Dotyanutsya do Tebya
2 Capítulo II: Не морозь меня (Ne Moroz Menya)
Notas iniciais
Eram tempos de guerra e, apesar de ser poderosa na região, a família Braginski havia sido obrigada a se refugiar em uma pequena casa no meio do nada contra ataques de vizinhos. Uma das poucas memórias que Ivan tinha da infância era a última em que vira seus pais com vida. Naquele dia, lembrava-se de ver sua mãe entrar correndo, enquanto estava deitado na cama, brincando de identificar desenhos em um dos carpetes presos na parede. O pequeno Ivan se sentou no colchão velho e fino para ver sua mãe ofegante, esfarrapada e coberta de sangue. A mulher de cabelos longos e loiro-acinzentados trancou a porta e, sem nenhuma palavra, puxou a criança de onde estava, fazendo menção de escondê-la debaixo da cama.
— Não, aqui não... – ela murmurou, então olhou para o armário, depois para um canto vazio do outro lado do aposento. Fez Ivan deitar-se no chão, sem muita delicadeza, como se fosse um boneco ou algo do tipo e pegou uma pilha de roupas de dentro de um baú marrom-avermelhado, jogando-as sobre o pequeno, certificando-se de cobri-lo por completo, então cochichou: – Não saia daí, por nada. Haja o que houver, ouça o que ouvir, não faça um barulhinho sequ...! Blyat...
Batidas fortes na porta a interromperam, e ela praguejou baixo, então Ivan pôde ver, através das brechas entre as roupas sobre seu rosto que ela olhou fixamente para o filho e disse um “ya lyublyu tebya, Vanya” tão baixo que mal ouviu. Então a expressão da moça loira endureceu quando ela rumou para o armário de armas, a passos firmes e decididos, porém a porta foi arrombada, e um homem robusto entrou intempestivamente, disparando de rifle Winchester na mão da mulher com uma pontaria impecável, sem dar espaço para que ela se armasse.
Ivan ouviu a mãe gritar e sentiu sua própria voz sufocar na garganta — congelou onde estava. Viu o sangue jorrar do membro mutilado, então o homem se aproximou, mal permitindo que ela sentisse sua dor e bateu com a coronha da arma em seu rosto, fazendo-a cair no chão. Não houve uma fração de segundo para que ela reagisse. Pôde vê-la se arrastar para trás de costas com a mão boa de apoio, até chegar à cama, enquanto a outra estava em seu colo, manchando o vestido cinza claro de carmim. A russa tinha os olhos fixos no sujeito que sorria, com a arma apontada para ela. Ele parecia protelar em terminar tudo, por divertir-se ao ver sua presa indefesa e ferida.
— Ande, kakashka. Termine o que você veio fazer aqui! – era notável pelo tremor na voz dela, como ela aguentava a mão o mais bravamente possível.
— Pressa para morrer? Não vai implorar pela vida? – ele debochou.
— Sonhe.
O homem riu. Enquanto isso, Ivan viu os dedos esguios e brancos da mãe tatearem sorrateiramente para baixo da cama, então ela alcançou o cabo de um pequeno machado sob a cama. Ele ainda ria quando ela chutou sua perna, fazendo-o se desequilibrar e por pouco não cair sobre o esconderijo do pequeno russo. A arma foi solta e disparou contra o teto ao cair no chão a uma boa distância dos três. No momento de distração de seu agressor, a mãe de Ivan então levantou o machado e se preparou para golpear o lugar mais acessível estando caída no chão — sua perna — , mas num movimento mais ágil, ele a puxou pela frente do vestido, içando-a do chão.
Ele não mais sorria quando lhe tomou o machado da mão e, com apenas um golpe, fez um mar de cabelos loiro-acinzentados espalhar-se no piso de pedra, segundos antes de o corpo decapitado segui-lo. Ivan viu o sangue respingar na parede e escorrer pelo chão. Foi a última coisa que reparou. Não notou quando o homem andou pelo quarto, procurando debaixo da cama, dentro do armário e do baú de roupas, então olhou pela janela entreaberta, por onde entravam pequenos flocos de neve. Com um pequeno fungado, ele saiu da casa, deixando Ivan para trás.
