Notas iniciais
Olá!!!
Bom, esse é um dos capítulos mais importantes da fic.
Vocês que estavam com saudades do Gaara vão finalmente vê-lo, tem todo o desfecho do baile, e a razão do título do capítulo,o Sasuke contando sua história.
Boa leitura!

Naquela época, tudo o que eu queria era que as coisas se resolvessem no baile do High School, como nos filmes que eu via. Mas eu já deveria saber que, na vida real, as coisas não são assim. Na minha vida então, isso estava fora de questão...

Então era aquele o dia, ou mais precisamente, a noite por qual todos os jovens esperavam. O desfile dos longos e deslumbrantes vestidos, a elegância dos meninos normalmente desleixados, a esperança de que, finalmente, tudo daria certo entre aquele ou aquela que havia sido escolhido.

Todas as garotas do Konoha empenharam aquele dia de sábado em cuidar de seus cabelos, peles, e o que mais tivessem direito. Sakura, Tenten e Hinata haviam ido juntas, enquanto Ino e Temari tinham saído para outros lugares de preferência delas. A Haruno tentava animar a morena, que detestava ficar horas em salões de beleza e coisas do tipo. Ela suspirava e pensava em por que diabos estava se matando pra ficar bonita se no final iria com... Kiba. Como se não bastasse, tinha que ficar olhando para Hinata. Não que não gostasse dela, mas toda vez que olhava naqueles olhos perolados, lembrava-se da raiva que sentia por Neji não tê-la convidado.

.....

Sakura andava de um lado para outro na sala deserta, olhando o relógio a cada segundo. Era a primeira vez em que Naruto era o atrasado, e não ela.

Estava com seu belo vestido, um par de brincos prateados, sapatos levemente cinzas — que não apareceriam, em razão comprimento do vestido — uma maquiagem leve e os cabelos presos delicadamente.

Não havia nenhum sinal de Sasuke. Provavelmente, já tinha saído, o que era estranho, pois ela sequer sabia que ele arranjara um par.

Ouviu um barulho vindo do lado de fora e abriu a porta antes mesmo que o loiro batesse, dizendo, imediatamente, alguma coisa sobre "vamos logo, vamos logo!", enquanto o outro dizia o quão linda ela estava.

....

Gaara andava pelo grande salão com três bares, várias luzes que iam de um lado para outro sem parar, e uma pista de dança imensa. Já falara com todo mundo, tinha matado a saudade de cada um deles, menos, claro, de Naruto, Sakura e Sai, que ainda não tinham chegado. Sim, faltava também aquele outro garoto preguiçoso que com certeza achava melhor ficar a noite inteira sentado num dos bares do que dançar como todos os outros.

- Nara!

- Gaara! Há quanto tempo!

Shikamaru sorriu. Gaara sempre tivera aquele estilo sombrio estranho, com os olhos sempre envoltos de um tipo de maquiagem preta, piercings e uma tatuagem bem na testa. Isso, de algum modo, o tornava popular com as garotas, o que fazia o moreno constatar que o sexo feminino era mesmo estranhíssimo. De qualquer forma, era bem inesperado ver o ruivo num daqueles trajes elegantes e desconfortáveis.

- O que te leva a ficar aqui sentado enquanto sua garota está lá esperando por você?

- Ah, não, tudo bem — o moreno gesticulava — Eu vim com a Ino.

- Hm, então vocês estão...

- Não! Não, a gente só veio junto porque não tínhamos com quem vir mesmo. Mas, então, o que tem feito pelos lados de Los Angeles?

- Nada de interessante. Só estudo. Aquele sol todo e as praias... Ah, aquilo não faz meu estilo. Não vejo a hora de o ano acabar e eu vir para cá novamente.

- Então você vai se mudar?

- Sim. Meu pai quer que eu vá para Standford, mas eu não fico na Califórnia por mais um ano de jeito nenhum. Estou tentando convencer a Temari a vir comigo também, mas ela não quer largar a faculdade.

- Ah sim — Shikamaru soltou um sopro — Ela é complicada...

- Falando no diabo...

Gaara fez um sinal de cabeça em direção à garota loira com um vestido vermelho que se encaminhava em direção a eles. Ela se aproximou, em passos firmes, e deu um soco no balcão do bar onde eles estavam, com um sorriso torto e confiante no rosto. Olhava fixamente para Shikamaru, exibindo um brilho divertido no olhar.

