeno e frágil orgulho; a dor física, por outro lado, estaria ali enquanto vivesse. Isso sequer fazia algum sentido?
— Já ouvi isso dessa sua boca antes, e se tem algo que eu odeio são mentiras. – Ivan empurrou seu corpo para trás, forçando sua cabeça contra uma coluna duas vezes seguidas, então apertou os lados de sua traqueia com força.
Toris se debateu, chutando a coluna com o calcanhar e tentando tirar as mãos de seu pescoço, mas Ivan era muito mais forte. O desespero fez o oxigênio ser consumido mais depressa, então logo o lituano sentiu o corpo mole e a cabeça girando, até que Ivan parou de repente e o ar entrou com força em seus pulmões, fazendo-o tossir com violência, enquanto caía de joelhos.
— Por favor – a voz quase não saiu no meio da tosse e da luta para respirar. – Por favor... me perdoe...
— Você fez algo errado. Tem que ser punido por isso. – Ivan segurou o pulso de Toris, praticamente arrastando-o em direção ao centro do aposento, onde havia apenas uma cadeira solitária sob a única lâmpada do porão.
— Sr. Ivan... eu imploro. – Toris deu um soluço seco pela garganta arranhada. – Eu já entendi, então, por favor, pare...
Ele não respondeu, enquanto tirava o casaco para jogá-lo em qualquer canto antes de enrolar as mangas da camisa branca.
— Mal comportamento precisa de castigo. Na última vez, parece que eu não fiz direito, então preciso fazer de um jeito que você aprenda de uma vez a não tentar de novo... Ajoelhe aqui.
— Sr. Ivan...
— Eu disse pra joelhar. E tire os sapatos. Depois ponha as mãos com as palmas para cima sobre a cadeira, tá bom?
Por que a voz dele soava tão doce? Como ele podia ser monstruoso assim? Sem enxergar nenhuma alternativa, Toris tirou os sapatos e se sentou sobre os calcanhares em frente à cadeira, postando as mãos sobre o móvel, tremendo de antecipação e medo. Lentamente, Ivan deu pequenos passos, indo para trás do lituano e, em seguida, um pedaço de tecido negro cobriu sua visão. Estava perdido, apenas isso.
Sua audição se aguçou. A próxima coisa que ouviu foi o som dos passos de Ivan enquanto se afastava. Ele voltou rapidamente e, sem aviso, mil dorezinhas lancinantes atingiram as mãos de Toris, que as tirou imediatamente do assento por reflexo. Gritou, sim. Gritou alto, e mal se percebeu, porque as mãos doíam demais. Ele as atingira com algo que parecia um bastão cravejado de pequenas farpas de metal, as quais se prenderam em sua pele, rasgando-a quando ele puxou o objeto.
— Isso é pra você aprender a não usar mais essas mãos pra arrumar suas coisas pra fugir, tá ouvindo? Ponha-as de volta, da?
Toris até mesmo cogitou resistir, mas seria pior, pensou, tremendo enquanto colocava as mãos de volta ao lugar onde estavam antes. Mal o fez e sentiu mais dor; sentiu toda a pele das mãos sendo dilacerada e se encharcando com o próprio sangue, várias e várias vezes. Durante todo o tempo, Toris não se percebeu implorar e gritar em sua língua-mãe, porque já era automático. Perdeu a conta de quantos golpes levou. A impressão era de que aquilo parecia não ter fim. Ficaria muito tempo sem usar aquelas mãos, presumiria se conseguisse pensar direito. Então houve um instante de calmaria, em que Toris tentou se preparar para algo pior, que veio repentinamente cortando o ar, derrubando o lituano de costas, e o que pareceu uma sensação de choque elétrico atravessou seu corpo. Teve a impressão de que ossos se partiram com um som seco e abafado. Provavelmente recebera um chute violento no meio do peito, que tirou todo o ar de seus pulmões.
A agonia inundou os sentidos do rapaz, paralisando-o. Seus protestos e pedidos desesperados morreram na garganta, enquanto arfava por ar, o que causava uma dor excruciante por toda a caixa torácica. Tudo isso ao mesmo tempo — a soma da dor nas mãos, a dor nova no peito e a surpresa — o fez se encolher contra o próprio corpo e as mãos arderam como nunca porque acabou cerrando os punhos em carne viva. O russo andou para trás do seu corpo jogado no chão, então o chutou na altura dos rins duas vezes. As lágrimas de dor que deixaram seus olhos se perderam na trama do tecido negro. Como ele podia ser tão cruel? Ele não era humano. Não podia ser.
— Você não vai mais fugir, Toris. Eu tenho certeza disso...
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