Dotyanutsya do Tebya
4 Interlúdio: Крыві і Нажы (Kryvi i Nažy)
Notas iniciais
— Gostou do vestido azul, milady Natalia?
— Sim, é lindo. – a bielorrussa sorriu, alisando a saia do vestido.
— Milady parece uma princesa.
Os olhos azuis da menina cintilaram enquanto ela olhava da criada ao seu próprio reflexo no espelho. Era um belo vestido de uma seda importada, que tinha um cintilar delicado e elegante. Sentia-se especial nele, junto com a fita branca na cabeça e os sapatinhos de boneca que cobriam seus pés.
— Parece, criança. Só falta uma tiara. – a moça respondeu.
A pequena riu, pegando uma tiara de dentro de uma caixa sobre a escrivaninha e encarrapitando-a sobre os cabelos loiros, por cima da fita. Havia sido um presente depois que declarara ao pai que queria ser uma princesa.
— Pronto, Malinka. Eu sou uma princesa de verdade agora!
A criada riu, observando enquanto a garota rodopiava, segurando a tiara reluzente sobre a cabeça. Então a porta foi aberta e um homem de olhos muito azuis, iguais ao da criança, entrou e sorriu. Ele era alto e forte, exalava um ar de nobreza natural que pouco se via no cotidiano. Uma mulher de longos cabelos cor de trigo vinha atrás e seu rosto se enfeitou como o dele ao vê-la, quando pararam próximo à porta. O pai falou:
— O que estes olhos estão a contemplar? Nobre e formosa monarca Natalia Arlovskaya da Bielorrússia! Mas que honra poder ver Sua Alteza Real com estes reles e humildes olhos plebeus! – ele disse, em tom pomposo. – Conceder-me-ias, por obséquio, honra tal de uma valsa, ó delicada jovem?
Ela ria, parecendo não haver entendido partes do que o pai dissera, exceto pela última, mas como a criança que era, não se importou.
— Você disse que quer dançar, papa? – correu para os braços do homem que se inclinava para recebê-la.
A mulher, cuja protuberância sob o vestido indicava que em breve um príncipe Arlovski viria, riu e pôs a mão no ombro do homem.
— Seria uma cena linda, dorogoi, mas os Dashkevich estão quase chegando. A dança terá de ser adiada.
— Aaah... – fez Natalia, decepcionada, abraçando o pai pelo pescoço.
— Nós dançamos depois, princesa. É uma promessa. – o patriarca dos Arlovski beijou a bochecha fofa e rosada de Natalia, então a colocou de volta no chão.
— Tá bom. – respondeu, um pouco amuada.
— Vamos descer, sim? – a mãe lhe estendeu a mão.
Natalia pegou a mão da mãe e a do pai, então seguiu pelo corredor, no mesmo instante em que se ouvia a sineta da porta. Malinka, que vinha atrás, adiantou-se à frente deles, para atender. Foi então que Natalia parou no meio do corredor, antes mesmo de chegarem às escadas, fazendo com que os dois também parassem e a olhassem com as testas vincadas.
— Mama, papa... – começou, com uma vozinha séria. – E se ele não gostar de mim?
— Mas que ideia é essa? Você é uma princesa... – o pai se abaixou ao seu lado, ficando com o rosto à altura do seu. – Não tem como alguém não gostar de você.
— Todos amam você, Natchenka. – a mulher acariciou os cabelos da filha, sorrindo com gentileza. – Não se preocupe, amor. Você é perfeita.
Natalia sorriu.
Eles repetiam tanto aquilo que ela chegava a acreditar, apenas precisava de confirmação às vezes. Voltou a dar as mãos a eles, então prosseguiram pelo corredor e escada abaixo. Ao chegarem à porta da sala de estar, porém, os pais de Natalia pararam de súbito. A criança viu um rapaz jovem, de uns 15 ou 16 anos, possivelmente, sentado no sofá, tão confortável que parecia estar em sua casa; cercando-o, homens grandes e fortes, empunhavam espadas. Ela não entendeu nada. Achou que iria conhecer seu pretendente a noivo e a família do mesmo. Quem seria aquele?