- Por favor, não seja lerdo ao ponto de eu ter que te convidar pra dançar.

O garoto olhou para a loira e contorceu o rosto numa expressão de reclamação, que Gaara sabia significar "Estou feliz, mas não quero que você saiba". Levantou-se, falou alguma coisa para Temari, que a fez intensificar o sorriso, e saíram rumo a pista de dança.

....

Tenten usava um vestido preto com um leve decote e detalhes dourados. Entrou no salão acompanhada de Kiba, e seu sorriso já não demonstrava a decepção que tivera durante a tarde. Ir com o Inuzuka não poderia ser tão ruim afinal, poderia?

Assim que adentraram na pista de dança, o moreno soltou o braço dela, falando meio sem jeito — Eu sei que não era comigo que você queria vir, e eu também procuro outra pessoa, então, agora que entramos, cada um pode fazer o que quer de verdade, não é? Te vejo por ai — Ele falou, indo imediatamente para longe da garota, que ficou chocada. Acabara de ser rejeitada pela segunda vez.

Tenten se dirigiu para um dos bares, perplexa. O que havia de errado nela, afinal?

Sentou-se em uma das cadeiras giratórias, e, enquanto seu pedido não chegava, ela olhou para o lado, e viu quem menos esperava. Neji.

- Oi, Tenten — ele falava, exibindo um leve sorriso, sempre muito polido.

- Neji? C-cadê a Hinata?

- Ah? Ela? Está ali, conversando com a Ino.

- Vocês não vieram juntos? Você devia estar com ela, sabe — ela olhava para a bebida, que tinha acabado de chegar.

- Oh — Neji soltou uma risada — Não é bem assim. Na verdade, eu queria chamar você — Tenten enrubesceu, enquanto ele continuava — Mas é que eu sou primo dela, sabe como é. Se eu não a tivesse chamado, duvido que ela viria com mais alguém. E eu não achei justo que ela ficasse trancada em casa enquanto todo mundo se divertia. A Hinata é uma pessoa muito frágil e insegura, entende?

- Como assim? Ela me parece uma garota bem legal.

- Sim, ela é. Talvez esse seja o problema.

- Não entendi.

- A Hinata é uma pessoa muito gentil, ela detesta discutir com alguém, na verdade, eu nunca a vi fazer isso, mesmo que, algumas vezes, devesse. Ela também é muito generosa, está sempre procurando não desagradar os outros. Mas ela é insegura. A minha prima não enxerga os vários talentos que tem, ela sempre acha que não é boa o suficiente. Por isso, muitas vezes, tenta se camuflar, por achar que não vai corresponder às expectativas das outras pessoas. Eu me preocupo com ela.

....

Sakura entrou no baile, com Naruto ao seu lado. Para chegar à pista e dança e aos bares, os alunos precisavam descer uma larga escada, toda decorada. A intenção era justamente que os outros que já estavam ali prestassem atenção nos que chegavam. Ela parecia uma visão surreal, aquele vestido tão delicado a fazia digna de uma denominação angelical. Se Naruto estava ali ou não, eles não perceberam, por um breve momento, olhavam exclusivamente para Sakura.

Os dois, primeiramente, foram falar com todos os amigos. A Haruno percebeu, com felicidade, que as coisas entre eles tinham começado a entrar no eixo certo. Shikamaru estava ao lado de Temari, e Neji estava com Tenten, por uma razão que ela ainda não entendia, mas não importava. Matou as saudades de Gaara. O ruivo estava lindo como sempre, mas era bizarro vê-lo de terno, no lugar de suas usuais roupas pretas e desajeitadas. Apenas Hinata ainda parecia deslocada, com um olhar vago.

Procurou por toda a parte, mas não achou Sasuke. Duvidou se ele havia realmente vindo.

Foram todos juntos para a pista de dança, onde a banda responsável pela música tinha começado a tocar algo mais lento.

I don't wanna hurt you, I don't wanna make you sway, like I know I've done before, I will not do it anymore

Sakura dançava com os braços em volta do pescoço de Naruto. Ele era meio sem jeito, mas comparado com a época em que se conheceram, tinha melhorado muito.

