Dormindo Com Fantasmas - Naruto
44 There is thunder in our hearts, baby
Notas iniciais
O ar da primavera, mesmo tornado impuro pelos movimento dos carros, parecia extremamente convidativo. A mesa daquele restaurante, ao contrário, parecia reprimir e sufocar aqueles diante dela. Ou, pelo menos, dois deles.
Enquanto observava Tayuya se levantar, pedindo licença e perguntando retoricamente se Sasuke já sabia o que ela costumava pedir, Sakura lembrava o indesejável acontecimento que a levara até ali.
- Sakura? — era o número de Tayuya que aparecia em seu celular. Ela estava de saída, indo para seu próprio almoço, confortavelmente sozinha, quando o toque musical soou. Relutou para atender, e se arrependeu por tê-lo feito. Aquela não era a voz altiva e petulante, mais ainda sim doce de Tayuya. Era a voz grave e firme de Sasuke. As paredes à sua volta giraram rapidamente, e por breves segundos, a Haruno preferiu não acreditar do que ouvira. As perguntas que começavam a ser formadas em sua mente não tiveram tempo de se desenvolver até a próxima frase vinha do outro lado da linha — Queria saber quanto tempo pretende nos fazer esperar aqui - a voz dele tinha o mesmo valor sóbrio, mas um leve tom divertido. Tayuya havia contado? era tudo em que Sakura conseguia pensar, e amaldiçoou mil vezes a ruiva — Se estiver com problemas aí, posso ir buscá-la.
Buscá-la. Era um recado. Se ela não fosse, ele voltaria imediatamente para a Teruya. De alguma forma, ele havia descoberto que aquilo tinha sido orquestrado pela Haruno. Bem, se Tayuya tivesse contado que elas se conheciam, não seria algo tão difícil. Ainda mais se tratando de Sasuke.
- Eu fiquei presa no banco. Já estou indo — respondeu, sem conseguir esconder a tonalidade seca.
Acompanhou o distanciamento da ruiva, com o olhar, e depois direcionou-o para Sasuke, à sua frente, que ainda parecia decidir o que pedir. Pensou que, agora, sozinhos, ele perguntaria o motivo de ela o querer longe da empresa naquele tempo, mas o Uchiha permaneceu em silêncio.
- O que vai querer? — ele falou, por fim.
Ela foi pega de surpresa, mas respondeu depressa — O mesmo que a Tayuya.
- Ela é vegetariana — Sasuke informou, colocando o menu na mesa.
Sakura deu de ombros — Eu também sou, agora.Ele apenas curvou os cantos da boca para baixo, em sinal de admiração.
- Você também mudou seus hábitos — ela continuou, antes que pudesse pensar duas vezes — Finalmente parou com os cigarros esporádicos?
O Uchiha fechou os olhos brevemente, deixando um leve sorriso escapar pelo canto da boca, como se aprecisasse o quela havia dito; mas logo a feição voltou à sua seriedade, e ele olhou relutante para a Haruno.
- Minha noiva é alérgica — explicou, desviando sutilmente seu foco de Sakura.
Ela limitou-se a murmurar um "oh".
- O que foi? — O Uchiha perguntou, ao notar o olhar divertido e surpreso que permanecia na rosada.
Sakura deu de ombros — É engraçado... — ela começou, e Sasuke franziu as sobrancelhas, com curiosidade. Porém, uma figura ruiva se fez presente, e a Haruno não disse mais nada. O Uchiha não mais questionou, sabendo que aquele era provavelmente um assunto que não devia ser tratado com a Sugawara por perto. Fizeram os pedidos, que rapidamente chegaram. Tayuya continuava a levantar questões aleatórias, tentando desfazer a tensão que percebeu ali. Sakura sorria, na tentativa parcialmente falha de ser sincera, participando da conversa o quanto podia, ao passo que Sasuke fazia raros comentários. A ruiva realmente não sabia dizer qual era o mais desconfortável ali, muito menos a causa daquilo.