— Quem são eles, mama? – puxou a barra da saia da mulher, que a abraçou de lado e foi para trás do pai, de uma forma protetora.
— Shh, fique quietinha, Natalia...
— Olá, Spadar Arlovski. – cumprimentou o intruso com um sorriso visivelmente dissimulado, inclinando-se para frente para apoiar os cotovelos nos joelhos. – Então... muito obrigado por finalmente abrir as portas da sua casa para mim, mas já chega dessa palhaçada. Vamos acabar de vez com essa história. – levantou-se.
— Mas que demônios é isso? Quem são esses homens? – perguntou Spadar Arlovski, exaltando-se ante àquela cena inesperada. – Retirem-se daqui, todos vocês!
— Ah... pois é. Depois de todo o tempo que eu levei para poder encontrá-lo e mais o tempo que eu levei para ganhar sua confiança... de jeito nenhum. Você realmente protege essa família com todas as suas forças, não é, Arlovski? – o rapaz deu dois passos em direção aos três; e ele tinha olhos tão frios que fizeram Natalia ter vontade de empurrá-lo e sair correndo. Não entendia nada do que ele dizia, mas não gostava da expressão que colocava no rosto de seus pais. – Como um mercenário, você realmente não deve se lembrar, porque imagino que já deva ter ceifado muitas vidas antes e depois, mas você matou meus pais e meus irmãos na minha frente. Eu era uma criança... Você não teve a mínima piedade deles e de mim. Do mesmo modo que eu não vou ter piedade de você e da sua família. Não deixem sobrar ninguém. – disse aos homens.
Assustada, Natalia os viu passar pelos três — uns subiram as escadas, outros seguiram pelo corredor que levava aos aposentos do térreo. O ponteiro dos segundos mal se moveu no relógio e ouviram-se gritos e baques no andar de cima e em direção à copa, à cozinha e aos quartos naquele mesmo andar.
— Mama... papa...
— Shh... – fez a mãe, a apertando mais forte.
— Eu sempre agi sob ordens do rei. Vá pedir satisfações e prestar contas com ele. Mas que diabos... Não se atreva... – começou o pai de Natalia, mas quando um dos homens agarrou a mulher pelo bravo, ele levantou de súbito um braço que havia levado sorrateiramente às costas.
Ele segurava uma pequena pistola — e Natalia nem tinha ideia de que ele andava com aquilo — mas foi derrubado com um golpe da espada de um dos três homens que permaneceram ali e estava mais próximo. Natalia e a mãe gritaram quando ele caiu no chão, um risco vermelho atravessando o peito e aumentando à medida que o sangue se espalhava pelo tecido. Foi tudo muito rápido. Em uma questão de instantes, dois homens seguraram sua mãe, enquanto outro a segurava. Houve muita gritaria, tanto das duas, quanto do pai ferido, que, mesmo que apanhasse dos invasores, não deixava de fazer ameaças a todos eles, caso machucassem Natalia e sua esposa.
Dois homens voltaram e se ocuparam com seu pai, cujas ameaças não surtiram efeito. O homem que segurou Natalia amarrou-a com uma corda e a prendeu firmemente numa ponta da estante de livros ornamentada. Esqueceram-na lá, enquanto continuavam a bater no pai e começavam a atacar a mãe. Natalia tentou puxar as cordas, chorando desesperadamente, mas a única coisa que conseguiu foi que seus pulsos ficassem completamente em carne viva e sangrando. Precisava fazer algo, mas o quê? Aquele ali sendo espancado e humilhado era seu herói, a pessoa mais forte do mundo. O que poderia fazer por ele?