Uma menina artificialmente loira esbarrou neles de repente, quase caindo por cima de Naruto. Acabou derrubando alguma bebida no terno dele. Olhou abobada para o casal e saiu correndo, pedindo um "desculpa" apressado.

- Que maluca! Quem diabos dança desse jeito com uma música tão lenta? Eu vou lavar isso antes que manche. Já volto.

Sakura assentiu e olhou para o bar que ficava atrás dela. Shikamaru acabara de se sentar lá, e ela resolveu ir também.

- E ai, Sakura! Cadê o Naruto?

- Ah, uma louca derrubou bebida nele e ele foi se limpar.

- Ah, essas garotas deslumbradas. Aposto que é uma caloura que deu jeito de vir com um veterano e se embebedou assim que chegou.

Sakura soltou uma risada. Sempre achara engraçado o jeito despreocupado de Shikamaru.

- Então? As coisas com a Temari finalmente estão dando certo, não é? Eu fico tão feliz!

- É — ele deu um sorriso baixo, torto.

- O que foi? Aconteceu alguma coisa?

- Não, não.

- Vamos lá, Shikamaru. Eu te conheço bem, esqueceu? Tem alguma coisa incomodando você.

- É que... A Temari é muito problemática.

Sakura riu mais uma vez, sendo acompanhada pelo garoto.

- Mas é sério! Ela fica me dando sermão a toda hora, parece que acha que só porque é dois míseros anos mais velha que eu, já sabe de tudo. Pra me dar lição de moral, já basta a minha mãe. Além disso... Com a gente não é só mais uma coisa casual, sabe? E ao mesmo tempo, é impossível, por que ela tem a vida dela na Califórnia, família, amigos, a faculdade. E ela não abandonaria isso. E eu estou aqui. Não é como se desse pra atravessar o país sempre que eu quisesse.

- Ah, entendo. Mas... O que te impede de ir pra lá quando terminar o High School?

Shikamaru ficou em silêncio por um breve momento — Não sei, não sei se eu estou disposto a jogar pro alto a vida que eu tenho aqui também.

- Eu realmente acho que você-

Sakura foi interrompida por Naruto, que chegou sorrindo, dizendo que já estava tudo ok.

Shikamaru se despediu dos dois amigos, que foram para a pista de dança mais uma vez.

Ela sorria, agora numa dança mais solta e dinâmica, olhando nos olhos divertidos de Naruto, que também mostrava seu sorriso mais feliz.

Mas então, sentiu toda a atmosfera ao seu redor mudar. Olhou para as pessoas ao lado, elas dirigiam suas atenções para apenas um ponto. No alto da escada, estava Karin, acompanhada de Sai, descendo aqueles degraus de forma magnífica, com aquele vestido que simplesmente era irreal. Todos pararam apenas para vê-la.

A ruiva estava triunfante. Ao seu lado, estava o garoto que ela queria, havia conseguido o vestido que queria, e todos estavam olhando para ela, só para ela. Ninguém estava olhando para Sakura. Era seu império, era seu momento, sua noite. Sim, ela definitivamente iria brilhar aquela noite.

Seu sorriso foi gradativamente se desmanchando, quando, de um instante para outro, sentiu alguma coisa ficar mais leve em seu corpo. As pessoas ainda a olhavam, mas agora, era diferente. Algumas estavam pasmas, escandalizadas. Outras, riam sem parar. Olhou para baixo e teve a dolorosa constatação de seu fracasso. A saia do vestido havia simplesmente caído, deixando suas roupas íntimas à mostra. De repente, todos aqueles olhares eram como tiros nela. Sentiu as lágrimas quentess chegando, nada ao seu redor fazia sentido. A única reação que teve foi correr dalí o mais rápido que podia.

Para Sakura, tudo aconteceu em câmera lenta. Primeiro, Karin descia deslumbrante, com o vestido que deveria ser seu, enquanto ganhava a admiração de todos. Depois, primeiramente, viu que as expressões dos alunos haviam mudado, e quando levantou o olhar para encarar a ruiva, ela só vestia a parte de cima do vestido e uma calcinha branca. A outra parte havia simplesmente ido ao chão. Sentiu uma movimentação ao seu lado. Karin havia fugido, e Naruto, no mesmo instante, tinha ido atrás dela. Sai ficara parado na escada por um momento, abobado, sem saber o que fazer, mas depois, correu atrás dela também, assim como boa parte das pessoas ali. Todos queria ver o desfecho daquele desastre. Sakura os seguiu, subindo a escada, até que chegasse na parte de fora do prédio, onde todos se concentravam ao redor da ruiva.