Na calçada, Tayuya se despediu com um beijo rápido em Sasuke, e saiu em direção ao carro estacionado primeiro.
- Quer me perguntar alguma coisa, Sakura? — ele disse, notando o olhar confuso dela durante todo o tempo.
Ela olhou para o lado, ponderando. Mas não havia nada a esconder.
- Eu tenho certeza que você sabe que fui eu quem organizou isso aqui.
- Sei — ele confirmou — E me pergunto por que.
- Foi a Tayuya quem te disse? — a Haruno perguntou, fugindo da direção para a qual a frase de Sasuke conduzia.
- Ela havia me contado que vocês se conheceram. E você não estava no banco. Por que me queria longe da Teruya? Foi o que eu perguntei. Então, já que você tinha me afastado de lá, tive que fazer o mesmo — Sakura assentiu, e Sasuke colocou um pé à frente, preparando-se para ir — Eu realmente espero que você tenha seguido meu conselho. Pense no que pode te acontecer se alguma outra pessoa descobrir algo parecido com o que eu descobri, no caso da Petterson.
Ele saiu andando para o lado oposto, e Sakura não conseguia se mover dali. Nem pensava em se mover. As frases de Sasuke se acumularam em sua cabeça num monte cada vez maior, e nenhuma delas fazia sentido. Por que o que ele acabara de dizer soou como preocupação com ela? Sentiu uma estranha amargura tomar de conta de seu corpo, sem saber diretamente a causa. Seus olhos de repente pareceram mais gelados e frágeis contra o vento. Seus movimentos até o carro foram automáticos, e só percebeu onde estava quando pôs a mão na porta vermelha.
Tirou o celular da bolsa e o ligou, como se fosse a coisa mais importante a se fazer, até mesmo mais que girar a chave do carro e voltar para a empresa. Constavam seis ligações perdidas de Ino, e ela resolveu retornar, adiando o máximo sua saída.
- Até que enfim, testuda! Eu já estava acabando com minha quinta unha!
- Desculpe, fui almoçar e desliguei o celular. O que aconteceu?
- Hmphf, nada. Só queria compartilhar minha raiva do Gaara com alguém. Esse cara é insuportável! Mas já perdi a vontade...
- Isso quer dizer que já se acertaram de novo?
- Hm.. Hm... É, mais ou menos, mas não vamos falar disso. Eu conheço essa voz de morta. O que foi agora, hein?
- Já disse que não tenho voz de morta, Ino — Sakura soprou e reclinou-se mais no banco do carro.
- Hm, tanto faz. Mas eu te conheço, testuda — a rosada apenas respirou mais profundo, sem responder, sem se lembrar de que estava falando com a Yamanaka - Alô? Você está aí?
- Eu almocei com Sasuke hoje — ela disse, num suspiro, olhando para o teto. E alguma parte da entonação fez com que a Yamanaka soubesse que a pergunta correta a se fazer não era "como assim?"
- E por que está me dizendo isso?
- A noiva dele também estava lá — a Haruno continuou, como se não tivesse ouvido a loira — Eles se beijaram.
Ino deixou uma ruga fina aparecer em sua pele bem cuidada. Ela conhecia aquele tom. O tom infantil de tristeza, que Sakura nunca perdia. Ficou em silêncio primeiramente, apenas deixando um murmúrio sair do fundo de sua garganta.
- Oh, céus, eu sabia que você ainda estava...
- Não é isso — ela disse, sua voz firme e convicta, porém vazia.
Ino respirou pesado, e Sakura quase pôde enxergá-la massageando as têmporas — Se não é, então por que contou o que acabou de contar?
Sakura fechou os olhos brevemente. Pôs a cabeça para trás e deixou que mais ar que o necessário saísse de sua boca, numa tentativa inconsciente de se acalmar — Eu não sei.
A Yamanaka permitiu que seus lábios se separarassem, em preocupação. A voz da Haruno era falha e desnorteada, ela sabia o que significava — Sakura, onde você está?
Onde você está?