— Você tá vendo direito? Isso é pela minha família, seu bastardo imundo! – o rapaz gritou, atacando a mulher com violência, com golpes impiedosos de duas facas — que parecia as da cozinha — por todo o corpo, inclusive na barriga a qual ela tentava proteger com sua alma. – Eu quero que esta seja a sua última lembrança, Arlovski! Essa! – ele empurrou a mulher ensanguentada no chão e apontou para ela, então puxou o vestido dela, cortando-o com a faça por causa do excesso de tecido.
— Por que ele está fazendo isso, papa? – gritava Natalia, em choque, vendo-o afastar as pernas dela e então ela gritar até a voz sair rasgada pela garganta. – Por quê? Mama! A mama tá sofrendo! Papa! Papa!!
Mas ele não respondia. Natalia o olhou e viu muito sangue escorrendo pelo queixo, pela lateral do rosto e pelo nariz, sem falar nas manchas por toda a sua roupa. Natalia não reparou como o maxilar dele pendia de um modo estranho e mole, talvez por isso olhos dele estivessem desfocados. Não demorou muito para que os gritos da mãe de Natalia parassem e a mão delicada, que se agitava no ar inutilmente tentando agarrar o rapaz, caísse molemente sobre o corpo agora desfigurado e banhado em vermelho. O cheiro era horrível. A visão de todo aquele mar de sangue fez Natalia petrificar onde estava, incapaz de falar, porque apesar de pequena, agora entendia muito bem o que era o medo, entendia muito bem o que era a morte, mesmo que aquela fosse a primeira vez que encarava tudo aquilo. Sua redoma de vidro estava se estilhaçando e os cacos choviam sobre seu corpo frágil e infantil. Entendia que, se não existisse o céu, nunca conheceria seu irmãozinho, nunca mais veria a mãe, o pai. Era um pensamento apavorante.
— Muito bem... agora você...
Ela se encolheu contra a estante, os sapatos escorregando no carpete, na tentativa absurda de atravessá-la e sumir dentro dela, aterrorizada com a perspectiva do que viria a seguir, quando ele arrancou uma das facas do meio do peito de lady Arlovskaya. Ele se aproximou, o sangue da lâmina pingando no carpete. Mas a criança, obviamente, não conseguiu atravessar nada e logo ele a puxou pelos braços, cortando a corda com a lâmina suja, ferindo mais a pele da pequena bielorrussa. Natalia quase não conseguia enxergar por causa das lágrimas, mas ainda tentou lutar contra o rapaz. Arranhou-o com suas unhas finas e ele, de raiva, lhe deu um tapa no rosto. Ela caiu sentada, chorando mais ainda e nem ouvia o pai tentando falar algo, apenas conseguindo emitir sons engrolados e incompreensíveis. O bárbaro, entretanto, tinha ouvidos surdos a qualquer coisa que não fosse seu próprio ódio. A verdade era que aquele sofrimento todo parecia música aos seus ouvidos.
Os olhos desvairados focaram-se na criança no chão, então ele a chutou onde pôde alcançar e o máximo que ela pôde fazer foi se encolher contra o próprio corpo. Quando cansou dos chutes, ele a agarrou pelos cabelos e a arrastou até o sofá, atirando-a contra o estofado, como se fosse um saco de lixo. Ele então puxou o vestido para cima e a roupa íntima para baixo e tudo se resumiu a dor. Em pânico, a pequena bielorrussa gritava e chorava ao mesmo tempo, sem conseguir entender o porquê daquilo tudo. Por quê? Por quê? O que havia feito a ele? Por que ele a machucava tanto? Parecia o próprio Lúcifer.
— Para... Por favor. Para.
— Cala a boca, moleca nojenta – ele deu um tapa em sua boca para que ficasse quieta.