Naruto havia tirado seu paletó e colocado em Karin. Pelo fato de ser baixinha, a peça de roupa chegava até quase metade da sua coxa. Não dava para ver muito bem seu rosto, mas, claramente, ela chorava, envergonhada.

Assim que sentiu a presença de Sakura, uma fúria incontrolável surgiu nos olhos dela. Virou a cabeça na direção da garota, apontando para ela, o braço tremendo. Gritava, visivelmente descontrolada.

- FOI VOCÊ, NÃO FOI, SUA VADIA??? FOI VOCÊ QUEM FEZ ISSO COMIGO!!!

Todos ficaram surpresos, chocados, inclusive Sakura, que agora tinha todos os olhares concentrados nela.

- O-o que? C-como assim, do que você está falando??!! — a voz dela era fraca e falha, começava a choramingar.

- Olhe para isso! — ela apontou para a barra da parte de cima do vestido, que tinha sido desprendida da saia — Isso aqui claramente não é um defeito!! Alguém afrouxou isso de propósito!! E você estava na loja quando eu comprei!! Você e suas amiguinhas!! — Karin baixou o olhar, raciocinando — Bem que, antes de sair, eu vi você seguindo a vendedora com o meu vestido!! E você queria o meu vestido!! AGORA TUDO FAZ SENTIDO!!!! VOCÊ FEZ ISSO COMIGO, SUA CRETINA DESGRAÇADA DE QUINTA!!

Os alunos olhavam espantados para Sakura. Quando iriam imaginar que aquela figura tão simpática e radiante pudesse maquinar algo tão cruel?

Naruto encarava a namorada, as lágrimas aparecendo em seu rosto contorcido pela tristeza e decepção — É verdade, Sakura? Você estava lá?

- E-eu... Eu... — ela não conseguia falar. Estava tomada pelo choro, suas mãos agora cobriam sua face.

O loiro ficou cada vez mais furioso. Encarou Hinata, praticamente gritando — É verdade isso, Hinata?? A Sakura estava lá com vocês? Ela se separou de vocês em algum momento?? ME RESPONDA!!!

Hinata olhava para um lado e para o outro, nervosa. Sentiu a garganta ficar mais pesada, a vontade de chorar também estava aumentando — E-eu... N-não... E-eu...

- É verdade sim — Temari apareceu, com a voz firme, a mão na cintura, encarando Sakura — Ela estava lá com a gente. Seguiu a vendedora com o vestido até uma sala e só depois de um bom tempo voltou. Quando nós perguntamos o que ela tinha ido fazer, a Sakura apenas desviou do assuntou, disse que não era nada. Naruto começou a respirar mais pesado. Sakura havia tirado as mãos do rosto para encarar Temari.

- Eu... Eu não consigo acreditar que você foi capaz de fazer uma coisa dessas. Dentre todos os seus defeitos, eu nunca pensei que você fosse... — o Uzumaki olhava para baixo, balançando a cabeça negativamente.

- NÃO FUI EU, NARUTO! ACREDITA EM MIM!! — Sakura gritou — Pelos menos você tem que acreditar... — ela completou, num sussurro. Correu em direção a ele, pengando-o pelo braço, mas ele se soltou brutalmente. Ela o encarou triste, com uma expressão de dúvida.

- Eu... Eu preciso de um tempo, ok?

Foi tudo o que ela ouviu. As palavras de Naruto ecoaram várias vezes em sua cabeça. O que ele queria dizer com "um tempo"? Não, ele não poderia estar terminando, era impossível. Ela olhava em volta, mas parecia que o tempo e o espaço tinham estranhamente se alterado.

- O-o que?

- Ultimamente, você tem feito coisas que... Eu simplesmente não te reconheço mais. Você não é a Sakura que eu conheci. Agora eu me pergunto... Será que você sempre foi assim e só eu que não vi?

