Notas iniciais
Yay, voltei rápido dessa vez, haha.
Espero que curtam etc ^-^

Hey, Sasuke. Quando tudo se vai, o único sentimento que resta é o desespero. Você sabe, não é? E o desespero é vazio.

Não era desespero por temer que minha mãe morresse, e não era desespero por temer que ela não andasse mais ou algo mais acontecesse. Nada disso é desesperador, porque o desespero só aparece quando se tem a certeza de que não há como escapar do fato, quando suas mãos parecem atadas, de tão fracas, porque simplesmente não existe mais nada pelo que lutar ou desistir. O meu desespero era egoísta. O meu desespero era por me encontrar podre e seca.

E foi por estar tão desesperada que eu não consegui lembrar de onde eu conhecia os gritos que eu via em você.

Era de dentro de mim mesma.

Sasuke estava com seus pés apoiados na baixa mesa da sala, visivelmente deslocada de seu lugar para que suas pernas pudessem alcançá-la. Segurava um livro com uma das mãos, e um copo com um líquido amarelado que Sakura julgou ser whiskey na outra.

Ela colocou umas das mãos na cintura e balançou a cabeça negativamente ao vê-lo. Aproximou-se, sentou-se no outro sofá e pôs sua bolsa ao lado.

- Você não vai mesmo contar ao seu irmão? Isso é sério.

Sasuke não abaixou seu livro — No presídio as notícias correm rápido. Não preciso me dar a esse trabalho.

Ela franziu as sobrancelhas.

Sasuke deu um gole na sua bebida, e continuou — Além do mais, se Fugaku morrer mesmo, Itachi iria me pedir para conseguir uma autorização para que ele assistisse ao velório, e eu não pretendo fazer isso — ele parou. Semicerrou os olhos para a Haruno, sorrindo de forma irônica. Ela não entendeu aquela ação — eu estou sim trabalhando para tirá-lo de lá, mas é de forma definitiva.

Sakura continuou obervando-o. Tinha a impressão de que aquilo, de alguma forma, deveria soar como uma ameaça, o que a deixou ainda mais confusa. Aliás, aparentemente, Sasuke vinha agindo de modo muito estranho naqueles dias. Talvez ela só estivesse imaginando coisas, afinal.

- Por que não foi ver Fugaku?

- Não faz sentido olhar para alguém inconsciente, faz?

Ela soprou — E faria diferença se ele estivesse acordado?

- Não — Sasuke meneou um pouco a cabeça — Na verdade, eu deveria mesmo ter ido, seria uma oportunidade única de rir da cara daquele velho.

Sakura comprimiu os lábios, balançando a cabeça para os dois lados.

- Você não se importaria mesmo se ele morresse? Tem certeza, Sasuke?

- O único motivo pelo qual eu realmente queria que Fugaku ficasse vivo era para vê-lo se destruir degrau por degrau, através de meus próprios feitos.

Ela torceu o canto da boca, em um quase sorriso.

- Eu não consigo acreditar que você realmente não se importe nem um pouco. É impossível. Ele é seu pai.

O Uchiha abaixou o livro, ainda marcando-o com o dedo indicador.

- Depois de tudo que eu te contei, você acha mesmo que pode exigir que eu me preocupe com ele? Minha mãe está morta e meu irmão preso, obras dele. Chegou um tempo que já não significava mais nada o fato de ele ser meu pai. Tudo de ruim que me aconteceu foi concedido por ele. No meu lugar, você se importaria?

Ele a encarava, seu olhar penetrante não dava brechas.

Não, ela provavelmente não se importaria. E era isso que a assustava.

Ficou calada.

- Eu não vou fingir que me importo só porque vocês esperam que eu aja assim. Aliás, Sakura — ele voltou a encará-la — eu também duvido que você se importe com a sua mãe um terço do que demonstra.

Ela se levantou, com uma expressão parcialmente indignada — Você acha mesmo isso? Ficou maluco? É lógico que me importo! Ela é minha mãe, Sasuke, minha mãe!

Sasuke levantou-se também, deixando o livro no sofá e o copo na mesa, pegando a garrafa que também estava em cima dela. Chegou mais perto de Sakura.

- Eu não acho nada. Eu sei, eu conheço você, Sakura. Você quer se convencer de que está super preocupada porque quer ser uma menina boazinha. Boazinha que nem o Naruto — ele bateu na testa dela com o indicador duas vezes — mas você não é. Você é Hamasaki Sakura, não se esqueça disso.

Ele repetiu o movimento uma vez e voltou a se sentar no sofá, abrindo novamente o livro, que ela conseguiu ler o subitítulo "teoria corporativa".