Cada vez doía mais, era como se ele a estivesse rasgando a partir de onde se conectavam. Isso foi o bastante para ir, lentamente, quebrando a mente, a alma de Natalia. Em meio a todo o sangue, toda a agonia, nem sentiu sua sanidade se rescindindo em pedacinhos menores a cada riso sádico e gemido estrangulado que saía daqueles lábios. Parou de chorar porque não conseguia mais e foi como se uma bexiga inchasse dentro de si. E ela inchou e inchou até estourar, então Natalia parou de sentir medo e dor ao mesmo tempo em que ele gemeu mais alto, apertando tanto os ombros dela que parecia que iria esmagá-los. E depois tomou impulso para bater a cabeça dela com uma força brutal na estrutura de madeira de lei. Natalia ficou zonza e perdeu completamente as forças. O corpo estremeceu enquanto colidia com as almofadas e então escorregou para o chão. Caiu ao lado do pai, que tinha lágrimas nos olhos azuis. Ela apenas o encarou de um modo vazio, sem sentir absolutamente nada.
Ainda viu seu pai, cujo maxilar estava visivelmente despedaçado, puxar o ar pelo nariz e prender a respiração, antes de fechar os olhos com força e então abri-los, como se dissesse para que ela fizesse o mesmo. Imitou-o, mais por que não lhe restavam forças do que por que se importava em obedecer. Fechou os olhos e permaneceu assim, mesmo quando ouviu passos se aproximando. Em uma fração de segundos, houve um baque muito forte junto a um breve gemido estrangulado e o som que parecia o de uma melancia sendo quebrada. Segurou a respiração com mais veemência quando sentiu nas costas um pé que a sacudiu com força — não se moveu. Até que ouviu os homens conversando, até que suas vozes e passos foram se afastando e desvanecendo, permaneceu imóvel; ainda esperou bastante tempo para abrir os olhos. E quando o fez, arrependeu-se.
As lágrimas voltaram, alimentadas por um ódio que crescia e crescia e consumia seu pequeno coração, a uma velocidade assustadora. Gritou com todas as forças do seu corpo, até ficar rouca. Olhou para o sangue misturado ao conteúdo encefálico na cabeça destruída de seu pai e teve uma certeza. Não iria ficar assim. Virou para a mãe e arrancou a outra faca ensanguentada do meio do abdômen dela. E mesmo que doesse muito andar, a única coisa que a movia era o ódio. Eles vão pagar, eles vão pagar, eles vão pagar, eles vão pagar, eles vão morrer, eles vão morrer, eles vão morrer...
Assim, ela rumou para a porta, encontrando Malinka caída ali com uma mancha vermelha onde Natália imaginava que devesse ficar o coração. Ela saiu de casa, arrastando os pés por causa da dor. Nem ao menos tinha ideia do lugar aonde deveria ir, nem a mínima noção de que encontrar os invasores seria uma missão suicida. Mas ela estava cega de uma mágoa e, acima de tudo, um ódio que ser humano algum jamais deveria sentir. Poderia procurar até no inferno, se fosse preciso. Foi o que Natalia pensou, mas após meia hora, já não tinha forças para continuar. Nevava muito e suas roupas não eram adequadas para aquele frio — já sentia seus pés dormentes dentro das meias. Ainda conseguiu dar mais uns poucos passos antes que suas pernas cedessem e seus joelhos colidissem com o chão de gelo e então o resto do corpo caiu. Ao mesmo tempo, pequenos floquinhos começaram a se precipitar do céu sobre todas as superfícies ao redor, inclusive a de seu corpo.
— Você tá chorando, céu? Você tá tão triste e com tanta raiva que suas lágrimas viraram gelo? – nem mesmo alguém que estivesse a cinco centímetros da garota conseguiria ouvir sua voz. – Eu não quero virar um anjo ainda. Quero viver. E me tornar uma princesa. Me deixa viver, céu. Antes, eu tenho que acabar com quem fez tudo isso...