- NÃO NARUTO, VOCÊ NÃO PODE ME DEIXAR DESSE JEITO, VOCÊ NÃO PODE!! — Sakura agarrava o braço do loiro, chorando, sua voz estava completamente falha. Balançava a cabeça de um lado para o outro, sem olhar para ele.

Naruto ficou mais calmo. Adquiriu um tom limpo e frio — Na quinta-feira, eu acabei tendo que passar na empresa pra pegar uns papéis. Sua mãe estava lá. Ela me disse que tinha ficado o dia inteiro trabalhando. Você não teve nenhum problema com ela para que fosse obrigada a desmarcar nossa saída. Agora eu me pergunto em que lugar tão secreto você foi que teve de mentir pra mim.

Sakura gelou. Sentiu as mãos que seguravam os braços de Naruto se afrouxarem. Ele caminhou para longe, chegando perto de Karin.

- Vamos, eu vou te levar para casa — ele falava num tom consolador, abrindo a porta do carro para que a ruiva entrasse.

A garota de cabelos rosados sentiu um último fio de fúria percorrer sua espinha.

- Você ainda gosta dela, não é? — ela gritava, em direção a Naruto — Seu palhaço!! Você ainda gosta dela, por isso está dando uma desculpa qualquer pra me deixar!!

Naruto olhou fixamente para ela, sem expressão alguma — Você consegue ouvir o absurdo das suas próprias palavras? — fez um sinal negativo com a cabeça, entrando no carro em seguida.

Sakura sentiu a explosão de lágrimas chegar mais uma vez. Olhou ao redor. Todos a fitavam, julgando-a, culpando, desaprovando. Voltou-se para as amigas. Nem elas acreditavam nela. Tinham a mesma expressão de tristeza e desaprovação de Naruto. Ninguém a queria ali. Ninguém precisava dela ali. Num primeiro impulso, saiu correndo, indo para a festa novamente. Tinha a cabeça baixa, as lágrimas não a deixavam enxergar direito, passava pelas pessoas barruando nelas, empurrando-as. Sentiu seu corpo se chocar com o de um garoto, que permaneceu parado. Olhou para cima e viu um Sasuke preocupado e confuso. Ela o empurrou e continuou correndo para dentro do lugar, misturando-se na multidão que dançava, enquanto ouvia aquela voz gritar "Hey, Sakura! Aonde você vai?! Sakura!"

Jogou-se numa das cadeiras do bar, encostou a cabeça no balcão, colocando os braços ao redor, encondendo seu rosto molhado. O barman jovem perguntou duas vezes o que ela queria, mas ela não respondia, nem parecia ouví-lo. Teve que levantar a cabeça da garota com as próprias mãos, delicadamente, para que ela pudesse apontar para um garrafa qualquer.

Ele serviu uma dose de tequila, a que ela apontara. Tinha colocado o sal e o limão ao alcance dela, mas a garota tomou o líquido puro, de uma vez. Pediu mais. Entretanto, quando o rapaz começou a encher o copo, ela tomou a garrafa das mãos dele, colocando uma considerável quantia de dinheiro em cima do balcão. O barman parou por um instante. Embora houvessem bares ali, aquele ainda era um evento estudantil, provavelmente não era certo deixar aquela garota ficar com toda a garrafa. Ele olhou para o tentador dinheiro. Aquilo valia pelo menos seis vezes o valor da garrafa. Poderia faturar por fora e comprar sua sonhada guitarra. Além do mais, se negasse, talvez fosse pior para ela, pois quem sabe para onde aquela menina iria se ele a proibisse de beber ali? Virou as costas e foi antender outros pedidos.

Sasuke corria entre a multidão, empurrando, perguntando, vasculhando. Tinha chegado atrasado, mas ainda pôde entender o que acabara de acontecer. Sakura deveria estar arrasada, mas onde poderia ter se metido? Nami ficara reclamando indignada no lado de fora. "O que? Mal chegamos e você já vai me deixar sozinha?" ela gritava, mas Sasuke não deu ouvidos. "Não tinha nenhuma intenção de ficar com você mesmo" ele concluira mentalmente.