Na manhã seguinte, o corpo do pai foi encontrado perto da casa. O pequeno russo foi encontrado em estado catatônico em meio à pilha de roupas próximo ao corpo da mãe. Ivan lembrava-se de tudo o que vira e ouvira nitidamente, mas não se lembrava do que sentira. Talvez não houvesse sentido nada ou talvez houvesse sentido tanto a ponto de que sua mente preferira desligar as memórias sobre isso, e sua compreensão de emoções ficou bagunçada desde então. Como sempre, não saberia explicar.
Após isto, foi levado para viver com a irmã Yekaterina, que morava um pouco longe, por não mancomunar com a vida de batalhas e subjugação a qual os pais impunham aos outros. Ela o aceitou de braços abertos, porém, sem a ajuda de ninguém, precisou trabalhar excessivamente para que pudessem sobreviver. Com o preconceito que sofriam por carregar o nome Braginski, precisavam se esconder como os pais e, assim, Ivan passou a infância sozinho, apenas sonhando com o dia em que viveria em uma casa grande e cheia de outras pessoas.
Alguns anos depois, Ivan juntava sementes nos campos de girassol cobertos de neve quando encontrou um montinho estranho próximo à estrada que levava à sua casa. Ué...?, pensou, aproximando-se; então notou que... era uma garota? Sim, era. Abaixou-se ao lado dela, tirando a camada de neve sobre seu corpo para encontrar uma pele muito clara, azulada de frio. Ela deveria ser mais nova que Ivan.
— Hey. Você tá viva? – cutucou-a, e sua resposta veio por meio de um olhar morto e uma piscada fraca. – Vem... – estendeu a mão, mas nada além dos olhos se moviam, então Ivan a pegou no colo.
Não pensou muito ao levá-la para casa e pedir à irmã para deixarem-na ficar. Serem três era incogitável, pois Yekaterina mal conseguia sustento para dois, foi o que ela disse.
— Sem falar no fato de que ela não é um animal de rua que nós podemos “ficar” assim! – disse a mais velha, após alimentarem a garota e deixarem-na dormir no quarto da ucraniana. – Sem falar na família dela, Vanya! Devem estar preocupados! Sinto muito, mas você vai ter que procurá-los amanhã mesmo, dorogoi.
Então descobriram que os pais da garota — que se chamava Natalia — haviam tido uma sina similar à dos deles. Ela não tinha família, nem para onde ir. Então, ao invés de abandoná-la em alguma casa ou centro para crianças, o coração mole da ucraniana falou mais alto e ela permitiu que a garota ficasse.
Ivan não a salvara por sentir pena ou algo equivalente. Apenas o fez por que pensou ser bom ter companhia. Nunca imaginou como isso havia sido como deliberadamente plantar uma erva daninha venenosa em sua vida. Natalia era egoísta quando se tratava de Ivan. Queria todo o tempo e atenção dele para si. Sem pais, sem sua irmã biológica presente, apenas com Natalia que, por sua vez, afastava todos dele desde sempre, Ivan mal teve chance de aprender a interagir com outras pessoas. Nunca aprendeu a saber o que esperar delas, nem o que elas esperariam de si. Como não tinha consciência disto, nunca entendia quando se magoava com o que lhe faziam, nem entendia quando magoava os outros.
A única coisa que sabia era que queria muito sentir calor humano. Quanto mais, melhor. Por isso, quando a situação em casa se estabilizou tanto quanto podia, e o nome Braginski não era mais tanto um peso, pôs em prática seu sonho de ter uma casa cheia. Com um pouco de dificuldade, levou algumas pessoas sem família que encontrou pelas redondezas. Entretanto, nenhum deles se aproximava, nem abria espaço quando tentava juntar-se a eles (por medo de sua personalidade excêntrica, mas principalmente por medo de Natalia). Deste modo, Ivan permaneceu sozinho, unicamente cercado pela irmã mais nova, mesmo numa casa cheia.
Com o tempo, Ivan percebeu-se notando um dos habitantes dali — um lituano de cabelos castanhos à altura dos ombros e uma paciência infinita, pelo que observara. Seu nome era Toris. Da janela de seu quarto, via-o tomar conta de outros dois garotos mais novos. Sempre cuidava deles quando se machucavam ou quando se metiam em briga com os outros. Nunca o via se exaltar. Ele tinha uma aura absurdamente gentil. Era engraçado de se ver. Foi isso o que o fez se destacar de início.