Balançou a cabeça brutalmente. Pôs a mão na testa e olhou através do vidro.
- Esquece. Tenho outra coisa pra te falar. Eu não ia fazer nada no meu aniversário, como você sabe, mas Hitomi e Kakashi disseram que seria uma boa oportunidade pra marcar minha volta à América. Então você está livre na quarta?
- Nem se não estivesse, dava um jeito de ficar, né! Onde já se viu! E achei ótimo, aniversários em branco são uma tristeza. Hm... Será que a sra. Trabalho De Segunda à Segunda tem tempo pra comprar com as amigas no sábado?
Sakura riu. Só Ino mesmo — Eu vou ver o que posso fazer.
- Ok. Só saiba que eu vou te levar nem que seja arrastada — ela disse, convencida, e então, se tornou mais séria — E ah... Sobre aquele assunto de antes, você não vai fugir, não. A gente ainda vai conversar sobre aquilo, ouviu?
- Certo — ela disse, com a consciência de que era inútil contrariar a loira — Amanhã, então.
....
Moveu o pescoço de um lado para outro, sem conseguir ouvir o agradável som do estralo. Pela segunda vez naquele dia, estava confinado em algum lugar com a Haruno. Dessa vez, quem olhava para eles dois era Kakashi. Mal chegara e recebera o chamado dele.
- Hoje tenho dois assuntos muito importantes para tratar com vocês dois — Hatake começou — Primeiramente, quero comunicar que ficarei ausente a partir da próxima semana, por causa de uma conferência em Cingapura. O prazo é de vinte a quarenta dias, dependendo de quanto tempo seja preciso para resolvermos os assuntos pendentes. E essa conferência chegou em péssima hora. Vocês já devem ter ouvido comentários sobre o nosso ex-representante na Itália, Orochimaru, certo?
Sasuke assentiu.
- Ele foi retirado do cargo recentemente por suspeitas de desvio de dinheiro — Sakura completou.
- Isso mesmo — Kakashi confirmou — antes disso, estourou na Europa a notícia sobre uma investigação, na qual Orochimaru poderia estar envolvido com a máfia. O acontecimento causou um péssimo panorama para nós em toda a Europa, nossa credibilidade foi afetada, perdemos sócios e clientes importantes. Esse período em que eu vou precisar estar fora será crucial para o nosso reestabelecimento no mercado europeu. E agora, só vocês podem fazer isso.
Kakashi observou Sasuke tirar a mão do queixo e cruzar os braços. Sakura empurrou o assento da cadeira com as mãos, melhorando o apoio das costas, e depois, repetiu a ação do Uchiha.
- Nós vamos precisar ir à Itália? — ele perguntou, com uma ruga na testa.
- Não, não, espero que não. É preferível que consigam resolver este problema daqui. Entretanto, devo avisar que terão muito trabalho pela frente. Eles costumam ser menos diplomáticos que nós. E bem... O outro assunto a ser falado se encaixa nesse, na verdade. Há alguns minutos, fui notificado de uma reunião que aconteceu hoje, com o conselho — Sakura engoliu em seco, ansiosa. Olhou de canto para Sasuke, que encarava Kakashi com curiosidade — Parece que eles estão dispostos a instalar um novo sistema por aqui.
- Novo sistema? Que tipo de novo sistema? Isso é impossível sem que eu e Sakura concordemos — O Uchiha disse, balançando a cabeça. Não estava gostando nada daquilo.
- Algo me diz que vocês vão aprovar — Kakashi disse, com um sorriso discreto — Isto é, pelo menos um de vocês.
Após Hatake ter explicado todas as possíveis mudanças de sistema, o moreno parou, olhando para a Haruno. Então era isso que ela estivera planejando? Era por isso que o havia tirado da empresa naquela hora?
Sakura notou a pausa no discurso de Kakashi, e sua cabeça virou-se automaticamente para o Uchiha, como se algo a puxasse. Pôde ver aquele olhar de raiva e... Decepção? Era o que parecia para ela. Então ele já havia entendido?