As luzes o cegavam, as pessoas, que agora dançavam separadas ao som de algo mais agitado, pareciam macacos indo de um lado para o outro. A única pista que tinha era de que Sakura estava lá dentro, mas eram muitas pessoas para que ele pudesse dar conta de procurar. Olhou para o lado, e a viu de relance, sentada num bar, sozinha, bebendo... O que era aquilo? ela estava bebendo uma garrafa inteira?? De... Tequila?? Pura? Só podia estar louca.

- Que porra é essa que você está fazendo? — ela gritava, para que sua voz fosse audível apesar da música alta do local. Tirou a garrafa das mãos dela de uma vez e segurou um de seus braços.

Sakura não falou nada, apenas soltou seu braço da mão dele e tomou a garrafa de volta, abraçando-a como se fosse um bebê e fazendo biquinho.

- Ah, não — Sasuke revirou os olhos. Ele sabia que ela não estava bêbada àquele ponto, era só charme. Tomou definitivamente a tequila, entregando para o barman moreno — Vamos sair daqui, ok? — ele disse, puxando-a pelo braço, mas ela não se moveu. Sentou-se na cadeira próxima à dela, fazendo com que seus olhos ficassem na mesma altura. Ele pôde ver muita tristeza ali, além de resquícios de lágrimas — Sakura, vamos para casa. Eu te levo. Vai ficar tudo bem, ok? — ele a encarava, sua voz era calma e macia. Ela fez que sim com a cabeça e se deixou levar por ele.

....

Sakura mexia incesantemente nos papéis, CDs e o que mais estivesse guardado nos compartimentos do carro. Numa freiada, acabou derrubando tudo, e Sasuke a olhou irritado, brigando com ela como se fosse sua filha e quase perdendo o controle da direção. Na cabeça de Sakura, afetada pela bebebida, aquilo tudo era muito engraçado. Riu como achou que não riria tão cedo.

Assim que entrou na casa, caminhou quase debilmente até o sofá, estendendo os braços para ele, como um zumbi. Estava acabada, mas não queria dormir. Tudo o que houve no baile parecia ter acontecido em outro século.

- Se vai dormir, é melhor ir pro seu quarto — Sasuke falava, enquanto tracava a porta

- Nha, não estou com a menor vontade de dormir — sua voz estava abafada pela almofada que ela comprimia contra o rosto

- Já que é assim...

Ela se livrou da almofada para ver o que ele iria fazer. Sasuke se dirgiu até à adega e voltou com duas garrafas.

- Já que quer beber, vamos fazer em casa. Pelo menos assim você não corre risco de ser atropelada por ai — ele entregou uma garrafa para ela e ficou com a outra.

Sakura soltou uma risada — Ah, Sasuke, você é tão responsável, parece até meu pai. Quer dizer, se eu tivesse um.

- Você é orfã de pai?

- Talvez. A última vez que eu vi meu pai, eu devia ter uns cinco anos. E nem me lembro mais quando foi que falei com ele por telefone, carta, e-mail ou seja lá o que for. Só sei que ele vive indo de um país para outro. Se está vivo ou não, não faço a menor ideia. E você, sua mãe também é dessas?

- Não. Minha mãe morreu mesmo.

Ela soltou um suspiro. Ficou em silêncio, apenas encarando o teto, chacoalhando a bebida na boca. Agora estava totalmente séria, a tristeza voltando a aparecer.

- A Temari disse que eu sou covarde e fraca. Você acha que eu sou covarde e fraca, Sasuke?

- Não — ele falou com firmeza, o que a fez virar o rosto para encará-lo — As pessoas normais tendem a não entender gente como nós. Eles nos julgam porque não nos compreendem, não sabem nossos motivos.

Ela continuava a observá-lo, séria, enquanto ele bebia aquele líquido amarronzado. Soltou uma risada, que chamou a atenção do mais velho — Credo, Sasuke, você falando assim parece que nós fazemos parte de um grupo secreto ou coisa do tipo.

Ele soltou uma risada baixa — É verdade, né? Droga, acho que já estou saindo do normal

- Isso é porque você é um riquinho certinho que nunca deve ter bebido na vida e por isso não tem imunidade nenhuma — ela batia no braço dele, ainda rindo

Ele devolvia as batidas — Ei! Você não me conhece!

- Mas é verdade, né?

- O que?