Natalia já nem sentia mais o frio, nem a dor. Aos poucos foi parando se sentir o que quer que fosse, até seus membros foram ficando insensíveis. O tempo foi passando, a neve foi se acumulando sobre o seu corpo e seu batimento cardíaco foi diminuído dentro do peito. Tentou mover os dedos das mãos, mas eles não obedeceram... Seus pensamentos foram esmorecendo. Ainda não, por favor... me salvem...
Então uma sombra se projetou sobre ela. Era um garoto que parecia ser um pouco mais velho que Natalia. Ele lhe lançou um olhar breve e apático, antes de se abaixar e retirar um pouco da neve que a cobria. Perguntou:
— Hey. Você tá viva? – viu-o estender a mão e cutucar seu braço, mas não sentiu; tentou falar, mas nenhum músculo obedeceu. Apenas piscou, cansada, e quase não conseguiu abrir os olhos novamente. – Vem... – ele lhe estendeu a mão, mas ela não pôde fazer nada.
Ele pareceu compreender isso, porque em seguida a carregou no colo e rumou para um pequeno casebre nas redondezas. Ainda se lembrava do calor dos braços dele. Parecia que estava renascendo. A partir daí, a próxima lembrança que tinha era de uma cama aconchegante, um milhão de cobertores e ele, sentado no colchão ao seu lado, olhando-a. Ela era nova e estava abalada demais para apreender como o olhar dele era frio. Para ela, ele parecia um anjo.
— Hey, quem é você? Qual é o seu nome? De onde você é? Por que você estava na neve? – ele fez milhares de questionamentos ao mesmo tempo, tanto que ela não conseguiu acompanhar. – Você é muda? Não tem língua? Ou não entende o que eu falo? Diga algo!
— Vanya, meu amor. Deixa a menina. Ela deve estar fraca. – uma garota mais velha, de seios fartos apareceu, com uma xícara lascada na borda e na asa. – Consegue pegar isso? – perguntou com gentileza.
Mas Natalia não conseguia se mover, muito menos falar, apenas olhava para os dois. Para o seu salvador... e aquela outra. A recém-chegada pediu licença para ajudar Natalia a beber o que quer que fosse que havia trazido, mas a muito custo a menor conseguiu mover o braço e dar um leve puxão o tecido da calça do garoto. Ambos se fitaram e, embora Natalia não pudesse falar, ele entendeu que ela não queria outra pessoa que não fosse ele.
— Deixa que eu dou pra ela, siestra. Tudo bem. – ele pegou a xícara e a ajudou a beber o que parecia... leite?
E foi assim até que ela conseguiu falar e descobrir o nome de seu anjo. Ivan. Era um nome lindo que pertencia a uma pessoa linda. A pessoa que a salvara da morte e do vazio. A pessoa que lhe deu um lar. A pessoa a quem amaria até o último dia de sua vida. A pessoa que precisava amá-la, a qualquer custo.
Durante todos os anos em que vivera com Ivan, nunca se esquecera do rosto daquele rapaz. E, mesmo agora, ainda se lembrava dos olhos azuis esverdeados, dos cabelos castanhos, da feição assassina. Nunca esqueceria enquanto estivesse viva. E foi por isso que, como pudesse, jurou que o encontraria e o faria pagar. Levou alguns anos, mas descobriu onde vivia certo senhor Dashkevich, pai de família, com dois filhos gêmeos pequenos.
Teve sorte pelo fato de que ele não havia guardado seus traços na memória, por isso, conseguiu se aproximar da esposa dele como uma mera amiga, sem despertar as suspeitas de ninguém na casa. E, num trabalho lento e meticuloso que requereu dois anos, conseguiu se tornar amante dele. Assim, em uma noite em que jantaria com a família, quando já conhecia os hábitos e a casa como se fossem a palma de sua mão, mancomunou-se, ou melhor, coagiu Ivan a ajudá-la a pôr em prática sua vingança, porque não teria força para arrastar um homem. Num momento de distração, colocou cianeto na comida da criadagem e sonífero na da família e, com a ajuda de seu irmão, levou todos para a sala, amarrando o homem; então esperou até acordasse para esfaquear a mulher e as crianças bem diante de seus olhos.