- Resumindo — a voz marcante de Kakashi se fez presente outra vez — Sasuke ocuparia seu cargo de chefe executivo, fazendo o trabalho estratégico no qual já tem experiência, e Sakura seria uma chefe de operações com mais autonomia. Sakura, sua função diplomática será de muita importância nesse caso da Europa.
- Isso é uma palhaçada — Sasuke protestou, com um sorriso irônico — Não há como duas pessoas entrarem em consenso o suficiente para administrarem algo tão grande quanto a Teruya.
- É completamente possível — o homem de cabelos brancos disse, com pura descrença nas palavras do Uchiha — já é aplicado em muitas multinacionais na mesma situação que nós. E, considerando que o conselho e Haruno Sakura aprovaram, o projeto tem força suficiente pra ser posto em prática. Aliás, essa crise de agora vai servir para testar isso. Bom, eu tenho que ir agora — Kakashi anunciou, levantando-se e colocando o terno antes abandonando na poltrona — Provavelmente não nos veremos mais até que eu parta. Sasuke, Sakura — chamou, olhando para os dois, com uma seriedade alerta consideravelmente rara para ele — Independente do que haja entre vocês, deixem de lado. A perfeita resolução com o mercado europeu é de extrema importância. Devem ter consciência disso.
Ele bateu a porta, com a mesma calma de sempre. Sakura não soube extamente o porquê, mas não se moveu dali. Estava com medo, e se tivesse tempo, se detestaria por isso. Medo. Estava tentando entender a causa daquilo. Sasuke a tinha nas mãos, como ele mesmo havia dito. Este com certeza era um motivo para se ter receio. Agora, ele podia usar o que tinha contra ela, sabia disso, mas não podia ficar parada, limitada por ele. Não, não era esse o motivo. Não conseguia enxergar a causa daquele sentimento, pois a resposta estava numa parte de sua mente que Sakura há muito tempo não se aproximava.
Desviou sua atenção para Sasuke, que, assim como ela, ainda estava ali. Ele tinha os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça abaixada fazia com que os cabelos negros cobrissem grande parte de seu rosto. Ele moveu o pescoço para um lado, encarando a Haruno, sem alterar sua posição. Não era o mesmo olhar gélido, era quente, quente o suficiente para fazer impacto; mas não era o olhar de decepção de mais cedo. Ela não conseguiu entender o que era aquele olhar, mas era diferente de todos que já havia visto em Sasuke. E de novo, impotente e incapaz de impedir ou mesmo de saber o significado, sentiu seu medo crescer. Ele se mexeu de novo, dessa vez, cortando o olhar que dirigia à rosada. Baixou novamente a cabeça. Passou as mãos pelo rosto duas vezes, e voltou a encarar o chão. Por fim, expirou com mais força e empurrou o apoio do braço, pegando impulso para se levantar. O baque da porta quando ele saiu, mesmo que não tivesse sido feito com a violência que ela imaginara, fez Sakura estremecer.
....
Ino tinha uma das mãos apoiando o queixo, e outra segurava seu milkshake. Ao bebê-lo, fazia o barulho com o canudo que Sakura odiava. A Haruno havia acabado de contar sobre a tal reunião do outro dia, e a loira se sentia completamente perdida.
- Espera ai — ela disse, fechando os olhos — Eu não entendo nada desses termos que você fala. Afinal, você conseguiu o que queria? Está na frente do Sasuke ou não?
Sakura girou os olhos — Desse jeito, parece até que o meu objetivo é ficar à frente do Sasuke. Mas não, eu não consegui isto. Ele ainda está na minha frente. Minha posição é um degrau abaixo dele, o que é muito mais perto do que ele queria me deixar. Mas em alguns setores, como nas relações exteriores, quero dizer, quando negociamos com outros países, eu estou no comando. Digamos que, depois dele, sou eu quem manda. Isto é, durante a ausência de Kakashi. Mas daqui a dois meses, isso será definitivo.