- Nós somos parecidos. Quer dizer, eu não sei nada sobre você, mas mesmo assim, eu tenho esse sentimento de que nós nos identificamos.

- É — ele mantinha um leve sorriso no canto da boca. Parecia pensar um pouco — Então porque a gente não se conhece, hein?

- Do que você está falando?

- Eu estou propondo que a gente conte nossa história um pro outro. Já que nós somos tão parecidos, não vamos nos surpreender.

- E por que eu deveria fazer isso?

- Não sei. Eu de alguma forma confio em você. E se eu não contar pra você, pra quem mais contaria? A gente já sabe que nenhum de nós teve uma vida colorida, então, qual seria o problema de falarmos dos nossos podres? Não temos nada pra fazer mesmo.

Sakura parou, não mexeu um músculo. De repente, teve um sobressalto, anunciando: — Ok, mas você primeiro.

- Por que eu?!

- Porque você é homem!

- Isso não vale!

- Você que inventou!

- Ok, tudo bem. Olha, eu não sei como começar isso, eu nunca falei pra ninguém.

- Começa logo!

Sasuke começou a falar. Algumas de suas frases não faziam sentido, por causa do efeito do álcool em seu raciocínio. Mas como Sakura não estava num estado diferente, eles conseguiam se entender.

- Eu nasci na Califórnia. Minha mãe era Mikoto Teruya, herdeira da Teruya Incorpore. Ela se casou com um executivo da empresa, Fugaku Uchiha, e logo depois do meu nascimento, nos mudamos para cá, para que os meus pais pudessem administrar com mais facilidade a empresa. Ou melhor, meu pai. Minha mãe dizia que o mundo dos negócios era uma selva e ela não tinha o espírito necessário para habitar nele, por isso, quando minha avó morreu e meu avô se aposentou, foi Fugaku quem ficou com o controle. Eu tinha também um irmão, Itachi, mais velho que eu cinco anos. Ele e a minha mãe eram as melhores pessoas do mundo. Tinham a mesma doçura, a mesma pureza. Eles me faziam feliz. Isto é, quando meu pai não estava em casa. Fugaku vivia viajando para todo o país e para o exterior, fazendo seu papel de CEO. Mas minha mãe não era feliz com ele. Ela o amava, mas ele a tratava mal. Ele não dava nenhuma atenção a ela, viviam discutindo. Minha mãe e o meu irmão sabiam que ele, entre outras coisas, a traia com outras mulheres, e eu também acabei descobrindo isso, ele não era nada discreto. Eu me lembro que, quando estávamos todos na sala e minha mãe ouvia o barulho do carro chegando, corria para a janela, quase sempre vendo a mesma cena. Meu pai se despedia de uma mulher qualquer, que aliás, não era sempre a mesma, e depois entrava em casa, como se nada tivesse acontecido. Aquilo enfraquecia minha mãe a cada dia. Ela nunca foi uma mulher forte. Ela era frágil e insegura, precisava sempre que alguém estivesse cuidando dela. Meu irmão via o sofrimento dela, e eu constantemente podia ouvir ele e Fugaku brigarem, gritando. Fugaku o odiava, tanto por criticá-lo e defender minha mãe, quanto pelo fato de que Itachi sempre dizia que não queria ser o sucessor na administração da Teruya, e que não dava a mínima importância para a empresa. Isso deixava Fugaku furioso. Minha casa nunca estava em paz. E as coisas só pioravam à medida que eu crescia. Minha mãe vivia sempre triste. Apesar de ela tentar esconder isso de mim, eu notava que ela sempre se trancava no quarto pra ficar lá chorando. Ela também começou a tomar várias pílulas pra dormir, e ficava deitada o dia quase inteiro. Por volta dos meus quinze anos, eu ficava quase sempre sozinho, porque meu irmão também procurava ao máximo não ficar em casa. Começou a andar com um pessoal que tinha um visual estranho, e sempre passava a noite fora. De vez em quando, aparecia uma foto dele em uma dessas revistas de adolescentes, nas boates, bebendo. Essa fama de herdeiro festeiro só desagradava ainda mais meu pai, e a relação deles na época estava insustentável. Então, quando eu tinha dezesseis anos, tudo aquilo aconteceu. Eu nunca tive muitos detalhes, Fugaku