— Lembra-se disso? – gritou por cima dos gritos deles, mostrando a faca àquele que a havia assassinado anos antes. – Você matou meus pais e meu irmão com isso!
Natalia não tinha nada no coração além do ódio mais puro e bruto existente no plano da realidade. Não sentiu nada como remorso ou culpa, enquanto a lâmina de metal rasgava aquelas peles delicadas fazendo o sangue escorrer e jorrar pelo chão e pelo corpo da bielorrussa.
Não sentia prazer, nem se sentia mal. Apenas parecia justo.
— Cale a boca, kakashka. Esse seu grunhido de porco me dá nojo. Cale a essa boca imunda! – foi até ele enquanto os outros agonizavam e chutou-o com o salto do sapato bem entre as pernas, fazendo-o se dobrar em dois.
— Por que você está fazendo isso, Natalia? Você é uma criança. Por que todo esse ódio? – ele choramingou, com os olhos marejados e muco saindo pelas narinas, sem a mínima decência de ser homem o bastante para ter raiva e lutar. Parecia um bichinho atingido por uma flecha. Era nojento e patético. A loira sentiu que podia moer e triturar cada pedacinho daquele homem e ainda assim ele não se redimiria de ser a escória imunda que era.
— Por quê? Natalia, Natalia... – cantarolou o próprio nome, sorrindo de raiva. – Não te soa familiar, kakashka? Tente... Natalia Arlovskaya.
— Arlovs... – os olhos dele pareceram querer saltar das órbitas. – Mas eu matei você...
— Surpresa. Eu voltei dos mortos pra te levar comigo. – deu um último golpe na criança que ainda chorava no chão ao seu lado, então ela se calou. Os dois gêmeos não deviam ser mais novos do que ela era quando aquele homem a atacara. Olhou para ele e, muito diferente da imagem que tinha, viu-o chorar alto. Chorava lágrimas copiosas enquanto mirava, desesperado, o massacre no que deveria ter sido uma sala feliz, mas que agora apenas abrigava um circo de horrores. Não havia mais brilho de vida naqueles olhos, embora o peito ainda subisse e descesse.
— Acho que agora você sabe o que meu pai sentiu, kakashka. Agora você sabe o que eu senti. Pronto pra conhecer o inferno? Pronto pra ir prestar contas com meu pai?
Ele nem conseguia responder de tanto que chorava.
— Que patético. Não sabe o ódio que sinto em pensar que foi alguém como você que destruiu minha família. Tomara que arda nas profundezas mais sórdidas do inferno! – ela cuspiu as palavras, irada. – Brat!
Ivan, que estava do outro lado do aposento, próximo à lareira, não parecia muito confortável com todo aquele espetáculo — de fato, parecia até um pouco assustado com a irmã — , mas nem de longe era a reação que qualquer pessoa normal teria ao assistir àquilo. Quando foi chamado, ele suspirou e pegou dois atiçadores de fogo, aproximando-se de ambos. Natalia assentiu para ele, como se concedesse permissão, então, com uma força maior do que se poderia julgar pela tenra idade que tinha, o russo chutou o homem, que caiu de costas, então trespassou seus braços com as barras de ferro, fincando-os no chão firmemente. Ele urrava de dor e agonia, mas nenhum dos dois se importou.