Olhou-o impotente. Balançou a cabeça mais amplamente que o normal — Você está maluco, maluquinho — ela soltou um riso exasperado — e eu vou para o meu quarto.

....

Sakura colocou a bolsa em qualquer lugar do chão do quarto, jogando-se de costas na cama. Tirou o celular no bolso e largou-o no edredom branco. Respirou fundo. Pensava apenas fracamente no que acabara de ouvir, mas sua mente, agora com a visão focada no teto, parecia estar entupetada de algodão, nada realmente estava sendo processado ali. Sua boca entreaberta conferia a ela uma aparência quase demente, quando foi despertada por alguma música do Radiohead em seu celular. Ino.

Esticou a mão e arrastou lentamente o celular pelo tecido áspero.

- Testuda! — sua semiconsciência foi abalada pela voz estridente da amiga.

- Ino.

- E ai, como andam as coisas? Você ficou de me ligar, e nada! E a Temari, pra variar, só vive com aquele celular desligado. Acho que ela faz de propósito. Vocês duas, hein?

Sakura apenas segurava o aparelho contra a orelha, sem realmente captar o que a Yamanaka dizia.

- Sakura? Sakura, está ai? — ela chamava.

- Ahn... Desculpe.

- Mas me fala, não é, como está a sua mãe?

- Ela não corre mais risco de vida. Mas... Ahn... Pode ficar, hm, paraplégica, eu acho.

- Hmmm, isso é péssimo - Ino parou, e Sakura pôde imaginar a ponta de seus dedos batendo freneticamente em uma superfície qualquer e seu lábio inferior sendo mordido — E por que você me fala isso com essa voz?

Ino conhecia Sakura bem o suficiente para saber que não era só a mãe qua a incomodava.

- Que voz?

- Essa voz de robô!

- Minha voz é assim — ela respondeu, já sabendo que Ino esperava que dissesse aquilo.

- Não é não! Credo, parece que está em fase terminal de depressão! Sua voz não é morta assim. O que aconteceu?

A Haruno pigarreou — Nada. É só que... Estou preocupada com a minha mãe, você sabe. Olha, eu estou com uma dor de cabeça terrível, tenho que desligar agora, depois a gente se fala.

- Espera! O Naruto também quer falar com você! Ele está aqui!

Sakura sentiu algo escorrer pelo canto do olho esquerdo. Devia ser por que estava deitada de lado. Sempre escorrem lágrimas dos olhos quando estamos deitados de lado, pensou.

- Olha, Ino, eu realmente estou com uma dor de cabeça terrível, então manda um beijo pro Naruto, ok? Eu tenho que ir dormir agora. Tchau.

Desligou antes que Ino começasse a dizer seu nome, em protesto. Fechou os olhos, com o celular ainda nas mãos, que agora já não o pressionavam mais, e desejou realmente que dormisse.

.....

Os outros dois dias seguintes correram sem movimento, sem nada novo, sem cor. Apenas a apatia tornava o ar mais pesado. Hitomi continuava sem querer receber visitas. Fugaku continuava em profunda observação. Iriam operá-lo, disseram. Mas Sakura não prestou atenção aos detalhes. Shizune falava e falava, às vezes parava, entortava sua cabeça para o lado e dizia um "Sakura, está me escutando?".

Legal, essa Shizune, pensava Sakura, antes de levantar as sobrancelhas e dizer um "sim, me desculpe".

Sasuke estava quase terminando seu "teoria corporativa". Ela sempre trazia as notícias do hospital que ouvia superficialmente, e ele assentia, sorrindo com alguma coisa que provavelmente lia no tal livro. Justamente Sasuke era a única coisa que trazia perfume àquela sala quadrática em que seus pensamentos tinham teimado em ficar. Ela podia sentir o perigo sem vetor identificado dançando junto com o ar entre os seus dedos à medida que aquele aroma se tornava mais e mais perceptível, mas decidiu que não importava de verdade. Havia decididamente fechado seus olhos para qualquer indagação ou investigação ou discussão, e apreciava a morbidez a qual havia aderido.

Ela tinha o direito. Era com isso que se justificava.

Agora tinha o queixo apoiado na mão direita enquanto ouvia Ino relatar todo o final da viagem. Haviam feito trilha, Karin havia derrubado o óculos, Naruto se machucara, Tenten quebrara a lente da câmera e ficara furiosa. Aliás, Naruto e Hinata eram suspeitos, ela dizia, enquanto semicerrava os olhos. Mas eram lindos. Esperava que acontecesse alguma coisa entre eles. Realmente bonitinhos, aqueles dois, ela não achava? Sim, Sakura balançou a cabeça. Esperava que a Haruno não tivesse nenhum tipo de ciúmes do ex, ela dizia. Por falar nisso, Hinata e Tenten também estavam vindo tomar alguma coisa com elas, estavam ansiosas para o reencontro. Temari não viria, pois agora só ligava para o trabalho.