Começou pequeno e inocente, mas, gradativamente, a frequência com que se percebia procurando-o no jardim, na cozinha ou onde quer que fosse, aumentava. Com o tempo, começou a sentir um afogueamento no peito e no rosto quando o via dar um de seus sorrisos sutis, mais ainda quando ele ria de verdade, quando ele ficava vermelho por qualquer que fosse o motivo. De algum modo, via solidão nos olhos dele, mesmo quando estava com os outros dois. Identificava-se com ele, porque nisso eram parecidos. Mas Ivan nunca havia notado nada disso conscientemente, porque não tinha noção do que significava “solidão”. Havia algo desconfortável em seu peito, que constantemente o machucava e que doía, mas era tão intrínseco à sua existência, que Ivan pensava ser normal.
Por isso, não odiava Natalia por sempre atrapalhar quando tentava interagir com os outros — não conseguia notar o que ela fazia. Além disso, não queria afastá-la e acabar irritando-a, de modo que fosse se associar com um idiot quatro-olhos inimigo seu. Até porque ela dizia que o amava, e uma das coisas mais curiosas para Ivan era isso... “Amor”? As pessoas agiam como se amor fosse uma coisa boa e incrível, então tinha curiosidade de experimentar, mas não entendia o conceito. Não sabia identificar se sentia amor. Não sabia como se amava, ou como se era amado. Sua mãe dizia que o amava, mas não se lembrava do tempo com ela. Na realidade, ela nunca estava em casa. Yekaterina também dizia que o amava, mas tinha menos memórias ainda com ela. No fim das contas, Natalia era a única que estava sempre ali. Talvez ela fosse a única que o amasse de verdade, então ela era a única com quem Ivan podia aprender sobre isso.
— Vamos nos tornar um, brat... É o que se faz quando se ama alguém... – ela se ajeitou na cama, ficando de frente para Ivan, que tinha as costas nos travesseiros.
— E como se faz isso? – perguntou fitando-a, sem entender por que Natalia estava tirando a roupa.
— Vou mostrar... – ela disse abrindo as calças de Ivan.
Era o tipo de coisa que acontecia desde pouco tempo após deixarem de ser crianças. Ivan só notou que se incomodava quando começou a beber, alguns anos depois. Os momentos felizes tornaram-se os em que a vodca o libertava das memórias e da consciência. Se aquilo era amor, amor era incômodo. Quando estava com Natalia, era bom — porque afinal era um animal e seu corpo correspondia — , mas havia algo estranho e, por algum motivo alheio à sua compreensão, não era tão bom quanto tinha a impressão de que deveria ser. Até que, em certo ponto, começou a se pegar pensando em Toris, quando estava com a belarussa. Talvez pudesse tentar com ele. Talvez não sentisse o desconforto que sentia com a irmã...
Com essa resolução em mente, Ivan esperou a oportunidade chegar, mas, ou Natalia ou os outros dois bálticos estavam sempre por perto. Isso aumentou mais e mais sua frustração e sua necessidade de experimentar com ele. Quando começou a beber, a vodca fez o pouco de filtro que tinha ir ruindo. Não conseguir seu objetivo fazia a frustração disparar, então a descontava nos outros, canalizando-a para seu lado violento. Até que finalmente conseguiu o que tanto almejava, porém não foi exatamente como imaginara.
A sensação em si de ter o lituano fora melhor que em seus sonhos, e nem se comparava a estar com Natalia. Ivan quase ficou feliz. Quase. Porque sinceramente estava tão bêbado que nem se lembrava muito bem, mas lembrava que Toris havia lutado tanto, havia chorado e dissera que o odiava. Não deveria ser assim. Queria que ele entendesse isso. Então tentou mais, mas isto unicamente parecia fazer o lituano repeli-lo mais e mais e fez o russo criar a consciência de um muro que crescia, separando os dois. Foi então que aprendeu a identificar o sentimento de rejeição e tristeza. Queria ajuda. Queria perguntar a alguém o que significava toda a confusão em sua cabeça. Talvez Yekaterina pudesse ajudar.
— Siestra, acho que estou triste. – disse a ela, certo dia quando a encontrou trabalhando no campo.
— Por que você acha isso, Vanya? – Yekaterina perguntou, de testa franzida, sem parar o que fazia.
— Não sei. – respondeu sinceramente, pensando em como articular seu problema. – Eu só sinto que tem uma coisa muito ruim no meu peito... E eu quero que isso passe.
— Aconteceu algo?
Ivan respirou fundo. Por que era tão difícil?