— Pode pegar isso de volta. – Natalia segurou seu cabelo com firmeza e conseguiu enfiar a faça pelo queixo dele para que se calasse. Ela então foi até a cozinha, voltando com duas latas de óleo de cozinha, espalhando-o pela sala, quase serelepe, e acendendo um fósforo. – Vou dar um tempo pra você pensar e se arrepender pelo que fez. – foi até o lado mais afastado da sala e jogou o fosforo no chão. – Eu vou acreditar que você vai se arrepender... – jogou do outro lado. Mas se não se arrepender, não importa... – jogou em outra parte. – porque ter visto a luz se apagar dos seus olhos em vida provavelmente vai ser a melhor memória que eu vou ter. Vem, brat. – disse, jogando a caixa de fósforos e depois o avental completamente ensopado de sangue no chão, ao lado do corpo do homem.
Ela agarrou o pulso de Ivan, que seguiu olhando para trás enquanto andava. O homem gemia estrangulado e tentava soltar os braços, desesperadamente, enquanto via o fogo se alastrando pela sala. Ele olhou para Ivan como se implorasse por algo, mas o russo nada fez. Pelo que ouvira de Natalia, ele não merecia ser salvo. E assim saíram da casa e rumaram em silêncio. Ele não disse nada porque não tinha nada a dizer, enquanto virava vez ou outra para olhar a fumaça ao longe; ela, porque estava imersa na felicidade ter finalmente feito o que tanto almejara por anos.
Para o dia se encerrar com chave-de-ouro, Natalia arrastou o irmão para seu quarto e o amarrou à cama, por mais que não houvesse a mínima necessidade, já que ele tinha medo demais para fugir. Ela apenas o amarrava pela satisfação de saber que ele estava completamente à sua mercê, assim como aranhas enrolam suas presas em casulos para irem devorando devagar. Gostava de saber que havia outros métodos que não a força e a dor física para subjugar alguém, mas naquele dia tinha vontade de ver mais sangue. Era como se tivesse recuperado os sentimentos de quando era criança, princesa, e tudo precisava girar em torno dela. Naquele dia, girava.
— Você foi um ótimo irmão hoje. Obrigada por me ajudar, brat. – inclinou-se sobre ele e o beijou de leve. – Você mostrou que me ama... – disse, feliz, mas ele apenas baixou a vista para o lado, com uma expressão pesarosa. – Que cara é essa? Não está feliz? Quer que eu saia de cima de você? – irritou-se.
— N-não... É que... eu só... – mas o argumento morreu aí.
— Você entende que me pertence, não é, brat? – fez um pequeno corte na base do pescoço de Ivan, deitando sobre o corpo despido que ainda não havia se desfeito de todas as características pubescentes; assim como o dela. – Entende que eu o amo e por isso você deve me amar também? Entende que se você escolher outra pessoa, eu nunca irei perdoá-lo? – foi descendo com a faca riscando o peito dele. – Mas não há motivos para você escolher outra, não é? ... Não é?
Ivan apenas a encarou, hesitante, o tórax subia e descia pela respiração entrecortada de nervosismo. A falta de resposta a irritou mais, então cravou a ponta da faca debaixo das costelas dele, tirando um filete de sangue que escorreu até a colcha da cama.
— Você não concorda? – enterrou mais alguns milímetros da lâmina na carne macia.
Ele assentiu, desesperadamente, porque sabia que entre ele e as pessoas que ela havia acabado de matar, não havia diferença alguma. Sabia que se a deixasse descontente, ela podia até não se vingar na hora, porém poderia dar o bote no momento mais inesperado e, de tão tenaz que ela era, nunca conseguiria fugir por mais que tentasse.
— Concordo, concordo. Não me fura, Natalia.
— Eu faço isso porque você tem que aprender a me obedecer. Você tem que aprender a ser bonzinho comigo e fazer o que eu digo... Agora... diga que me ama.
Ele hesitou novamente e ela nem pensou duas vezes antes de puxá-lo e riscar as costas dele com aquela faça — não tão fundo, não tão superficialmente, mas o bastante para doer e tirar mais sangue. E ele acabou tendo que mentir como ela sempre o obrigava a fazer.
— Eu amo... você... Natalia.
— Aaaah. – sorriu. – Isso. Assim é bem melhor, Ivan.
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