E então ela resolveu contar que Gaara a havia chamado para tomar alguma coisa, quando chegassem. Sakura não queria parecer uma amiga desinteressada. Fez alguma força e moveu seus lábios meramente ressecados.

- É mesmo? E você vai?

- Hm, talvez — Ino fazia um barulho enquanto sugava seu milkshake pelo canudo.

- Você ainda gosta dele ou é só esse orgulhozinho pequenino da Yamanaka ferido?

- Meu orgulho está duplamente ferido. Não esqueci do Sai. Não foi legal me trocar pela Karin, poxa — ela fechava os olhos, enquanto dava um sorriso divertido — então, já que não rolou com o nosso artista, por que não o Gaara?

Sakura sorriu. Ino era mesmo engraçada. Deu um jeito perfeito de não responder diretamente à pergunta.

Ela era independente, assim como Gaara. Talvez fosse por isso que dessem tão certo. A aparente apatia de Gaara vinha bem a calhar para alguém como aquela loira espivitada, pensou.

Esboçou um sorriso de canto.

Pelo suspiro que a Yamanaka deu, pôde adivinhar que ela desistira de tentar animá-la, ou de implicar com modo pelo qual estava falando. Iria apenas colocar a mão no queixo, enrolar o cabelo e falar de mais alguém até que Tenten e Hinata chegassem.

....

Era domingo. Domingo era chato, domingo não tinha nome, não tinha história, não tinha nada que o diferenciasse. Domingo lembrava sol, suor, o gosto de café na boca que incomodava e nunca saía. Domingo era cinza, que nem as nuvens de outono ali presentes, que faziam tudo ficar mais abafado e isolado.

Pegou um táxi. Definitivamente, começaria as aulas para tirar sua licença o mais rápido possível. Passaria no hospital apenas para dar a mesma checada de sempre e ouvir Shizune falando de uma tal Tsunade Senju que ela dizia ser a melhor médica de todas, e que com certeza deixaria o Uchiha e sua mãe novinhos em folha. Ficou sabendo, aliás, que a tal Tsunade era amiga de longa data de sua mãe. Curioso alguém conhecer sua mãe há tanto tempo. Já a tinha visto por ai, um dia desses. Mulher bonita, ela. Não parecia ter mais de trinta e cinco anos. Os olhos eram caramelados, que nem os de Hitomi, e seu rosto era bem definido e suave, com o cabelo visivelmente macio em volta. Queria ser um tipo daqueles quando ficasse mais velha.

Empurrou a porta de vidro, que tinha um laranja desbotado por causa do pôr do sol adiantado. Não precisou chamar ou esperar por Shizune daquela vez, ela já conversava alguma coisa com a recepcionista, apontando para várias pranchetas espalhadas em cima do balcão.

A sala de espera estava particularmente triste e melancólica naquele dia. O cheiro de remédio aparentava ser mais forte, e havia uma velhinha no canto, desmanchando-se em lágrimas absorvidas pelo lenço que apertava contra o rosto, enquanto outra mulher, provavelmente a filha, abraçava-a, banhando-a com seu próprio choro salgado.

Sakura engoliu a própria saliva. Sua boca também já havia sido impregnada pelo gosto inerte do remédio que não curaria nada.

Shizune deu pela presença da garota, e a alteração de sua sombra fez com que Sakura pousasse seus olhos sobre a morena também.

- Tudo do mesmo jeito? — ela perguntou, depois de comprimir os lábios em resposta à saudação da outra.

- Estamos organizando os preparativos para a operação do senhor Uchiha. Será iniciada amanhã, às duas horas. Já lhe contei sobre os detalhes, não já?

Sakura não se lembrava, mas fez que sim com a cabeça.

- Ah — ela olhou para Sakura com um ar divertido e confidencial — a senhora Hitomi disse, assim que acordou, que te mandasse entrar quando chegasse.

A Haruno franziu o cenho — Ela quer me ver?

Shizune assentiu, com um leve sorriso.

Sakura ainda olhou de lado. Viu a luz laranja que se confundia com uma rosa do lado de fora agora, viu as duas mulheres inconsoláveis, que agora se levantavam, conduzidas por um homem mais novo. Mordeu o canto interno do lábio inferior e moveu minimamente a cabeça para baixo, pronta para seguir Shizune pelos corredores até o quarto onde sua mãe estaria.