— Tem alguém de quem eu quero ficar perto. Alguém que eu quero que queira ficar perto de mim. Mas eu não entendo isso. Não entendo por quê... e... não sei o que eu devo fazer... Eu acho... Como se sabe que se ama alguém?
A ucraniana franziu a testa, muito surpresa. Nunca imaginou ouvir tais palavras saindo da boca do irmão. Isso fez um sorriso de irmã mais velha surgir no rosto dela.
— Acho que... é quando você sente que a pessoa é insubstituível na sua vida...
Insubstituível... Preferia Toris a Natalia mil vezes. Preferia-o a qualquer pessoa, de fato, nem que fosse apenas para olhar de longe.
— Se você quer tanto ficar perto dessa pessoa e quer tanto que ela o corresponda, talvez você a ame mesmo...
— Amar é ruim?
— Claro que não, Vanya. – ela respondeu num tom de voz agradável e divertido, finalmente parando de revolver a terra para prestar atenção em Ivan. – Amor é a melhor coisa que você pode sentir.
— É? – franziu a testa; Toris não parecia feliz com seu amor. – E o que se faz depois que você sabe que ama a pessoa?
— Você demonstra... então você vai saber se é correspondido.
— E como se faz isso? Demonstrar? Como eu sei que a pessoa tá correspondendo? – estava ficando mais confuso.
— Er... – ela hesitou, apoiando-se no cabo da enxada, enquanto pensava. Como poderia explicar algo tão natural, mas ao mesmo tempo tão subjetivo? Não podia dizer nada irresponsável, pois conhecia seu irmão a ponto de saber que alguém sofreria com isso. Ainda assim, ele era tão inocente, no fim das contas. – Bem, se você ama, demonstrar é natural... Acho que... você deve notar coisas importantes sobre a pessoa, fazê-la se sentir única, dar carinho...
Houve um breve silêncio.
— O que é carinho?
— Carinho é... Olha, eu sempre trabalhei muito pra cuidar de você. Pra você ter o que comer. Isso é uma forma de carinho, sabe? Eu cuido de você assim.
— Então... eu devo... dar comida?
— Não, meu amor... Você...
Yekaterina quase sentiu pena ao ver a expressão de confusão genuína no rosto do mais novo, mas o sentimento de culpa foi maior. Como era possível alguém perguntar o que era carinho? Tentou pensar, mas não conseguiu se lembrar de momentos em que realmente tenha dado afeto a Ivan. Só se lembrava de estar trabalhando. Quando estava em casa, estava cansada demais para qualquer coisa. Quando ele era criança e pedia para brincar, sempre dizia “agora não, meu amor. Estou cansada”, até que ele parou de pedir. Se não viesse dela, de quem o irmão receberia afeto? Por um momento, Yekaterina se perguntou se ele havia recebido algum abraço desde que os pais morreram. A pior parte era que, conhecendo os pais, ele talvez nunca tivesse recebido um abraço deles também. Então era isso? Ivan tratava aos outros como tratava porque nunca havia sido tratado melhor? Como havia deixado que isso acontecesse...?
— Então, brat, quando ele vai embora? – perguntou a belarussa, friamente.
— Ah, Natalia... – disse Ivan, em um tom de lamento. – Nem ele, nem os outros têm condições de se manter sozinhos, então não posso mandá-los...
—Não me importo se os outros vão, mas eu quero aquele pedik, fora de casa!! Você prometeu!! Mande-o embora!! Você não tem palavra? – ela praticamente gritou, batendo na mesa com força suficiente para fazer o porta-canetas virar. – Você pode não ter, mas eu tenho. Eu disse que acabaria com ele se ele continuasse aqui, não disse? Não estou blefando!! – bateu novamente na mesa, fazendo as outras coisas se chocarem e caírem.
— Natalia... fica calma. – pediu o russo, em voz baixa. – Podemos tentar resolver de outro modo... sem precisar...
A belarussa se curvou sobre a mesa estreitando os olhos, fazendo Ivan lutar para não se encolher na cadeira. Ela era o único ser na Terra que tinha este poder.
— Você está realmente discutindo comigo?
Fitaram-se por uns instantes, até que a porta atrás da moça foi aberta de repente e um lituano assustado os encarou.
— Ah. P-perdão. Pensei que não tivesse ninguém aqui. E-eu volto mais tarde pra limpar. Perdão. – disse, fazendo menção de fechar a porta.
Natalia bufou de raiva, então ajeitou a postura.