não falava do assunto, para evitar que as notícias saíssem nos jornais e na televisão. Foi sobre a prisão do herdeiro mais velho dos Uchiha. Tudo o que eu sei, é que Itachi e mais dois amigos, um com o cabelo laranja, que eu conhecia por Yahiko, e outra garota de cabelos azuis, que eu não lembro o nome, se envolveram num acidente de carro, e quem dirigia era o meu irmão. Nesse acidente, três pessoas morreram. Um, era esse Yahiko, e os outros dois eram o casal que vinha no outro carro. Meu irmão e a garota só tiveram algumas fraturas. Embora fosse o outro veículo que estivesse na contra-mão, Itachi acabou sendo culpado, porque estava com níveis altos de ácool no organismo. Meu pai não tentou denfendê-lo. Se ele tivesse agido, meu irmão não teria sido preso. Mas, se Fugaku Uchiha entrasse numa briga no tribunal, isso iria se tornar um escândalo, todos os meios de comunicação viriam para cima de nós como sanguessugas, e a reputação dele e da Teruya estariam em perigo. Ele achou que não valia a pena colocar o nome dele e o da empresa em risco por um um filho que, segundo ele, não tinha futuro algum, então ele apenas abafou o caso e deixou Itachi ser detido, sem nenhuma defesa. A partir daí, eu comecei a odiar meu pai com tudo o que eu tinha, mas eu ainda teria mais motivos. Essa situação deixou a minha mãe, que já estava bastante fragilizada, no pior estado possível. A dor de ver um filho ser preso daquela maneira levou a depressão dela a um nível devastador. Ela nem conseguia mais discutir com Fugaku. Naquela época, eu sabia que ela constantemente pensava em se matar, mas eu não podia deixar. Minha mãe era a única pessoa que eu tinha no mundo. Eu nunca fui alguém muito sociável, nunca criei muitas amizades. Meu pai era um crápula e meu irmão estava preso. Tudo o que me restava era minha mãe. Eu parei de estudar, não podia ir para a escola e deixá-la sozinha. Ela aproveitaria qualquer oportunidade. Uma noite, ela me chamou no quarto dela. Estava pálida, cheia de olheiras. A pele dela estava tão branca, que dava pra observar as veias esverdeadas por baixo. Os cabelos pretos estavam grandes demais e bangunçados, sem cuidado algum. Ela estava fraca, eu ainda lembro das mãos dela segurando meu braços, tremendo. Ela pediu desculpas pra mim por ser tão frágil, por não ser a mãe que eu precisava. Eu não sabia por que, mais tive a sensação de que aquilo soava como uma despedida. O medo cresceu mais em mim, e naquela noite, eu dormi junto dela, para evitar terminantemente que alguma coisa acontecesse. Na manhã seguinte, acordei com ligações de Fugaku, dizendo que eu tinha que ir imediatamente até a minha antiga escola, resolver minha situação. Era cedo e minha mãe ainda dormia. Eu voltaria rápido, e além disso, sabia que ela dormia até tarde, por causa dos remédios. Achei que não tinha perigo. Quando eu voltei, percebi que ela ainda estava deitada na cama, do jeito que eu tinha deixado, e fiquei aliviado. Mas quando cheguei perto dela, vi que estava morta. Havia vários frascos de remédio abertos no chão do quarto. Os médicos confirmaram a overdose. E foi aí que o meu ódio por Fugaku chegou ao que é hoje. Ele acabou com a vida de todas as pessoas que eu amava. É por isso que eu vou tomar o controle da empresa que ele tanto idolatra, é por isso que eu vou tirar tudo o que ele tem.

"Vou fazer da vida dele um inferno, vou fazer com que ele não tenha pra onde ir. E assim, vou fazer com que ele tenha o mesmo fim que a minha mãe" Sasuke completou apenas para ele, mentalmente.

Sakura olhava para aqueles olhos negros, chocada.

- Agora é a sua vez, Haruno.

Notas finais
E ai?
Haha, agitado esse baile, né?
Quem vocês acham que armou pra cima da Karin? Contem-me kkk
O que acharam da história do Sasuke? Estão curiosas pra saber a da Sakura?
kkkk ah, adianto que no próximo capítulo, também vai rolar o momento Sasusaku que você tanto querem kk
Até logo!