- Ah, sim... — a loira parou, e observou Sakura olhar discretamente para o relógio. Suspirou. Com certeza a Haruno tinha um prazo limitado para estar com ela e com as outras naquele sábado. Aliás, começava a se irritar como atraso de Tenten e Temari. Não eram elas que sempre se glorificavam por serem pontuais? — Agora, sobre aquela conversa...
- Não, Ino, eu não quero falar sobre isso — Sakura balançou a cabeça, as sobrancelhas abaixadas em hesitação — Aquilo no telefone foi só porque eu fiquei surpresa, só isso.
- Se você quer ser infantil e ficar nessa sua psicologia de negação, tudo bem! — a Yamanaka disse, irritada — Você sempre faz isso! E depois se ferra, começa a sentir coisas e não sabe o porquê.
Sakura deixou que os olhos recaíssem sobre o café, preso em suas mãos. Lembrou-se do sentimento de medo no dia anterior, da frustração de não saber o motivo de algo que era seu.
- Aliás, tudo bem nada! — Ino começou de novo, fazendo com que a Haruno erguesse a cabeça para encará-la — Quer saber o que eu acho? Que você é a pessoa mais...- ela cerrou os punhos e tremeu um pouco a cabeça — Doente mesmo que eu já conheci! Aliás, você e o Sasuke, vocês não são normais pra minha cabeça. Pra mim, você nunca esqueceu ele, ouviu, Sakura? Não importa o que você disser, não adianta quantas vezes você negue, eu sempre soube disso. Te conheço. E agora, que está vendo ele todo santo dia outra vez, não consegue dissimular. Pronto — ela cruzou os braços, olhando para a Haruno de forma reprovadora.
- Eu devia ter gravado seu discurso agora, só pra você poder ouvir a sua voz. Eu já disse, eu não consigo nem chegar perto do Sasuke, eu não sinto o que você disse. Você não sabe como é, você não sabe como é estar no meu lugar — Sakura deu uma risada nervosa, balançando a cabeça para os lados — E mesmo que você estivesse certa sobre os meus sentimentos, o que queria que eu fizesse? É impossível que eu apenas perdoe o Sasuke pelo que ele fez e...- ela soprou pesadamente, passando as mãos pelos cabelos — Eu realmente não quero falar sobre isso, ok?
Ino baixou a cabeça. O que a Haruno acabara de falar era verdade, pelo menos, uma parte daquilo era. E se sentiu mal por isso. Não iria mais insistir. Sabia que não era uma questão de querer, Sakura simplesmente não conseguia falar sobre aquilo.
- Só mais uma coisa — ela falou, com a voz mais contida — Você disse que almoçou com ele ontem, não foi? Chegaram a conversar?
Sakura levantou e baixou os ombros, resultado de sua respiração mais forte — Sim.
- E foi ruim?
- Hã? — a rosada fraziu as sombrancelhas, sem entender a outra.
- Quero dizer, você se sentiu desconfortável conversando com ele?
A Haruno parou, em silêncio. Seu olhar desfocalizou da figura loira de Ino. Examinou todo Café do shopping em que estava, antes de responder. Muitas vezes, era mais fácil admitir coisas para Ino do que para ela mesma.
- Não. Eu me senti bem quando conversei com ele, mesmo que tenha sido apenas algumas frases. E o melhor é que eu também senti que ele estava confortável conversando comigo. O que não faz nenhum sentido, eu digo, com tanta coisa que existe entre a gente, com tudo que ele fez, que eu fiz, é irracional nós nos sentarmos para uma conversa banal e nos sentirmos bem com isso — ela balançou a cabeça — o silêncio, quando a noiva dele voltou, é que foi ruim, terrível. Eu pagaria qualquer coisa pra sair dali, e quando eu olhava para Sasuke, via que ele pagaria o dobro.
Ino colocou a mecha de cabelo para trás da orelha, olhando para Sakura com preocupação.
- O que foi? — a Haruno perguntou.
- Acho que se eu dissesse o que penso disso agora, você enlouqueceria — ela sorriu, sem humor.