— Já estamos de saída. – Natalia puxou a manga de seu casaco insistentemente. – Não estamos, brat?
Ivan demorou alguns segundos antes de concordar e levantar-se para ir junto à irmã, lançando um olhar triste ao lituano, mas ele não viu — ou ignorou — , então Natalia agarrou seu braço e o conduziu corredor afora, ainda com o cenho fechado. Ela chegou a murmurar um “vê se aprende a bater na porta, seu mal educado” para Toris enquanto passava, ao que ele respondeu abaixando mais a cabeça, assentindo.
— Ele me dá nos nervos. Eu o quero fora daqui. – a raiva na voz dela era absurda.
— Natalia...
Ivan não conseguia imaginar ficar sem ele ali. Mesmo que ele o evitasse, mesmo que fugisse, gostava de tê-lo por perto. Não queria abrir mão daquilo. De algum modo, diminuía um pouco do frio...
— Por que ele, brat? – pararam no meio do corredor, então ela esticou os braços e pôs as mãos no rosto de Ivan. – Por que não posso ser eu? Eu amo você. Você prometeu que se casaria comigo, mas você nunca vai me olhar de verdade... Não com ele aqui... Então eu quero que ele suma, antes que você consiga pôr as mãozinhas nele e não queira soltar nunca mais.
Não soube o que dizer, porque não tinha a malícia necessária para enganar tão dissimuladamente. Prometera casar-se com ela para ganhar tempo, pois queria Toris e só, mas queria-o vivo. Agora não havia mais saída? Tinha medo de Natalia e do que ela podia fazer ao lituano. Teria mesmo de se casar com ela? O que eu faço? O que eu digo?
— Você é meu, brat. Só meu. Não é? – ela estreitou os olhos, as mãos descendo do rosto para o cachecol, então ela puxou as pontas. – Ou você é dele também?
Ivan engoliu em seco, sentindo falta de ar por causa do cachecol que começara a apertar sua traqueia. Ofegou, levando suas mãos até o pescoço, tentando afrouxar o tecido que o sufocava, o olhar azul gelo desconfiado da belarussa perfurando-o como as facas de que ela tanto gostava. Negou com a cabeça lentamente, sem alternativa. O olhar suspeito permaneceu por uns instantes, até que o rosto dela se iluminou quando soltou o cachecol, subitamente. O ar entrou com violência nos pulmões do russo, que quase se engasgou.
— Não quero mais sair, brat. Ao invés disso... vamos ficar aqui mesmo. – ela começou a puxá-lo na direção das escadas.
— E nós vamos fazer o quê? – Ivan perguntou deixando-se levar, o tom infantil e assustado em sua voz.
Natalia sorriu brevemente em resposta, sem deixar de puxá-lo escada acima. Seu sorriso era assustador para Ivan. Odiava-o com todas as suas forças, porque nunca era anúncio de boa coisa. Era nisso que pensava quando notou que iam em direção ao quarto dela. Suspirou. Não era boa coisa mesmo. Natalia o fez sentar na cama logo que entraram no quarto decorado de branco e azul marinho. Era um quarto frio demais. Odiava o frio...
— Eu quero brincar de uma coisa diferente hoje. – ela falou, sem delongas, abaixando-se em frente à mesa de cabeceira para abrir a portinha na parte inferior, revirando atrás de algo. – Você vai deixar, não vai, brat? Você vai ser bonzinho com a Natalia, não vai?
Ivan viu uma vela grande e um acendedor em suas mãos, quando ela se levantou. Não conseguiu imaginar de imediato o que aquilo significava.
— O-o que...? O que você vai fazer?
Ratificando: Natalia era a única pessoa no mundo que o fazia gaguejar e ficar com um olhar assustado.
— Ah, é simples. – ela disse, acendendo a vela, então colocando-a sobre a mesinha, pousando o acendedor ao lado. – E vai ser divertido. – tirou uma faquinha dobrável do bolso do vestido azul, abrindo-a. – O pedik pode ficar aqui por um pouco mais de tempo, mas eu vou deixar minha marca em você, brat. Assim, qualquer um que tentar roubá-lo de mim vai ver que você tem dona. – passou a lâmina pelo fogo. – Então tire a roupa e vire de costas. – ela puxou o laço da cabeça, com um movimento da mão livre, e o estendeu a Ivan. – Morda isso e não faça barulho. A Yekaterina tirou o dia de folga e tá dormindo no quarto dela.
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