Sakura repetiu a ação da amiga — Então não diga. Preciso estar bem sã nos próximos dias.
Ficaram num silêncio desconfortável e incomum para elas duas, até que uma voz firme e conhecida desejou bom dia. As outras duas tinham finalmente chegado. Levantaram-se, cumprimentando umas às outras, e Ino logo montou um bico.
- Demoraram, hein?
- Ah — Temari esbravejou — Olha quem fala.
- Foi mal — desculpou-se Tenten — estava contando para ela da minha conversa com o Neji — rolou os olhos, com os lábios torcidos.
- Espera, você falou com o Neji? — Ino levantou as sobrancelhas.
- Sim. Estou fazendo uns trabalhos para a empresa que ele trabalha, então às vezes acontece de a gente se ver. Conversamos alguns dias, na maior paz e tal, até que ontem, ele resolveu falar no assunto proibido. Ele precisava mesmo desenterrar algo de cinco anos atrás?
- O que ele disse? — Sakura perguntou, com um sorriso escapando no canto dos lábios.
- O mesmo que todos, que foi um acidente e tudo mais. Como dizem, acidente é cair de bicicleta, tropeçar num buraco. Você não pode simplesmente tropeçar na garganta de alguém, não é? — ela parou, vendo os olhares das três em cima dela — Não me entendam mal, não é como se eu gardasse mágoas depois de todo esse tempo, mas eu não queria que ele falasse sobre aquilo. Digo, do jeito que ele disse, pareceu que queria voltar, e eu não sei se quero. Não é mais a mesma coisa, e eu nunca disse a ele que estava disposta a isso.
- Ah, não sei, Tenten — Sakura disse — Acho que você devia refletir e dar outra chance, talvez. Vocês eram tão bonitos juntos, eu me lembro.
- Pois é — Ino começou — e não venha se fazer de politicamente correta não, que eu lembro da época. Você também estava achando difícil segurar as pontas.
Tenten olhou para a loira fuzilando-a. Aquele assunto era extremamente vergonhoso — E você e o Gaara, como estão? — resolveu mudar o foco da conversa rápido, antes que as coisas complicassem.
- Hm — ela deu de ombros — a gente briga às vezes, porque eu sou esquentada e encontro motivo pra discórdia em tudo. E o jeito calmo dele me tira do sério, sabe. Eu queria que ele discutisse comigo também, mas ele só me olha daquele jeito calmo e depois sorri. E eu fico me sentindo uma criança quando ele faz isso — Ino cruzou os braços, mas deixou um sorriso torto escapar — mas a gente sempre acaba bem. Por isso, digo que nós temos a relação perfeita — ela se gabou, fechando os olhos, e as outras fizeram careta — Mas ok, suas intrometidas, vamos passar a vez para a Temari.
- Pra mim? Nem pensar.
- Ah, sim, vai sim — Tenten ameaçou.
- Não tem muito o que falar — deu de ombros — estou num impasse. Por um lado, nós dois queremos casar, ter uma família, e tudo mais, só que, por outro lado, eu queria me firmar melhor no trabalho, sabe, conquistar um posto mais alto na polícia. Casar agora afetaria meus planos. Mas acho que posso esperar mais uns anos pra ser mãe, ainda sou nova — ela sorriu — Agora, a Sakura, nem adianta perguntar. Só tem tempo para o trabalho. Você está pior do que eu — o sorriso zombeteiro tão comum reapareceu.
- Pois é, mas só por enquanto, prometo — ela assegurou, divertida.
- Olha só — Ino disse, levantando-se e chamando a atenção para si — É melhor a gente começar logo, porque o dia vai ser longo, tem um monte de loja em que eu quero ir, e a senhorita Trabalho aí tem hora marcada pra voltar.
Temari suspirou, levantando-se e avisando que não ia andar pelo shopping todo. Tenten olhou para Sakura e revirou os olhos, sorrindo, enquanto elas também deixavam a mesa para seguir Ino.
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